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ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

Print version ISSN 0102-6720

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.24 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-67202011000400007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Complicações e óbitos nas operações para tratar a obesidade mórbida

 

 

Aluísio Stol; Giovana Gugelmin; Valdir Martins Lampa-Junior; Cassius Frigulha; Rafael Armíno Selbach

Correspondência

 

 


RESUMO

RACIONAL: A cirurgia bariátrica, apesar de complexa, apresenta baixa morbimortalidade; contudo, quando presente apresenta graves conseqüências.
OBJETIVO: Avaliar a presença de complicações e óbitos nos pacientes portadores de obesidade mórbida submetidos a tratamento cirúrgico.
MÉTODOS: Análise retrospectiva de 656 pacientes submetidos a procedimento cirúrgico bariátrico. Foram analisados: sexo, idade, peso pré-operatório, índice de massa corporal pré-operatório, procedimento realizado, tempo de internação, complicações pós-operatórias e mortalidade.
RESULTADOS: A idade variou entre 16 a 68 anos (média de 36,6 anos). Do total, 80,7% eram do sexo feminino. O índice de massa corporal médio foi de 42,8 kg/m2 (35 e 68 kg/m2) O tempo médio de internação foi de 4,5 dias (1 a 125 dias). O bypass gástrico foi realizado em 370 pacientes (56,40%) e a operação de Capella em 236 casos (35,97%). A principal complicação encontrada foi fístula, em 17 pacientes (2,59%). Houve necessidade de reoperação em 17 pacientes (2,59%). Oito pacientes morreram (1,21%), três foram submetidos à operação de Capella, três à bypass, um à opração de Scopinaro e um à gastrectomia vertical.
CONCLUSÃO: A principal complicação foi a fístula digestiva, que ocorreu em 2,59% e a mortalidade foi de 1,21%.

Descritores: Obesidade mórbida. Procedimentos cirúrgicos operatórios. Complicações.


 

 

INTRODUÇÃO

A obesidade é doença crônica, multifatorial e geneticamente relacionada ao acúmulo excessivo de gordura corporal2. A obesidade mórbida está se tornando doença endêmica, associada à diversas comorbidades o que diminui a qualidade de vida e a expectativa de vida9. Quanto maior o peso corporal do indivíduo menor a sua expectativa de vida14.

Considera-se obesidade quando o índice de massa corporal (IMC) encontra-se acima de 30 kg/m². Quanto à gravidade, a OMS define obesidade grau I quando o IMC situa-se entre 30 e 34,9 kg/m², obesidade grau II entre 35 e 39,9kg/m² e obesidade grau III quando ultrapassa 40 kg/m2 2. Também são obesos mórbidos pacientes que estão com 100% ou mais acima do seu peso ideal ou 45,4 kg acima do peso ideal5.

A prevalência da obesidade é crescente nos países desenvolvidos, sendo que a obesidade mórbida (IMC >35 kg/m²) tem crescido duas vezes mais rápido do que a obesidade (IMC entre 30 e 35 Kg/m²)13. No Brasil, observou-se crescimento maior que 90% na população obesa nos últimos 30 anos3,7. Hoje, é um dos principais problemas de saúde pública, no Brasil e no mundo2,3.

A obesidade mórbida representa risco iminente à vida e deve ser tratada de maneira definitiva, segundo a National Institutes of Health (NIH) Consensus Conference de 1991, o tratamento cirúrgico é a melhor opção para a perda de peso e sua manutenção em longo prazo1,3.

Os procedimentos cirúrgicos bariátricos são eficazes e seguros em aumentar a longevidade e a qualidade de vida dos obesos mórbidos5. O bypass em Y-de-Roux é a operação mais comum nos Estados Unidos1, sendo considerado o procedimento mais efetivo para o controle da obesidade mórbida e recomendado como padrão-ouro de tratamento5.

A cirurgia bariátrica, apesar de complexa, apresenta baixa morbimortalidade, estando justificada sua realização no tratamento da obesidade mórbida3.

Neste trabalho, o objetivo é avaliar as complicações e óbitos dos pacientes portadores de obesidade mórbida submetidos a tratamento cirúrgico.

 

MÉTODOS

Foi realizada análise retrospectiva de 656 pacientes submetidos a procedimento cirúrgico bariátrico em hospitais de Joinville, SC, Brasil no período de novembro de 1999 a julho de 2010. Eles foram analisados nos seguintes aspectos: sexo, idade, peso pré-operatório, IMC pré-operatório, procedimento a qual foi submetido, tempo de internação, complicações pós-operatórias e mortalidade. Foram consideradas complicações as fístulas, o tromboembolismo pulmonar e aquelas que resultaram em óbito e reoperação e consideradas complicações maiores, a fístula e o tromboembolismo pulmonar.

Os critérios utilizados para a indicação cirúrgica foram baseados nas determinações do "National Institutes of Health Consensus Development Panelon Gastrointestinal Surgery for Severe Obesity" que incluem IMC maior de 40 Kg/m² ou maior que 35 Kg/m² com comorbidades severas.

 

RESULTADOS

A idade variou entre 16 a 68 anos (média de 36,6 +/- 10,35 anos). O sexo feminino predominou representando 530 pacientes (80,7%). O índice de massa corporal médio (IMC) foi de 42,8 kg/m2, variando entre 35 e 68 +/- 5,48 kg/m². O tempo médio de internação foi de 4,5 dias (1 a 125 dias).

A operação mais realizada foi o bypass gástrico em Y-de-Roux em 370 pacientes (56,40%), três por via laparotômica. A operação de Capella (bypass gástrico em Y-de-Roux com anel) foi realizada em 236 casos (35,97%), 99 por via laparoscópica. A banda gástrica foi realizada em 19 pacientes (2,89%). A gastrectomia vertical via laparoscópica foi realizada em 16 pacientes (2,43%). A operação de Scopinaro foi realizada em 10 pacientes (1,52 %), seis por via laparoscópica. O duodenal switch via laparoscópica foi realizado em cinco pacientes (0,76%).

A principal complicação encontrada foi fístula, em 17 pacientes (2,59%). Três (0,4%) tiveram tromboembolismo pulmonar. Houve necessidade de reoperação em 17 pacientes (2,59%), dos quais 10 por fístula (oito por fístula da anastomose gastrojejunal e dois no estômago excluso), um por fístula da anastomose em Y-de-Roux, dois por obstrução do Y, dois por sangramento, um por suspeita de fístula com lavagem da cavidade, um por pancreatite. Oito pacientes morreram (1,21%), sendo dois por embolia pulmonar e os demais por fístula (Figura 1). Dos pacientes que foram a óbito três tinham sido submetidos à operação de Capella, três ao bypass, um a operação de Scopinaro e um à gastrectomia vertical.

 

 

DISCUSSÃO

A cirurgia bariátrica é opção de tratamento eficaz e segura para a perda de peso aumentando a longevidade e a qualidade de vida dos obesos mórbidos. Mas, não é um procedimento isento de complicações. A principal e maior é a fístula, cuja incidência varia de 0,5 a 3%1,2,3,5,6. Elas são difíceis de diagnosticar. Os sinais mais comuns de sua existência são o aumento da frequência cardíaca e a fadiga respiratória1,4,8,11. Essa complicação ocorreu nesta casuística em 2,59%; 11 foram submetidos a relaparotomia e outros seis foram tratados clinicamente.

A principal causa de morte não esperada é a embolia pulmonar1,12. Ela tem incidência, descrita na literatura entre 0,4 e 3,1 % dos pacientes1,5,6. Neste estudo ela foi de 0,4%, dois morreram. Houve necessidade de reoperação em 2,59% dos casos, inferior a de Nguyen (6,6%)10.

A taxa de mortalidade operatória descrita na literatura varia de 0,1 a 2%, dependendo do procedimento e das características dos pacientes1,2,6 Nesta casuística houve oito óbitos no período pós-operatório imediato (30 dias), sendo seis por fístula e dois por tromboembolismo pulmonar.

 

CONCLUSÕES

A principal complicação foi a fístula, que ocorreu em 2,59% dos pacientes e a mortalidade foi de 1,21%.

 

REFERÊNCIAS

1. Bult MJ, van Dalen T, Muller AF. Surgical treatment of obesity. Eur J Endocrinol. 2008 Feb;158(2):135-45.         [ Links ]

2. Fandiño, Julia; Benchimol, Alexander K; Coutinho, Walmir F; Appolinário, José C. Cirurgia bariátrica: aspectos clínico-cirúrgicos e psiquiátricos. Rev Psiquiatr Rio Gd Sul; 26(1), 2004        [ Links ]

3. Faria OP, Pereira VA, Gangoni CMC, Lins RD, Leite S, Rassi V, Arruda SLM. Obesos mórbidos tratados com gastroplastia redutora com Bypass gástrico em Y de Roux: análise de 160 pacientes. Brasília méd;39(1/4):26-34, 2002.         [ Links ]

4. Fernandez Jr. AZ, DeMaria EJ, Tichansky DS, Kellum JM, Wolfe LG, Meador J, Sugerman HJ. Experience with over 3000 open and laparoscopic bariatric procedures: multivariate analysis of factors related to leak and resultant mortality. Surgical Endoscopy 2004; 18: 193-197.         [ Links ]

5. Ferraz EM, Arruda PCL, Bacelar TS, Ferraz AAB, Albuquerque AC, Leão CS. Tratamento cirúrgico da obesidade mórbida. Rev. Col. Bras. Cir;30(2):98-105, 2003.         [ Links ]

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Correspondência:
Giovana Gugelmin,
e-mail: giovanagugelmin@gmail.com

Fonte de financiamento: não há
Conflito de interesses: não há

Recebido para publicação: 27/04/2011
Aceito para publicação: 05/07/2011

 

 

Trabalho realizado no Instituto de Cirurgia Digestiva e Obesidade de Joinville, Joinville, SC, Brasil

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