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Lua Nova: Revista de Cultura e Política

Print version ISSN 0102-6445

Lua Nova vol.3 no.1 São Paulo June 1986

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-64451986000200016 

DOCUMENTO

 

O sínodo dos bispos

 

 

D. Cândido Padin

Bispo de Bauru (SP)

 

 

Em março deste ano, as principais figuras da Igreja Católica do Brasil, todas membros da CNBB, foram chamadas a Roma para uma reunião de cúpula com o papa João Paulo II.

Tratava-se de implementar uma das decisões tomadas no Sínodo Episcopal realizado em 1985: "a revisão da natureza das conferências episcopais". LUA NOVA traz este comentário de D. Cândido Padin, bispo de Bauru (SP), sobre o significado do sínodo para os brasileiros.

 

Cercado de uma tensa expectativa, realizou-se em Roma o Sínodo dos Bispos, convocado pelo Papa João Paulo II, tendo por objetivo uma avaliação global da aplicação das orientações do Concílio Vaticano II, por ocasião do 20.º aniversário do encerramento do Concílio. Não faltaram manifestações de temor no sentido de poder transformar-se o sínodo em uma atitude de retrocesso quanto às conquistas alcançadas na renovação da Igreja.

Tais temores tinham algum fundamento. Alguns cardeais da Cúria Romana tinham se manifestado, apontando eventuais desvios na aplicação dos documentos conciliares e pedindo que se freassem certas tendências resultantes de interpretações consideradas abusivas. Na verdade, tais manifestações não significavam apenas o desejo de corrigir verdadeiros desvios ou erros, mas revelavam uma inegável corrente conservadora e, até certo ponto, fundamentalista, muito mais preocupada em impedir legítimas transformações na pastoral da Igreja.

Essa corrente ficou claramente configurada pela longa entrevista do cardeal J. Ratzinger, publicada em forma de livro: A Fé em Crise? As críticas que ele faz à realidade da Igreja pós-conciliar caracterizam, por um lado, interpretações teológicas tipicamente acadêmicas, próprias de uma mentalidade "européia" que se considera a única forma cultural legítima de pensar. Implicitamente considera que o Terceiro Mundo não é capaz de gerar pensamento teológico original, dependendo sempre dos padrões europeus.

Por outro lado, é a corrente que despreza. o florescimento de uma pastoral planejada, ocorrido no pós-concílio, buscando dar um sentido de unidade coerente à pastoral de conjunto, ou melhor, pastoral orgânica. Esquece-se o cardeal de que o papa Paulo VI pronunciou,na comemoração do 10.º aniversário do CELAM (1965), um belíssimo discurso elogiando e recomendando o emprego do planejamento pastoral, adotado e difundido pelos departamentos do CELAM daquela época nas dioceses da América Latina. Contrariamente a essa forma pastoral, que prevalece na Igreja de hoje, manifesta o cardeal uma preferência pela atuação dos "movimentos" de estrutura ultra-diocesana, nacional ou até internacional, cujo aparecimento é saudado por ele "como um período de pentecostes na Igreja", após o Concílio. Refere-se explicitamente "ao Movimento Carismático, aos Cursilhos, ao Movimento dos Focolares, às Comunidades Neocatecumenais, à Comunhão e Libertação". Lamentavelmente o cardeal comete um grande equívoco, pois esses movimentos têm suas origens anteriores ao Vaticano II. Com exceção apenas de "Comunhão e Libertação", criado recentemente por um membro da Cúria Romana, com nítidas simpatias ideológicas pela democracia cristã.

Com a difusão tão rápida do livro de Ratzinger, logo traduzido em várias línguas já antes da reunião do Sínodo, temia-se que o prestígio da autoridade do prefeito da S. Congregação da Doutrina da Fé repercutisse muito nos pronunciamentos dos membros do Sínodo. Tinha-se a impressão de que as idéias do cardeal representavam uma apreciável porção do episcopado, especialmente europeu.

Felizmente, porém, o "pentecostes" aconteceu no Sínodo de uma maneira bastante animadora, não confirmando essa visão pessimista do pós-Concílio. Ao contrário, o relatório final, aprovado pelos padres sinodais, faz prevalecer os aspectos positivos resultantes da aplicação das orientações conciliares. Não deixa de apontar, sem dúvida, alguns desvios ou más interpretações de certos documente s, fazendo notar que isso sempre ocorreu depois dos grandes Concílios. Entre as luzes e sombras faz uma observação muito rica e procedente: "... deve ser posta a pergunta por que, no assim chamado Primeiro Mundo, depois de tão ampla e profunda explicação da doutrina sobre a Igreja, se manifesta com muita freqüência uma falta de afeto para com a Igreja, embora ali sejam abundantes os frutos do Concílio. Ao contrário, onde a Igreja é oprimida por ideologias totalitárias ou levanta a sua voz contra as injustiças sociais, parece que ali ela é aceita de modo mais positivo. Todavia, não se pode negar que, também nesses lugares, nem todos os fiéis tenham uma plena e total identificação com a Igreja e com a sua missão primária". Reconhece, portanto, a vitalidade da renovação da Igreja no Terceiro Mundo, a partir do Concílio. A referência ao testemunho evangélico de quem "levanta a sua voz contra as injustiças sociais" bem se aplica à atuação da Igreja no Brasil durante o regime autoritário e repressivo que sofremos durante vinte anos.

Outra questão polêmica, na crítica teológica de Ratzinger, é a natureza e atuação das Conferências Episcopais. Chega a dizer que elas "não possuem uma base teológica,não fazem parte da estrutura indispensável da Igreja, assim como querida por Cristo: têm somente uma função prática, concreta". Nessa linha de raciocínio também não têm base teológica a Cúria Romana nem o Sínodo dos Bispos. Nem por isso ele os considera menos necessários. Segundo ele, "uma conferência episcopal... não pode votar sobre a verdade", pois esta só pode ser "encontrada" e não "inventada" pelos bispos. Por isso, não pode ser o resultado de uma votação. O raciocínio teológico é falho, pois não distingue entre verdade "revelada' (dogmática) e verdade "pastoral". Esta é uma decisão tomada pela maioria dos bispos diante de um leque de opções. A decisão aprovada é a verdade pastoral que melhor corresponde à mensagem de Jesus Cristo naquelas circunstâncias de lugar, de tempo e de pessoas, envolvendo as pessoas dos próprios bispos e as dos fiéis. De certo modo, é encontrar a verdade do que Deus pede à Igreja naquelas circunstâncias. Deixemos de lado as críticas maldosas do cardeal à atuação dos bispos nas assembléias das Conferências, dizendo que predomina na maioria "o espírito de grupo, talvez a vontade de viver tranqüilamente ou até mesmo o conformismo" acabando por levá-los "a aceitar as posições de minorias ativas, determinadas a fazer caminhar rumo a direções bem precisas". Não parece ser uma maneira muito evangélica de julgar os irmãos no episcopado, esquecendo que, mesmo através das falhas humanas, a Igreja é dirigida pelo Espírito Santo e não pelos homens.

Confirmando a sabedoria do Vaticano II que instituiu as Conferências Episcopais, o pronunciamento do Sínodo reconhece que "por meio das Conferências Episcopais o afeto colegial é levado à aplicação concreta. Ninguém duvida da sua utilidade pastoral, e mais ainda da sua necessidade nas circunstâncias atuais. Nas Conferências Episcopais os bispos de uma nação ou de um território exercem unidos as suas funções pastorais. É bom lembrar que, ao promulgar o novo Código de Direito Canônico, João Paulo II inovou, atribuindo às Conferências Episcopais a função de adotar uma legislação complementar para adequar certos cânones às conveniências locais. Essas decisões, aprovadas por dois terços dos bispos e homologadas pelo papa, passam a ter força de lei mesmo para os bispos que eventualmente tenham votado em contrário.

Em relação à questão polêmica do princípio de subsidiariedade que se aplicaria às relações entre a Santa Sé e as Igrejas particulares, o Sínodo adotou uma posição de prudência. Sem negar a possibilidade de reconhecê-lo, pede "um estudo que considere se o princípio de subsidiariedade, vigente na sociedade humana, se pode aplicar na Igreja, e em que grau e sentido se possa ou deva fazer tal aplicação".

Não poupou, porém, o reconhecimento das CEBs como uma legitima e valiosa forma de pastoral para a Igreja de hoje; "Por ser a Igreja comunhão, as novas 'comunidades eclesiais de base', se de fato vivem na unidade da Igreja, são uma verdadeira expressão de comunhão e instrumento para edificar uma comunhão mais profunda. Por isso, elas dão uma grande esperança para a vida da Igreja".

Temos motivos, portanto, para considerar o resultado do Sínodo como muito positivo, não só pelo relatório final, mas também pelas belíssimas e corajosas intervenções dos bispos que refletiram a vitalidade das Igrejas que, especialmente no Terceiro Mundo, assumiram a renovação eclesial orientada pelo Concílio Vaticano II.