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Lua Nova: Revista de Cultura e Política

versão impressa ISSN 0102-6445versão On-line ISSN 1807-0175

Lua Nova  no.100 São Paulo jan./abr. 2017

https://doi.org/10.1590/0102-005009/100 

APRESENTAÇÃO

APRESENTAÇÃO

Bruno Konder Comparato1 

1Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Guarulhos, SP. Brasil. E-mail bruno.comparato@unifesp.br


É com grande satisfação que apresentamos o número 100 da revista Lua Nova.

Entre os muitos sonhos que surgiram nos anos de grande efervescência e esperança do período iniciado com o final do regime militar e o lento e nem sempre tranquilo aprendizado da democracia, podemos afirmar que a longevidade da revista Lua Nova mostra que a aposta dos seus fundadores foi promissora.

O primeiro artigo da revista, lançada em abril de 1984 em plena ressaca da derrota da emenda das Diretas no colégio eleitoral, tinha por título "Pensar a democracia" e anunciava: "Lua Nova é a nova revista do Cedec. A partir deste mês, em colaboração com a Editora Brasiliense, ela vai aparecer, em todo o Brasil, a cada três meses. O que nos leva a lançar uma nova revista? [...] Queremos uma revista de reflexão voltada para as questões atuais da construção da democracia no país. Uma reflexão sobre a ação política, social e econômica em nosso tempo. [...] Eis o que deseja ser Lua Nova. Uma revista da nova fase que se está abrindo no Brasil. Uma fase que, por isso mesmo, exige a participação de todos. Aliás, o que está dito aqui deve ser entendido também como um convite à participação na própria revista. Sem essa participação, Lua Nova não será o que quer ser."(Editor, 1984). O título da revista foi escolhido em alusão à fase da Lua mais propícia à semeadura, no caso, de ideias, como nos explicou Gabriel Cohn, que foi editor de Lua Nova entre 1991 e 2003.

Um pouco dessa história está contada no artigo de Cicero Araújo que, tendo sucedido a Gabriel Cohn, foi responsável pela edição dos números 60 a 75 e, como atual presidente do Cedec, destaca a trajetória da revista e seu entrelaçamento com a história do centro de pesquisa criado em 1976 e voltado à reflexão teórica e à intervenção política e social. Aliás, queremos aqui prestar a merecida homenagem a todos os editores que são parte da construção de Lua Nova, em ordem cronológica: José Álvaro Moisés, Tullo Vigevani, Gabriel Cohn, Cicero Araujo, Elide Rugai Bastos e Rossana Rocha Reis.

Os cem primeiros números de Lua Nova atestam a riqueza da reflexão teórica nas áreas de ciência política e sociologia, desenvolvida ao longo das últimas três décadas. Foram publicados 957 artigos, de 1.094 autores, dentre os quais se destacam nomes consagrados internacionalmente como Andrew Arato, Domenico Losurdo, John Dunn, Adam Przeworski, Susan Stokes, Bernard Manin, Iris Marion Young, Hannah Pitkin, Nadia Urbinati, Nancy Fraser, Edgar Morin, Alberto Melucci, Göran Therborn, Amy Guttman, Jürgen Habermas, Gosta Esping-Andersen, Immanuel Wallerstein, Thomas Pogge, Philippe Von Parijs, Guillermo O'Donnell, Arturo Valenzuela, Peter Evans, Robert Dahl, Boaventura de Souza Santos, Norberto Bobbio, Jon Elster, John Rawls, David Held, Theodor Shanin, Claus Offe, Albert O. Hirschman e Amartya Sen. Sobre este último, aliás, Gabriel Cohn assegu- rava na Apresentação do número 58 da revista que, "comprovadamente, ele só recebeu o prêmio Nobel de Economia após haver publicado em Lua Nova" (Cohn, 2003).

Os leitores que vasculharem a coleção da revista poderão também verificar que, depois de publicar em Lua Nova, alguns autores se elegeram presidente e vice-presidente da República e prefeito da cidade de São Paulo, e outros sete se tornaram ministros. Nada mal para uma revista que se propunha a incentivar a reflexão política, social e econômica de maneira a incentivar a intervenção no debate público sobre os destinos do país.

Para comemorar o centésimo número de Lua Nova, reunimos dez artigos dos quais seis são de autores já conhecidos dos leitores regulares da revista. Após a contribuição de Cicero Araújo, já mencionada, sobre os quarenta anos do Cedec, os leitores encontrarão um texto de José Augusto

Lindgren-Alves sobre os cinquenta anos da Convenção Internacional sobre a Eliminação da Discriminação Racial com um balanço dos avanços e das falhas propiciados por esse tratado de direitos humanos. Em seguida, Luís Felipe Miguel discute o esvaziamento, na ciência política das últimas décadas, do ideal de democracia participativa em favor da representação política. Por falar em participação, o artigo seguinte, de Céli Regina Jardim Pinto, analisa a trajetória discursiva das manifestações de rua no Brasil entre 2013 e 2015 e o seu deslocamento em uma direção conservadora, a partir da teoria do discurso desenvolvida por Ernesto Laclau. No texto seguinte, Luiz Carlos Bresser-Pereira defende que é possível relacionar as duas formas básicas de organização econômica e política do capitalismo com as coalizões de classe que se formam na intermediação entre a sociedade civil e o Estado.

Em seguida, Maria Rita Loureiro argumenta que a maneira pela qual a dinâmica dos fatores políticos internos é combinada com as imposições do ideário liberal pode explicar as mudanças nas políticas de previdência social na Argentina, no Brasil e no Chile.

A partir deste ponto, o leitor poderá escapar do presente e mergulhar cada vez mais no passado, começando com o artigo de Bernardo Ferreira, que aborda as relações entre ética, política e história no pensamento de Friedrich Meinecke. No texto seguinte, Flávio da Silva Mendes recupera a trajetória de Celso Furtado e Francisco de Oliveira nos primeiros anos da Sudene, antes que o sonho do desenvolvimento do Nordeste fosse interrompido pelo golpe de 1964. Christian Edward Lynch, por sua vez, discute a recepção das ideias de Edmund Burke no pensamento político brasileiro de matriz oitocentista e as suas consequências para a natureza problemática da ideologia conservadora em um país periférico e carente de modernização. Por fim, seguindo a sugestão sempre válida de Hannah Arendt, os leitores poderão buscar aconselhamento no pensamento dos gregos antigos, no caso, o pensamento político dos filósofos milésios, tal qual interpretado por Patrício Tierno.

Todos os artigos foram enviados espontaneamente por seus autores e avaliados por pareceristas, a quem muito agradecemos. Faz-se necessário ressaltar também o apoio decisivo do SciELO, que, através de sua plataforma e de seu projeto pioneiro de incentivo à divulgação de artigos científicos conforme o princípio do acesso aberto universal, tem contribuído muito para o crescimento dos periódicos na América Latina. A revista Lua Nova passou a integrar o SciELO em 2002 e, a partir de 2010, foi registrada sua coleção completa desde os primeiros números lançados em 1984. Assim, todas as edições publicadas até agora, com seus artigos completos, podem ser consultadas gratuitamente pelos leitores. Como em todo periódico registrado no SciELO, um conjunto de informações sobre autores, assuntos, número de autores por artigo e índice de citações também pode ser facilmente acessado.

Quando comparado ao clima de esperança do momento em que Lua Nova foi fundada, o período político atual no país é de profundo desencanto, sobretudo no campo da educação e do fomento à pesquisa científica, mas não desanimemos e façamos nossas as palavras de Roberto Schwarz que avisava, no primeiro número da revista Novos Estudos do Cebrap, inaugurada em 1981: "A situação é péssima, excelente para fazer uma revista." (Schwarz, 1981).

Bibliografia

COHN, G. 2003. Apresentação. Lua Nova, n. 58, p. 3. [ Links ]

EDITOR. 1984. Pensar a democracia. Lua Nova , n. 1, p. 5. [ Links ]

SCHWARZ, R. 1981. Amor sem uso. Novos Estudos Cebrap, ano 1, n. 1. [ Links ]

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