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Lua Nova: Revista de Cultura e Política

Print version ISSN 0102-6445

Lua Nova  no.82 São Paulo  2011

 

DOSSIÊ PENSAMENTO SOCIAL BRASILEIRO

 

Simpósio: cinco questões sobre o pensamento social brasileiro

 

Symposium: five questions about the brazilian social thought

 

 

Lilia Moritz SchwarczI; André BotelhoII

IProfessora do Departamento de Antropologia da USP
IIProfessor do Departamento de Sociologia da UFRJ

 

 


RESUMO

Doze eminentes professores e pesquisadores respondem ao questionário que objetiva explorar não apenas as concepções teóricas sobre a área, mas também maneiras de atuar em pesquisa, lecionar, formar programas ou elaborar cursos. O resultado é um panorama consistente da área de pesquisa do pensamento social brasileiro, de seu desenvolvimento, atualidade e desafios.

Palavras-chave: Pensamento social brasileiro: Pesquisa e ensino; Interpretações do Brasil; Ideias e intelectuais.


ABSTRACT

Twelve eminent professors and researchers respond to the questionnaire that aims to explore not only the theoretical concepts about the area, but also ways to work in research, teaching, training programs and develop courses. The result is a consistent overview of the research area of the Brazilian social thought, its development, and current challenges.

Keywords: Brazilian social thought: Research and teaching; Interpretations of Brazil; Ideas and intellectuals.


 

 

1 – Como você vê a área de pesquisa do pensamento social brasileiro atualmente? Quais são seus principais objetos, problemáticas e abordagens teórico-metodológicas?

Angélica Madeira (UnB) e Mariza Veloso (UnB): A área de estudos em pensamento social brasileiro – ensino e pesquisa – encontra-se bastante consolidada na academia brasileira e pode-se mesmo considerá-la em franco crescimento. Isto pode ser constatado se observarmos a demanda por parte dos estudantes, assim como de pesquisadores que, com trabalhos renovadores, dotam a área de maior densidade, tanto com a releitura dos clássicos quanto com perspectivas metodológicas que contribuem para a abertura de novos campos empíricos de investigação.

Elide Rugai Bastos (Unicamp): Como em todo pensamento, está presente na área uma gama de posições que se opõem, se completam, dialogam, entram em confronto, o que traz riqueza ao debate. Reconheço pelo menos três grandes linhas, cada uma apresentando abordagens internas diversas: a contextualista, a textualista e a que, reconhecendo a tensão existente entre os dois termos, propõe uma análise que leve em consideração tal tensão. As várias formas de definição do objeto são resultado da adoção de diversos métodos, pois um método não está sozinho no campo interpretativo, entrando em conflito explícito ou implícito com outros métodos; de outro modo estaria propondo dogmas e não análise. Assim, têm lugar na reflexão as ideias, seu impacto sobre a realidade, seu efeito político, o itinerário dos intelectuais, o lugar político-social que ocupam, as políticas culturais que os beneficiam ou não, as instituições que os acolhem.

Glaucia Villas Bôas (UFRJ): Nos últimos trinta anos, em que tenho atuado nesta área de conhecimento, houve um crescimento sensível do interesse pelo tema do pensamento social, interesse que se observa na criação de grupos de pesquisa, publicações, formação de pesquisadores e inclusão da disciplina em cursos graduação e pós-graduação. É uma área cujo objetivo é compreender quais as ideias que se produziram sobre o país, como foram elaboradas e em que contexto intelectual ou instituição, como circulam e são recebidas. Há alguns problemas recorrentes no conjunto das pesquisas que dizem respeito à identidade nacional e ao desenvolvimento moderno da sociedade brasileira. Mas há também estudos sobre a institucionalização das ciências sociais, sobre livros e editoras. Naturalmente que a área não se restringe às ideias sobre o país, mas a grande parte das pesquisas ainda acata esta orientação.

Lucia Lippi Oliveira (CPDOC/FGV-RJ): Quando se pensa que a área de pesquisa está decrescendo, ela retorna firme e forte! Creio que cada nova geração refaz o caminho; é como se precisasse rever a produção intelectual voltada para as interpretações do Brasil. Pode-se considerar isto um processo de construção de identidade dos praticantes da área. Os obje-tos que compõem o elenco da área tem sido, entre outros, autores, obras, revistas, instituições, correntes de pensamento, movimentos artísticos, academias, editoras, coleções. As problemáticas que guiam as análises levam a indagar sobre trajetórias; redes de sociabilidade; processos de produção, divulgação e recepção de obras; convergências e divergências no campo intelectual. O que guia tais análises são quase sempre questões a respeito da estruturação do campo (à Bourdieu) e/ou o interesse em chegar a uma compreensão histórico-sociológica do mesmo (à Norbert Elias).

Luiz Werneck Vianna (Iesp/Uerj): A área de pesquisa universitária em pensamento social brasileiro está em expansão, consolidada nos principais cursos de pós-graduação e objeto de um número crescente de dissertações de mestrado e de teses de doutoramento. Pode-se sustentar que, embora os estudos dedicados à área tratem de uma grande diversidade de temas, persiste entre eles uma difundida e sempre renovada orientação no sentido de se investigar as condições particulares que presidiram a revolução burguesa no Brasil. Sob essa grande angulação, que põe em evidência o fato capital de que transitamos para o moderno sem romper com as forças da tradição, a maior preocupação da literatura tem sido a de identificar, por diferentes objetos e estratégias de pesquisa, a gênese do que seria o autoritarismo político constitutivo à formação do país.

Maria Arminda do Nascimento Arruda (USP): Penso que a área do pensamento social e interpretações do Brasil cresceu e tornou-se consideravelmente mais complexa nos últimos anos. É visível o volume de trabalhos publicados nessa área temática, como é também ponderável a diversidade dos assuntos e das abordagens. A despeito disso, domina, em minha opinião, o tratamento dos intelectuais que marcaram a vida cultural brasileira, examinados seja no prisma das suas trajetórias individuais, seja na perspectiva da sua geração. Há também nítida concentração de estudos na geração de 1930, analisada em várias dimensões, revelando a preferência pelos chamados ensaístas modernistas. Do ponto de vista teórico-metodológico, creio que há grande diversidade, o que é, em princípio, muito bom. Porém, tendo em vista o caráter variado dos estudos, confunde-se, muitas vezes, diversidade com carência de rigor, visível na construção de puros retratos das personagens em escrutínio.

Renan Freitas Pinto (Ufam): Vejo como uma oportunidade de identificarmos a pluralidade do pensamento brasileiro em vários sentidos e direções, possibilitando, por exemplo, o conhecimento sobre as formas regionais e locais em que o pensamento se expressa e se diferencia.

Ricardo Benzaquen de Araújo (PUC-RJ e Iesp/Uerj): A área atingiu um amadurecimento intelectual bastante significativo, tendo já mapeado, ao menos até certo ponto, parte dos mais importantes debates "sociológicos" do século XX. Ela também desenvolve, há tempos, um esforço no sentido de examinar de forma mais sistemática o pensamento social do século XIX. Isto no que diz respeito aos temas. Quanto às abordagens, a velha oposição entre uma perspectiva que privilegia a análise interna dos textos e uma outra que procura explicá-los pelo destaque concedido ao contexto – em suas múltiplas dimensões –, começa a conviver com posições que buscam combinar esses dois pontos de vista e portanto matizar aquela oposição.

Roberto Motta (UFPE): Acho que o principal objeto ou problemática da área é a compreensão do Brasil, como formação histórica, social, cultural e política. Tudo gira em torno disto e dos projetos de Brasil, explícitos ou implícitos. Não é uma disciplina "gratuita", mas muito carregada de tensões e opções teóricas e práticas.

Rubem Barbosa Filho (UFJF): Vejo como uma área de pesquisa extremamente promissora, tanto pelos grupos de trabalho existentes na Anpocs e na SBS quanto pelo interesse que o tema desperta na academia em geral. Não sei se é possível caracterizar a predominância de uma abordagem teórico-metodológica, mas certamente a chave mecânica "estrutura-superestrutura" cedeu espaço a perspectivas menos esquemáticas, como a da Escola de Cambridge. Creio que os problemas básicos estudados são aqueles que vinculam o nosso pensamento social à construção da nação e à questão da solidificação da democracia, com os dilemas envolvidos em cada etapa de nossa história e com a construção de "linhagens" ou filiações teóricas dos vários autores estudados.

Sergio Miceli (USP): A julgar pelo recente encontro carioca do grupo1, continua havendo, no meu entender, duas tendências: de um lado, uma abordagem contextualista, para a qual os textos ou obras estão como que imantados, de outro, um enfoque na linhagem da história das ideias, inclinado a fazer paráfrases, aproximações postiças entre livros e autores, ou então construindo uma perspectiva um tanto "espiritualizada" de interpretação. A linhagem contextualista busca construir uma história densa de mediações, desde origens sociais, passando pela formação cultural, até os modos de inserção na cena intelectual ou artística; os adeptos da história das ideias lidam com autores e livros, como se estivessem dispostos num quadro de honra/desonra, extraindo desses confrontos linhagens de pensamento definidas em termos anacrônicos. Em ambas direções, verificam-se prodígios de erudição por vezes dispensáveis.

 

2 – Como você vê a relação entre a área de pensamento social e as ciências sociais em geral, e/ou outras disciplinas e áreas de pesquisa?

Angélica Madeira e Mariza Veloso: Pensamento social brasileiro é uma área que se constrói em uma proximidade cada vez maior com a teoria sociológica, clássica e contemporânea – configuração histórica (Elias); Intelligentsia (Mannheim); campo intelectual (Bourdieu) – assim como com as ciências da linguagem, com um acervo de conceitos que permitem operar sobre os textos, examinar as narrativas – dialogia (Bakhtin); intertextualidade (Kristeva) – a partir das novas teorias do discurso e da narrativa praticadas pela crítica cultural contemporânea.

Elide Rugai Bastos: A área de pensamento social supõe interfaces com muitas disciplinas: filosofia, história, sociologia, política, antropologia etc. Aliás, como toda a reflexão não só em ciências sociais, mas no âmbito das ciências humanas. Assim, dialoga com várias vertentes teórico-metodológicas – clássicas, modernas e contemporâneas. Esse procedimento conjunto permite que sejam ultrapassados os limites da experiência pessoal para torná-la social, vinculando a reflexão individual à de outros pesquisadores. Lembro Isaiah Berlin que diz que novas ou velhas, as ideias formam o capital intelectual básico com o qual vivemos. Ou, em outras palavras, o pensamento não parte de um espaço desabitado pelo conhecimento.

Glaucia Villas Bôas: A área de conhecimento que se convencionou chamar de "pensamento social" se impôs e se legitimou dentro das ciências sociais tal como, ainda, a consideramos no Brasil, constituída pelas disciplinas da sociologia, antropologia e ciência política. Há historiadores que dedicam suas pesquisas à área de pensamento social e, ima-gino que especialistas da educação, direito ou filosofia também o façam. Vale dizer, contudo, que há cientistas sociais que não consideram pensamento social uma área de conhecimento com questões e métodos próprios, julgando que qualquer pesquisador pode produzir conhecimento sobre um autor ou tema da tradição de estudos sobre o Brasil. Não há dúvida alguma que isto é possível, e mesmo salutar para a pesquisa. Todo saber que se preza pensa sobre si próprio. No entanto, faço uma diferença entre o cultivo e o domínio desta área (que também é chamada de sociologia do conhecimento, história intelectual, historia social das ideias, sociologia da cultura) e trabalhos de especialistas em sociologia urbana ou sociologia da violência, por exemplo, que, em determinado momento, desejam escrever um artigo sobre Gilberto Freyre, Capistrano de Abreu ou Roberto Cardoso de Oliveira, porque fizeram uma leitura importante para sua reflexão ou pesquisa.

Lucia Lippi Oliveira: A área de pesquisa toma questões da sociologia e da antropologia – disciplinas que procederam a avaliações históricas de si próprias – para realizar análises dos objetos acima mencionados. Ela se distancia da ciência política e da economia como praticadas hoje em dia já que tais disciplinas adotaram princípios mais formalistas, mais calcados em modelos que tomam o indivíduo como centro de decisões racionais. Ou seja, a área se relaciona melhor com as ciências sociais, aqui incluindo a história e a geografia, entendidas como humanidades.

Luiz Werneck Vianna: Por definição, o estudo dessa disciplina consiste sempre em um exercício de teoria social, em que a mobilização das obras clássicas desse campo ocupa um papel notoriamente privilegiado. Estudar a presença do liberalismo entre nós remete a Guizot, a Stuart Mill e a Tocqueville, assim como a referência a Marx e a Weber torna-se incontornável nos casos em que a categoria Estado e a formação das classes sociais se apresentam como temas centrais na expressão do nosso pensamento. De outra parte, dado que esse campo de pensamento, desde seus inícios, foi orientado por uma sociologia histórica comparada – nosso caso confrontado com o norte-americano –, a literatura aplicada a essa perspectiva, como exemplarmente nas obras de Barrington Moore e Charles Tilly, trouxe consigo a abertura de novas oportunidades para exercícios de comparação. Daí que, além da América, já se tornaram correntes os estudos sobre os casos russos, alemão e italiano, não à toa esses últimos envolvendo processos de modernização discrepantes do modelo liberal-democrático, vitorioso nos países que realizaram revoluções burguesas clássicas, como a Inglaterra e a França. Na esteira dessa tendência, Lênin e Gramsci vieram a fazer parte da galeria dos grandes autores de referência da disciplina.

Maria Arminda do Nascimento Arruda: A área do pensamento social é, por essência, interdisciplinar. A sua relação com as ciências sociais é intrínseca; creio que o desenvolvimento da chamada sociologia da cultura no Brasil, nos últimos anos, dependeu, entre outros motivos, do volume de reflexões sobre os intelectuais, setor da especialidade atualmente central.

Renan Freitas Pinto: Acredito que o estudo sobre as formas de pensamento social pode esclarecer aspectos essenciais quando os diferentes campos disciplinares se interconectam. Para isso devemos ter em vista que as mudanças começam a ocorrer sempre como mudanças no campo das ideias.

Ricardo Benzaquen de Araújo: Embora tenha sido criada, pelo menos no que se refere à Anpocs, com o objetivo de se limitar ao exame da produção intelectual elaborada, de maneira bastante estrita, no âmbito das ciências sociais – daí o grupo se chamar pensamento social no Brasil e não pensamento social brasileiro –, a área também se ocupa, há muito tempo, com trabalhos oriundos da literatura, da crítica e da tradição ensaística, para mencionar apenas alguns poucos exemplos. O desafio, agora, talvez seja o de nos relacionarmos com estas outras disciplinas de maneira mais aberta, na direção de um diálogo, de um intercâmbio intelectual mais amplo, matizado e complexo, profícuo para todos os envolvidos.

Roberto Motta: Os quatro campos que destaquei anteriormente têm, evidentemente, íntima relação com a disciplina. Acrescentemos a eles economia e história econômica.

Rubem Barboza Filho: Penso que as relações com outras áreas deveriam ser intensificadas, em especial com a filosofia ou teoria política e com uma reflexão epistemológica mais exigente. Não quero supervalorizar a questão epistemológica, mas ela é necessária. Por outro lado, acho também que seria produtivo um contato maior com os historiadores. Vários episódios e circunstâncias de nossa história estão sendo revistos por eles, e creio que isso poderia nos ajudar muito a entender melhor a reflexão de vários dos nossos pensadores. Finalmente, penso que seria interessante a comparação permanente com pensadores de outros países que não os canônicos.

Sergio Miceli: A chamada área de pensamento social preservou esse título histórico, que tem muito mais a ver com certa prática intelectual de interpretar o país em chave macro, embora a maioria de seus atuais praticantes decerto se encaixe melhor em alguma das sociologias atuantes nesses universos de prática social: sociologia dos intelectuais, história social da arte, sociologia da literatura. Atraindo cientistas sociais de variada procedência disciplinar – his-tória, sociologia, antropologia etc. – as práticas de investigação e de interpretação foram impelidas a dialogar com vertentes diversas da teoria sociológica contemporânea, desde Weber, Gramsci, Durkheim, passando por Raymond Williams, Pierre Bourdieu, Erving Goffman, até as monografias incontornáveis de Ringer, Christophe Charle, Stefan Collini, entre outros.

 

3 – Quais os livros ou artigos da área você destacaria?

Angélica Madeira e Mariza Veloso: São selecionadas narrativas clássicas de cada período histórico estudado, tanto literárias quanto sociológicas e históricas. Por exemplo, obras de Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha e Machado de Assis podem sugerir contrapontos sempre novos. Essa bibliografia básica se faz acompanhar de uma bibliografia crítica sobre a época e sobre os autores estudados. Dessa bibliografia fazem parte, para a compreensão do século XIX, artigos de Machado de Assis e de José Veríssimo, assim como seus intérpretes.

Elide Rugai Bastos: Le dieu caché, de Lucien Goldmann; os estudos sobre o iluminismo de Franco Venturi; Goethe e seu tempo, de Georg Lukács; Consciousness and society, de Stuart Hughes; Le travail de l'oeuvre, de Claude Lefort; Ideias políticas na era romântica, de Isaiah Berlin.

Glaucia Villas Boas: "Oliveira Vianna e o direito do trabalho no Brasil", em Quinze ensaios, de Evaristo de Morais Filho; A brasilidade modernista: sua dimensão filosófica, de Eduardo Jardim de Moraes; Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920-1945), de Sergio Miceli; Joaquim Nabuco, de Ângela Alonso.

Lucia Lippi Oliveira: Difícil seleção! Vou citar cinco teses de doutorado que foram publicadas em livro e cujos temas se relacionam aos meus interesses de pesquisa: Benedito Calixto e a construção do imaginário republicano, de Caleb Faria Alves; Guerreiro Ramos e a redenção sociológica: capitalismo e sociologia no Brasil (no prelo), de Edson Bariani Junior; Os arquitetos da memória: sociogênese das práticas de preservação do patrimônio cultural no Brasil (1930-1940), de Márcia Regina Romeiro Chuva; A terra como invenção: o espaço no pensamento social brasileiro, de João Marcelo Maia; Projeto e missão: o movimento folclórico brasileiro, de Luis Rodolfo Vilhena.

Luis Werneck Vianna: Sobrados e mocambos, de Gilberto Freyre; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda; A construção da ordem, de José Murilo de Carvalho; O quinto século, de Maria Alice Rezende de Carvalho, Tradição e artifício, de Rubem Barbosa Filho.

Maria Arminda do Nascimento Arruda: Há vários livros importantes, sendo, por isso, difícil eleger um número limitado de obras. Considero, no entanto, Intelectuais e classe dirigente no Brasil, de Sergio Miceli, uma obra decisiva na delimitação do campo da reflexão, pois inaugura toda uma vertente de estudos sobre a história social dos intelectuais.

Renan Freitas Pinto: Pequena bibliografia crítica do pensamento social brasileiro e O rebelde esquecido: tempo, vida e obra de Manoel Bonfim, de Ronaldo Conde Aguiar; Vozes da Amazônia: investigação sobre o pensamento social brasileiro, de Elide Rugai Bastos e Renan Freitas Pinto; O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil (1870-1930), de Lilia Moritz Schwarcz; Estilo tropical: história cultural e polêmicas literárias no Brasil (1870-1914), de Roberto Ventura; e Formação do pensamento político brasileiro: ideias e personagens, de Francisco Weffort.

Ricardo Benzaquen de Araújo: Há uma série de trabalhos de grande valor publicados nos últimos anos, o que torna muito difícil escolher um sem deixar outros, de mérito equivalente, na sombra. Assim, prefiro destacar a relevância do ensino e da pesquisa sistemáticos que têm sido desenvolvidos por Sergio Miceli, na USP, e por Luiz Werneck Vianna, no antigo Iuperj. Sergio aproxima-se do pensamento social brasileiro pela ênfase, não exclusiva, em uma sociologia dos intelectuais; Werneck trata do tema por intermédio de um viés, igualmente não exclusivo, de uma sociologia política; ambos, porém, têm desempenhado um papel de enorme realce no esforço de se conferir dignidade intelectual à nossa área.

Roberto Motta: Casa-grande e senzala, de Gilberto Freyre; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda; Evolução política do Brasil, de Caio Prado Junior; Neither black nor white, de Carl Degler; e Bandeirantes e pioneiros, de Vianna Moog.

Rubem Barboza Filho: É difícil dizer ou escolher. Pensando na produção mais contemporânea, e sem ordem de importância, eu destacaria alguns estudos exemplares: Linhagens do pensamento político brasileiro, de Gildo Marçal Brandão; A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil, de Luiz Werneck Vianna; A construção intelectual do Brasil contemporâneo: da resistência à ditadura ao governo FHC, de Bernardo Sorj; O quinto século: André Rebouças e a construção do Brasil, de Maria Alice Rezende de Carvalho; "Entre a autoridade e a liberdade", introdução ao livro Visconde do Uruguai, de José Murilo de Carvalho.

Sergio Miceli: As sociologias da religião, do direito e da música, de Max Weber; A sociedade de corte, de Norbert Elias; As regras da arte, de Pierre Bourdieu; O campo e a cidade, de Raymond Williams; O declínio dos mandarins alemães, de Fritz K. Ringer.

 

4 – Você ensina ou ensinou pensamento social como disciplina? Na graduação ou na pós-graduação? Como disciplina optativa ou obrigatória? Quais os recursos didáticos empregados em suas disciplinas?

Angélica Madeira e Mariza Veloso: O curso "Sociologia brasileira", obrigatório a todos os alunos da graduação do Departamento de Sociologia da UnB, é oferecido todos os semestres, e recebe demanda de várias áreas das ciências sociais. O curso é oferecido anualmente, para o mestrado e para o doutorado, com o título de "Pensamento social brasileiro". A disciplina existe também, desde 1993 – com o nome de "Leitura brasileira I" e "Leitura brasileira II", oferecidas respectivamente a cada semestre –, no Instituto Rio Branco do Ministério das Relações Exteriores. Tudo isso evidencia o grau de institucionalização da área.

Elide Rugai Bastos: Tenho ensinado nos cursos de graduação em Ciências Sociais e pós-graduação em Sociologia na Unicamp, em disciplinas obrigatórias e optativas na área de pensamento social. No primeiro, "Pensamento social brasileiro"; no segundo, alternando "Teoria sociológica contemporânea" e "Pensamento social no Brasil". Em "Teoria sociológica contemporânea", disciplina obrigatória, parto da indagação sobre o cenário a partir do qual se dá a reorientação do pensamento social europeu no século XX e seus desdobramentos na sociologia norte-americana. Nesse cenário procuro apontar as transformações político-sociais e culturais que fundamentam a circulação das ideias. Em "Pensamento social no Brasil", sugiro como eixo o fato de que em cada momento de configuração da questão nacional altera-se o peso dos temas abordados pelos intérpretes/ pesquisadores. Nessa linha a recepção de autores europeus e norte-americanos e o diálogo estabelecido entre brasileiros e latino-americanos são diferenciados no tempo.

Glaucia Villas Bôas: Ensinei na graduação e na pós-graduação. Comecei nos anos de 1980 no curso de ciências sociais da UFRJ. Era uma disciplina eletiva sobre as interpretações do Brasil, que atraía um número razoável de alunos. Costumava escolher três ou quatro obras paradigmáticas para leitura e discussão. Até hoje encontro ex-alunos que se lembram deste curso. Na realidade, o currículo oferecia pouco ou quase nada sobre autores brasileiros na área da sociologia. Ao final da década de 1980, creio, Ana Maria Galano e eu fizemos uma ementa para a disciplina de "Sociologia III" cujo objetivo era oferecer um curso informando sobre as características históricas, sociais e cognitivas da sociologia no Brasil. Na criação do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA), a área de pensamento social entrou na linha de pesquisa "Sociologia da cultura, ritual e simbolismo" cuja proposta foi feita por mim, Ana Maria Galano, Reginaldo Gonçalves e Maria Laura Viveiros de Castro. Tínhamos um projeto integrado financiado pelo CNPq sobre temática do pensamento social e resolvemos propor esta linha de pesquisa durante a elaboração do projeto de criação do PPGSA. Na ocasião, a área forte da pós-graduação era a sociologia do trabalho, mas nossa proposta foi bem recebida e aceita.

Lucia Lippi Oliveira: Ensinei "Interpretações do Brasil" para a graduação como disciplina obrigatória. Escolhi autores entre os que compõem um panteão do pensamento brasileiro. Usei textos interpretativos sobre os autores lançando mão de obras tais como Introdução ao Brasil: um banquete no trópico, 1 e 2, e usaria também o recém-publicado Um enigma chamado Brasil. Em outra ocasião adotei o viés de escolher autores cuja interpretação do Brasil é calcada sobre território, espaço, sertão, fronteira e região. Fiz uso de documentários e de filmes de ficção que ajudam a compreender as interpretações textuais. Na pós-graduação dei um curso optativo nomeado "Viagens e viajantes". Trabalhei com autores e textos resultantes de viagens que nos séculos XIX e XX construíram um imaginário sobre o país. Neste caso usei textos dos autores e imagens do livro O Brasil dos viajantes, de Ana Maria Beluzzo, assim como textos interpretativos sobre eles.

Luiz Werneck Vianna: Leciono há muitos anos, exclusivamente na pós-graduação, sempre como disciplina optativa. Meu recurso didático consiste apenas da discussão em seminários de obras de intérpretes selecionados para o curso, quer por temas, quer por recortes cronológicos. O curso que ministrei no segundo semestre de 2010 versou sobre a produção de jovens cientistas sociais sobre o pensamento social brasileiro.

Maria Arminda do Nascimento Arruda: Até recentemente, era responsável pela disciplina optativa "Formação do pensamento brasileiro" na graduação. As aulas eram sobretudo expositivas, mas havia a verificação informal da leitura dos textos.

Renan Freitas Pinto: Na verdade, a experiência de ministrarmos no âmbito da graduação em Ciências Sociais uma disciplina optativa intitulada "Formação do pensamento social brasileiro na Amazônia" terminou se transformando em um dos pontos de partida para sugerirmos e também participarmos da organização de um programa multidisciplinar de pós-graduação que ganhou a denominação de "Sociedade e cultura na Amazônia", atualmente com mestrado e iniciando um doutorado, no qual tenho ministrado por cinco vezes disciplina sobre o "Pensamento social brasileiro na Amazônia". Ministrei também essa disciplina no mestrado do Inpa sobre "Agricultura no trópico úmido" e, por três vezes, no mestrado de Medicina, "Patologia tropi-cal". Além disso tenho escrito regularmente artigos do tipo ensaístico sobre temas afins em jornais locais.

Ricardo Benzaquen de Araújo: Nunca ofereci, infelizmente, nenhuma disciplina vinculada ao estudo do pensamento social brasileiro na graduação. Na pós-graduação, tanto na sociologia quanto na história, os seminários que coordenei sobre o tema sempre tiveram um caráter eletivo. No que se refere aos recursos didáticos, bem, pelo que me dizem, creio que não me atualizei sobre o assunto, pois continuo dando aula de modo extremamente convencional.

Roberto Motta: Eu ensinei pensamento social brasileiro, mas pouco. Minha preocupação com o assunto deriva de minha reflexão sobre Max Weber e Gilberto Freyre.

Rubem Barboza Filho: Normalmente fico responsável por uma disciplina anual sobre alguns clássicos brasileiros na graduação e costumo oferecer outra na pós. No primeiro caso, os alunos leem e discutem obras de Freyre, Sérgio Buarque, Faoro, Florestan, José Murilo, Werneck e Darcy Ribeiro. No segundo caso, como disciplina optativa, o conteúdo varia, e além destes autores já citados costumo trabalhar com Oliveira Vianna, Euclides da Cunha, Wanderley Guilherme, entre outros. No caso dessa segunda disciplina, ela se organiza por meio de seminários com um trabalho final de cada aluno.

Sergio Miceli: Ensinei "Teoria sociológica contemporânea" tanto na graduação, mas, sobretudo, na última década, na pós-graduação de sociologia na Universidade de São Paulo, inclusive a única disciplina obrigatória que alterna teoria clássica e teoria contemporânea. Nas vezes em que fui responsável pela disciplina, preferi aprofundar o exame e a discussão de autores-chave no campo da sociologia da cultura (Weber, Elias, Bourdieu etc.). Nos demais semestres, oferecia o curso de sociologia dos intelectuais, ora enfatizando o prisma comparado entre inteligentzias, ora privilegiando discussões sobre fontes ou gêneros de expressão intelectual e artística, ora mirando em trabalhos de história social da arte, atraindo assim estudantes da pós-graduação em ciências sociais (em especial, sociologia e antropologia), letras, história, arquitetura e comunicações.

 

5 – Como você vê o futuro da área de pesquisa do pensamento social? Quais as questões temáticas, teóricas e metodológicas que você pensa serem fundamentais para o desenvolvimento da área?

Angélica Madeira e Mariza Veloso: Futuro promissor: elos teóricos cada vez mais firmes com a teoria sociológica; operações metodológicas mais sofisticadas; descobertas de novas fontes de investigação; necessidade de manter a abertura transdisciplinar do campo; permanente possibilidade de releitura dos clássicos e a atualização de suas obras e críticas.

Elide Rugai Bastos: Temas centrais ao entendimento da sociedade contemporânea – emancipação, direito à diferença, limites à liberdade, aceitação da dignidade como projeto social, reconhecimento, exclusão/excludência social, para citar alguns – foram, de várias maneiras, objeto da reflexão dos autores brasileiros ao longo dos anos, pela própria condição não democrática do país (colônia, escravidão, sucessão de ditaduras, extrema desigualdade na distribuição de bens etc.). A retomada dessa temática via pensamento brasileiro, a avaliação dos alcances e limites dos debates e seus efeitos insere, necessariamente, a reflexão brasileira no debate internacional.

Glaucia Villas Bôas: Acho difícil "ver" o futuro, mas arriscaria dizer que a área pode se consolidar e permanecer se houver condições para uma diferenciação interna mais ampla. Para isto seria relevante que as pesquisas tomassem novas orientações: 1) fossem menos "comemorativas" e mais críticas da tradição sociológica e intelectual; 2) apresentassem questões que não digam respeito necessariamente a identidade nacional e instauração da sociedade moderna; 3) fizessem a crítica de categorias como centro e periferia cujo caráter geopolítico contribui pouco para aprofundar o conhecimento das redes de interações entre intelectuais brasileiros e estrangeiros; 4) revisitasse com mais frequência os cânones interpretativos.

Lucia Lippi Oliveira: O elenco de temas e objetos da área pensamento social tende a se ampliar para além da questão nacional tratada sob o título de "interpretações do Brasil", o que é bom e corresponde à complexidade da vida social. Por outro lado é preciso lembrar que os elementos relacionados à construção da "comunidade imaginada" não deixarão de continuar presentes. Tenho dificuldades para fazer exercício de "futurologia"! Diria apenas que o fundamental é ter abertura intelectual para os novos temas e perspectivas que se apresentem.

Luiz Werneck Vianna: Compreendo que a área assumiu como sua a tentativa da produção de uma narrativa que, para além das diversas matrizes contraditórias presentes em nossa formação – o iberismo, o americanismo –, procura, mais do que singularizá-las, instituir modos de articulação entre elas. Com essa orientação, reconheço que a ênfase na produção de uma narrativa aproxima-se, como na metáfora de Ronald Dworkin, da escrita de um romance em que cada geração acrescenta um novo capítulo, de uma forma tal que o seu sentido seja a um tempo preservado e superado. Des-sa forma, identifico na disciplina a vocação para um esforço reflexivo, que, ao interpretar o país, se inclui no movimento das forças sociais que o transformam.

Maria Arminda do Nascimento Arruda: A área de pesquisa do pensamento social no Brasil é bastante dinâmica, haja vista o aparecimento constante de jovens pesquisadores e o volume de textos editados. É possível projetar, nesses termos, o crescimento da especialidade entre nós. Há temas que poderiam ser mais desenvolvidos: retratos coletivos de intelectuais, sistemas de pensamento, movimentos de ideias, relações entre o modernismo e as ciências sociais, tratamento das linguagens, entre outros. Como já me referi, penso ser fundamental evitar tanto o caráter pouco rigoroso dos estudos quanto a pesquisa pouco sistemática. Considero, também, que a área do pensamento social deva afastar de perspectivas muito formalistas, isto é, que tomam os autores e as suas ideias como realidades autoevidentes. Do ponto vista da sociologia, como sabemos, é necessário elucidar as conexões entre trajetórias, obras, ideias etc. Não se trata de privilegiar análises externalistas, pois a disjuntiva interno-externo é completo equívoco e não se sustenta. Finalmente, uma abordagem da cultura do ângulo das disciplinas sociais pressupõe revelar a face simultaneamente coletiva e particular do pensamento.

Renan Freitas Pinto: Vejo como fundamental para o alargamento do campo de pesquisa das temáticas relacionadas com o pensamento social a inclusão de novas abordagens capazes de nos fornecerem ferramentas pouco utilizadas em nossas análises e estudos. Por exemplo, autores e métodos da hermenêutica como Husserl, Heidegger, Gadamer, Ricoeur, Habermas e Axel Honneth. Precisamos realimentar nossas pesquisas com interlocuções com esses autores e suas ideias, assim como com outros autores do campo da crítica da arte, da literatura e da história cultural, para mencionar alguns.

Ricardo Benzaquen de Araújo: A minha impressão, para dar uma resposta curta a uma questão quase impossível de ser enfrentada, é a de que deveremos, por um lado, aprofundar o diálogo das investigações acerca do pensamento social com as referências teóricas não só das ciências sociais como também de disciplinas próximas, como por exemplo a história – em especial a história intelectual –, a crítica literária e a das artes visuais e assim por diante; por outro, creio que a constituição de uma perspectiva comparada com o pensamento social de outros países, tal como o que já está ocorrendo – sobretudo – com a Argentina, abre também grandes possibilidades de uma expansão da riqueza e da complexidade intelectual das pesquisas nesta área.

Roberto Motta: A meu ver a questão fundamental ainda é a dos modelos de sociedade e de história. Isto é, haverá um modelo normativo? Já que duas vezes mencionei Gilberto Freyre, eu diria que uma questão premente está na avaliação, aceitação ou recusa da interpretação freyriana do Brasil, isto ainda mais depois da aparente obsolescência do modelo marxista.

Rubem Barboza Filho: Vejo com otimismo o desenvolvimento dessa área de pesquisa. A sugestão anterior de ampliar a comparação com outros países, no entanto, precisa ser corrigida por uma perspectiva que preserve aquilo que há de original entre nós, para não cairmos no erro de dizer sempre o que não fomos e o que não pensamos. Creio que o maior desafio será entender que, ao estudar nosso pensamento social, também produzimos, mais que história das ideias, pensamento social. Daí a relevância da questão da democracia para a nossa reflexão sobre os clássicos, e a preocupação com a recuperação das nossas possibilidades e limites de vida democrática.

Sergio Miceli: A facilidade de acesso às fontes e aos materiais de documentação sobre a vida intelectual e artística tornou praticamente impossível empreender um trabalho de investigação relevante sem mobilizar as passagens e mediações entre os diversos universos de prática social. Afinal, os mundos intelectual, literário, artístico e acadêmico são universos expostos a coerções e não dependem da liberdade ou da virtude das ideias, e tampouco da livre escolha de seus praticantes.

 

 

1 Sergio Miceli se refere ao Encontro Intermediário do GT Pensamento social no Brasil da Anpocs, "Pensamento Social: perspectivas em diálogo", organizado por Nísia Trindade Lima (Fiocruz), Ângela Alonso (USP) e André Botelho (UFRJ) e realizado no IFCS/UFRJ em novembro de 2010.

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