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Lua Nova: Revista de Cultura e Política

Print version ISSN 0102-6445

Lua Nova vol.3 no.2 São Paulo Dec. 1986

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-64451986000300013 

DOCUMENTO

 

O mentirão, ou melhor, o mutirão de Goiás

 

 

Ermínia MaricatoI; Lúcia Maria MoraesII

IProfessora da FAU/USP, participa de movimentos populares de habitação
IIProfessora da Universidade católica de Goiás e mestranda da FAU/USP em Planejamento Urbano

 

 

Quem adentra à Vila Mutirão, conjunto habitacional de mil pequenas casas construídas em 1983 e mais 500 casas construídas em 1985, pode até ficar bem impressionado ao constatar, ao lado da grande pobreza, certos cuidados que cercam a aparência do conjunto: algumas ruas são asfaltadas e iluminadas, árvores recém-plantadas revelam uma preocupação com o paisagismo. Há uma enfermaria, bem como uma grande caixa d'água bem visível na entrada da vila. Qualquer observador menos informado não se dará conta que aquela vila, uma ilha de casas simples e gente pobre, situada em pleno campo, é um exemplo privilegiado das profundas contradições que marcam a conjuntura política brasileira e a política habitacional. Vamos tentar aqui, longe das câmaras de televisão que deram notoriedade à vila e ao governador que a promoveu, uma análise dessa obra contraditória que se chama Vila Mutirão. Este trabalho, escrito em 1985, mantém-se válido em suas principais conclusões, apesar das modificações havidas na vida política de Goiás.

 

O mutirão de Goiás: um show dirigido com competência

Goiânia é uma cidade que conta atualmente com 800 mil habitantes, mais ou menos, dos quais 200 mil, aproximadamente, ocupam ilegalmente a terra onde moram. A penetração das relações capitalistas no campo atingiu o Estado de Goiás com grande impacto após a construção de Brasília, causando o engrossamento das fileiras de migrantes que, sem condições de trabalho no campo, tomaram o caminho da cidade a partir de 1970. Os que se recusaram a tomar esse caminho e tentaram lutar para permanecer em terra rural têm protagonizado histórias dramáticas de violência exacerbada, nas quais a morte de camponeses e líderes sindicais rurais tem sido uma constante.

Na cidade, cujo papel econômico principal na região é de entreposto comercial, a massa de mão-de-obra migrante se oferece a qualquer preço e, quando não é aproveitada na atividade da construção civil, o setor produtivo mais vigoroso de Goiânia, não tem muitas chances além de entregar-se aos bicos ou trabalhos temporários. As invasões de terra, que se revelaram como única saída para o assentamento residencial dessa população, foram violentamente reprimidas pela polícia estadual, durante o último governo nomeado pelo regime militar. O primeiro enfrentamento de invasores de terra com a polícia se deu em 1979, quando 4 mil famílias lutaram contra tropas, cães e tratores (que derrubaram algumas casas, soterrando uma criança). Esse episódio está vivo na memória dos moradores do Jardim Nova Esperança, como uma luta vitoriosa. Outros episódios violentos se seguiram a esse, em 1982 e 1983: Fazenda da Caveirinha (hoje Vila Finsocial), Parque Santa Cruz, Jardim Botânico.

É nesse contexto local, em que o Estado, comprometido com o forte capital imobiliário, combate as ocupações massivas de terras pelos migrantes pobres, que surge a figura do candidato íris Rezende, em eleições diretas, ao governo estadual em 1982. Oposicionista, cassado pela ditadura militar em 1968, quando era prefeito de Goiânia, íris Rezende surge na esteira do movimento oposicionista institucional que marcou os últimos anos do regime militar.

Sobre suas características pessoais (populista, centralizador, paternalista), sobre as alianças regionais e nacionais nas quais se apóia, seria necessário o desenvolvimento de uma análise específica, o que não vai ser feito aqui. De qualquer modo, é impossível entender a "popularidade" de íris Rezende e o "sucesso do mutirão das mil casas em um dia", sem entender um pouco desse personagem contraditório e do contexto político que lhe serve de cenário.

Eleito em 1982 com 1 milhão de votos, com promessas de dar uma solução ao candente problema da terra urbana em Goiânia, íris Rezende mostraria muito rapidamente que o caminho a seguir não seria esse, ou seja, o de contrariar os interesses dos proprietários de terra e loteadores, figuras muito bem situadas na estrutura regional de poder. Desviando-se como pode da União dos Posseiros de Goiânia — entidade representativa de parte dos moradores de áreas invadidas —, o governador decide lançar um projeto-impacto, seguindo proposta do seu então secretário de Planejamento Flávio Peixoto: tratava-se de um grande mutirão para a construção de mil casas em um só dia.

Lá, o governador íris Rezende estaria ao raiar do dia como comandante do mutirão e como operário.

"Todo serviço que um operário fizer, eu o farei também."

De fato, às 6:00 horas da manhã do dia 16-10-83 lá estava o governador para o grande acontecimento, preparado, sem dúvida, com muita competência. O terreno havia sido preparado, o arruamento estava pronto, os lotes demarcados, as valas feitas e as fossas negras abertas. Em cada lote foi depositado previamente, no dia anterior, a família de elementos construtivos a serem utilizados na construção: 108 placas de concreto (2,5 cm espessura), 20 pilares de concreto (8x8 cm), duas portas de madeira com portal de estrutura metálica, três janelas de ferro e vidro, 2.500tijolos comuns, três sacos de cimento, quatro baldes de areia saibrosa, 38 baldes de areia de cimento, armação metálica do telhado, dez telhas (366 x 100 cm) de cimento amianto, duas telhas de 5 mm (153 x 110 cm), duas placas de concreto para piso.

A organização e racionalização no canteiro superou em muito algumas empresas privadas. Panfletos e manuais foram distribuídos, câmaras fotográficas e câmaras de filmagem foram fixadas em pontos estratégicos. A elevação das casas, feita em doze horas, seria mostrada num filme de dez minutos, surpreendendo os espectadores.

Para cada uma das mil casas havia um técnico, funcionário da Prefeitura ou do governo do estado, encarregado de coordenar a construção e previamente treinado (arquiteto, engenheiro ou mesmo outro tipo de profissional), três pedreiros e quatro serventes. Parte desses trabalhadores "voluntários" foi arregimentada pelo coordenador entre seus amigos, parentes, funcionários das empresas mistas municipais ou estaduais, ou operários de várias construtoras que prestam serviços ao governo de Goiás.

Mas não foi só na arregimentação dessa mão-de-obra gratuita e "voluntária" que o governo íris Rezende mostrou seu poder de mobilização. Os empresários de ônibus (transportes públicos) e a empresa estadual de transportes foram "convidados" a oferecer transporte gratuito à população que se dirigisse ao mutirão durante seis horas, no dia 16. Os prefeitos do interior transportaram gratuitamente cerca de 3 mil pessoas à capital para auxiliar no mutirão. Além disso, foram distribuídos 20 mil refeições por conta do poder municipal.

Três meses de trabalho intenso foram suficientes para preparar o grande show do dia 16. E não se enganaram o governador Íris Rezende e seus assessores, que viram premiados os seus esforços de publicidade, com o apoio entusiasmado da Rede Globo de televisão. O show atingiu todo o país com repercussões internacionais.

 

A casa na Vila Mutirão — "Um presente de grego"

Voltemos ao observador desinformado do começo da nossa"história". Ele achou o conjunto habitacional agradável, embora simples e pobre, e ficou bastante impressionado com a capacidade de ação e mobilização do governador Íris Rezende e seus assessores.

Como diria a manchete do jornal: "uma casa em cada 36 segundos" (Diário da Manhã, 12-10-83). Em meses, seria possível resolver o grave déficit habitacional brasileiro!

Entusiasmado, nosso observador poderia resolver dirigir-se aos privilegiados moradores da Vila Mutirão, em nome de quem todo aquele esforço fora feito. Neste instante, ficou bastante surpreendido com o que ouviu. Ficou sabendo que uma razoável parte dos moradores da vila não veio a ela voluntariamente.

"Antes de vir para cá, a gente tinha as nossas casas arrumadas, com plantação no quintal, tudo construído, então veio o pessoal do governo e nos tirou de lá. Não recebemos nenhuma indenização, perdemos tudo." D. Geralda (jornal 4 de Outubro, setembro de 1984).

"E nós já perdemos tudo quando saímos de onde vivíamos: emprego, escola para os filhos, perdemos nossas casas construídas com muito sacrifício. Não justifica termos que pagar para viver aqui." Sr. Joaquim (4 de Outubro, setembro de 1984).

"Digo que isso aqui não presta, eu não queria vir para cá, vim porque fui obrigada." Helena Crescêncio de Souza, Quadra 3, lote 13.

"Nas conversas que tínhamos com as pessoas do governo que preenchiam fichas, nos passavam medo dizendo que não era obrigado a sair dali, mas os tratores iam passar por cima de tudo." Morador que não quis se identificar.

"E as nossas mudanças? Jamais esqueceremos. Cada família tem sua história triste, vendo seus quintais com árvores já formadas sendo derrubadas pelo trator, seus poços e até materiais serem arrastados pelas máquinas. Foi a mudança saindo e a patrola atrás arrancando tudo." Idem.

 

A localização da Vila Mutirão: a segregação física como política do Estado

O primeiro grande problema da Vila Mutirão — e, possivelmente, sua maior falha — está na localização. O núcleo de casas está situado a 14 quilômetros aproximadamente de qualquer edificação de serviço urbano. Grande parte dos moradores pobres e desempregados não tem como pagar o alto custo do transporte até a cidade (46% deles recebem menos de um salário mínimo).

"O Íris acha que é importante essas casinhas para o pobre, mas não é. Se a gente muda para longe, pra roça, acaba é morrendo de fome, se as crianças adoecem fica difícil de tratar. Eu mesma estou desempregada e vivo lavando roupas para fora, aqui na invasão é mais fácil. Eu prefiro morar debaixo de um rancho, perto do centro, do que naquelas casinhas." Maria Gomes de Souza (moradora da invasão da BR-153).

"Quem mora na Vila Mutirão enfrenta o maior problema que é a falta do que fazer." (O Popular, 28-5, Goiânia.)

As tentativas de segregação e isolamento da população pobre em conjuntos habitacionais, fora das cidades, não são novas na história da política habitacional no Brasil. A fracassada Vila Kennedy, que o BNH financiou no final dos anos 60 no Rio de Janeiro, talvez tenha sido a tentativa mais estudada e criticada de deslocar subempregados que vivem de "bicos", como a empregada doméstica, o lavador de carros, o pequeno reparador de construção, etc; para o exílio da periferia distante. Nela, as oportunidades são nulas e, para sair dela, há que se enfrentar o custo dos transportes.

Longe de ser o único exemplo de uma política segregacionista em relação ao espaço físico, a Vila Kennedy foi apenas a experiência mais famosa, talvez porque seus moradores começaram a vender partes da casa para conseguir dinheiro para alimentação.

Os conjuntos habitacionais do BNH (promoção pública) situam-se freqüentemente em áreas desurbanizadas e isoladas em relação à cidade. A localização na cidade tem preço e dono. Para não contrariar os interesses dos que ganham com a renda da terra, a política de localização habitacional do Estado durante os anos do regime militar foi de exilar e segregar os moradores dos conjuntos habitacionais destinados à chamada população de baixa renda. Em alguns casos, como aconteceu com o Pró-Morar de Londrina, o isolamento reforçou o desemprego e a marginalidade. A professora que lecionava na escola primária do conjunto, inaugurado com pompas pelo então presidente João Figueiredo, chegou a ser estuprada em pleno dia (as cores dramáticas não são do texto, mas da realidade).

Muito já se escreveu sobre a anarquia configurada pela ocupação da terra nas cidades brasileiras, com a periferia crescendo sem qualquer controle, reproduzindo vazios urbanos, objetos de intensa especulação. Até mesmo os documentos oficiais dos governos militares incorporaram muitas das críticas ao ingovernável processo de urbanização brasileiro, como se pode ver, particularmente, na fundamentação do projeto de lei chamado de Reforma Urbana (Ministério do Interior, 1983).

É realmente grave constatar que o Estado reforça esse processo com sua política habitacional, excluindo parte da população do direito à cidade e incentivando a especulação fundiária através do crescimento horizontalizado e de baixa densidade das cidades.

É mais grave ainda constatar que tal política antiurbana é aplicada pelo Estado, em 1983, em nome de mudanças, da democracia e da "Nova República".

Como se já não bastasse isso, os planos desenvolvidos por Atílio Correia de Lima, Luiz Saya, Jorge Wilhelm, Jaime Lerner e o próprio secretário do Planejamento de Goiás, na época, Flávio Peixoto, desestimularam o crescimento de Goiânia para o norte, onde estão localizadas as "áreas férteis" e os recursos hídricos para o abastecimento da cidade. Nenhum órgão de planejamento ou de política habitacional foi consultado e exatamente nessa direção foi localizada a Vila Mutirão, sobre solo classificado como zona rural, de acordo com a legislação em vigor. (Transformada hoje, por lei, em zona de expansão urbana. Essa medida tornou o projeto legal.)

Por que foi exatamente essa a orientação para a localização da Vila Mutirão? Infelizmente não temos resposta a essa pergunta. Podemos, apenas, levantar duas hipóteses:

a) como todo mutirão que o governador Íris Rezende promoveu, a Vila Mutirão se situa imediatamente à margem de uma grande rodovia, a GO-04, que liga Goiânia à cidade de Aruanã;

b) interessou favorecer os proprietários das terras situadas entre a malha urbana e a Vila Mutirão, que passaram por grande valorização após a construção do conjunto e a passagem de zona rural para zona de expansão urbana.

 

Antes da habitação, os problemas mais urgentes são baixa renda e desemprego

A renda familiar dos moradores da Vila Mutirão varia entre 0 a 3 salários mínimos: 46% recebem menos de um salário mínimo, 46% recebem entre um e três salários mínimos e 8% recebem mais de três salários mínimos.

Com a impossibilidade de ir à cidade a pé ou pagar o transporte, surge naturalmente na consciência dos moradores a idéia de prisão. Infelizmente essa analogia não é um exagero, pois o conjunto está atualmente cercado com arame farpado e duas guaritas com fiscais cercam as duas entradas da vila. Dez fiscais e um "prefeito" nomeado pelo governador fazem a vigilância local. Ninguém que esteja atrasado com a prestação da casa pode entrar ou sair do local com objetos, como mobiliário, televisão, etc.

"Hoje mesmo aconteceu que Maria de Jesus havia ganhado uma televisão de sua mãe, mas nem teve o gosto de ligar. Mal havia chegado, o administrador Valdeci Camargo mandou a polícia buscar e levar para o escritório."

Mas, como um autêntico pai-patrão, o governador controla, mas também cuida. Já estão funcionando na Vila Mutirão: uma creche, um posto médico ambulante, um posto comercial e um posto policial. Já que o conjunto está longe da cidade, a cidade vem de alguma forma até ele, através de alguns serviços que viabilizem (mal) a vida ali naquele espaço que acaba sendo nem rural, nem urbano.

Para evitar o desequilíbrio de seu grande projeto, o governador tem priorizado o atendimento ali, até mesmo oferecendo empregos em órgãos do Estado para alguns moradores.

Mas, se os moradores da Vila Mutirão não têm dinheiro para o transporte, têm muito menos para pagar a prestação da casa, apesar de ser tão baixa: 10 ou 15% do salário mínimo (depende do prazo de pagamento, em dez ou quinze anos).

Dona Francisca Benta é viúva, tem 46 anos e dois filhos menores, um dos quais deficiente mental. Vive com uma pensão que é insuficiente para a alimentação. O barraco de tijolos onde vivia antes de vir para a Vila Mutirão foi demolido. O material dessa construção havia sido comprado à prestação e ainda não foi totalmente pago. Trabalhava com lavagem de roupa, mas atualmente não tem dinheiro para pagar o transporte até a cidade.

"Choro de fome com meus filhos" (jornal 4 de Outubro, ano 1, nº 5, setembro de 1984).

Manoel da Costa, 44 anos, não consegue pagar as prestações da casa, teme ser despejado. Tem mulher e oito filhos.

"Sou um homem desesperado. Meus filhos estão passando fome. Sou servente de pedreiro, aqui não se acha serviço" (idem).

Nestes e noutros casos e depoimentos, uma constatação já bem conhecida: a casa não é prioritária quando o problema é renda e desemprego. Os moradores da Vila Mutirão, em sua maior parte, não pagavam aluguel ou prestação de casa própria. A mudança para a vila, além de diminuir as chances de trabalho, implicou uma nova despesa, à qual alguns moradores não conseguem fazer frente, pois apenas 8% deles pagavam aluguel e outros 897o moravam em casa própria.

 

O processo construtivo, a casa e seu custo

O processo construtivo que se utilizou de placas de concreto (2,5 cm de espessura), pilares de concreto de 8x8 cm, estrutura metálica para o telhado e telhas onduladas de cimento amianto, permitiu um rápido erguimento da construção. A área construída é de 25,6 m2 e mais um pequeno cômodo de 2,3 m2 destinado ao banheiro (a casa foi entregue sem instalação hidráulica ou sanitária. Acompanhou a mesma um tambor para água de 60 litros).

Sem dúvida a racionalização do processo construtivo, reduzindo os materiais a componentes simples, facilitou a construção, além de permitir uma relativamente alta produtividade no canteiro. A utilização de elementos componíveis pré-fabricados, bem como o necessário controle e simplificação dos materiais a serem utilizados na construção são conquistas do desenho moderno, indispensáveis à construção de habitação em massa. Há muito a produção fabril já incorporou esses elementos, e, se a construção civil não o faz, é devido à própria estrutura do setor (tomado num sentido mais geral) e, particularmente, à forma artesanal com que são feitas as habitações no Brasil, através da auto-construção, sem a participação do Estado enquanto gestor da política habitacional.

O material de construção utilizado na Vila Mutirão, entretanto, placas de concreto de 2,5 cm de espessura na vedação e telha de cimento amianto na cobertura é inadequado ao clima tropical de Goiânia. Nos momentos de pico, a temperatura interna das telhas chega a se aproximar dos 50º C, de acordo com o especialista em conforto ambiental Luiz Carlos Chichierchio.

As aberturas que foram deixadas para ventilação das telhas não resolvem o problema das altas temperaturas no verão e ainda tornam a casa inadequada também para o inverno, quando ela admite ventilação exagerada, mesmo para o frio de Goiânia.

Logo após a construção, uma forte chuva acompanhada por ventania destelhou vinte casas segundo versão oficial — ou 300 casas, segundo versão extra-oficial (funcionários da Prefeitura e moradores da vila).

"Vim porque disseram que era para vir e que se não viesse iriam passar a patrola por cima. Meus filhos estão todos doentes e meu marido também. Ainda por cima a chuva veio e levou todas as telhas desta casa, nos deixando no tempo. Entregaram a casa até sem banheiro para nós. A minha casinha lá onde eu estava era ruim, mas eu nunca fiquei no tempo por causa da chuva." Araci Custódio da Luz, Quadra 8, lote 14.

Algumas pequenas correções foram introduzidas no processo construtivo, nos mutirões que se seguiram em municípios do interior do estado, para construção de 3.348 habitações ou mil salas de aula. Mas basicamente os materiais e o processo de trabalho permaneceram os mesmos.

O custo final das habitações está longe do que foi anunciado oficialmente: 74 ORTN (inclusive terreno). Em primeiro lugar, é preciso contabilizar três meses de preparação do grande mutirão, quando a Codeg (Companhia de Desenvolvimento do Estado de Goiás) coordenou o trabalho com algumas empresas (produção de materiais, preparo do canteiro, treinamento de mão-de-obra — um encarregado por casa — preparo das ferramentas, etc).

As ferramentas e complementos utilizados também devem entrar no custo: quatro cavaletes, quatro tábuas para andaime, dois caibros, oito pares de luvas, escada, martelo, chave de boca para parafusos, fio de prumo, duas colheres de pedreiro, soquete de madeira para o piso, enxadão, enxada, pá e três baldes.

Esse conjunto ainda deve ser multiplicado por mil, dada a exigência de fazer as mil casas de uma vez. Note-se que todo esse material não pode ser reutilizado nos mutirões dos municípios do interior, devido ao custo dos transportes.

Devemos considerar também o custo das 20 mil refeições e 20 mil lanches distribuídos pelo governo, e lembrar que os custos de transportes da mão-de-obra foi arcado pelos empresários de ônibus, pela empresa estadual de transportes, pelas prefeituras do interior, pelas empresas construtoras, etc.

Mas duas despesas principais contrariariam qualquer pretensão de orçamento barato para as casas da Vila Mutirão.

A primeira está nos gastos com infra-estrutura que o governo foi obrigado a construir posteriormente, para tornar o lugar habitável: estender a rede de água até cada casa (reivindicada pelos moradores), asfaltar e iluminar as ruas principais, estender a coleta de lixo semanal da cidade até a Vila Mutirão, pôr a creche a funcionar, pôr o posto policial e também a escola a funcionar, além de providenciar os fiscais e o "prefeito" que trabalham como administradores locais.

A segunda grande despesa foi feita na intensa campanha publicitária que cercou o evento e sua preparação: filmes, panfletos, publicidade em rádio, televisão e jornais.

 

Um mutirão pró-íris Rezende

"Mutirão: auxílio gratuito que se prestam uns aos outros os lavradores reunindo-se todos os da redondeza e realizando o trabalho com proveito de um só, que é o beneficiado, mas que nesse dia faz as despesas de uma festa ou função." (Novo Dicionário Aurélio.)

A prática do mutirão para a construção de habitações ou de infra-estrutura urbana tem se generalizado no país, nos últimos três anos. E se na construção de moradias ela pode ter alguma, porém frágil, justificativa, já que o morador está empenhado no trabalho para a construção de um bem-mercadoria, do qual se apropria privadamente, na construção de infra-estrutura urbana (rede de esgoto, água, guias e sarjetas, escolas, etc.) ela constitui um artifício cruel, se considerarmos o índice de desempregos que atinge a população urbana, no Brasil, hoje. São moradores subempregados ou desempregados que dão trabalho gratuito na produção do seu ambiente urbano. Dessa forma, fica intocado o processo de trabalho na indústria da construção, com exploração intensiva de mão-de-obra abundante. Fica também intocada a alta margem de lucro dos empresários que constróem para um segmento restrito do mercado, mas de altas rendas, mantendo padrões elitistas de urbanização.

No que se refere à edificação, essa forma "econômica" de construir, através do mutirão, mantém o grosso dos recursos financeiros na parte superior do mercado. O SFH não muda substancialmente, como não muda a especulação com a renda fundiária e imobiliária. A indústria de materiais de construção é o único segmento do capital imobiliário que não permanece indiferente à prática do mutirão de casas, já que é a grande beneficiada com sua generalização.

Além de tudo isso, os mutirões têm-se revelado muito eficazes para o clientelismo na relação governo/eleitorado. Com o barateamento de pequenas obras artesanalmente, os governos municipais e estaduais têm condições de multiplicar os recursos destinados à periferia urbana, sem modificar a estrutura dos orçamentos, que respondem, em grande parte, ao interesse das grandes empreiteiras.

O "mutirão das mil casas" vai além dessas constatações que podem ser feitas para os mutirões promovidos pelo Estado. Ele constitui um fato privilegiado para analisar os rumos da política habitacional na chamada "Nova República", e o caráter do Estado.

O aparelho de Estado se apresenta muito mais forte e penetrante na emergência dessa nova fase populista, do que era antes de 1964. O Estado é um grande cliente e empregador por excelência, particularmente dos profissionais, portadores de titulos universitários. A cooptação que se faz através do vínculo empregatício diminui em muito o poder de crítica de profissionais técnicos e intelectuais. Apenas os maiores núcleos urbanos brasileiros, onde o peso do Estado enquanto empregador não é tão alto, e as máquinas são menos centralizadas, fogem a essa regra de grande influência sobre a "opinião pública". Em Goiânia é fácil encontrar arquitetos, engenheiros ou sociólogos que criticam a Vila Mutirão, porém ninguém que assuma publicamente a crítica. A imprensa local, que apoia o governador, censura declarações críticas à sua principal obra. (Goiânia tinha três grandes jornais até 1983, hoje tem apenas um, que apóia Íris Rezende.)

A censura e a coerção não são exercidas diretamente, como o eram durante o governo ditatorial. Elas passam por cooptação e acordos, dos quais não participam os trabalhadores e a imensa população pobre e subempregada de Goiânia.

Nós constatamos na Vila Mutirão o tratamento dado à população que para lá foi deslocada, como objeto e não sujeito da ação.

"...nós fomos para ali igual um bando de rebanho transferido de uma invernada pra outra...". Morador que não quis se identificar (jornal 4 de Outubro, abril de 1984).

O moradores não participaram de qualquer decisão sobre o projeto das casas, a localização da vila, sua construção, o financiamento, etc. E para lá foram levados com promessas ou ameaças veladas.

A necessidade de assegurar o sucesso ou, o que dá no mesmo, impedir o fracasso da Vila Mutirão, "cartão de visita" de Goiânia, levará o governador a assegurar condições "privilegiadas" de moradia àquela população, se tomarmos como referência a situação em que vivem os aproximadamente 200 mil invasores que ocupam a periferia da cidade.

O paternalismo do governador, combinado à coerção exercida pelos fiscais, desestimulam as nascentes manifestações de revolta dos moradores.

"Ali o 'prefeito' Valdeci Camargo controla tudo. A regra é não deixar sair nada de alguém que deva alguma prestação da casa própria. Os fiscais, além dos que ficam nas guaritas, patrulham tudo na vila, cobrando, fazendo ameaças e delatando moradores que por alguma razão estão descontentes com o desconforto da Vila Mutirão." (O Popular, 28/5, jornal que fechou por falência.)

No Natal de 1983, cada família da vila ganhou uma cesta, contendo: 2 l de óleo, 5 kg de arroz, 3 kg de feijão, 2 kg de açúcar, 2 kg de farinha, 1 kg de sal, 1 kg de fubá e um pacote de macarrão.

É um gesto coerente do homem de "mãos calejadas" que cortou o uísque consumido no Palácio do Governo para dar café da manhã às crianças pobres que perambulavam ou dormiam na Praça Cívica, defronte ao palácio, como ele mesmo divulgou em entrevista televisionada.

O tratamento dispensado à Vila Mutirão é, sem dúvida, especial e localizado, e seu efeito publicitário multiplicado eletronicamente pela TV. Os graves problemas de moradia que Goiânia apresenta, representado pelas invasões que permanecem sem infra-estrutura, têm sido ignorados pelo governo. Para enfrentá-los, o governador teria de se defrontar com seus aliados: os loteadores, os grandes proprietários de terras, os promotores imobiliários e as empreiteiras.

Além disso, o governador teria de se defrontar ainda com a chamada União das Invasões, que, além dos professores estaduais, é o único grande centro de resistência à sua hegemonia.

A União dos Posseiros de Goiânia (UPG), associação que reúne inúmeras áreas de invasão, desenvolveu proposta acerca da doação das terras. Eles pretendem e exigem participar como sujeitos de sua própria história. Em que pesem as tentativas de divisão, cooptação e manipulação pelo Estado, até certo ponto bem-sucedidas, há um espaço de liberdade e autonomia em Goiânia, é a UPG.

 

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