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ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

versión impresa ISSN 0102-6720

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.27 no.1 São Paulo enero/mar. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-67202014000100002 

Artigo Original

Influência do teste de esforço no refluxo gastroesofágico em portadores de doença do refluxo gastroesofágico

Antonio Moreira MENDES-FILHO

Joaquim Prado Pinto MORAES-FILHO

Ary NASI

Jaime Natan EISIG

Tomas Navarro RODRIGUES

Ricardo Correa BARBUTTI

Josemberg Marins CAMPOS

Décio CHINZON

2Departamento de Gastroenterologia, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

RESUMO

Racional

: A doença do refluxo gastroesofágico é afecção com elevada prevalência em todo o mundo, que apresenta grande variedade de sinais e sintomas esofagianos ou extra-esofágico, podendo ter entre suas complicações o adenocarcinoma esofágico. Nos últimos anos, maior importância tem sido dada à influência dos exercícios físicos na sua patogênese. Algumas investigações recentes, embora com resultados conflitantes, apontam para agravamento do refluxo gastroesofágico durante eles.

Objetivos

: Avaliar a influência da atividade física em pacientes com doença erosiva e não erosiva através do teste ergométrico de esforço, e ainda, a relevância do tônus ​​do esfíncter esofagiano inferior e do índice de massa corpórea durante esta situação.

Métodos

: Vinte e nove pacientes com doença do refluxo erosiva (grupo I) e 10 com não-erosiva (grupo II) foram avaliados prospectivamente. Todos foram submetidos à avaliação clínica, seguida pela endoscopia digestiva alta, manometria e pH-metria esofágica de 24 horas. Um teste ergométrico foi realizado uma hora antes de retirar a sonda de pH-metria. Durante ele as seguintes variáveis ​​foram analisadas: eficácia do teste, o consumo máximo de oxigênio ou VO2 max, tempo de refluxo ácido, sintomas de refluxo gastroesofágico, influência do tônus ​​do esfíncter esofágico e do índice de massa corporal na ocorrência de refluxo gastroesofágico durante esta situação.

Resultados

: VO2 max apresentou correlação significativa, quando foi maior ou igual a 70%, apenas no grupo doença erosiva, avaliando os pacientes com ou sem refluxo ácido durante o teste ergométrico (p=0,032). As demais variáveis ​​consideradas não demostraram correlação significativa entre a ocorrência de refluxo gastroesofágico e a atividade física (p>0,05).

Conclusões

: 1) Atividade física de alta intensidade pode predispor à ocorrência de episódios de refluxo gastroesofágico em pacientes em portadores da forma erosiva; 2) atividade física de baixa intensidade ou de curta duração não exercem influência, independentemente do índice de massa corpórea; 3) o tônus ​​do esfíncter esofagiano não influencia na ocorrência de episódios de refluxo gastroesofágico durante atividade física.

Palavras-Chave: Refluxo gastroesofágico; Teste de esforço; Exercício; Motilidade gastrointestinal

INTRODUÇÃO

A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) foi definida pelo consenso de Montreal como condição desenvolvida quando o refluxo do conteúdo do estômago provoca sintomas incomodos e complicações25. É condição de grande importância medicosocial devido as altas taxas de prevalência, estimada em 20% na população adulta nos Estados Unidos e na Europa23. No Brasil, um estudo populacional demonstrou prevalência em torno de 12%16.

A fisiopatologia da DRGE é multifatorial, destacando-se os relaxamentos transitórios do esfíncter esofágico inferior (EIE ) e a sua hipotonia.

Vários estudos5 , 6 , 21 , 22demostraram que, dependendo da intensidade da atividade física realizada, sintomas relacionados com o trato digestivo superior (pirose, regurgitação, eructação ) são comuns , estando presente em até 58%6.

A forma como o exercício físico influencia a ocorrência do refluxo gastroesofágico (RGE), ainda não está clara. Três possíveis mecanismos, são sugeridos por trabalhos anteriores: distúrbios motores gastroesofágicos resultantes da redução do fluxo sanguíneo mesentérico21 , 22; alterações endocrinometabólicas20; aumento da pressão abdominal própria de algumas atividades físicas6. Outras possíveis causas foram avaliadas, tais como alterações na junção esofagogástrica e no tônus (hipotonia) do EIE19.

A maioria dos estudos sobre o tema foi realizada em atletas e indivíduos assintomáticos saudáveis sendo escassas as avaliações recentes da influência do exercício físico em portadores de DRGE12. A hipótese é que os sintomas e episódios de refluxo induzidos pelo exercício são mais frequentes e sintomáticos em portadoes de DRGE quando comparados com aqueles que ocorrem durante suas atividades habituais.

O objetivo principal foi avaliar a influência da atividade física através do teste ergométrico na ocorrência de RGE em pacientes com DRGE, comparando as formas erosiva e não erosiva da doença. Como objetivo secundário, buscou-se avaliar a influência do tônus do EIE e do índice de massa corporal (IMC) na ocorrência dos mesmos.

MÉTODOS

O estudo foi conduzido de acordo com os princípios da Declaração de Helsinki. O protocolo foi aprovado pelo comitê eticocientífico do Departamento de Gastroenterologia e da comissão de análise de projetos de pesquisa do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - FMUSP (Cappesq), com o consentimento No 0615/07. Após, os pacientes continuaram sendo acompanhados no ambulatório de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas da FMUSP.

É um estudo prospectivo controlado, avaliando 39 pacientes adultos com idades entre 18 e 50 anos, de ambos os sexos, provenientes do Ambulatório de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas, todos com sintomas típicos de DRGE (pirose ou regurgitação mais de três vezes por semana). De acordo com os achados endoscópicos, eles foram divididos em dois grupos: Grupo I - 29 pacientes com esofagite erosiva e Grupo II - 10 pacientes com doença do refluxo não-erosiva .

Com base no IMC, os pacientes foram pesados ​​e classificados de acordo com a classificação da Organização Mundial da Saúde2, a saber: indivíduos normais ou saudáveis ​​- aqueles com IMC entre 19 e 24,9 kg/m2; sobrepeso - aqueles com IMC entre 25-30 kg/m2; considerados obesos - pessoas com IMC>30 kg/m2. Neste estudo, os pacientes incluídos tinham apenas obesidade grau I.

A ocorrência de DRGE foi avaliada através da realização de pH-metria, comparando a ocorrência deste fenômeno durante as atividades diárias dos pacientes (excluindo o período de sono ) e durante o teste ergométrico.

Os pacientes foram submetidos aos seguintes procedimentos: no primeiro dia foi realizada endoscopia digestiva alta para avaliar a presença ou ausência de erosões pépticas; no segundo, foi realizada manometria esofágica para localizar precisamente o EIE no posicionamento correto da sonda de pH-metria e para descartar a presença de dismotilidade esofágica. No terceiro, era realizado um teste ergométrico com o paciente em uso da sonda de pH-metria, utilizando o protocolo de Heck modificado. O procedimento foi realizado uma hora após o desjejum, sendo concluído quando todas as etapas fossem realizadas (oito no total), e interrompido quando a frequência cardíaca atingiu a máxima pré-determinada, ou a pedido do paciente. Para calcular o VO2 max pré-determinada, fórmulas-padrão foram utilizadas, descritas pelo consenso nacional de ergometria, que são: VO2=1.11x( 60-0,55 x idade) para homens e 1.11x( 48-0,37 x idade) para mulheres7 .

Para calcular a frequência cardíaca máxima pré-determinada foi utilizada a fórmula de Karvonen17, subtraindo 220 da idade do paciente; como submáxima foi considerada 85% deste valor. O teste foi considerado eficaz quando o paciente atingiu pelo menos a frequência cardíaca submáxima7. Após o procedimento, ele ficava sentado uma hora para sua recuperação; em seguida, a sonda de pH era removida, para análise dos dados .

Para realização dos procedimentos funcionais, utilizaram-se equipamentos e softwares da Alacer(r) . Para análise dos dados no período em que o paciente exerceu suas atividades habituais, excluíram-se os períodos em supino e durante a realização do teste ergométrico (considerados artefatos). Para analisar apenas durante o teste, todos os demais períodos foram considerados artefatos. Drogas que interferissem na motilidade e/ou secreção gastrointestinal - tais como pró-cinéticos, bloqueadores do canal de cálcio, anti-espasmódicos, os bloqueadores dos receptores de histamina H2 e os inibidores da bomba de protons -, foram suspensos 10 dias antes do início do estudo. Os pacientes foram instruídos a usar antiácidos (hidróxido de alumínio), se apresentassem sintomas dispépticos e/ou típicos da DRGE.

Foram analisadas as seguintes variáveis: se a eficácia do teste influenciaria na ocorrência de episódios de RGE; se o nível de VO2 máximo atingido influenciaria na ocorrência de episódios de refluxo durante o exame; se durante o teste ergométrico o indivíduo teria episódios de RGE ou percentual de tempo de refluxo ácido maior em comparação as atividades habituais ( excluindo-se os períodos na posição supina); se durante o teste haveria mais queixas clínicas sugestivas de RGE , em comparação a atividades habituais; se a hipotonia do EIE teria influencia na ocorrência de RGE durante o teste; se o sobrepeso ou obesidade leve teria influência sobre a ocorrência de episódios de RGE durante o teste, em comparação aos indivíduos de peso normal (eutróficos).

Análise estatística

Para comparar as variáveis ​​categóricas por grupo, foi utilizado o teste exato de Fisher, excetuando-se a análise da ocorrência dos sintomas em repouso e no teste ergométrico, quando foi utilizado o teste não paramétrico de Wilcoxon. Para analisar a influência do IMC nos dois grupos juntos, foi utilizado o teste da razão de verossimilhança. Em todas as análises foi adotado o nível de significância de 5% (p<0,05).

RESULTADOS

Influência da eficácia do teste ergométrico na determinação de episódios de RGE durante sua realização

Como mostrado na Tabela 1, a eficácia do teste não influencia na ocorrência de RGE nos dois grupos analisados ​​(p>0,05).

TABELA 1 Correlação do teste ergométrico eficaz em predispor episódios de refluxo gastroesofágico em comparação ao teste considerado não eficaz 

Refluxo Eficaz Ineficaz p 1
Grupo I 0,382
Ausente 14 6
Presente 8 1
Grupo II 1,000
Ausente 8 1
Presente 1 0

1 O teste exato de Fisher

Avaliação pelo consumo máximo de oxigênio da correlação entre episódios de refluxo e intensidade física alcançada

A influência da intensidade física em produzir um episódio de RGE no teste, obtida através da medida indireta da VO2 máxima pré-determinada, foi avaliada em cada grupo e estão apresentados na Tabela 2. Houve influência da intensidade da atividade física na ocorrência de RGE apenas nos pacientes do grupo I que atingiram VO2 maior ou igual a 70%. Eles tiveram pelo menos um episódio de RGE no teste em comparação com aqueles que não atingiram no mesmo grupo (p=0,032). Esta correlação não foi observada quando analisou-se o grupo II (p>0,05).

TABELA 2 Correlação entre o consumo máximo de oxigênio durante o teste ergométrico ea presença de episódios de refluxo gastroesofágico 

Episódios de refluxo VO2 ≥ 70% VO2 <70% p 1
Grupo I 0,032*
Ausente 4 16
Presente 6 3
Grupo II 1,000
Ausente 5 4
Presente 1 0

Teste exato de Fisher

Comparação da porcentagem de tempo de refluxo ácido durante o teste ergométrico e nas atividades habituais

Foi avaliado se no período em que o paciente realizou o teste houve aumento proporcional na porcentagem do tempo de refluxo ácido em comparação ao mesmo nas atividades habituais. A Tabela 3 mostra que, no grupo I, a grande maioria dos pacientes apresentou percentual de tempo de refluxo ácido maior nas atividades habituais; no grupo II observou-se o mesmo comportamento. A correlação estatística não foi significativa (p>0,05).

TABELA 3 Tempo de refluxo ácido durante o teste ergométrico e atividades habituais 

% Tempo de refluxo ácido no teste ergométrico superior em relação ao das atividades habituais p1
Sim Não
Grupo I 22 7 0,158
Grupo II 10 0

1Teste exato de Fisher

Avaliação das queixas clínicas sugestivas de refluxo gastroesofágico durante o teste de esforço e nas atividades habituais

Avaliou-se se durante o teste o paciente referia sintomas de RGE e comparou-se com o número de queixas relatadas nas atividades habituais. A Tabela 4 mostra que os pacientes em ambos os grupos apresentaram frequência de queixas clínicas sugestivas de RGE maior nas atividades habituais quando comparado ao período de realização do teste, sendo esta diferença estatisticamente significativa (p=0,026).

TABELA 4 Número de sintomas referidos no teste ergométrico e nas atividades habituais 

Número de sintomas nas atividades habituais (NSAH) X número de sintomas no teste ergométrico (NSTE) p1
NSAH<NSTE NSAH=NSTE NSAH>NSTE Total
Grupo I 3 10 16 29 0,026
Grupo II 0 4 6 10

1Teste não paramétrico de Wilcoxon

Avaliação da influência do tônus do EIE

A influência da pressão do esfíncter em episódios de RGE na EST foi avaliado em ambos os grupos. A Tabela 5 mostra que não houve correlação significativa entre a presença de hipotonia do EIE e a presença de episódios de RGE durante o teste nos dois grupos (p>0,05).

TABELA 5 Avaliação da influência do tônus do EIE e a presença de episódios de RGE durante o teste ergométrico 

Tônus do EIE
Episódios de refluxo Hipotonia Normal p 1
Refluxo 0,106
Ausente 6 14
Presente 6 13
Grupo II 0,200
Ausente 1 8
Presente 1 0

1Teste exato de Fisher

Avaliação da influência do índice de massa corporal na presença de episódios de RGE durante o teste ergométrico

A influência do IMC na determinação episódios de RGE nos dois grupos em conjunto durante o teste foi avaliada e está apresentada na Tabela 6. Os pacientes com excesso de peso (sobrepeso e obesidade) não apresentaram mais episódios de refluxo relacionados ao teste, quando comparados com os pacientes com peso dentro da faixa de normalidade (p>0,05). Todos com obesidade estavam na classificação de obesidade leve (grau I) da Organização Mundial da Saúde.

TABELA 6 Presença de refluxo durante o exercício, em comparação com indivíduos com peso normal e com sobrepeso ou obesidade 

Refluxo Total p 1
Sem refluxo Refluxo ao esforço
Peso normal 8 (88,9%) 1 ( 11,1% ) 9(100%) 0,3994
Sobrepeso/Obeso 20 (66,7%) 10 (33,3%) 30(100%)
Total 28 (71,8%) 11 (28,2%) 39(100%)

1Teste de razão de verossimilhança

DISCUSSÃO

Nos últimos anos, vários estudos têm demonstrado que a atividade física pode provocar sintomas de DRGE5 , 6 , 21 , 22. Por um lado, esta correlação parece ser bem documentada quando realizada em níveis extenuantes13; existe controvérsia sobre a questão quando se trata de atividades cotidianas, como uma simples caminhada. Avidan et al., em um estudo randomizado concluiram que caminhada leve acelera o esvaziamento gástrico e reduz a duração da exposição do esôfago ao ácido em refluidores1. Outro aspecto ainda controverso, é como o exercício propiciaria a ocorrência de episódios de refluxo.

Neste estudo, optou-se por avaliar pacientes com as duas formas de DRGE (erosiva e não erosiva) que não se exercitavam-se regularmente (a maioria). A prática física escolhida foi o teste ergométrico, pois era o método disponível no ambulatório, podendo ser facilmente utilizado nesta população, cujo perfil era variado.

Sendo um estudo original, não encontrou-se na revisão da literatura nenhum outro trabalho que correlacionasse RGE com o teste ergométrico, portanto, não é possível comparar estes resultados com os de outros autores sobre a influência da eficácia do teste.

Neste estudo a grande maioria dos pacientes, tanto no grupo I (75,86%) como do grupo II (90%), realizaram teste considerado eficaz, não sendo encontrada correlação estatística entre esta variável e a ocorrência de episódios de RGE (p>0,05). Por outro lado, a VO2 max é considerada a medida fisiológica mais importante da capacidade funcional cardiorrespiratória7. Neste estudo, observou-se correlação significativa entre a presença de episódios de RGE e o teste quando VO2 foi de pelo menos 70% apenas no grupo I (p=0,032). Este resultado é compatível com os relatados por Soffer et al., que demonstraram que quanto maior o nível de atividade física, maior a porcentagem de tempo em refluxo e número de seus episódios 21 , 22. A importância da intensidade da atividade física também foi demonstrada no estudo de Kraus et al., que encontraram aumento total do tempo em refluxo durante uma hora de corrida em relação ao mesmo período em repouso, sendo o esforço físico realizado com a frequência cardíaca sempre próximo a da máxima em indivíduos condicionados15.

Neste estudo comparou-se proporcionalmente o tempo em que o pH foi menor do que 4 durante o teste, com aquele observado durante suas atividades habituais anteriormente a realização do procedimento. O período em que o indivíduo esteve na posição supina foi excluído da análise, por entender-se que nenhuma atividade estava sendo realizada e como tentativa de padronizar a análise, uma vez que cinco dos nove (55,55%) pacientes que tiveram RGE durante o teste eram refluidores supinos ou combinados. Apenas sete dos 29 pacientes no grupo I (24,13%) e nenhum no grupo II tiveram aumento proporcional do tempo de refluxo ácido durante o exercício físico. Acredita-se que pode ter influenciado favoravelmente o tempo em RGE proporcionalmente maior nas atividades habituais, mais do que durante o do teste realizado.

Avaliação da influência de atividades diárias é alvo de algumas obras de literatura. Józkow et al., em estudo envolvendo número maior de pacientes (n=100) portadores de DRGE, comparam parâmetros pH-métricos de RGE, sintomas da afecção, nível de atividade física diária realizados durante uma semana com as mesmas variáveis ​​e atividades realizadas durante 24 horas de realização de pHmetria, e concluíram que as atividades habituais não estão associadas com mudanças nestes parâmetros12. Neste estudo, os pacientes de ambos os grupos apresentaram sintomas de RGE em maior número nas atividades habituais em relação ao período em que realizaram o teste, sendo que para esta análise também excluiu-se o período em posição supina. No grupo I, dos 29 pacientes, apenas três (10,34%) relataram queixas mais queixas clínicas durante o teste, enquanto que no grupo II tal fato não foi verificado. Houve significância estatística (p=0,026) ao inverso da hipótese de ser comprovada (número de sintomas mais frequentes durante o teste). Novamente, o período mais longo de monitoramento das atividades habituais também pode ter influenciado esta variável.

Poucos estudos referem a sintomatologia apresentada durante a atividade física e não fazem correlação da frequência de sintomas entre os dois períodos, não permitindo, assim, comparação. Em relação às queixas clínicas relatadas durante o exercício, Kraus et al.15 demostraram como mais frequente episódios de eructação. Neste estudo, o sintoma mais frequente da DRGE foi a pirose no teste no grupo I (relatado por ses pacientes). No grupo II, apenas um teve queixa clínica (regurgitação) no teste.

Neste estudo, hipotonia do EIE não influenciou a ocorrência de RGE durante o teste nos dois grupos (p=0,106 e p=0,200 nos grupos I e II, respectivamente). Este achado é semelhante ao relatado por Pandolfini et al.19 em estudo realizado pelo pHmetria sem cateter (sistema Bravo) que não encontraram influência da pressão do esfíncter na DRGE durante o exercício, apesar de ter influência da morfologia da junção esofagogástrica. Outro estudo realizado em indivíduos condicionados e sem queixas de RGE não demonstrou diferença estatística na pressão média de repouso do EIE naqueles que tiveram refluxo durante a atividade física15. Nos dois casos, não havia portadores de hipotonia do EIE nos grupos avaliados. Neste estudo, 14 pacientes apresentaram hipotonia do EIE, apresentando a maioria sobrepeso ou obesidade leve (76,92%). Embora a análise estatística não tenha demonstrado correlação, este fator pode ter exercido alguma influência sobre esta variável, devido à maior frequência de hipotonia e incidência maior de relaxamentos transitórios do EEI nestes pacientes2 , 3.

Neste estudo, o IMC não contribuiu para determinar episódios de RGE durante o teste. Quando analisados ​​em conjunto, 33,3% dos pacientes com sobrepeso ou com obesidade leve tiveram pelo menos um episódio de RGE durante o teste, enquanto nos indivíduos hígidos isso ocorreu em 11,1%. Naqueles que não tiveram RGE ao teste, 66,7% tinham sobrepeso ou obesidade leve, e 88,9% eram saudáveis. A análise estatística não demonstrou significância (p>0,05). Na revisão da literatura realizada não encontraram-se estudos considerando o IMC como precursor do RGE durante a atividade física. A maioria dos estudos foi conduzida em pacientes condicionado e/ou atletas e, por conseguinte, não foi possível comparar com o perfil da população aqui incluída. Na opinião destes autores, a correlação entre a atividade física e DRGE necessita de mais investigações com populações maiores. Este estudo tem limitações, especialmente levando em conta o curto período de tempo permitido pelo teste de esforço em pessoas de faixa etária mais elevada e sedentárias. Apesar desta restrição, este estudo confirma o que foi relatado por outros autores: o fato de que a relação entre atividade física e RGE é de intensidade dependente

CONCLUSÕES

Atividade física de alta intensidade pode predispor à ocorrência de episódios de refluxo gastroesofágico em pacientes em portadores da forma erosiva; a de baixa intensidade ou de curta duração não exerce influência, independentemente do índice de massa corpórea; o tônus ​​do esfíncter esofagiano inferior não influencia na ocorrência de episódios de refluxo gastroesofágico durante atividade física.

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Recebido: 06 de Agosto de 2013; Aceito: 28 de Novembro de 2013

Correspondência: Antonio Mendes Moreira Filho E-mail : moreiraantonio6@gmail.com

Fonte de financiamento: não há

Conflito de interesses: não há