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Lua Nova: Revista de Cultura e Política

Print version ISSN 0102-6445

Lua Nova vol.3 no.1 São Paulo June 1986

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-64451986000200015 

PESQUISA

 

O que dizem da automação os trabalhadores

 

 

Ricardo Toledo Neder

Sociólogo e pesquisador do CEDEC

 

 

De que forma os robôs, as máquinas programadas por computador e equipamentos automáticos (em geral chamados de "novas tecnologias) estão afetando os operários industriais, sua relação de trabalho com os companheiros e sua capacidade de organização e luta sindicais?

Com base nesta e noutras perguntas, o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC), em associação com o Centro Nacional de Recursos Humanos e Organização Internacional do Trabalho, entrevistou onze comissões de fábrica e cinco sindicatos em São Paulo, ABC paulista e Osasco. Ricardo Neder traz para LUA NOVA algumas das conclusões dessa pesquisa.

 

I

A mais conhecida das novas tecnologias, e mais divulgada porque justamente reproduz os movimentos do braço humano, é a dos robôs industriais. Mas os robôs são uma ponta pequena, ainda que mais visível, da automação industrial. Esta inclui outros equipamentos programados por pequenos computadores embutidos, capazes de realizar centenas de pontos de solda, simultaneamente, nas carrocerias dos veículos, controlar automaticamente a linha de produção, programar prensas, tornos, e uma gama das atividades. Este tipo de automação é conhecido como "automação da manufatura".

Ela é o tipo de automação que afeta os trabalhadores metalúrgicos e sindicatos desta categoria. Afeta os operários porque modifica, por exemplo, várias de suas profissões (torneiro mecânico, ferramenteiro). Também afeta os sindicatos porque, entre outras razões, contribui para o seu esvaziamento.

Ontem e hoje, a automação sempre foi um objetivo dos capitalistas. Mas, ao contrário da automação do passado, a atual leva em conta um enorme potencial de flexibilidade dos equipamentos e redução de seu peso e tamanho, gerado pela micro-eletrônica, a base do computador.

 

II

Nos países capitalistas avançados os trabalhadores e seus organismos estão preocupados com os efeitos das novas tecnologias sobre emprego, desqualificação, organização do trabalho, força e mobilização sindical.

Na Itália, por exemplo, as cláusulas sobre novas tecnologias foram incluídas nas negociações coletivas em empresas como a Olivetti, Fiat, Alfa-Romeo, Comau (fabricante do grupo Fiat que produz robôs). Na Inglaterra e na Alemanha, mais de duzentos acordos coletivos com itens sobre automação foram negociados desde 1975 e efetivamente implantados ao nível da produção. Na Noruega e na Suécia, onde mais avançou este tipo de negociação, o controle das novas tecnologias pelos trabalhadores já alcançou o nível da co-determinação. isto é, os trabalhadores têm o poder de veto sobre inovações tecnológicas propostas pelo patronato.

O efeito das novas tecnologias sobre a desqualificação foi rapidamente percebido pelos sindicalistas europeus. "Se o objetivo é aumentar a produtividade, a nova tecnologia pode eliminar muitos cargos não-qualificados e também ser utilizada para padronizar e desqualificar trabalhos qualificados", afirma o Instituto dos Sindicatos Europeus.

A Organização Internacional do Trabalho afirma que o "elemento chave que determina a intensidade e a direção das reivindicações dos trabalhadores europeus sobre a automação é o poder de negociação sindical".Este poder depende de diversos fatores. É influenciado pela recessão econômica, pelo ritmo de introdução das novas tecnologias, pelo tipo de organização sindical prévia, da força dos partidos pró-sindicais e da pressão sindical sobre o Estado.

 

III

No Brasil, especialmente em São Paulo, a introdução de novas tecnologias vem ocorrendo com mais freqüência justamente depois que a recessão e o desemprego geral se manifestaram com mais força a partir de 1980-1981. Para os metalúrgicos isto teve um impacto expressivo porque o desemprego entre a categoria já se abateu sobre 119 mil postos de trabalho entre 1979 e 1984.

Apesar disso, registrou-se nessa fase um razoável aumento da produção no setor. As razões são duas: apesar da intensa campanha da categoria pela redução das horas extras e da jornada de trabalho, as empresas continuam impondo jornadas de até 56 horas semanais! A outra razão que explica o aumento da produção é justamente a automação com base nas novas tecnologias que geram mais produtividade.

Um dirigente sindical de São Bernardo do Campo aponta para este problema: "Na empresa T (multinacional japonesa do setor de transportes) se trabalha de 12 a 13 horas por dia, e alguns trabalhadores que se recusaram a obedecer foram demitidos. A ideologia vigente lá é: primeiro a empresa e depois a família. A empresa é superautomatizada, e cada trabalhador lida com 10 a 12 máquinas".

Outro dirigente, representante de comissão de fábrica em uma automobilística, em São Paulo, vai mais longe: "A automação é um avanço tecnológico. Não podemos ser contra até por uma questão de princípio, porque ela pode atender reivindicações básicas do próprio movimento operário: diminuição de periculosidade, da insalubridade, do desgaste físico, etc. Mas há outro aspecto, e esse é mais grave: toda e qualquer automação que acontece dentro da fábrica visa em primeiro lugar o lucro da empresa, maior produtividade, maior qualidade do produto e a diminuição da mão-de-obra. A questão humana — o homem — entra lá embaixo, é o último patamar dessa escala toda".

Na visão desse mesmo dirigente de base, "a gravidade da coisa está justamente aí: como conseguir inverter essa escala de valores, colocando o homem em primeiro lugar? E como aproveitar essa mão-de-obra que vai ter que sair? A solução é a redução da jornada de trabalho, sem redução de salário".

Outro dirigente sindical, de Osasco (SP), chama a atenção para o fato: "Houve aumento da produtividade a partir do ano passado, quando a categoria no município foi reduzida de 42 mil para 34 mil, e houve aumento também do ritmo de trabalho, e alguns trabalhadores perceberam a relação desse aumento da produtividade com a introdução de novas tecnologias".

Vemos, assim, que o desemprego cria uma relação desfavorável ao trabalhador individual ao reduzir, ou eliminar, sua resistência a ritmos de trabalho mais intensos impostos pela empresa com os novos equipamentos, a fim de gerar maior produtividade/homem .

Sabe-se que as novas tecnologias não geram imediatamente mais produtividade, exceto se as características da organização e do processo de trabalho forem adequadas radicalmente aos novos equipamentos automatizados.

Muitos depoimentos de sindicalistas e dirigentes de base revelam precisamente a necessidade empresarial de levar em conta que a operação das novas tecnologias é feita pelo homem. Mas a "questão humana", claro, é vista pelas empresas como uma variável da produtividade, que adquire maior importância com equipamentos e máquinas automatizadas, que são frágeis.

Nesse contexto, marcado pela pressão sindical contra o autoritarismo de chefias e controle hierárquico — que cresceu a partir de 1979 — as empresas foram obrigadas a lançar mão de técnicas mais sofisticadas.

O "trabalho participativo", os "círculos de controle de qualidade", além de reformulação da política de "recursos humanos", se mostram adequadas, inclusive, para novas formas de organização da produção exigidas pela automação. Com elas, são introduzidas também novas técnicas de racionalização do trabalho, em que o trabalhador perde autonomia sobre o controle da produção.

"O problema é que não controlamos a tecnologia (...). Para o operário trabalhar em máquinas programadas é o mesmo que perder o controle sobre seu trabalho; não há criação, porque a fita vem pronta da seção do planejamento, entra na máquina, e o trabalho dele é apertar botões." (Representante de comissão de fábrica em São Paulo).

Para muitos a automação vem associada às novas técnicas de racionalização do trabalho. Estas técnicas afetam o ritmo de trabalho, as relações do trabalhador com os seus companheiros em postos de trabalho vizinhos, e as práticas de controle das chefias sobre os operários.

A automação exige, portanto, das organizações de base e da categoria dos metalúrgicos novas dimensões de organização e de luta. Indagadas a esse respeito, as comissões de fábrica, por exemplo, assumem que seu papel é fundamental na negociação com o patronato sobre as questões relacionadas a ritmo do trabalho, controle de chefias, como e onde automatizar, ambiente de trabalho, desqualificação e desemprego gerado pelas novas tecnologias. Esta ação, contudo, está dando os primeiros passos no tocante à automação.

É interessante, nesse sentido, a avaliação do representante de comissão de fábrica de uma automobilística em São Bernardo do Campo:

"Se você perguntar a alguma pessoa sobre robotização, ela vai achar que foi bom, que foram contratadas mais pessoas. Mas ele tem memória curta e se esquece dos que foram demitidos anteriormente. A automação é prejudicial nesse sentido: não aumentaram em nada o pessoal da empresa com a automação (...) o número de funcionários é o mesmo com uma produção maior".

As razões para as poucas inquietações na base sobre automação decorrem, primeiro, da penetração das novas tecnologias, que é desigual não só entre várias empresas, mas, igualmente, dentro de uma mesma fábrica, apenas certos setores são inicialmente atingidos, isso leva a uma percepção variável dos trabalhadores sobre a importância do tema. O que se assiste agora, a exemplo dos depoimentos acima, é que as lideranças e representantes de base tem que fazer avançar esse debate, e podem fazê-lo.

Em segundo lugar, também é variável a existência e o grau de organização das comissões de fábrica ou de empresa, e dos sindicatos nos locais de trabalho. Onde estas instâncias estão organizadas serão maiores as possibilidades de reação às novas tecnologias caso elas venham em doses maciças — o que, aliás, está sendo evitado pelos empresários.

Em terceiro lugar, resultados eficazes nesta matéria só poderão ser alcançados se houver uma ação conjunta das organizações de base, de categoria e dás entidades inter-sindicais nacionais envolvendo várias categorias interessadas.

Exemplos das dificuldades são as tentativas dos metalúrgicos em colocar esses itens nas pautas de negociação, o que tem sido rechaçado pelo patronato. (Os itens incluem, desde 1983, comunicação antecipada de seis meses sobre inovações técnicas, obrigatoriedade de preservar o nível de emprego e de reciclar os trabalhadores afetados por mudança tecnológica; garantia de emprego e salário para os operários dos setores automatizados, etc.)

Para o DIEESE, órgão de assessoria técnica intersindical, "a legislação trabalhista precisa ser revista para permitir a ação sindical na formulação de contratos coletivos que abranjam as condições específicas de trabalho inerentes à modernização tecnológica".

O salário-desemprego, outra proposta do movimento sindical, também tem relação com as mudanças tecnológicas. Estas, ao serem implantadas numa época de desemprego, vão contribuir no futuro para gerar menos postos de trabalho e mudar o perfil ocupacional das indústrias e de outros setores de trabalho.

Por isso, o movimento sindical, além de propor o salário-desemprego para o pessoal que não encontrará novos postos de trabalho no futuro (enquanto medida emergencial), também está propondo a "moratória tecnológica" nas empresas afetadas pela automação. Que moratória é essa? Quer dizer simplesmente que as empresas, ao adotarem mudanças tecnológicas, devem se comprometer num determinado prazo (cinco anos é o falado) em não despedir o pessoal afetado, além de reprofissionalizá-lo. Por fim, outra proposta das organizações sindicais relacionadas com as anteriores é a criação, em cada empresa que adota a automação, de "comissões paritárias de tecnologias". Essas comissões, tal como são paritárias as CIPAs de saúde e segurança no trabalho, seriam constituídas por empregados e representantes dos empregadores para discutir previamente a adoção de novas tecnologias. Essa proposta chegou a ser encaminhada pelo Partido dos Trabalhadores como emenda à Lei de Informática, em 1984, e foi vetada pela Presidência da República. Aliás, a participação de partidos políticos simpáticos ao movimento sindicalista nesse processo de negociação também é outra dimensão da luta sindical para controlar as novas tecnologias. Sem a atuação parlamentar, não há conquistas duradouras, já que estas têm como requisito necessário não só as práticas de lutas mas também os instrumentos legislativos.