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ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

Print version ISSN 0102-6720

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.26 no.4 São Paulo Nov./Dec. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-67202013000400012 

ARTIGO ORIGINAL

 

Força de mordida em pacientes candidatos à gastroplastia

 

 

Andréa Cavalcante dos SantosI; Carlos Antonio Bruno da SilvaII

INúcleo do Obeso do Ceará
IIUniversidade de Fortaleza - UNIFOR, Fortaleza, CE, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

RACIONAL: A mastigação é composta de estruturas que devem ser equilibradas para obtenção de função ideal e a força de mordida é um dos componentes dessa função.
OBJETIVO: Analisar a força de mordida de pacientes candidatos à gastroplastia em Y-de-Roux.
MÉTODOS: Foi utilizado o eletromiógrafo de superfície Miotool 200/400 (Miotec®, Porto Alegre/RS, Brasil) acoplado à célula de carga de mordida, sensor SDS1000, com o registro da leitura da força máxima durante a execução da mordida. O aparelho era integrado ao software Miograph 2.0. Os critérios de inclusão foram: pacientes obesos mórbidos independentemente do sexo, faixa etária 20-40 anos, sem ausências e/ou alterações dentárias importantes e candidatos à gastroplastia em Y-de-Roux. Foram estudadas as mordidas em posição anterior e laterais direita e esquerda e a intensidade delas medida em quilograma força (Kgf). O critério de exclusão foi o de pacientes que apresentassem deformidades faciais e/ou oclusais impossibilitando quaisquer das posições de coleta.
RESULTADOS: Foram analisados 39 pacientes (59% mulheres), média de idade 27,1 (±5,7). Eles apresentaram força de mordida anterior com média geral 9,1 Kgf (min 1,3 e max 22,9 Kgf - ±5,2); lateral esquerda com média geral 16,3Kgf (min 1,5 e max 55,6 Kgf -±11,9); lateral direita com média geral 14,0 Kgf (min 2,3 e max 45,3 Kgf - ±9,4).
CONCLUSÃO: A força de mordida foi inferior àquelas descritas para a população em geral e o gênero não constituiu variável para ela.

Descritores: Força de mordida. Obesidade mórbida. Gastroplastia.


 

 

INTRODUÇÃO

A boca, estrutura anatomicamente complexa, desenvolve funções para muitas das finalidades integradoras do organismo. Os padrões funcionais orais podem ser resumidos em digestório (ingestão - envolvendo as funções de mastigação e deglutição), respiratório, tegumentar (defesa), condutual (comunicação) e de sensibilidade3.

Dentre estes padrões, a mastigação existe como único ato fisiológico que envolve todos os sentidos (visão, olfato, paladar, tato e audição)13, necessário para a nossa nutrição; porém, apesar de ser realizado muitas vezes de forma automática, vem ganhando mais observações e estudos por se tratar de função abstrusa, tanto pela diversidade motora quanto sensitiva e neuronal que a envolve.

Para serem mantidas as condições saudáveis, são envolvidas estruturas fixas e móveis, tais como ossos, articulações, glândulas, músculos, dentes, mucosas e aporte neurovascular3, além de vários tipos de movimentos e todas as forças envolvidas nesse contexto.

Faz-se necessário entender que o processo de mastigação é desenvolvido em três momentos: 1) incisão, onde o alimento é apreendido e cortado em região de dentes incisivos (fase que dura de 5-10% da mastigação); 2) trituração (65-70% da mastigação) feia pelos molares; e 3) pulverização, que gera pressão interoclusal com moenda do alimento durante o golpe mastigatório (25-30% do ato mastigatório)3.

Então, é de fundamental importância para boa trituração dos alimentos que a força mastigatória tenha concentração em pré-molares e molares, já que o maior tempo para a boa mastigação é nessa região.

A força de mordida é um dos componentes da função mastigatória que determina a quantidade de carga destinada à quebra dos alimentos, sendo mensurada através de equipamentos específicos chamados de gnatodinamômetros e/ou células de carga de mordida7,10.

Embora muitas pesquisas já tenham abordado a força de mordida, pouco se encontrou envolvendo-a nos pacientes com obesidade mórbida. A força de mordida é uma análise objetiva que visa mensurar a eficácia muscular em apertamento dentário exercida pelo indivíduo, e fomentar melhor desempenho por parte das estruturas do sistema estomatognático.

A alimentação desses pacientes perpassa por fatores diversos e que precisam ser mais bem esclarecidos, tanto no aspecto da escolha alimentar mais saudável como da musculatura que será utilizada para eficiência dessa boa nutrição. Publicações5,12 enfatizam a necessidade de intervenção fonoaudiológica no processo, pois a amostra demonstrou que a junção de fatores como alimentos fáceis de engolir concomitante com a autoafirmação dos entrevistados sobre o não-funcionamento correto da mastigação reforçam a necessidade dessa atuação.

Este estudo tem como objetivo analisar a força de mordida de pacientes obesos candidatos à gastroplastia em Y-de-Roux.

 

MÉTODO

Este é um estudo quantitativo, descritivo e transversal. O período de obtenção das informações e exames foi de outubro/2012 a março/2013. Obteve-se aprovação do Comitê de Ética da Universidade de Fortaleza sob nº 114.609/2012 para sua realização. Todos os incluídos assinaram termo de Consentimento Livre Esclarecido.

Os sujeitos da pesquisa foram selecionados por conveniência no Núcleo do Obeso do Ceará - NOC situado em Fortaleza, Ceará, Brasil. Os critérios de inclusão foram: pacientes de ambos os gêneros; faixa etária entre 20 a 40 anos; e candidatos à gastroplastia em Y-de-Roux. Foi considerado critério de exclusão os que apresentavam deformidades faciais e/ou oclusais que impossibilitassem as posições de coleta, incluindo-se mordidas em posição anterior e laterais direita e esquerda.

Utilizou-se para as aferições de força de mordida o aparelho de eletromiografia de superfície Miotool 200/400 - (Miotec®, Porto Alegre/RS, Brasil) acoplado à célula de carga de mordida, sensor SDS1000. Este sensor possui registro de leitura da força máxima obtida durante a execução da mordida e integrado ao software Miograph 2.0.

A técnica utilizada está baseada em protocolos já publicados11,10.

Para a coleta, o paciente posicionava-se sentado em uma cadeira de forma confortável com anteparo posterior para a coluna e pés apoiados no chão; a cabeça e o tronco ficavam eretos e o olhar era dirigido para o horizonte. Era orientada a execução de três apertamentos dentários com força máxima em célula de carga para avaliação de mordida. Entre cada uma dessas três ações contabilizava-se o tempo para intervalo, no total de 30 segundos, para repouso de toda a estrutura envolvida minimizando fadiga muscular.

Com atenção à higiene e biossegurança, antes de cada coleta por paciente, envolveu-se este sensor em dedos de luva cirúrgica descartável de látex.

A atuação de mordida com intercuspidação máxima foi coletada em três momentos: 1) com a célula na face incisal do dente inferior instruía-se o paciente a realizar mordida anterior, incisivos centrais; 2 e 3) nesses momentos, localizava-se a célula na face oclusal do dente inferior avaliado, e instruía-se a realizar mordidas laterais com posicionamento em primeiros molares direito e esquerdo, respectivamente.

No que concerne à análise dos dados utilizou-se estatística descritiva com o emprego de medidas de tendência central, representada pela média, desvio-padrão e os valores máximos e mínimos. Para tanto, utilizou-se o software Excel v. 2010 (Microsoft, 2010).

 

RESULTADOS

A amostra foi constituída por 23 (59%) mulheres e 16 (41%) homens, com média de idade para as mulheres de 27,1±5,7 anos e para os homens, 26,1±5,2 anos.

De acordo com a Tabela 1, observa-se que, na coleta em posição anterior, 66,7% (26) dos pacientes apresentaram força de mordida igual ou menor que 10 Kgf, distribuída em 26,9% (n=7) para os homens e 73,1% (n=19) para mulheres.

 

 

Esses valores também são apresentados na localização da mordida em molares, em 79,5% (n=31) com força menor ou igual a 21Kgf, em mordida lateral esquerda, dividido para as mulheres o percentual de 58% (n=18) e em homens, 42% (n=13).

Em posição de mordida lateral direita, observou-se também 79,5% (n=31) com o mesmo valor padrão de comparação (<21Kgf), difundido em 38,7% (n=12) para homens e 61,3% (n=19) para mulheres.

Para o próximo dado, a análise realizou-se a partir da relação de força apresentada de molares, retirando-se a média entre as laterais esquerda e direita e calculando-se o percentual em relação aos incisivos ou vice-versa, quando estes apresentaram força maior.

A Tabela 2 mostra que 11 (28,2%) pacientes concentraram maior força de mordida nos dentes incisivos do que nos molares.

 

 

Na Tabela 3 constata-se que os pacientes obesos mórbidos apresentam média de força de mordida com valores menores que 10 Kgf, detectado principalmente nas mulheres e em força de mordida anterior.

 

 

Outro dado observado, e de maior valor, foi atribuído às mulheres em mordida lateral esquerda.

 

DISCUSSÃO

Quando se observa que 66,7% da população pesquisada apresentou força de mordida menor que 10 Kgf em incisivos, segundo estudos3,6,8, fica demonstrado ter ela força muito inferior à da população em geral.

Aplica-se, inclusive, a mesma situação à amostra exposta às forças em molares, constatando que a força de apertamento dentário, de forma geral, apresenta-se inferior à população estudada.

Nesta pesquisa, observou-se em 11 (28,2%) pacientes a convergência de força diferindo dessa ordem: maior concentração de força de apertamento dentário em dentes molares do que em incisivos. Este fato sugere que eles necessitam de organização e aprimoramento de força em região de trituração e pulverização dos alimentos. Fatos neste estudo demonstraram homens com força maior, enquanto as mulheres expuseram maior apertamento dentário.

A força máxima de mordida encontrada em homens foi de 19,4 Kgf enquanto que em mulheres esse número chegou a 15,3 Kgf4.

Em outro estudo6 avaliando a força máxima de mordida, os homens apresentaram, em região de molares, força equivalente a 39 Kgf e, em incisivos, 18 Kgf; já as mulheres, 22 Kgf e 11Kgf, respectivamente. Com números mais atuais, foi observada força maior em homens (88 Kgf em molares e 28 Kgf em incisivos) que em mulheres (69 Kgf em molares e 22 Kgf em incisivos)8 emédia de força de mordida maior para os homens (522-847N) do que para as mulheres (441-597N)1, 2,9,11,14.

Pode-se, inclusive, registrar valores variáveis de força de mordida atingindo habitualmente 90 Kg ao nível de molares e forças de magnitudes menores em porções mais anteriores da mandíbula3.

Em todos esses achados atentou-se à existência de diversos estudos com a mensuração da força de mordida, tanto em população sem sintomas ou disfunções como em diversas doenças odontológicas. Porém, não alcançou-se nenhum dado que fizesse correlação entre pacientes obesos mórbidos e a sua força de mordida, como o proposto neste estudo. Pode-se, inclusive, mencionar que as metodologias existentes de mensuração são diferentes, ora em N (Newton), ora em Kgf (quilograma-força). O mesmo diga-se da aparelhagem de coleta, bem variável, dificultando a comparação de resultados. Fica assim difícil de delinear o normal na população com obesidade mórbida.

 

CONCLUSÃO

A força de mordida foi inferior àquelas descritas para a população em geral e o gênero não constituiu variável para ela.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Andréa Cavalcante dos Santos
E-mail: deafono@gmail.com

Recebido para publicação: 30/04/2013
Aceito para publicação: 08/08/2013
Fonte de financiamento: não há
Conflito de interesses: não há

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