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ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

Print version ISSN 0102-6720

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.24 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-67202011000100010 

ARTIGO ORIGINAL

 

Resultados iniciais da oxigenoterapia hiperbárica empacientes em lista de espera para o transplante hepático

 

 

Flávio Kreimer; Guido Corrêa de AraúJo-Jr; Josemberg M.Campos; Euclides D. Martins-Filho; Luiz Augusto Carneiro D'Albuquerque; Álvaro Antônio B. Ferraz

Correspondência

 

 


RESUMO

RACIONAL: A função hepática é um processo complexo que envolve múltiplos eventos celulares. Ela, em pacientes cirróticos, pode se beneficiar da terapia com oxigênio hiperbárico.
OBJETIVO: Avaliar, de forma preliminar, os dados clínicos e laboratoriais sobre a função hepática em pacientes cirróticos em lista de espera para transplante hepático, submetidos à oxigenoterapia hiperbárica.
MÉTODO: Estudo prospectivo com intervenção, no qual 10 pacientes foram escolhidos aleatoriamente entre os pacientes cirróticos em lista de espera para transplante hepático. A idade variou de 20 a 65 anos, e todos apresentaram escore MELD maior que 15. Todos os pacientes foram submetidos a nove sessões de terapia com oxigênio hiperbárico, em dias alternados com a duração de 60 minutos por sessão, com atmosfera de oxigênio de 100% e pressão de 2,8 ATM. As variáveis dependentes foram os valores laboratoriais bioquímicos e hematológicos, avaliados antes e após sessões de terapia hiperbárica de oxigênio, além de parâmetros clínicos, considerando-se também o Child-Turcotte-Pugh e o MELD. A análise estatística foi realizada com o SPSS (Statistcal Package for Social Sciences), e incluiu média com desvio-padrão.
RESULTADOS: Trêspacientes (30%) relataram diminuição no número e intensidade da encefalopatia. Não houve casos de peritonite bacteriana espontânea e sangramento gastrointestinal, e não houve aumento na gravidade da ascite. Dois pacientes relataram melhora no prurido, e quatro melhora no estado geral em poucas semanas após sessões de oxigenoterapia hiperbárica.
CONCLUSÃO: A oxigenoterapia hiperbárica pode melhorar a função hepática na cirrose e ajudar a controlar as complicações relacionadas à insuficiência hepática na avaliação pré-operatória para transplante de fígado.

Descritores: Transplante de fígado. Oxigenoterapia. Insuficiência hepática.


 

 

INTRODUÇÃO

A doença hepática apresentamorbimortalidade significativa, e quando em fase avançada tem no transplante do fígado uma forma de tratamento potencialmente curativo, não podendo, ainda, ser oferecido a todos os pacientes. Isso faz com que essa doença seja considerada um problema de saúde pública em todo o mundo1,2,12,16.

Na Itália, as doenças hepáticas em estágio avançado promoveram 22.000 mortes em 2000, ano em que foram realizados 1.016 transplantes. Em 2004,1.416 pacientes aguardavam transplante de fígado, número significantemente menor que os 4.000 casos novos diagnosticados no mesmo período1. Nos Estados Unidos em 2000, a incidência de doenças hepáticas em estágio avançado igualou-se a 5,9:100.000 habitantes, enquanto a taxa de mortalidade foi 4,5:100.000 habitantes17. Dados do Sistema Nacional de Transplantes em 2003, apresentaram 4.287 pacientes na lista de espera para transplante de fígado, com apenas 637 transplantes realizados, ou seja, 14,8% dademanda. Até outubro de 2005, essa lista de espera incluía 6.834 pacientes e haviam sido realizados 454 transplantes, atendendo à 6,6% da necessidade13. Esses dados explicam a afirmação de que o transplante de fígado não pode ser oferecido a todos os pacientes, ainda que preencham os requisitos básicos para serem inscritos na lista de espera. Indicam também a necessidade de se pesquisarem novas opções de tratamento. O fígado é o único órgão de mamíferos capaz de se regenerar, ou seja, de promover hipertrofia e hiperplasia do tecido sadio remanescente. Essa característica fez com que se desenvolvessem estudos sobre o controle desse crescimento celular, como forma de tratamento da falência hepática4,11. Dentre as opções terapêuticas não invasivas, a oxigenoterapia hiperbárica(OXTH) tem sido uma das mais promissoras, e a partir dos anos 1990 bastante investigada6,8,14,15,18,19. A oxigenoterapia hiperbárica consiste na inalação de oxigênio a 100%, sob pressão de duas a três atmosferas, em câmaras especiais, por isso denominadas câmaras hiperbáricas18. A oxigenoterapia hiperbárica tem sido empregada com sucesso no tratamento de diversas doenças, agudas e crônicas, e em algumas síndromes, tendo sido regulamentada no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina, em 19953. Todavia, na área de hepatologia, poucos são os estudos encontrados na literatura envolvendo doentes em estágio avançado, em lista de espera para transplante hepático. No Brasil, estima-se que o tempo entre inclusão em lista de espera e transplante seja aproximadamente de 20 meses, intervalo que tem inviabilizado o transplante para vários pacientes9. Uma tentativa de tornar o processo de transplante mais justo foi realizada em 2005 pelo Ministério da Saúde ao determinar que o critério de prioridade para esse procedimento deve ser a gravidade do caso clínico, e não o tempo de espera em lista13.

O objetivo do estudo foi avaliar, de forma preliminar, os efeitos hematológicos, bioquímicos e clínicos antes e após sessões de oxigenoterapia hiperbárica de pacientes em lista de espera para transplante hepático.

 

MÉTODOS

Foi realizado estudo prospectivo, de intervenção, no Departamento de Cirurgia Geral e Transplante Hepático do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC-UFPE), o qual se constitui em um serviço de referência para tratamento e acompanhamento de pacientes com doenças hepáticas em estágio avançado.

Foram incluídos 10 pacientes com as seguintes características: encaminhados ao Ambulatório de Cirurgia Geral e Transplante Hepático do HC-UFPE; faixa etária entre 20 e 65 anos, independente de gênero; inscrito como receptor de fígado na lista de espera para transplante; portador de doença hepática por cirrose; MELD igual ou maior que 15; resultado de dosagem de alfa-fetoproteína não compatível com tumor hepático; resultado de ultrassonografia hepática não compatível com tumor hepático; e por fim, ausência de qualquer das enfermidades que contraindicam a oxigenoterapia hiperbárica. Ela foi realizada em câmara hiperbárica da marca Multiplace Marno®, em dias alternados, totalizando nove sessões, com duração de 60 minutos, em atmosfera de oxigênio a 100%, sob pressão de 2,8 atmosferas absolutas. As variáveis de análise foram: avaliações bioquímicas, hematológicas e clínicas realizadas antes e após nove sessões de OXTH, compreendendo: hematimetria, hemoglobinometria, hematócrito, leucometria absoluta e relativa, trombocitometria, dosagens de alanina-aminotransferase, aspartato-aminotransferase, gama-glutamiltransferase, fosfatase alcalina, bilirrubina total e frações, creatinina, uréia, proteínas totais, albumina, globulina e razão normalizada internacional de coagulação (INR). Foram observadas: ocorrência de ascite, peritonite bacteriana espontânea, prurido, encefalopatia e hemorragia digestiva, além do cálculo do Child-Turcotte-Pugh5 e MELD9. Os achados prévios à intervenção foram chamados de basais, enquanto os posteriores, finais. Os dados estatísticos foram analisados com o programa Statistcal Package for Social Sciences, apresentados sob a forma de tabelas de distribuição de frequência, com cálculo da média e desvio-padrão. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Pernambuco.

 

RESULTADOS

Dos 10 pacientes analisados, seis (60%) eram do gênero masculino e quatro do feminino, com média de idade igual a 59,00 ± 1,84 anos, variando de 52 e 66 anos. Os índices prognósticos e parâmetros laboratoriais dos pacientes estão descritos nas Tabelas 1 e 2. Três (30%) apresentaram diminuição no número e intensidade de episódios de encefalopatia. Não foram evidenciados quadros de peritonite bacteriana espontânea, hemorragia digestiva ou alteração do grau de ascite. Dois (20%) referiram discreta melhora do prurido. Quatro (40%) relataram sensação de bem-estar por algumas semanas após sessões de oxigenoterapia hiperbárica.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Todo paciente com doença hepática cujo tempo de vida após transplante seja aumentado, deveria ser submetido a esse procedimento, sem lista de espera, no momento mais adequado do curso de sua doença e, portanto, com as melhores chances de ter sua qualidade de vida resgatada10. A evolução ruim dos pacientes em lista de espera estimula investigadores na utilização da oxigenoterapia hiperbárica para portadores de doenças hepáticas em estágio avançado em lista, como forma de melhorar seu estado e sua qualidade de vida, permitindo, talvez, sua chegada ao transplante em boa condição. Apesar de alguns trabalhos enfatizarem o aumento na velocidade de regeneração hepática e melhora de função hepática em situações graves, inclusive trombose de artéria hepática pós-transplante, não foram observadas alterações objetivas19. Os parâmetros laboratoriais e índices prognósticos não apresentaram melhora significante, contrariando o que alguns autores afirmam sobre melhora de níveis de algumas enzimasapós utilização de oxigenoterapia hiperbárica8,14,15,18. Também não encontrou-se aqui melhora que pudesse alterar o MELD, bem como o Child de modo significativo. Alguns dos achados subjetivos, como os observados em relação à melhora na intensidade do prurido e frequência dos episódios da encefalopatia, foram relatados. A chamada sensação de bem-estar ou melhora referida por poucos pacientes e familiares, apesar de subjetivos, chamam a atenção. Salienta-se o caso de uma paciente com síndrome hepato-pulmonar que obteve melhora do nível de consciência, pressão e saturação de oxigênio, tornando-se inclusive relato de caso7. Seria a oxigenoterapia hiperbárica efetiva na melhora da qualidade de vida desses pacientes? Pode se tornar tratamento ponte, particularmente para os pacientes com síndrome hepato-pulmonar, à espera pelo transplante hepático? Novas pesquisas serão necessárias, devendo estes achados estimularem outras pesquisas para responder esses e outros questionamentos.

 

CONCLUSÃO

A oxigenoterapia hiperbárica pode melhorar a função hepática na cirrose e ajudar a controlar as complicações relacionadas à insuficiência hepática na avaliação pré-operatória para transplante de fígado.

 

REFERÊNCIA

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Correspondência:
Euclides Martins
E-mail: euclides_martins@yahoo.com.br

Recebido para publicação: 07/12/2010
Aceito para publicação: 21/12/2010
Fonte de financiamento: não há
Conflito de interesses: não há

 

 

Trabalho realizado no Departamento de Cirurgia e Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE, Brasil.

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