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Lua Nova: Revista de Cultura e Política

Print version ISSN 0102-6445

Lua Nova  no.70 São Paulo  2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-64452007000100002 

Eduardo Kugelmas

 

 

Brasílio Sallum Jr.

Professor do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e membro do Conselho Editorial de Lua Nova

 

 

Desde novembro de 2006, a morte súbita de Eduardo Kugelmas privou os muitos amigos, colegas e alunos de seu convívio. Para mim, ela foi um choque. Eu o conhecia desde 1968, quando o tive como professor de Política no Curso de Ciências Sociais, ainda ministrado na Rua Maria Antônia. O perdi de vista por algum tempo, seus anos de exílio, mas desde sua volta ao Brasil, ainda nos anos 1980, conversávamos mais de uma vez por semana, por telefone ou pessoalmente. Ex-aluno e ex-professor tornaram-se amigos. Eduardo era assim, capaz sempre e até desejoso de atravessar o círculo de sua geração para entabular amizades com os mais jovens, embora sem abandonar os velhos amigos. Ele constituiu, desse modo, uma extensíssima rede de conhecidos e amigos, como se pode ver na homenagem que se fez a ele na USP, logo depois de seu falecimento.

Eduardo dedicava-se com diplomacia e afinco a manter pelo intercâmbio constante essa rede extremamente diversificada de amigos e conhecidos – de múltiplas posições políticas e de interesses variados. Creio que o segredo de seu sucesso estava não apenas no gosto pelo convívio social, mas também em valorizar as idéias dos outros. Talvez por isso, pela capacidade de admirar as idéias, fossem elas de quem fossem, é que Eduardo ampliava continuamente seu círculo de relações, incorporando quem o impressionasse com uma análise inusitada, uma observação inteligente sobre qualquer coisa e, mais que tudo, sobre política. Sim, política, ou o que pudesse afetar o seu andamento: aí estava a sua paixão.

Amava a política – entenda-se bem – como luta pelo poder e por fazer do poder uma alavanca para manter ou transformar a sociedade em tal ou qual direção. Amava observá-la e analisá-la, pois acreditava que aí se decidiam os destinos da sociedade. Amava a política como espetáculo que permitia descobrir nos movimentos dos políticos profissionais, nas suas declarações e ações, o andamento íntimo dos negócios de Estado, as articulações pouco visíveis entre poder público e poder privado, entre o Estado e os grupos que o controlam. Daí que, ao contrário da maioria dos cientistas políticos, era leitor voraz do noticiário econômico de jornais e revistas, que acompanhava como poucos no mundo acadêmico os movimentos globais do capital financeiro. Encontrava aí, no mais das vezes, a chave explicativa para as políticas do Estado.

Mas não se pense que Eduardo era analista desinteressado. Não o era. Abraçava com convicção os valores democráticos. Da democracia como forma institucional e de sociabilidade entre cidadãos livres e iguais, o que implicava difundir entre todos os membros da sociedade um mínimo de condições econômicas e culturais que os tornassem capazes de exercer plenamente os direitos e deveres da cidadania. Por isso, para tornar efetivos os valores da democracia, parecia-lhe fundamental criar e distribuir riqueza, gerar desenvolvimento. Muito de suas civilizadas variações de humor tinham raiz aí, nas mudanças das correlações políticas de força mais ou menos favoráveis à realização de uma sociedade democrática.

Como muitos de sua geração, Eduardo Kugelmas publicou relativamente pouco. Parecia sempre insatisfeito com o resultado alcançado. Por conta de suas resistências, por exemplo, permanece inédita até hoje sua brilhante tese de doutorado, A Difícil Hegemonia: um estudo sobre São Paulo na Primeira República. O próprio título do trabalho diz muito do seu modo de ver a política: havia hegemonia paulista, sim, na Velha República, mas não como dado da situação, naturalizado. Ela existia graças a um processo conflituoso na Federação cujos resultados dependiam das forças sociais em confronto. Sim, houve hegemonia paulista na Primeira República, mas graças aos esforços reiterados e bem-sucedidos da oligarquia estadual em impô-la no interior da Federação.

A Eduardo Kugelmas, este nobre amante das idéias e da humanidade, prestamos – Lua Nova e eu – nossa homenagem. Por muito tempo, amigos, alunos e ex-alunos lembrarão de suas lições de sabedoria, amizade e civilidade, o que não é pouco no mundo em que vivemos.