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ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

Print version ISSN 0102-6720

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.23 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-67202010000400008 

ARTIGO ORIGINAL

 

Incisão periauricular para operações da glândula parótida

 

 

Andy Petroianu

Clínica de Cirurgia Geral, Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte, Belo Horizonte, MG, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

RACIONAL: As incisões mais comuns para parotidectomia consistem em abertura pré ou periauricular prolongadas para a região submandibular ou cervical. Elas podem acompanhar-se de cicatrizes imperfeitas, provocando deformidades cutâneas locais.
OBJETIVO: Avaliar o tratamento de afecções cirúrgicas parotídeas através de incisão periauricular apenas.
MÉTODO: Foram estudados 39 pacientes consecutivos com moléstias da parótida. Adenoma pleomórfico (20 casos) foi a afecção mais encontrada, seguida por outros tumores benignos (9 casos), carcinomas (5 casos), cisto parotídeo (3 casos) e parotidite crônica (2 casos). Todas as parotidectomias foram realizadas através de incisão periauricular. Em presença de carcinoma, a linfadenectomia cervical foi conduzida por meio de incisão cervical transversa supra-hióidea homolateral.
RESULTADO: A remoção da afecção parotídea foi possível em todos os casos sem incisão cutânea complementar. Todas as cicatrizes tiveram bom resultado estético e, após seis meses, elas estavam quase imperceptíveis. Os pacientes revelaram satisfação com o resultado da operação. Fraqueza facial temporária ocorreu em 28 operações. Desconforto auricular transitório foi registrado em 22 pacientes. Todos tiveram hipoestesia da região operada, que perdurou por até seis meses. As complicações encontradas neste trabalho estão descritas na literatura como esperadas em parotidectomia, independentemente do tipo de incisão.
CONCLUSÃO: A incisão periauricular é opção boa e estética para abordagem cirúrgica da glândula parótida.

Descritores: Neoplasias parotídeas. Período pós-operatório. Complicações.


 

 

INTRODUÇÃO

Parotidectomia é um procedimento cirúrgico indicado para tratamento de tumores benignos ou malignos e para certas condições inflamatórias e autoimunes da parótida12,13. Os tumores parotídeos são, na maioria, benignos, mas a sua evolução e tratamento requerem conhecimento da anatomia locorregional e dos aspectos patológicos de cada afecção3,5,9,12. O tratamento tem por objetivo a completa retirada do tecido parotídeo doente, com a preservação do nervo facial e de todos os seus ramos. A manipulação delicada e a conservação do nervo auricular magno fazem parte da boa técnica operatória2,5,11,13.

As incisões mais comuns para parotidectomia são as de Blair e de Blair modificada, que consistem de abertura pré ou periauricular prolongadas para a região submandibular ou cervical2,4,5,11,12,13. Essas incisões combinadas podem acompanhar-se de cicatrizes imperfeitas, provocando deformidades cutâneas locais2,12,13.

O objetivo do presente trabalho foi estudar os resultados do tratamento cirúrgico de afecções parotídeas, utilizando apenas a incisão periauricular, que é mais estética, por não provocar cicatriz cervical ou submandibular.

 

MÉTODO

Todos os 39 pacientes consecutivos com doenças parotídeas de tratamento cirúrgico operados pelo autor foram estudados prospectivamente para avaliar os resultados da incisão periauricular em parotidectomias. Essa foi a única incisão utilizada em todos os casos.

As indicações para parotidectomia foram adenoma pleomórfico (20 casos), outros tumores benignos (9 casos), carcinoma (5 casos), cisto parotídeo (3 casos) e parotidite crônica (3 casos). A localização das doenças foi à direita em 16 pacientes e à esquerda nos outros 23 pacientes, sendo que os 5 carcinomas encontrados incidiram do lado esquerdo. Foram 16 homens e 23 mulheres, com a idade variando entre 15 e 77 (média de 48) anos. De acordo com a cor da pele, 18 eram leucodérmicos, 17 feodérmicos e 4 melanodérmicos (Essa proporção não é diferente da encontrada na distribuição por cor da pele na população brasileira).

A incisão periauricular iniciou na região pré-auricular e continuou vertical na margem tragal, rodeou o lobo auricular até o espaço retroauricular, alcançando o processo mastóide do osso occipital (Figura 1A). A pele foi dissecada superior, anterior e inferiormente até a identificação dos limites da glândula parótida e de sua afecção, que foram colocadas completamente no campo operatório (Figura 1B). Utilizaram-se duas técnicas para liberar os retalhos de pele: nos casos de carcinoma, a pele foi dissecada acima da fáscia parotídea; e em todas as condições benignas, os retalhos cutâneos englobavam a fáscia parotídea, com o objetivo de reduzir a incidência da síndrome de Frey, também conhecida como síndrome da sudorese gustatória. Ela resulta de lesão das fibras parassimpáticas, que regeneram de maneira anárquica para inervar as glândulas sudoríparas da região da face próxima ao nervo. Estímulos que habitualmente provocam a excreção parotídea também causam sudorese facial2,5,12.

 

Em todos os casos de carcinoma, uma segunda incisão transversa foi conduzida no pescoço ao nível do osso hióide, do mesmo lado do tumor. A parotidectomia total foi complementada pela linfadenectomia supra-hióidea, realizada através da incisão cervical.

Após a parotidectomia e cuidadosa hemostasia, a ferida foi fechada em um ou dois planos. Em todos os doentes, o tecido subcutâneo foi suturado com pontos separados invertentes ou sutura contínua, utilizando fio de categute simples 4-0. Na maioria dos casos, as bordas da pele foram adequadamente aproximadas somente por essa sutura, sem manobra adicional (Figura 1C)6,7. Entretanto, quando a pele não ficava perfeitamente unida, acrescentava-se sutura intradérmica contínua com fio de náilon 4-0. Após a parotidectomia total e a retirada de tumores maiores, colocava-se um dreno tubular de aspiração contínua, que era retirado até o terceiro dia pós-operatório, quando os pacientes recebiam alta hospitalar (Figura 1D). Nas afecções menores e nas parotidectomias parciais não foram utilizados drenos.

Todos os pacientes foram seguidos prospectivamente, durante o período que variou entre seis meses e anos. Avaliaram-se os resultados estéticos e as complicações desse procedimento.

 

RESULTADOS

Todos os tumores parotídeos foram retirados sem incisão complementar. Nos casos em que foi indicada linfadenectomia, a incisão cervical foi suficiente para ressecção radical do câncer.

Os pacientes tiveram boa evolução pós-operatória geral. As incisões foram esteticamente muito satisfatórias e as cicatrizes tornaram-se quase imperceptíveis após seis meses.

Todos os pacientes revelaram hipoestesia da área operada, durante um período não superior a seis meses. Perda temporária da sensibilidade do lobo da orelha, sem outras repercussões, foi relatada por 22 pacientes, durante os primeiros dois meses pós-operatórios, provavelmente devido à incisão periauricular e à manipulação do nervo auricular magno. Limitação parcial e transitória da abertura da boca foi observada em 26 pacientes, tendo sido atribuída à inflamação local que atingiu a articulação temporomandibular. Esse sintoma desapareceu completamente no decorrer do primeiro mês pós-operatório.

Lassidão temporária da parte inferior da face ocorreu em 28 doentes, dos quais, em três casos de parotidectomia total por câncer, ela foi definitiva. Houve dois doentes com infecção local, resolvida com antibioticoterapia. Síndrome de Frey transitória ocorreu em quatro casos de parotidectomia. Todas essas complicações melhoraram e os resultados finais foram muito satisfatórios. Não foram encontradas outras complicações.

 

DISCUSSÃO

A abordagem cirúrgica dos tumores de parótida teve considerável evolução nos últimos anos. As parotidectomias são frequentemente indicadas para tumores benignos, sendo o adenoma pleomórfico a neoplasia mais encontrada nessa glândula2,3,4,5,9,11,12.

É importante ressaltar a maior incidência de todas as doenças parotídeas e em especial todos os carcinomas na parótida esquerda. Na literatura, não há registro de fator algum que possa favorecer a incidência maior de afecção parotídea em uma das glândulas. Assim sendo, considera-se ser esse achado digno de investigação maior.

A incisão periauricular é procedimento estabelecido e muito utilizado em cirurgia plástica para estética facial, porém ainda não encontra-se essa abordagem para parotidectomias1,8,10. De acordo com este trabalho prospectivo, a incisão periauricular oferece campo operatório com exposição adequada, mesmo para realizarem-se parotidectomias totais e para tratar tumores maiores, com bons resultados estéticos e sem risco adicional de complicações.

A maioria dos pacientes com complicações pós-operatórias necessitam apenas de explicação sobre o efeito adverso ocorrido e orientação direcionada aos cuidados a serem seguidos. Cabe informá-los que, geralmente, a complicação melhora e até desaparece por completo em algumas semanas2,4,5,11,12,13. De acordo com dados da literatura, os problemas que ocorreram nesta casuística são comuns após parotidectomia e não necessitam de cuidados especiais. Eles são transitório e autolimitados, com restabelecimento funcional e estético da face em poucos meses1,2,4,5,8,10,11,13.

Todos os efeitos adversos ocorridos nas parotidectomias através de incisão periauricular também foram descritos, em proporção semelhante, nas incisões de Blair e de Blair modificada. A maior parte dessas complicações decorreu da parotidectomia e não do tipo de incisão1,8,10.

 

CONCLUSÕES

A incisão periauricular é uma boa opção para abordagem da parótida no tratamento de doenças benignas e malignas.

 

AGRADECIMENTOS

O autor agradece ao Dr. José Roberto Monteiro Constantino por seu auxílio no levantamento dos resultados anatomopatológicos.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Andy Petroianu
e-mail: petroian@gmail.com

Recebido para publicação: 30/07/2010
Aceito para publicação: 26/10/2010
Fonte de financiamento: não há
Conflito de interesses: não há

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