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ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

Print version ISSN 0102-6720

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.24 no.2 São Paulo Apr./June 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-67202011000200002 

ARTIGO ORIGINAL

 

Síndrome de disfunção de múltiplos órgãos induzida por sepse: estudo experimental em ratos

 

 

João Batista de Area Lima; Thelma Larocca Skare; Osvaldo Malafaia; Jurandir Marcondes Ribas-Filho; Tiago Michaelis; Fernanda Marcondes Ribas; Rodrigo de Almeida Coelho Macedo

Correspondência

 

 


RESUMO

RACIONAL: A principal causa de morte em pacientes com sepse em cirurgia é a síndrome de disfunção de múltiplos órgãos. Assim, modelos experimentais que simulem alterações orgânicas da sepse em humanos são necessários.
OBJETIVO: Apresentar dois modelos que induzem a síndrome de disfunção de múltiplos órgãos e comparar as alterações induzidas por inoculação endovenosa de 36UE de lipopolissacarídeo ou célula viável de Escherichia coli, em relação à: mortalidade e sobrevivência; nível de lipopolissacarídeo; liberação de fator de necrose tumoral alfa; alterações hematológicas e das funções hepática e renal.
MÉTODO: Este estudo teve duração de sete dias e utilizou-se nele 50 ratos Wistar machos, divididos em três grupos: controle, lipopolissacarídeo e Escherichia coli. Os grupos experimento eram inoculados e separados em dois subgrupos, com inoculação a cada 24 ou 48 horas. No sétimo dia eram procedidas coletas de sangue e análise histopatológica de fígado, rins e pulmões.
RESULTADOS: Houve sobrevivência de dez animais no grupo controle; zero no bacteriano de 24 horas e seis no de 48 horas; dez no lipopolissacarídeo de 24 horas e seis no de 48 horas. Nos grupos experimentais, os níveis de lipopolissacarídeo, fator de necrose tumoral alfa, leucócitos, plaquetas, bastonetes e as alterações renais e hepáticas foram superiores ao grupo controle. Houve alterações histopatológicas no grupo bacteriano.
CONCLUSÃO: Os dois modelos de sepse induziram síndrome de disfunção de múltiplos órgãos, contudo a administração de 36UE de endotoxina a cada 48 horas pode ser utilizada com vantagens sobre os demais por não induzir morte em número significativo durante o período de sete dias.

Descritores: Sepse. Síndrome de disfunção de múltiplos órgãos. Modelos de sepse. Lipopolissacarídeo. Escherichia coli.


 

 

INTRODUÇÃO

Nos últimos dez anos, os avanços nas áreas da biologia celular e molecular facilitaram o entendimento dos fatores envolvidos na sepse, ficando claro tanto o papel da agressão bacteriana como a resposta inflamatória do hospedeiro.

O estudo das bactérias e de seus efeitos deletérios no organismo humano teve grande avanço no final do século XIX, quando os bacteriologistas passaram a estudar as substâncias excretadas por estes micro-organismos. Estas substâncias, denominadas exotoxinas, tinham como ponto comum a inativação pelo aquecimento. Nesse período descobriu-se que uma substância liberada pela lise bacteriana era resistente ao calor e se mostrava capaz de produzir efeitos biológicos importantes como febre e choque circulatório. Esta substância foi denominada de endotoxina1. Elas são compostas por açúcares polimerizados, complexos de ácidos graxos e proteínas. Como a porção proteica não tem atuação patológica, o termo lipopolissacarídeo (LPS) passou a ser utilizado como sinônimo de endotoxina1,2,9. Ela é um componente da membrana externa da parede de bactérias gram-negativas e composta por uma porção polissacarídica e uma lipídica1,2,9.

A porção polissacarídica encontra-se dividida em duas partes. A mais externa com propriedades antigênicas, induz à formação de anticorpos específicos contra esta parte da molécula1,5,9. A mais interna, o core5, por sua vez é dividido em core externo e core interno. No interno existem moléculas do ácido 3-desoxi-D-mano-2-octulosônico (Kdo) que são encontradas somente no LPS e podem ser ponto para futuras formas de terapia1.

A porção lipídica, conhecida como lipídio A, possui pouca variação estrutural e encontra-se dentro da membrana externa da bactéria, e é responsável pela toxicidade das bactérias gram-negativas9,12. O lipídio A é constituído de glucosamina, fosfato e ácido graxo. Para que ocorra a sua liberação da parede bacteriana, é necessário que a molécula se torne ativa, fenômeno que acontece quando as bactérias morrem ou se multiplicam1.

Dentre os muitos modelos propostos para reproduzir em animais os sinais de sepse vistos em humanos estão: inoculação de bactéria ou endotoxina intravascular ou intraperitoneal, ligadura e perfuração de ceco, infecção de tecidos moles, modelos de pneumonia e de meningite13. Como centenas de diferentes modelos de sepse têm sido descritos, fica claro que não existe um modelo único, perfeito e apropriado para todas as aplicações. Se o ideal para a sepse existisse deveria ter os seguintes critérios8: 1. capacidade de prever os resultados positivos e negativos de novos agentes terapêuticos; 2. baixo custo; 3. ser reproduzível dentro de um determinado laboratório; 4. ser reproduzível em diferentes laboratórios; 5. ser humanitário; 6. ser capaz de prever o ponto de mortalidade; 7. reproduzir os parâmetros hemodinâmicos, hematológicos e bioquímicos de maneira similar ao observados na sepse humana.

Os modelos de sepse que utilizam a administração endovenosa de LPS ou de bactéria representam modelos sem um foco infeccioso prévio8,10, com vantagens em relação ao controle preciso da dose de infusão e reprodutibilidade. Têm a desvantagem, no entanto, de induzir sepse de forma muito rápida, ao contrário da sepse em humanos, onde o processo se inicia lentamente21. As principais falhas apontadas nos modelos de sepse são o uso de animais jovens, sem nenhuma doença associada, induzida por uma única bactéria geralmente gram-negativa. Isso é o contrário do que ocorre na maioria dos casos de sepse humana, onde os pacientes são idosos, com doenças associadas, onde nem sempre se conhece o agente causal ou às vezes pode ser causada por mais de uma bactéria, fungos ou vírus6.

Assim, para auxiliar no estudo da sepse, este estudo tem por objetivos apresentar dois modelos que induzem a síndrome de disfunção de múltiplos órgãos e comparar as alterações induzidas por inoculação endovenosa de 36UE de lipopolissacarídeo ou célula viável de Escherichia coli em relação à mortalidade e sobrevivência, nível de lipopolissacarídeo, liberação de fator de necrose tumoral alfa, alterações hematológicas e das funções hepática e renal.

 

MÉTODOS

Utilizaram-se 50 ratos (Rattus norvegicus albinus, Rodentia mammalia), machos, da linhagem Wistar, com idades entre 123 a 138 dias e pesos de 236,2±11,4 g que foram separados em grupos (Figura 1)

 

 

Os animais foram separados em grupos de cinco, alojados em caixas de polipropileno desinfetadas com hipoclorito de sódio a 1%, contendo cepilho esterilizado por autoclavagem - trocados a cada 48 horas -, em temperatura controlada entre 19 a 23ºC, sob ciclo de iluminação automaticamente regulado a cada 12 horas em ambiente com exaustão forçada. Receberam ração específica para a espécie (Nuvilab - Nuvital®) e água acidificada a pH 4,0 ad libitum. Durante este período foram procedidos exames parasitológicos de fezes, inspeção da pelagem para investigação de ectoparasitas, sendo excluídos os animais portadores. Após a seleção permaneceram por duas semanas sob regime de observação antes de serem iniciados os experimentos.

Preparação do inóculo de LPS

Ela seguiu a metodologia proposta por Morrison e Leive19 e Fink8, sendo a solução preparada diariamente, duas horas antes da inoculação. Era feita a pesagem do LPS Sigma Chemical® (artigo L-4130 lote 30k4063), liofilizado, obtido da cepa 0111:B4 de Eschericia coli procedente da Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil em frascos de vidro esterilizado e apirogênico mantido em geladeira entre 4ºC e 8ºC, conforme a necessidade diária do cronograma de inoculações. A seguir solubilizava-se as alíquotas de LPS contidas nos frascos de vidro em 10 ml de solução fisiológica imediatamente antes de sua inoculação nos animais; separava-se uma alíquota da solução para dosagem de endotoxina pelo método LAL (Lymulus Amebocyte Lisates), para a padronização do inóculo que era diluído para conter 36 unidades endotóxicas/ml (UE/ml).

Após a identificação da caixa e de cada rato, era feita a sedação deles em campânula fechada sob saturação de Isoflurano (Forane® Abbott) tomando-se a precaução de não induzir anestesia. Após isso, era realizada a inoculação de 36 UE da solução de LPS com seringa descartável para insulina, na veia dorsal peniana do rato, sendo realizada uma leve pressão no local da punção para evitar refluxo e observá-los por 30 minutos.

Todos os animais foram avaliados diariamente, sempre no mesmo horário, anotando em protocolo os seguintes parâmetros: prostração, piloereção, blefarite sanguinolenta, hematúria, morte. Em caso de morte, procedia-se necrópsia sendo coletadas amostras de rins, fígado e pulmões para avaliação histopatológica (hematoxilina-eosina).

Preparação do inóculo de Escherichia coli

Seguiu-se a metodologia proposta por Isenberg15, sendo a suspensão preparada diariamente duas horas antes da inoculação. Realizava-se a semeadura de Escherichia coli 0111:B4 (ATCC 12015 - procedente da Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil) em ágar infusão de cérebro e coração, 24 horas antes de sua preparação; incubava-se por 18 horas em estufa a 37ºC; duas horas antes do procedimento de inoculação, eram coletadas as colônias desenvolvidas no meio de cultura e suspensas em solução fisiológica em tubo de ensaio; comparava-se a turvação obtida pela suspensão preparada com os tubos de cloreto de bário através da escala nefelométrica de Mac-Farland; definia-se a concentração; procedia-se a diluição, em outro tubo de ensaio com solução fisiológica, até obtenção da concentração de 106 unidades formadoras de colônias (106 UFC/ml); separava-se uma alíquota da suspensão de Escherichia coli para dosagem de endotoxina pelo método LAL; semeava-se novamente a Escherichia coli em ágar infusão de cérebro e coração, sendo ela incubada para o dia seguinte. Após a obtenção desta dosagem, ela era diluída para conter 36 unidades endotóxicas /ml (UE/ml).

Inoculação

Após verificação da identificação da caixa e de cada rato, era feita a sedação deles em campânula fechada sob saturação de Isoflurano (Forane® Abbott) tomando a precaução de não induzir anestesia. Após a sedação procedia-se à inoculação de LPS ou de 36UE da solução de Escherichia coli com seringa descartável para insulina, na veia dorsal peniana do rato, sendo feita leve pressão no local da punção para evitar refluxo. Observou-se o local da inoculação por 30 minutos.

Coleta de sangue

Ao sétimo dia do experimento os ratos eram anestesiados da mesma forma e realizava-se punção intra-cardíaca sendo coletado sangue em seringa de 20 ml e agulha 25x8 mm esterilizadas e apirogênicos em volume de no mínimo 10 ml, suficiente para a indução de parada cárdio-respiratória. O sangue era separado em alíquotas mínimas de 2 ml em diferentes tubos para as seguintes aferições: 1. contagem de leucócitos, bastonetes e plaquetas; 2. provas de função hepática - bilirrubina direta, bilirrubina total, TGO e TGP; 3. provas de função renal - uréia e creatina; 4. dosagens de endotoxina e fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) e 5. determinação do tempo de ação da protrombina (TAP).

Para a dosagem de endotoxinas, foi empregado o método do Lymulus Amebocyte Lisate (Endosafe®1073), descrito por Bertók4, que tem por princípio a capacidade dos amebócitos extraídos do crustáceo Limulus polyphemus gelificarem-se na presença de endotoxinas (LPS). Esta gelificação é consequência da ativação da enzima zimogênica serin-protease, em presença de cátions divalentes que produzem o coagulogênio do Limulus.

Para a dosagem imunoenzimática dos níveis plasmáticos do fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) empregou à técnica imunoenzimática quantitativa23, na qual um anticorpo monoclonal específico anti-TNFα é fixado em placa de Terazaki para posterior captura do antígeno TNFα. Foi empregado o conjunto de reativos Biotra Tumor Necrosis Factor Elisa System (Amersham Pharmacia code RPN 2718®).

Avaliação estatística

Os resultados foram comparados pelo método de ANOVA através do teste de Tukey-Kramer. Para as comparações entre grupos utilizou-se o teste de t de Student. Em ambas as avaliações adotou-se p<0,05 como índice mínimo de significância estatística.

 

RESULTADOS

A Tabela 1 demonstra a ocorrência de mortalidade entre os animais de cada subgrupo, através de acompanhamento diário até o sétimo dia.

Após a morte, os animais foram necropsiados sendo coletadas amostras de rins, fígado e pulmões para avaliações histopatológicas.

Os que receberam inóculos de LPS e evoluíram para a morte apresentavam apenas prostração e piloereção. Na necrópsia não apresentavam alterações nos rins e no fígado e os pulmões apresentavam-se congestos.

Os ratos que receberam inoculações de Escherichia coli apresentavam-se prostrados em momentos anteriores à morte, com piloereção e blefarite sanguinolenta. Na avaliação macroscópica de rim deste grupo (subgrupo EC-1) evidenciou-se área cortical edemaciada e focos hemorrágicos na região medular com características de necrose tubular (Figura 2A). Microscopicamente observou-se congestão tubular e infiltrado inflamatório (Figura 2B).

Na Figura 2, ainda, observam-se a macro e a microscopia do pulmão dos mesmos animais, sendo destacada na macroscopia a intensa hemorragia (2C), confirmada pela microscopia (2D).

As avaliações relatadas a seguir referem-se aos grupos LPS-1, LPS-2, EC-2 e Controle, não foram procedidas no grupo EC-1 devido a que todos os ratos morreram durante o experimento.

Assim, no sétimo dia de observação a inoculação de 36 UE de células viáveis de Escherichia coli a cada 24 horas (EC-1) não permitiu a sobrevivência dos ratos até o sétimo dia do estudo, e a inoculação a cada 48 horas (EC-2) permitiu a sobrevivência de seis dos dez ratos inoculados. A mesma quantidade de endotoxina administrada a cada 48 horas (LPS-2) possibilitou a sobrevivência dos dez ratos, e nos casos de inoculação a cada 24 horas (LPS-1) houve sobrevivência de seis dos dez ratos.

Avaliações hematológicas

Foi observada leucocitose nos grupos inoculados com LPS e Escherichia coli (Tabela 2), pois as contagens de leucócitos nestes grupos foram maiores que no grupo controle. Entre os grupos inoculados com LPS e Escherichia coli não houve diferenças significantes entre as contagens de leucócitos.

 

 

As contagens de plaquetas demonstraram plaquetopenia significante nos subgrupos inoculados com LPS e Escherichia coli, pois foram menores que no grupo controle. Entre os grupos inoculados com LPS e Escherichia coli não houve diferenças significantes entre as contagens de plaquetas.

As contagens de bastonetes demonstraram desvio nuclear à esquerda significante nos grupos inoculados com LPS e Escherichia coli, pois foram maiores que no grupo controle. Entre os subgrupos inoculados com LPS-1 e LPS-2 não houve diferença significante. A contagem do subgrupo EC-2 foi significantemente menor do que a contagem nos subgrupos LPS-1 e LPS-2.

Avaliação da função hepática

Foi observado aumento acentuado das dosagens da transaminase glutâmica-oxalacética nos grupos inoculados com LPS e Escherichia coli, em relação ao grupo controle. Houve diferença significativamente maior do LPS-2 em relação ao LPS-1. Não houve diferença significativa entre os subgrupos inoculados com LPS-1 e EC-2 e entre LPS-2 e EC-2.

Foi observado aumento acentuado das dosagens de transaminase glutâmico-pirúvica nos grupos inoculados com LPS e Escherichia coli, em relação ao grupo controle. Houve diferença significante maior entre LPS-1 e EC-2 e entre LPS-2 e EC-2.

Foi observado aumento acentuado das dosagens de bilirrubina total nos grupos inoculados com LPS e Escherichia coli, em relação ao grupo controle. Entre os subgrupos inoculados com LPS ou Escherichia coli não foram observadas diferenças significantes.

Foi observado aumento das avaliações do TAP nos grupos inoculados com LPS e Escherichia coli, em relação ao grupo controle. Entre os subgrupos inoculados o subgrupo LPS-1 foi maior que no LPS-2 e este menor que o subgrupo EC-2.

Entre as avaliações da função hepática procedidas destacaram-se as determinações de TGO para diferenciar os grupos LPS-1 e LPS-2; a TGP entre LPS-1 e EC-2, e LPS-2 e EC-2 ; o TAP entre LPS-1 e LPS-2 e LPS-2 e EC-2 (Tabela 2).

Avaliação da função renal

Foi observado aumento acentuado das dosagens de uréia nos grupos inoculados com LPS e Escherichia coli, em relação ao grupo controle. Houve aumento significativo dos subgrupos LPS-1 e LPS-2 em relação ao subgrupo EC-2, e do LPS-2 em relação ao LPS-1.

Foi observado aumento significativo das dosagens de creatinina nos grupos inoculados com LPS e Escherichia coli, em relação ao grupo controle. Houve aumento significativo do subgrupo LPS-2 em relação ao subgrupo EC-2 (Tabela 2).

Dosagens de endotoxina

No grupo controle não houve detecção de endotoxina, não sendo possível comparar este resultado aos dos grupos inoculados com LPS e Escherichia coli. Entre os subgrupos não houve diferença significante das dosagens, mostrando que os níveis séricos de endotoxina foram similares (Tabela 3).

 

 

Assim, quanto à indução de endotoxemia, os três subgrupos demonstraram níveis superiores ao grupo controle e não houve diferença significante entre a administração de endotoxina a cada 24 ou 48 horas (subgrupos LPS-1 e LPS-2 respectivamente) ou ainda células viáveis de Escherichia coli a cada 48 horas (EC-2).

Dosagens de fator de necrose tumoral alfa

Foi observado aumento acentuado das dosagens de TNF-α nos grupos inoculados com LPS e Escherichia coli , em relação ao grupo controle. Entre os subgrupos inoculados, o LPS-1 mostrou valores significativamente maiores que o subgrupo EC-2 (Tabela 3).

A administração de 36UE de endotoxina a cada 24 horas (LPS-1) não diferiu da administração a cada 48 horas (LPS-2), por sete dias.

 

DISCUSSÃO

No presente estudo optou-se pelo modelo de indução endovenosa de sepse por ser ele de metodologia simples e de fácil reprodutibilidade. Apresenta como desvantagem a não presença de um foco de infecção, o que acarreta em instalação do processo séptico de início abrupto. Para tentar contornar a não presença de um foco de manutenção da infecção, foi escolhida a utilização de forma de indução mantida durante sete dias, com doses a cada 24 horas ou a cada 48 horas e não aquela feita somente inoculação única, em grande dose como em outros experimentos9. Procurou-se assim, uma maneira de simular a sequência de fatos que ocorrem secundários a um foco de infecção. O material utilizado, no caso do uso de LPS continha dose de 36 UE/ml, obtida com solução de lipopolissacarídeo a 2 mg/kg, o que é considerado dose baixa, existindo na literatura relato do uso de até 10 mg/kg18.

No caso do uso de Escherichia coli, a suspensão também foi padronizada de forma a conter a mesma quantidade, ou seja, de 36 unidades endotóxicas por mililitros. Desta maneira, os dois sistemas utilizados, o de LPS e o com EC continham a mesma concentração de toxinas o que foi feito com intuito de permitir que esta variável não fosse causa de viés de interpretação.

Ao serem analisadas as metodologias empregadas na indução de sepse nos grupos LPS e EC, observou-se que os dois grupos representam modelos controlados, facilmente reproduzíveis, mas que o grupo EC necessitou de várias etapas para preparação do inóculo. Essa bactéria precisa ser semeada em meio ágar cérebro e coração por 24 horas, coletada e submetida à determinação da concentração em UFC/ml e, posteriormente diluída para que a solução contivesse 36 UE/ml. O preparo para o grupo LPS foi metodologicamente mais simples, pois o procedimento requeria basicamente pesagem e solubilização no momento da inoculação. Todavia, o grupo LPS apresentou como desvantagem custo mais elevado.

Sabe-se que a sepse pode ser desencadeada por inoculação de células viáveis ou somente do componente celular efetivamente responsável pela eclosão da sepse, o lipopolissacarídeo20. Essas duas formas de indução estão refletidas nos modelos ora testados. No realizado por inoculação do micro-organismo vivo, optou-se pela utilização da bactéria Escherichia coli, porque as gram-negativas são as principais bactérias relacionadas com infecção e sepse em humanos.

Para identificação do sucesso quanto à indução de sepse nos animais foram dosados marcadores como o nível de endotoxina e a liberação TNF-α. Akamine1 relata que a endotoxina está relacionada ao desencadeamento dos processos fisiopatológicos básicos no choque séptico e que a injeção de quantidades variáveis de lipopolissacarídeo é capaz de produzir choque séptico e morte em animais de experimentação.

Além dos parâmetros clínicos, hemodinâmicos e laboratoriais convencionais, diversos estudos têm demonstrado ser possível caracterizar a SRIS através da presença ou ausência de determinados marcadores biológicos associados ao processo inflamatório e infeccioso22. Na verdade, uma característica marcante e invariável da SRIS é a indução e liberação de diversas citocinas e proteínas de fase aguda, tanto pró quanto anti-inflamatórias, cujos níveis séricos se elevam rapidamente durante a resposta inflamatória. Hubl, et al.14, mostrou que o TNF-α e seu receptor TNF-R5 (receptor 5 do fator de necrose tumoral alfa) estão consistentemente aumentados na sepse. Segundo vam Der Pollt e Sauerwein24, o TNF-α ele é tido como mediador importante na sepse a partir das seguintes evidências: é a primeira citocina que aparece na sepse; sua administração em animais induz síndrome com as características da sepse e o tratamento com anticorpo anti-TNFα protege contra os efeitos letais do LPS em vários modelos animais.

Em relação ao nível de endotoxina não houve detecção no grupo controle, não sendo possível comparar este resultado aos dos inoculados com LPS e Escherichia coli. Houve aumento nos grupos LPS e EC e entre os subgrupos não houve diferença significante das dosagens, mostrando que os níveis séricos de lipopolissacarídeo foram similares para caracterizar a sepse em todos os grupos.

Foi observado aumento acentuado das dosagens de TNF-α nos grupos LPS e Escherichia coli, em relação ao grupo controle, mostrando que os dois grupos estavam em sepse por este marcador. Portanto os dois modelos se mostraram eficientes em apresentar elevação tanto de TNF-α quanto de endotoxina.

Entre os ratos do EC-1 ocorreram seis mortes no terceiro dia, duas no quarto dia e duas no quinto dia. Entre os do subgrupo EC-2, (inoculação a cada 48 horas por sete dias), ocorreram quatro mortes no terceiro dia. Desta forma, destaca-se no terceiro dia de evolução, o maior número de mortes entre os ratos que receberam inóculos de Escherichia coli. Os que morreram no transcurso do estudo foram submetidos à necrópsia e avaliação histológica de órgãos vitais como fígado, rins e pulmões. Foram verificados os mesmos achados macroscópicos na necrópsia e na microscopia de rins, pulmões e fígado dos subgrupos EC-1 e EC-2.

Os dez ratos do subgrupo EC-1 e em quatro do EC-2, que morreram em sete dias, demonstraram alterações histopatológicas significativas. Nos rins observou-se edema, hemorragia, congestão e necrose tubular e ainda inflamação. No fígado havia congestão, hemorragia, edema e necrose. Nos pulmões verificou-se intensa hemorragia. Estes achados são compatíveis com SRIS, decorrente de infecção, principalmente por bactérias gram-negativas.

Nos ratos que receberam inóculos de LPS houve menor mortalidade que naqueles que receberam inóculos de Escherichia coli e somente no grupo LPS-1 (inoculação a cada 24 horas) houve duas mortes no sexto dia e outras duas no sétimo. Ao contrário do que se observou nos ratos inoculados com Escherichia coli, que apresentavam em momento anterior à morte prostração, piloereção e blefarite sanguinolenta, esses últimos evoluíram para a morte apresentando apenas prostração e piloereção.

Nos quatro ratos que morreram inoculados com LPS a cada 24 horas durante os sete dias, a necrópsia não demonstrava alterações nos rins e no fígado e os pulmões apresentavam-se congestos. A morte dos ratos deste grupo pode ser explicada por distúrbio de coagulação agudo, ou afecções cardíacas, sem evidências objetivas para sua confirmação, porém discutidas e confirmadas por Fink e Heard9, ao avaliarem a sepse induzida por infusão endovenosa de lipopolissacarídeo em ratos.

Em termos de sobrevivência dos ratos, destaca-se a diferença observada em termos de esquema de inoculação do subgrupo LPS-2, no qual os mesmos receberam 36 unidades endotóxicas a cada 48 horas por sete dias. Neste grupo não se observou mortalidade alguma. Outros grupos com menor taxa de mortalidade foram os de LPS-1 e EC-2, com seis sobreviventes cada.

No presente estudo ocorreu leucocitose em ambos os grupos, tanto nos ratos inoculados com LPS como nos com E. coli e as contagens de bastonetes demonstraram desvio nuclear à esquerda. Conforme descrito3,24, em extensa revisão sobre mediadores na sepse experimental, a contagem das células brancas totais sanguíneas maior que 12.000/mm3 ou menor que 4.000/mm3 ou com mais de 10% de formas imaturas estão relacionadas com a instalação da síndrome da resposta inflamatória sistêmica na sepse, em conjunto com outros achados.

As contagens de plaquetas revelaram diminuição significantes, mas não ocorreu diferença significante entre os grupos LPS e EC. Nos ratos em estudo, no momento anterior à morte, verificou-se blefarite sanguinolenta e na necrópsia foi encontrado congestão e hemorragia nos rins, fígado e pulmões , o que se justifica pela plaquetopenia significativa nos grupos LPS e EC.

A elevação da alanina aminotransferase e da aspartato aminotransferase é relativamente comum na sepse, podendo ser resultado de lesão hepática isquêmica ou pós re-perfusional, de toxicidade medicamentosa, de inflamação sistêmica ou de ação patogênica direta do agente infeccioso, sendo um sinal de sofrimento celular dos hepatócitos e, em alguns casos, de disfunção mitocondrial16,17.

A elevação da bilirrubina direta e das enzimas de membrana, como a gama glutamiltransferase e a fosfatase alcalina apontam para colestase inflamatória, medicamentosa ou obstrutiva. A elevação da bilirrubina indireta pode indicar hematopoiese ineficaz, hemólise microangiopática ou por efeito de drogas, aloimunização levando a anemia hemolítica auto-imune, desencadeamento de defeitos agudos da membrana eritrocitária subjacente, como a deficiência de glicose-6-fosfato-desidrogenase, entre outros. Observou-se aumento acentuado das dosagens de bilirrubinas nos grupos inoculados com LPS e Escherichia coli em relação ao grupo controle. Entre os subgrupos inoculados com LPS ou Escherichia coli não foram observadas diferenças significantes. A disfunção hepática pode ocorrer em consequência à alteração direta do funcionamento da célula hepática ou por hipoperfusão tecidual. Ela pode acentuar a resposta inflamatória por diminuir a depuração de endotoxinas e/ou citocinas11 e é traduzida por hiperbilirrubinemia com aumento da forma direta. Isto ocorre pela não excreção da bilirrubina conjugada no pólo sinusoidal.

O tempo de atividade da protombina é frequentemente utilizado como marcador da função hepática e o seu aumento foi observado nos grupos LPS e Escherichia coli em relação ao grupo controle.

Nos últimos anos, a sepse tem se tornado a principal causa de insuficiência renal aguda, principalmente no ambiente de terapia intensiva. Em estudo prospectivo, sua incidência foi de 19% em pacientes sépticos, de 23% naqueles com sepse grave e de 51% em pacientes com choque séptico7. Ela é geralmente um dos componentes da síndrome de disfunção de múltiplos órgãos e sistemas, e a sua presença afeta adversamente o prognóstico. Uréia e creatinina são usadas como marcadores da função renal. Foi observado aumento das dosagens de uréia e creatinina nos grupos LPS e Escherichia coli em relação ao grupo controle.

No presente estudo verificou-se que os ratos estavam em sepse pelas alterações nos marcadores TNF-α e lipopolissacarídeos. Os indicadores da presença da síndrome de disfunção de múltiplos órgãos incluíram o achado de disfunção em dois ou mais órgãos, como fígado, rins, pulmões e, também, na coagulação evidenciando que houve indução dessa síndrome nos ratos com sepse.

 

CONCLUSÕES

Os dois modelos de sepse induziram síndrome de disfunção de múltiplos órgãos, contudo a administração de 36UE de endotoxina a cada 48 horas pôde ser utilizada com vantagens por não induzir morte em número significativo durante o período de sete dias.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
João Batista de Area Lima,
e-mail: jobalclinica@bol.com.br

Fonte de financiamento: não há
Conflito de interesses: não há
Recebido para publicação: 17/12/2010
Aceito para publicação: 25/01/2011

 

 

Trabalho realizado no Instituto de Pesquisas Médicas do Hospital Universitário Evangélico de Curitiba / Faculdade Evangélica do Paraná - Curitiba, PR, Brasil

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