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Lua Nova: Revista de Cultura e Política

Print version ISSN 0102-6445

Lua Nova  no.34 São Paulo Dec. 1994

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-64451994000300005 

FRONTEIRAS

 

A geopolítica do poder terrestre revisitada

 

The geopolitics of land power revisited

 

 

Leonel Itaussu Almeida Mello

Professor do Departamento de Ciência Política da USP

 

 


RESUMO

O pensamento geopolítico do geógrafo inglês Halford Mackind-er é revisitado com três objetivos: a) analisar criticamente os conceitos que formam o arcabouço da teoria do poder terrestre; b) enfocar à luz dessa teoria a vitória incruenta da potência insular americana sobre a potência continental soviética no âmbito do sistema bipolar da Guerra Fria; c) discutir a atualidade ou obsolescência da geopolítica de Mackinder no contexto da "nova ordem mundial" emergente.


ABSTRACT

The goepolitical ideas of the English geographer Halford J. Mackinder are revisited in order to examine the foundations and contemporary relevance, or obsolescence, of his theory of the land power.


 

 

Para usar uma metáfora aroniana, em 1989-91 a baleia americana venceu a Guerra Fria contra o urso russo. Em termos geopolíticos e estratégicos, é incontestável que o fim da Guerra Fria representou uma vitória incruenta do poder naval norte-americano sobre o poder continental soviético. Os Estados Unidos emergem agora como a única superpotência global multidimensional do mundo pós-Guerra Fria, enquanto a Rússia pós-soviética tornou-se apenas uma superpotência unidimensional de âmbito regional. No contexto da "nova ordem mundial" Washington é simultaneamente uma superpotência política, econômica, militar e tecnológica, Moscou é unicamente uma superpotência militar às voltas com a tentativa de restaurar sua influência sobre o "estrangeiro próximo", ou seja, as repúblicas não-russas que se desligaram do ex-império soviético.

Como ocorreu nas duas guerras mundiais anteriores, ser que a vitória da ilha-continente americana sobre o Estado-pivô soviético na "Terceira Guerra Mundial" — denominação dada por alguns falcões à confrontação leste-oeste — representa finalmente um decisivo e irreversível triunfo do poder marítimo sobre o poder terrestre? Ou é possível que não tenha se travado ainda o último lance da partida iniciada pelos cavaleiros do cossaco Yermak, com a conquista das estepes da Sibéria, e pelos marinheiros de Vasco da Gama, com a descoberta do caminho para as Índias? Em suma, será factível sustentar que, a despeito das sucessivas vitórias das potências oceânicas sobre as potências continentais, a derrota do Estado-pivô russo frente ao Estado-insular americano não é definitiva, mas um revés apenas temporário?

Essas interrogações deliberadamente provocativas, polêmicas e problemáticas oferecem a oportunidade para revisitar o pensamento de Halford J. Mackinder (1861-1947), o geógrafo inglês que há noventa anos enunciou as linhas mestras da teoria do poder terrestre.1 Para o estudioso das relações internacionais não constitui apologia, mas fato reconhecido, afirmar que Mackinder é hoje um clássico nos campos da geopolítica e da estratégia. Ao lado de suas congêneres do poder marítimo e do poder aéreo, sua teoria do poder terrestre firmou-se como um dos pilares do pensamento geopolítico deste século, além de produzir uma "revolução coperni-cana" na concepção estratégica navalista do século passado.

No que tange à geopolítica, Mackinder subverteu a cosmovisão da história e da geografia tradicionais, que situavam a Europa no umbigo do mundo desde a época das grandes navegações e dos descobrimentos. A centralidade ocupada pela Europa na cultura, na política e na economia mundiais foi transposta para a linguagem cartográfica moderna por Gerar-dus Mercator (1512-1594), autor do famoso mapa-múndi que leva seu nome. Ademais, impregnada pela ideologia colonialista da "missão civili-zadora" da raça branca, a Weltanschauung vitoriana do século XIX permaneceu radicalmente ocidentalista e eurocêntrica.

Coube ao geógrafo inglês revolucionar essa cosmovisão em três aspectos essenciais. Historicamente, o desenvolvimento da civilização européia deixou de ser tratado como um processo autocentrado para subordinar-se à dinâmica mais ampla da história asiática. Geograficamente, a Europa deixou de ser vista como um continente à parte para tornar-se uma pequena península de um continente maior denominado Eurásia. Cartogra-ficamente, a Europa foi deslocada para o noroeste do planisfério cedendo sua posição axial ao grande núcleo interior da massa eurasiática. Elaborando, por assim dizer, uma nova filosofia da história, Mackinder concebeu o desenvolvimento da civilização européia como produto da reação vitoriosa ao desafio imposto pelas seculares invasões asiáticas. Essas pressões externas eram promovidas por hordas de cavaleiros nômades que, operando desde o interior do grande continente, pressionavam as regiões marginais da Eurásia.

 

A TEORIA DO HEARTLAND

A noção de Eurásia é a moldura na qual se insere o conceito estratégico de Heartland — coração continental/ terra central/ região-pivô — que constitui a pedra basilar da teoria do poder terrestre. A Eurásia abrangia uma extensão de 54 milhões de km2 e abrigava em suas regiões marginais dois terços da população do planeta. Seu núcleo interior media 23 milhões de km2 e era esparsamente habitado por belicosos povos nômades-pastoris. Em termos descritivos o Heartland abarcava o centro e o norte da Eurásia, abrangendo em suas linhas gerais o território da Rússia czarista do início do século. No sentido norte-sul o Heartland estendia-se das costas geladas do oceano Ártico aos desertos da Ásia Central; na direção leste-oeste, dos confins da Sibéria às terras situadas entre os mares Branco e Negro.

 

 

O gigantesco núcleo do continente eurasiático possuía duas características principais. A primeira era seu isolamento mediterrâneo em relação ao mundo exterior, uma vez que seus rios navegáveis desembocavam nos lagos e mares do interior da Eurásia ou nas costas do oceano Ártico. A segunda era sua topografia plana, principalmente na extensa faixa das estepes meridionais, que oferecia condições ideais à mobilidade dos povos nómades-pastoris da ásia Central. Isto fazia do Heartland, uma fortaleza natural inaccessível ao assédio do poder marítimo das potências insulares e propícia ao desenvolvimento do poder terrestre da potência que dominasse aquela região basilar.

Em torno do Heartland articulavam-se quatro regiões marginais, que formavam as linhas costeiras da Eurásia e estavam localizadas dentro do raio de ação do poder marítimo. Essas regiões formavam o "crescente interno ou marginal" (Inner Crescent) integrado pela Europa, Oriente Próximo, Índia e China. Focos de irradiação de quatro grandes religiões — cristianismo, islamismo, hinduísmo e budismo — as quatro regiões marginais concentravam três quartos da população da Eurásia Por sua vez, o "crescente interno" estava circundado pelo "crescente externo ou insular" (Outer Crescent), formado pelas duas Américas e a Austrália, que eram ilhas-continentes separadas da Eurásia pelos fossos do Atlântico e do Pacífico. Em síntese, a região-pivô era dominada pela Rússia; o grande arco interior formado pela a Alemanha, Áustria, Turquia, Índia e China; e o grande arco exterior composto pela Inglaterra, Canadá, Estados Unidos, África do Sul, Austrália e Japão.

Quanto à questão estratégica, em 1815 um novo sistema europeu foi estabelecido pelo Congresso de Viena após o fim das guerras da Revolução e do Império. Denominado "concerto europeu", o novo sistema de poder assegurou ao continente um prolongado período de trégua que se estendeu até a Primeira Grande Guerra. O equilíbrio de poder entre as grandes potências continentais — Áustria, Prússia, Rússia e França — permitiu à Inglaterra insular desenvolver uma política bifronte: isolacionista em relação à Europa e imperialista no resto do globo. A Pax Britannica foi o corolário desse sistema internacional regional, multipolar e homogêneo. A estratégia navalista inglesa baseava-se no postulado de que a segurança das Ilhas Britânicas estava garantida por um poder marítimo que — controlando os oceanos com a esquadra de guerra, a marinha mercante e a rede de bases espalhadas pelo planeta — constituía a chave da hegemonia mundial da "pérfida Albion".

Paradoxalmente, não foi um súdito de Sua Majestade, mas o almirante americano Alfred T. Mahan (1840-1914) o pai-fundador da teoria do poder marítimo. Sua obra transformou-se na bíblia dos partidários do "destino manifesto" e dos defensores da política de expansão do poderio naval norte-americano.2 Em 1898, a conquista de Porto Rico e das Filipinas, com a vitória na Guerra Hispano-Americana, consolidou o poder marítimo ianque no Caribe e no Pacífico. Em 1914, a abertura do canal do Panamá no istmo centro-americano possibilitou a junção das frotas do Atlântico e do Pacífico transformando os Estados Unidos numa grande potência marítima e insular. Na concepção estratégica de Mahan, os Estados Unidos deveriam concentrar-se em três objetivos essenciais: assegurar um incontestável hegemonia no continente americano, conter o expansionismo japonês no extremo-oriente e, a médio prazo, arrebatar da Inglaterra a supremacia marítima mundial.

É contra esse pano de fundo, quando os mais argutos observadores já vislumbravam graves rachaduras no sistema internacional, que Mackinder realizou sua "revolução copernicana" ao colocar em cheque a teoria mahaniana do poder marítimo. Tal revolução consistiu na formulação de uma nova teoria — a do poder terrestre — que atribuía ao Heartland um papel estratégico fundamental na política de poder das grandes potências.

Segundo Mackinder, a exploração dos inesgotáveis recursos da região basilar da Eurásia daria ao Estado que a controlasse condições para desenvolver um inexpugnável poder terrestre. Entrincheirado no coração do continente, esse poder terrestre poderia resistir ao assédio do poder marítimo, cujo raio de ação limitava-se às quatro regiões marginais da Eurásia. Se o Estado-pivô conseguisse apossar-se de uma vasta frente oceânica poderia canalizar os recursos do Heartland para a edificação de um poder marítimo. A ascensão de um poder anfíbio, sem igual no continente eurasiático e capaz de rivalizar com a Inglaterra nos oceanos, acabaria por suplantar o poder marítimo inglês na luta pela preponderância mundial. É importante ressaltar que, para o geógrafo inglês, eram mais propícias as condições para o poder terrestre construir uma esquadra e lançar-se ao oceano a partir de sua plataforma continental, que para o poder marítimo organizar um exército e lançar-se à terra a partir de sua base insular.

Mackinder ressaltou também a grande importância das inovações tecnológicas na luta secular entre o oceanismo e o continentalismo. No início dos tempos modernos, as novas técnicas de navegação oceânica — caravela, bússola, pólvora, astrolábio, etc —- permitiram aos europeus aportar nos novos continentes, descobrir o caminho para as Índias e implantar a hegemonia do poder marítimo por um período de quatro séculos, que Mackinder denominou era colombiana. No século XIX, a invenção do barco a vapor e a abertura do canal de Suez encurtaram as distâncias entre o Ocidente e o Oriente e deram ao poder marítimo uma mobilidade muito superior a do poder terrestre. A ascensão da Inglaterra como grande potência naval e o estabelecimento da Pax Britannica no sistema mundial coroaram a época de ouro do poder marítimo.

Entretanto, na virada do século o advento de novas tecnologias nos meios de transporte ameaçavam, revolucionar a mobilidade do poder terrestre com a interligação dos vastos espaços do interior da Eurásia. Na visão de Mackinder essas novas técnicas poderiam representar o dobre de finados do poder marítimo e o começo de uma nova era marcada pela preponderância do poder terrestre, denominada pelo geógrafo inglês de época pós-colombiana. A invenção da locomotiva e a construção das ferrovias transcontinentais poderiam vir a neutralizar a importância do barco a vapor e do canal de Suez, alterando a favor do poder terrestre a correlação de forças que desde as grandes navegações assegurou a supremacia do poder marítimo. O geógrafo inglês lançou o alerta para o perigo que representava para o poder marítimo britânico uma eventual aliança entre duas grandes potências continentais, cuja mobilidade terrestre estava sendo incrementada pelas ferrovias e locomotivas: a Alemanha, situada no centro da Europa, e a Rússia, soberana do Heartland eurasiático.

 

AS DURAS RÉPLICAS DA HISTÓRIA

Contrariando tal expectativa, a Rússia acabou aliando-se à Inglaterra contra a Alemanha durante a Primeira Grande Guerra, somente retirando-se do conflito após o triunfo da revolução bolchevique. Ademais, com a vitória do poder marítimo anglo-americano sobre o poder terrestre germânico, o desfecho da guerra pareceu desmentir cabalmente as reflexões teóricas do geógrafo inglês. A despeito da dura réplica dos fatos, Mackinder desenvolveu mais extensamente a teoria do poder terrestre quando participou da Conferência de Paris, em 1919.3 Em livro publicado naquele ano procurou demonstrar que a vitória do poder marítimo inglês sobre o poder terrestre alemão deveu-se ao fato do Estado-pivô russo combater ao lado da ilha-fortaleza britânica durante a maior parte da guerra. Forçada a dividir suas forças em duas frentes, a Alemanha exauriu-se numa prolongada guerra de trincheiras. A defecção russa só ocorreu quando as forças germânicas estavam próximas da exaustão e foi largamente compensada pelo engajamento direto dos Estados Unidos na última fase da guerra.

Além disso, a inusitada combinação de fatores teria sido agravada pela estratégia errônea do Plano Schilieffen, que priorizou a concentração de forças na frente ocidental em detrimento das operações militares na frente oriental. Isso impediu que os alemães vencessem primeiramente a Rússia — elo mais fraco da Entente — e dominassem os vastos espaços do interior da Eurásia Caso tivessem se apossado dos recursos do Heart-land, os alemães estariam em condições de travar uma guerra prolongada e "obter uma vitória militar ou, no mínimo, impor uma paz hegemônica ao poder marítimo britânico. Assim, ao contrário do que parecia indicar a dura réplica dos fatos, o desfecho da guerra fortaleceu no geógrafo inglês a convicção da validade de sua teoria do poder terrestre.

Assessorando a diplomacia inglesa nas negociações de paz, Mackinder propôs que as potências vitoriosas criassem no leste europeu uma cadeia de Estados-tampão desde o mar Báltico até os mares Negro e Adriático. Esta proposta está na origem da criação dos Estados bálticos, Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Iugoslávia, Bulgária e Romênia, com territórios arrancados aos três impérios desaparecidos: o russo, o alemão e o austro-húngaro. A função estratégica desse "cordão sanitário" era separar e impedir uma futura aliança entre as duas potências marginalizadas pelo sistema de Versalhes: a Alemanha vencida e a Rússia bolchevique. Na época Mackinder cunhou uma célebre fórmula lapidar que influenciou profundamente o pensamento geopolítico subseqüente: "quem domina a Europa Oriental controla o Heartland; quem domina o Heartland controla a World Island; quem domina a World Island controla o mundo". Ressalte-se que World Island (Ilha Mundial) era a denominação dada por Mackinder ao duplo continente formado pela Eurásia-África.

Porém, o "cordão sanitário" mackinderiano demonstrou ser um arranjo geopolítico demasiado frágil para isolar as duas potências continentais. Com a ascensão do nazismo começou o desmantelamento da barreira de contenção européia oriental pela política de agressão hitlerista, auxiliada em parte pelo apaziguamento franco-britânico. Em 1939, o pacto de não-agressão germano-russo e a partilha da Polônia neutralizaram temporariamente a frente oriental, permitindo aos alemães conquistar fulminantes vitórias na frente ocidental. Entretanto, protegida pelo escudo da Royal Navy e pela insularidade de sua posição geográfica, a Inglaterra continuou resistindo do outro lado do canal da Mancha. Essa situação perdurou até 1941, quando a máquina de guerra nazista invadiu a União Soviética, abrindo uma nova frente de batalha no leste da Europa contra o Estado-pivô eurasiático.

Dois anos depois, quando a maré da guerra começava a refluir contra o nazi-fascismo, o geógrafo inglês publicou um artigo no qual realizou um último balanço de sua já então clássica teoria do poder terrestre. Nesse artigo, considerado seu testamento intelectual, Mackinder ressaltou a importácia estratégica do Heartland na resistência soviética contra o avanço nazista, para depois afirmar enfaticamente: "consideradas todas as coisas é inevitável a conclusão de que se a União Soviética emerge desta guerra como conquistadora da Alemanha, deve ser classificada como a primeira potência do globo. Será ademais a potência colocada estrategicamente na posição mais vantajosa do ponto de vista defensivo. O Heartland é a maior fortaleza natural do planeta. Pela primeira vez na história está guarnecido por uma força suficiente tanto em número quanto em qualidade".4

Nesse último trabalho, a substituição do planisfério pelo globo permitiu ao geógrafo inglês adicionar novas contribuições à teoria do poder terrestre. O "mundo redondo" abriu a Mackinder uma inusitada perspectiva das relações entre as massas terrestres e os mares que as circundam, permitindo-lhe complementar o conceito de Heartland com um novo conceito, o de Midland Ocean (Oceano Central). A rigor, o Midland Ocean era a contraface do Heartland: o Oceano Central era o equivalente marítimo da Terra Central. Ambas as unidades estavam situadas no Hemisfério Norte e eram circundadas por um vasto cinturão de areia e gelo, habitado por uma população rarefeita. Esse cinturão estendia-se em arco desde o deserto do Saara, passando pelas regiões áridas e montanhosas da Arábia, Tibete e Mongólia, atingindo as regiões polares da Sibéria, Alasca e Canadá, até chegar ao oeste semi-árido dos Estados Unidos. Na parte meridional desse cinturão semipovoado localizavam-se, a Ocidente, as florestas tropicais da América do Sul e da África e, a Oriente, as regiões monçônicas da Índia e da China, habitadas na época por um bilhão de seres humanos.

Assim descreveu Mackinder as grandes linhas de seu novo conceito: "dessa proposta nasce meu segundo conceito geográfico, o de Midland Ocean ou Atlântico Norte com seus mares dependentes e as bacias de seus rios. Sem entrar nos pormenores desta noção, permitam-me representá-lo em seus três elementos: uma cabeça de ponte na França, um aeródromo protegido por fossos (os mares e canais circundantes) na Inglaterra, e uma reserva de forças bem adestradas, de recursos agrícolas e industriais no leste dos Estados Unidos e Canadá. No que diz respeito ao potencial bélico tanto Estados Unidos como Canadá são países atlânticos, e enquanto se tiver em conta a eventualidade de uma guerra terrestre, também a cabeça de ponte e o aeródromo são elementos essenciais para o poder anfíbio".5

É impossível deixar de perceber que ao esboçar o conceito de Midland Ocean o geógrafo inglês formulou com antecedência as idéias básicas de dois acontecimentos históricos fundamentais para o mundo ocidental. O primeiro deles, ocorrido um ano depois, foi a operação estratégica que culminou no desembarque da Normandia e na abertura da segunda frente na Europa Ocidental, que reproduziu literalmente o esquema de Mackinder: a arregimentação de recursos materiais e humanos nos Estados Unidos-Canadá , a concentração dos mesmos na Inglaterra e, finalmente, seu desembarque na França. O segundo, oficializado em 1949, foi a formação da Aliança Atlântica (OTAN), liga marítima que agrupou as potências marginais e insulares dos dois lados do Atlântico Norte.

A Segunda Guerra Mundial terminou com uma nova derrota do poder terrestre alemão frente"ao poder marítimo anglo-americano, aliado ao Estado-pivô soviético. Contudo, a União Soviética saiu da guerra semi-destruída, ao passo que os Estados Unidos dela emergiram na inquestionável posição de herdeiros do decadente poder marítimo britânico. A ilha-continente do hemisfério ocidental assumiu o papel de superpotência insular mundialmente hegemônica, exceção feita ao Estado-pivô soviético e aos países da Europa Oriental. A morte de Mackinder em 1947 coincidiu com o começo da Guerra Fria e a estruturação de um sistema internacional bipolar hegemonizado pelas duas superpotências: uma oceânica e outra continental. A Oeste, a Aliança Atlântica (OTAN), liga do poder marítimo liderada pela ilha-continente estadunidense; a Leste, o Pacto de Varsóvia, coalizão do poder terrestre sob comando do Estado-pivô soviético. E, no contexto da confrontação leste-oeste, a trégua entre o império do Midland Ocean e o império do Heartland passou a ser assegurada nas décadas seguintes pelo empate estratégico termonuclear consubstanciado no "equilíbrio do terror".

Essa situação perdurou até 1989, quando o sistema bipolar da Guerra Fria entrou em colapso com a queda do Muro de Berlim e a desintegração do bloco socialista da Europa Oriental. Dois anos depois a im-plosão da própria União Soviética deu origem a uma série de Estados independentes nas regiões periféricas do Báltico, Bielo-Rússia, Ucrânia, Cáucaso e Ásia Central. Embora recuando praticamente às fronteiras do século XVIII, é importante notar que a Rússia conservou o domínio da maior parte do Heartland eurasiático e procurou conservar o controle dos portos que dão acesso aos "mares quentes", como Sebastopol no mar Negro e Vladivostok no mar do Japão.

O fim do comunismo nos países do leste europeu e a sucessão dos povos não-russos do império soviético constitui, por assim dizer, a última etapa do processo de descolonização iniciado no segundo pós-guerra com o desmantelamento dos impérios coloniais britânico e francês. O fato importante a reter é que o desaparecimento da União Soviética resultou da vitória incruenta da superpotência insular americana sobre a superpotência terrestre eurasiática. A terceira vitória do oceanismo sobre o continentalismo assinalou o fecho do século XX, o "século curto" que, segundo Eric Hobsbawn, começou tardiamente com a derrocada do concerto europeu em 1914 e terminou precocemente com o colapso do sistema bipolar da guerra fria em 1989.

 

OBSOLETO OU ATUAL?

No plano da reflexão teórica, as duras réplicas da história já haviam sido registradas por Raymond Aron quase três décadas antes da queda do Muro de Berlim. Naquela época o pensador francês empreendeu um balanço crítico da teoria de Mackinder, passando em revista seu "esquematismo geográfico", o fracasso de sua zona-tampão separando russos e alemães e sua influência sobre a ideologia geográfica do "espaço vital", desenvolvida pela Geopolitik alemã sob os auspícios do general Karl Haushofer e da Escola de Munique. O veredicto de Aron sobre a obra de Mackinder foi deveras contundente: "relido em 1960, o geógrafo inglês parece ter tido a pior das sortes possíveis para um conselheiro do Príncipe: foi ouvido pelos estadistas, mas ignorado pelos acontecimentos".6

Embora supostamente desmentido pelos fatos, é possível que algo do pensamento do geógrafo inglês tenha sobrevivido às mudanças radicais e às bruscas guinadas do curso da história ao longo deste século. Se assim for, será de grande utilidade analisar o passado recente e as transformações em curso à luz da teoria de Mackinder. Claro está que, levando em conta os eventos das últimas décadas, isso significa enfrentar uma série de problemas que sequer se colocavam no horizonte do geógrafo inglês na primeira metade deste século.

Interessante observar que a desintegração do bloco socialista e a implosão da União Soviética acabaram criando no pós-Guerra Fria um contexto geopolítico que guarda enormes semelhanças com aquele existente na primeira metade deste século. Em grandes linhas o contexto atual apresenta a seguinte configuração: uma Alemanha reunificada despontando como a grande potência do centro da Europa; uma Rússia amputada em seus territórios periféricos mas conservando o domínio da maior parte do Heartland eurasiano; um mosaico de Estados-amortecedores do mar Báltico até os mares Negro e Adriático oscilando pendularmente entre as duas potências continentais.

De quebra, para completar esse quadro bastante familiar acrescente-se a guerra entre sérvios, croatas e muçulmanos na ex-Iugoslávia. O sítio de Sarajevo, as "limpezas étnicas" na Bósnia e o apoio dos russos aos sérvios parecem girar para trás a roda da história e transportar o observador para as crises balcânicas do passado, quando a região transformou-se no estopim da Primeira Grande Guerra. Diante de semelhanças tão inquie-tantes é quase impossível deixar de traçar paralelismos, fazer analogias ou estabelecer comparações entre o tabuleiro geopolítico do começo do século e aquele que se desenha atualmente.

A médio prazo a questão que se coloca é saber se a Alemanha unificada manterá seus laços econômicos com a União Européia e seus vínculos militares com a Aliança Atlântica ou se retomará sob novas roupagens sua quase milenar tendência geo-histórica do Drang nach Osten? O reconhecimento diplomático unilateral da independência da Eslovênia e da Croácia — países da ex-Iugoslávia com passado de forte influência germânica — realizado sem prévia consulta aos aliados ocidentais, representou um fato consumado que causou arrepios aos membros da União Européia. Some-se a isso o fato da Alemanha, mesmo passando por uma conjuntura recessiva, ter sido até agora a responsável pela maior parte da ajuda econômica e financeira fornecida pelo Ocidente à Rússia pós-soviética. Nesse caso, vale recordar que a Rússia é a outra grande potência continental e um país que, como pode ser rastreado na história, possui também uma secular tradição de influência germânica.

A outra questão consiste em saber se a nova Rússia, recuada aos limites de dois séculos atrás, irá manter-se dentro de suas fronteiras atuais e aceitar seu isolamento geopolítico mediterrâneo ou retomar seu impulso geo-histórico grão-russo de controlar o "estrangeiro próximo" e abrir caminho em direção aos "mares quentes"? O esforço para estabelecer uma área de influência do rublo na Comunidade de Estados Independentes (CEI), a intervenção camuflada ou ostensiva nos lutas étnicas do Cáucaso e da Moldava, a tentativa de conservar a soberania na Criméia, o controle do porto de Sebastopol e da esquadra do mar Negro, são indícios preocupantes da futura conduta diplomática e estratégica de Moscou em relação aos países recém-independentes do ex-império soviético. O que poder vir a acontecer se as mudanças na conjuntura européia ou a volatilidade das relações interestatais criarem condições para uma aproximação informal entre a Alemanha e a Rússia, configurando aquele cenário hipotético que era o grande pesadelo de Mackinder?

No início deste ano o líder ultranacionalista Vladimir Jirinovski concedeu em Moscou entrevista a Rolf Gauffin, da revista geopolítica italiana Limes, na sede do Partido Liberal Democrático da Rússia.7 Tal evento desenrolou-se à frente de dois mapas-múndis atuais, que foram utilizados por Jirinovski para redesenhar as fronteiras da Europa e da Ásia Central. No mapa de Jirinovski os países Bálticos, Rússia Branca, Ucrânia Oriental e Moldava, assim como as repúblicas centro-asiáticas, serão "cedo ou tarde" reincorporadas à Rússia. A Alemanha desempenha também papel primordial na geopolítica do deputado russo, que advoga o ressurgimento de uma Grande Alemanha no centro da Europa. De acordo com Jirinovski, a Polônia Ocidental (territórios da antiga Prússia cedidos em 1945 ao renascido Estado polonês) deve retornar à soberania alemã. Além disso, afirma ele, "a Áustria e a Eslovênia devem juntar-se à Alemanha, que desta maneira ter acesso ao Adriático. A República Tcheca ter que ser inteiramente absorvida pela Alemanha. E é possível que também devolvamos a ela, algum dia, Königsberg/ Kaliningrado".

Finalmente, Jirinovski completa sua revisão do mapa europeu com o seguinte fecho de ouro: "um dia, no futuro, a Grande Alemanha e a nova Rússia formarão uma aliança. E juntos neutralizaremos a Europa". Á primeira vista, isso tudo pode soar como delírios geopolíticos e estratégicos de um ultranacionalista esquizofrênico, completamente descolado das realidades da conjuntura européia e da "nova ordem mundial". Entretanto, para aqueles que conhecem o pensamento de Mackinder, trabalham com perspectivas geo-históricas de longo prazo e sabem que Jirinovski comanda um partido com mais de 20% dos votos nas últimas eleições parlamentares russas, essas frases soam de maneira diferente e são deveras preocupantes.

Análise instigante foi desenvolvida em 1992 por Samuel P. Huntington, diretor do Instituto de Estudos Estratégicos John M. Olin, da Universidade de Harvard.8 O trabalho é um esforço no sentido de redefinir as prioridades da política de poder americana tendo em vista as novas realidades geopolíticas emergentes no mundo do pós-Guerra Fria. Uma destas prioridades é a manutenção do equilíbrio de poder Eurásia, ou seja, para os novos interesses estratégicos americanos é de vital importância impedir o surgimento de poder político-militar (ou de um bloco de poder) dominante no continente eurasiático. A "balcanização" da Rússia atual criaria uma "Iugoslávia" de proporções continentais, abrindo no Heartland um vácuo de poder que desestabilizaria toda a Eurásia. Uma crise desse porte poderia criar condições para que o Heartland fosse ocupado pela única potência rival fronteiriça capaz de preencher tal vazio de poder: a China.

Essa hipótese, remota a primeira vista, tem vários precedentes históricos já apontados por Mackinder, entre os quais as sucessivas invasões sofridas pela Europa medieval por belicosas hordas de origem asiática. A mais célebre delas ocorreu no fim do medievo, quando a Sibéria e a Rússia meridional foram conquistadas por tribos nômades oriundas da Ásia Central: os mongóis. Além de dominar grande parte da Europa Oriental, os mongóis atacaram também as outras regiões marginais da Eurásia conquistando a Pérsia, a Índia e a própria China.

A China é a grande potência militar e econômica com os mais altos índices de crescimento nesse final de século. Se este gigante territorial e demográfico da Ásia viesse a dominar o Heartland conquistaria uma posição geo-estratégica muito superior à que a Rússia desfruta atualmente. A China poderia conjugar sua frente oceânica — vantagem que a Rússia nunca possuiu — com a retaguarda continental da região-pivô, ascendendo a médio prazo à posição de potência simultaneamente terrestre e marítima. O surgimento desse poder anfíbio subverteria totalmente o equilíbrio de poder na Eurásia. Seria o caso de recordar que essa possibilidade foi também aventada por Mackinder em 1904, exatamente na conclusão da conferência proferida na Royal Geographical Society?

O que foi dito demonstra ser fundamental para os novos interesses estratégicos americanos a existência de uma Rússia relativamente coesa e com o firme controle do Heartland eurasiano. Essa Rússia seria o fiel da balança de poder no Velho Continente, equilibrando a China e a Alemanha nas duas pontas da Eurásia. A hipótese de uma parceria geopolítica entre o Midland Ocean e o Heartland — contrabalançando a Alemanha e o Japão "domesticados" e os grandes países superpovoados da Ásia Monçônica — havia sido explicitamente sugerida por Mackinder no final do artigo de 1943. Assim, uma convergência de interesses entre a baleia americana e o urso russo no pós-Guerra Fria, ou seja, do poder global que controla o Midland Ocean e com o poder regional que domina o Heartland, não descortina um inusitado cenário hipotético que permite reler com outros olhos o testamento intelectual do geógrafo inglês?

 

DE VOLTA PARA O FUTURO

No próximo século, com a ascensão do Japão, da China e dos "tigres asiáticos", outro cenário possível é o deslocamento do eixo econômico mundial do Atlântico para a bacia do Pacífico. Se isso vier a ocorrer como fica a questão da centralidade do Midland Ocean para a Aliança Atlântica e para a hegemonia dos Estados Unidos? Vale lembrar que o conceito mackinderiano de Midland Ocean incluía três elementos essenciais: uma reserva de homens, armas e suprimentos nos Estados Uni-dos-Canadá; um aeródromo protegido por fossos na Inglaterra; e uma cabeça de ponte para desembarque na França.

Para o geógrafo inglês do começo do século, que olhava o mundo pela janela da Inglaterra — "esse rincão do extremo Ocidente" — a possibilidade de deslocamento do eixo econômico atlântico era impensável na época e não entrava no campo de suas cogitações geopolíticas. Uma coisa era anunciar em 1904 o fim da época colombiana e o advento da pós-colombiana, como marco de um possível desafio do poder marítimo por um poder terrestre emergente. Outra coisa muito diferente era projetar para o século XXI uma hipotética era do Pacífico, com todas as conseqüências que poderia acarretar para o poder marítimo da Inglaterra insular, ocidental e atlântica. Além disso, é preciso não esquecer que o "milagre japonês", a ascensão dos "tigres asiáticos" e a modernização da China são fenômenos recentes, que só se tornaram perceptíveis nas décadas seguintes à morte de Mackinder.

Uma hipótese plausível é que o conceito de Midland Ocean, assim como o de Heartland, seja mais estratégico que geográfico. É preciso, ademais, levar em conta alguns dados da geopolítica da bacia do Pacífico. Os Estados Unidos são uma superpotência bioceânica com uma posição insular geopoliticamente configurada desde que a abertura do canal do Panamá. A Califórnia, debruçada sobre o Pacífico, tornou-se o Estado mais rico da União, conectando-se com o ecúmeno do nordeste americano através de um rede rodo-ferroviária ou cruzando o canal em direção à costa atlântica. A noroeste, o Alasca ocupa no Pacífico Norte posição geo-estratégica equivalente à da Groelândia/Islândia no Atlântico Norte. O mesmo vale para o arquipélago do Havaí, cuja posição-chave no Pacífico Norte é comparável à do arquipélago dos Açores no Atlático Norte. Finalmente, o controle do "triângulo estratégico" do almirante Mahan, com vértices no Panamá, Alasca e Havaí, confere aos norte-americanos uma hegemonia naval incontestável no Pacífico Norte.

Se o conceito de Midland Ocean é predominantemente estratégico, por que não poderia ser também utilizado para pensar o Pacífico Norte, com suas Áreas insulares e regiões adjacentes, como o Midland Ocean do século XXI? Se usarmos o mesmo esquema geopolítico aplicado por Mackinder ao Atlântico Norte, não seria possível vislumbrar igualmente no Pacífico Norte os três elementos essenciais de novo Midland Ocean: uma reserva de recursos materiais e humanos na costa oeste dos Estados Unidos (Califórnia e Washington); um aeródromo protegido por fossos (os mares e canais circundantes) no Japão; e uma cabeça de ponte continental na Coréia do Sul (o mais poderoso militar e economicamente dos NICs asiáticos), como elos essenciais do poder anfíbio? Nesse caso, uma futura transferência do eixo econômico do Atlântico para o Pacífico não viria a afetar estrategicamente o poder marítimo americano. Esse poder estaria assegurado pela posição bioceânica e insular dos Estados Unidos e pelo controle do "triângulo estratégico" de Mahan, que fizeram do Pacífico Norte um mare nostrum americano desde a batalha de Midway, em 1942. O fato é que desde então nenhuma grande potência da Ásia Oriental — Rússia, China ou Japão — tentou desafiar a supremacia oceânica americana no Pacífico Norte.

Feitas as contas, o pensamento geopolítico de Mackinder parece ter resistido a contento e sobrevivido relativamente incólume aos grandes abalos decorrentes do colapso do sistema do segundo pós-guerra. A queda do Muro de Berlim, o desaparecimento do bloco socialista, o esfacelamento da União Soviética, a reunificação da Alemanha, a modernização da China, a ascensão do Japão e do bloco do Pacífico e a emergência dos Estados Unidos como única superpotência global multidimensional não colocaram em cheque nem invalidaram totalmente o aparato conceituai que forma o arcabouço da geopolítica de Mackinder. Os conceitos de Heartland, Midland Ocean, Inner Crescent e Outer Crescent, assim como a concepção geo-histórica do mundo como sistema político fechado onde se desenrola a pugna oceanismo x continentalismo, são ainda instrumentos válidos para a com-preeensão do colapso do sistema bipolar da Guerra Fria e da realidade emergente sob o rótulo de "nova ordem mundial".

A despeito do que possam pensar certos idealistas políticos ou outros que se autodenominam "científicos", Mackinder em matéria de relações internacionais — assim como Hegel em filosofia — não é "cachorro morto". O núcleo duro de seu pensamento continua vivo e atual: é uma ferramenta útil e necessária à análise realista da política de poder das grandes potências que controlam o tabuleiro geopolítico mundial. No horizonte histórico das próximas décadas, até onde alcançam meus olhos míopes, não consigo vislumbrar seja a violência legítima monopolizada pelo império universal, seja a paz perpétua kantiana da federação de repúblicas livres. Nem a paz pela força nem a paz pela lei despontam como alternativas concretas à política de poder maquiavélico-hobbesiana que vigora há séculos na arena planetária. Tudo indica que a propalada "nova ordem mundial" coexistirá por muito tempo com um sistema de Estados semelhante a uma mesa de bilhar onde é da própria natureza do jogo que as bolas se choquem umas contra as outras. Até prova em contrário, como testemunham os conflitos da Bosnia, do Cáucaso e do Golfo, as relações interestatais devem permanecer no "estado de natureza" e desenvolver-se "à sombra da guerra", balizadas por um sistema internacional que, na contramão de piedosas utopias, continuará sendo anárquico, hierárquico e oligopolístico.

 

 

1 Mackinder, Halford J. "The Geographical Pivot of History" in Geographical Journal, Vol. 23, (1904), pp 421-437.         [ Links ]
2 Mahan, Alfred T. The Influence of Sea Power upon History, 1660-1783. London, Methuen & Co, 1965.         [ Links ]
3 Mackinder, Halford J. Democratic Ideals and Reality (With Additional Papers), New York, The Norton Library, 1962.         [ Links ]
4 Mackinder, Halford J. "The Round World and the Winning of the Peace". Foreign Affairs, Vol. 21 (July 1943), pp. 595-605.         [ Links ]
5 Mackinder, Halford J. Idem, ibidem.
6 Aron, Raymond. Paz e Guerra entre as Nações. Brasília, Editora UNB, 1986, p. 268.         [ Links ]
7 Gauffin, Rolf. "Jirinovski redesenha o mapa da Europa." Folha de S.Paulo, 20/02/1994, p. 3-3.         [ Links ]
8 Huntington, Samuel P. "A mudança nos interesses estratégicos americanos". Política Externa 1, nº 1, pp. 16-41.         [ Links ]

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