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Lua Nova: Revista de Cultura e Política

Print version ISSN 0102-6445

Lua Nova vol.3 no.1 São Paulo June 1986

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-64451986000200011 

POLÊMICA

 

Brasil X Estados Unidos: é a paixão que nos separa

 

 

Wanderley Guilherme dos Santos

Cientista político e pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ)

 

 

A comparação entre as culturas latino-americanas e americana diz respeito ao mundo dos símbolos, das idéias e da percepção que marcaram, diferencialmente, a evolução dos países anglo-saxônicos e dos países rebentos da península ibérica. Há alguns séculos ocorreu um casamento, para alguns uma verdadeira mancebia, entre o racionalismo cartesiano e o empirismo inglês, entre o racionalismo característico do continente europeu e o pragmatismo característico do mundo anglo-saxão. O que marcou ou tem marcado os povos gestados culturalmente por essas duas tradições, pelo freqüente casamento de ambas e pela Reforma protestante, que deixarei de lado, foi uma certa esquizofrenia individual entre público e privado; uma certa separação radical, no plano dos símbolos e da linguagem, entre sintaxe e semântica; uma diferenciação de quase contraditoriedade entre razão e eros. A sintaxe é pública, racional, lógica; a semântica é o mundo dos símbolos privados, é fluida, é o mundo do significado simbólico, é erótica. A razão é pública e universal (o bom senso, dizia Descartes, é a coisa mais bem dividida do mundo), logicamente estruturada, antisséptica; o erotismo é privado, selvagem, sem código universal.

É essa dicotomia e essa separação profunda e irreconciliável que decorre tanto da tradição ampirista anglo-saxã quanto da tradição cartesiana, entre razão e paixão, entre sintaxe e semântica, entre público e privado, que constituem os pilares de uma tradição cultural e que estão, como fantasmas, por trás das instituições políticas e sociais do mundo anglo-saxão.

Foi a recusa a abrir-se a tais concepções, por um lado, e o fechar-se num mundo que não reconhecia essas dicotomias fundamentais, por outro, que marcou a evolução da tradição ibérica e posteriormente latino-americana. O reflexo institucional do mundo anglo-saxão transparece no fato de que suas instituições políticas são isentas de emoções e tratam todos os indivíduos igualmente, o que está na raiz da concepção liberal-democrática:, todos são iguais perante a lei, as instituições, os tribunais e as associações. Mais do que isso: cada átomo do universo social anglo-saxão exige ser considerado absolutamente igual aos demais. É um universo homogêneo do ponto de vista da concepção que traduz, no plano da sociedade, o universo newtoniano e atomístico da Física, da revolução científica moderna: todos os átomos são iguais perante o universo do vácuo.

Mesmo quando sabemos, obviamente, que as coisas não são assim nem nunca foram. As pessoas não são iguais, os grupos não são iguais, não detêm características nem poderes iguais, não possuem bens e valores igualmente. O universo real é absolutamente desigual. Não obstante, as instituições são isentas do ponto de vista da paixão e do ponto de vista racional. Não lhes resta alternativa senão considerar a todos absolutamente iguais.

O reflexo social dessa concepção dicotômica básica entre razão e eros, sintaxe e semântica, público e privado transparece no estilo de interações que caracteriza o mundo anglo-saxão. São interações fundadas no contrato explícito, ao qual acede cada parte contratante, com base num cálculo de interesse e de justiça que lhe é privado, mas que ele tem que submeter ao juízo do outro. O resultado final vem a ser a justiça tal como publicamente reconhecida pelo menos pelos dois parceiros. Esse contrato é público, racional e destituído de conotações emocionais. E não é alterável por nenhum acidente que venha a ocorrer com qualquer um dos parceiros. Só são alteráveis os contratos sob os quais se processam as interações sociais segundo os termos neles constantes. Os contratos trazem em si mesmos os mecanismos pelos quais podem ser alterados, e estes também são públicos. O privado nada tem a ver com o contrato, que é superior aos contratantes e esgota o universo das interações sociais legítimas. Qualquer interação social fora do contrato é, por isso mesmo, patológica, desviante, perversa, quando não estigmatizante.

Ora, o mundo ibérico, fechando-se como se fechou, pela via da Contra-Reforma, às transformações modernizadoras, progressistas, avançadas, que se processaram na Europa a partir do século XVI, é um mundo em que as relações sociais são altamente erotizadas, isto é, apaixonadas. E aqui, creio está uma das raízes do personalismo e da individuação das relações sociais latino-americanas. Os indivíduos que constituem seu universo social não se relacionam apenas segundo os termos objetivos de qualquer contrato. Para além do contrato existe a realidade viva, e essa realidade eventualmente se impõe e é mais forte que o contrato. E para que a realidade vingue, apesar do contrato, é preciso um "jeitinho"...

A recusa a conceber o mundo político-social como antisséptico, como isento de paixão e de emoções, transparece na demanda de se ser tratado diferencialmente, justamente o avesso da demanda da igualdade no sentido formal. Todos os grupos e segmentos sociais exigem ser tratados diferencialmente, no bom e no mau sentido. Ou seja, aqueles que se reconhecem nas posições mais elevadas da escala social ou da riqueza demandam a deferência dos demais, segundo a expressão conhecida e tornada célebre por Roberto da Matta: "Sabe com quem está falando?"

Tal demanda também funciona de baixo para cima. Em outras palavras, aqueles grupos destituídos e que se encontram lá embaixo na escala social, que se reconhecem como diferencialmente discriminados, estigmatizados, afastados da partilha dos bens disponíveis que ajudaram a produzir, que são analfabetos, pobres, insalubres e carentes, também demandas da sociedade e das instituições políticas um tratamento diferenciado: desejam ser reconhecidos na sua difreneça e no fato de se encontrarem diferencialmente localizados na estrutura social. É evidente que se trata aqui de um "sabe-com-quem-está-falando" em sentido oposto, uma demanda da justiça social e não uma cristalização de injustiças.

Dessa incapacidade latino-americana de tornar eunucas, desapaixonadas e antissépticas suas instituições políticas é que derivam, creio eu, a fluidez e a instabilidade das instituições tradicionais liberal-democráticas que, por suposto, têm um outro pântano como base de onde arrancar sua seiva.

Significa isso que, por conta de sua possível não-esquizofrenia, da dificuldade em separar o público do privado, a sintaxe da semântica, a razão do eros, estejam os povos latino-americanos condenados a abdicar definitivamente das instituições democráticas? Não. Significa que os povos latino-americanos devam fechar-se às inovações do progresso e da tecnologia, recusar o cartesianismo, o pragmatismo, a economia, o desenvolvimento e voltarmos todos à utopia dos "bons selvagens"? Certamente, não.

Todavia, o mundo anglo-saxão, segundo seus testemunhos mais recentes, também se encontra em dificuldades. Se não se encontra em dificuldades do ponto de vista material, encontra-se do ponto de vista dos valores. É mais do que reconhecida, por ponderável parcela de teóricos, a profunda crise no sistema de símbolos e valores, no código de conduta que prevaleceu, durante quatro ou cinco séculos, absolutamente hegemônico no universo anglo-saxão. Esta grande mudança de valores que nele está se operando testemunha, segundo os teóricos, o equívoco histórico — parque, para a história da humanidade, quatro ou cinco séculos são um átimo — que foi a imposição, pela via das baionetas às vezes, por via da escola sempre, e pela universidade com freqüência, de todos os processos de socialização dessas esquizofrenia generalizada do universo social.

O problema latino-americano é outro. Consiste em conciliar uma cultura profundamente apaixonada com certas instituições que garantem a liberdade, compatibilizando-as, de uma forma estável, com as exigências do tratamento diferente,sem o que as demandas de justiça social não têm base de legitimidade. Como conciliar a necessidade de acumulação material com a manutenção de uma forma de interação social que não faça da convivência social apenas um contrato mercantil? Como absorver ciência e tecnologia sem abandonar a poesia? Como estabelecer, de maneira estável, instituições que garantam liberdade e justiça?

Este é um problema que não afeta apenas a América Latina. É universal hoje. Mas na América Latina ele assume uma cara diferente por conta de sua tradição cultural distinta. O que me parece importante, para a fecundação entre as duas culturas, é considerar que aquilo que os acadêmicos vêm chamando, nos últimos 30 anos, de estereótipos latino-americanos, com relação aos Estados Unidos, não são estereótipos no mau sentido. Correspondem à verdade. Os latino-americanos são isso mesmo, isto é, apaixonados: seu modo de convivência social é diferente do mundo anglo-saxão; seu cálculo político, econômico e social é realmente distinto. E viceversa. O que há de positivo? O que há de negativo? Como isso contribui para a estabilidde, não só das instituições democráticas, mas também de uma socieade onde se possa viver uma vida humana e não vida de contabilidade?