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ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

versión impresa ISSN 0102-6720

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.27 no.1 São Paulo enero/mar. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-67202014000100003 

Artigo Original

Estudo prospectivo randomizado duplo-cego comparando polietilenoglicol com lactulose para preparo de cólon em colonoscopia

Aline Moraes MENACHO

Adriano REIMANN

Lie Mara HIRATA

Caroline GANZERELLA

Flavio Heuta IVANO

Ricardo SUGISAWA

2Serviço de Endoscopia do Hospital de Caridade Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Curitiba, Curitiba, PR, Brasil

RESUMO

Racional -

A colonoscopia é o exame mais utilizado atualmente para avaliação da mucosa colônica, permitindo diagnóstico e tratamento de diversas doenças. O preparo de cólon adequado é imprescindível para a realização do exame. Para tanto, é necessária a utilização de laxantes, cuja via preferencial de preparo é a oral.

Objetivo -

Comparar duas soluções para preparo de cólon nos pacientes adultos a serem submetidos à colonoscopia em regime ambulatorial e o perfil destes pacientes.

Métodos -

Estudo prospectivo duplo-cego com 200 pacientes distribuídos aleatoriamente em dois grupos: um que recebeu dose padrão de polietilenoglicol e o outro que recebeu dose padrão de lactulose. Os pacientes responderam a questionários para compilação de dados, como tolerância, sintomas e complicações relacionadas ao preparo. Além disso, foi avaliada também a eficácia do preparo com relação à presença de resíduos fecais.

Resultados -

Alteração do hábito intestinal e dor abdominal foram os principais motivos para o exame, sendo que hipertensão a comorbidade mais prevalente. Dez por cento dos que receberam lactulona não conseguiram completar o preparo e 50% consideraram o gosto do preparo "ruim, mas tolerável". O sintoma subjetivo mais comum após o preparo foi náusea, principalmente após a lactulona. Durante o exame, a maioria dos usuários da lactulona teve desconforto "leve", sendo que os que usaram polietilenoglicol consideraram o desconforto como "tolerável". A qualidade do preparo foi boa em 75%, independentemente do preparo utilizado.

Conclusão -

O polietilenoglicol apresentou melhor tolerância quando comparado à lactulona, não havendo diferença na qualidade do preparo.

Palavras-Chave: Colonoscopia; Preparo de colon; Polietilenoglicol; Lactulose

INTRODUÇÃO

A colonoscopia é o exame mais utilizado atualmente para a avaliação da mucosa colônica. Suas indicações mais frequentes incluem a investigação para sangramento intestinal baixo, alterações de hábito intestinal e o rastreamento de câncer colorretal. Nela, o sucesso está diretamente relacionado com a eficácia do preparo do cólon, procedimento que tem como objetivo esvaziar o cólon de todo o material fecal para permitir a visualização adequada da superfície mucosa. O preparo adequado é considerado fator diretamente associado ao correto diagnóstico do exame, menor chance de complicações, menor custo e transtorno para o paciente1.

Preconiza-se a utilização de laxantes para preparo adequado em adultos, seja por via oral (anterógrado) ou anal (retrógrado). A via preferencial é a oral - excetuando-se na suspeita de obstrução intestinal e ileostomias provisórias - por sua simplicidade e melhor eficácia em relação aos enemas, onde é necessário a introdução de tubos ou sondas por via retal. Os métodos orais podem diferenciar-se de acordo com o tipo e dose de laxante, o volume de líquidos a ser ingerido e a dieta alimentar. Estudos mais recentes têm observado outros parâmetros como paladar, suplementação eletrolítica e o tempo e divisão das doses1.

O preparo ideal deve limpar o cólon de maneira rápida sem causar alterações histológicas na mucosa, ser de custo baixo e isento ou com mínimos efeitos colaterais como desconforto abdominal e alterações hidroeletrolíticas. Independentemente do medicamento utilizado, o preparo anterógrado estimula o peristaltismo e espasmos intestinais responsáveis por sintomas como cólicas e distensão abdominal, diarreia líquida, perdas hidroeletrolíticas (sede, tontura, astenia, hipotensão postural) e desconforto anal. A intolerância ao preparo (náuseas e vômitos) costuma ser associada ao volume de líquido ingerido e ao paladar.

O laxante ideal deve ser de volume reduzido, palatável, com mínimos efeitos colaterais e de custo baixo. Nenhum laxante reúne todos os critérios acima, e por isso existem diversos preparos a serem administrados de acordo com a situação clínica. Recente consenso demonstrou a eficácia e segurança de diversas formulações, entre elas o polietilenoglicol em até quatro litros2. A lactulose é laxante descrito na literatura médica para o tratamento de encefalopatia hepática em pacientes portadores de cirrose, bem como da constipação intestinal. Seu uso em preparo de cólon para colonoscopia é considerado efetivo com resultados semelhantes quando comparado ao manitol3.

Em recente revisão, listagem com diversos medicamentos e formas diferentes de preparo de cólon pode ser apreciada1. Medicamentos como fosfato de sódio, polietilenoglicol, picossulfato de sódio e citrato de magnésio foram submetidos a diversos estudos randomizados para se verificar eficácia e tolerância. Nenhum estudo contudo comparou polietilenoglicol e lactulose.

O polietilenoglicol (Muvinlax(r) ou Nulytely(r)) é solução eletrolítica não absorvível pelo cólon e que não induz à secreção de eletrólitos ou muco, reduzindo trocas significativas de fluidos no lúmen colônico. Ele tem-se mostrado não-tóxico3 , 4e pode ser ingerido em grandes quantidades sem efeitos grandemente nocivos3. O seu uso é relativamente seguro em pacientes com insuficiência renal, portadores de cirrose ou insuficiência cardíaca congestiva3. A principal desvantagem é a necessidade da ingestão de grande quantidade de líquidos (4 l), que embora seja eficaz, está associado à intolerância em até 15% dos pacientes. Estudos recentes com dose reduzida de polietilenoglicol (2 l) e associação com bisacodil ou citrato de magnésio têm demonstrado melhor tolerância3. Em relação à posologia e formas de administração, não se deve ingerir alimentos sólidos antes da solução; ingerir 240 ml do produto diluído em água (conforme orientação do fabricante) a cada dez minutos até que ocorra a saída de líquido claro pelo ânus ou ingestão máxima de quatro litros. A dose por via sonda nasogástrica é de 20 a 30 ml por minuto (1.2-1.8 l/hr)3.

A lactulose (Duphalac(r)) é um dissacarídeo, derivado semi-sintético da lactose. Não é absorvida e sofre ação bacteriana, que causa fermentação, acidificando o meio e provocando aceleração do trânsito intestinal por estímulo da motilidade3. Outra consequência da acidificação é o aumento da pressão osmótica dentro do lúmen do cólon, proporcional à dose empregada4. Em relação à administração, não se deve ingerir alimentos sólidos antes do preparo, que é de 120 ml da solução diluídos em suco claro coado ou água para perfazer 1000 ml, ingerido em até 1 h5. A utilização de lactulose para preparo de cólon em doses de 10% e 50% mostrou eficácia semelhante comparado ao manitol a 10%5. Em estudo com 2000 pacientes consecutivos, a lactulose foi administrada como acima referido5. A eficácia foi considerada boa em 84,8%, regular em 9,2% e ruim em 5,9% dos casos. A intolerância ao preparo (impossibilidade de ingerir todo o preparo) foi observada em 3,3% dos pacientes.

Estudos para avaliar a eficácia, tolerância e custos comparando o polietilenoglicol e a lactulose em preparo de cólon podem contribuir para a rotina dos pacientes a serem submetidos exames de colonoscopia. O objetivo deste estudo foi o de comparar o preparo do cólon entre estes dois tipos de soluções analisando-se a tolerância, sintomas, complicações e eficácia.

MÉTODOS

O estudo foi realizado no Hospital Santa Casa de Curitiba, Curitiba, PR, Brasil no período de janeiro de 2011 a janeiro de 2012. Após revisão e aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa da instituição, foram selecionados 200 pacientes provenientes do Sistema Único de Saúde e os exames realizados no Serviço de Endoscopia da Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Curitiba. Todos elegíveis para o estudo receberam instruções de preparo intestinal à base de polietilenoglicol ou lactulose. Cada paciente recebeu uma caixa escolhida aleatoriamente contendo um dos dois preparos, sem que ele ou os pesquisadores soubessem do seu conteúdo. O rótulo do medicamento foi coberto e os pacientes receberam instruções específicas para o preparo. As instruções foram dadas por funcionária do setor sem a presença dos pesquisadores. Cada caixa foi identificada com um número e registrada em ficha que foi mantida em envelope fechado e somente aberta em caso de algum problema relacionado ao preparo e para avaliação estatística ao final do estudo. Os pacientes considerados como elegíveis foram esclarecidos quanto ao consentimento informado por um dos pesquisadores envolvidos. Eles tiveram livre arbítrio de optar ou não pela participação no estudo. Os que optaram em não realizar o estudo receberam atendimento conforme a rotina do Serviço de Endoscopia.

Como critérios de inclusão, foram considerados elegíveis os pacientes que apresentassem condições clínicas adequadas para a ingestão de preparo intestinal por via oral. Os critérios de exclusão foram pacientes com ileostomia ou submetidos à ressecção colônica prévia, com segmento colônico excluso, suspeita de obstrução intestinal, gravemente enfermos, impossibilitados de ingestão oral, idade abaixo de 13 anos, peso abaixo de 50 quilos, gestantes e os que se recusassem a participar do estudo.

Duas avaliações foram realizadas, uma no mínimo três dias antes da colonoscopia e a outra no dia do estudo. A primeira avaliação constou da aplicação de questionário, em que foram formuladas perguntas sobre o motivo do exame, sintomas digestivos, antecedentes mórbidos pregressos e a situação atual de saúde, que foi mantido em sigilo e em poder dos pesquisadores envolvidos. A segunda, no dia da colonoscopia, constou da aplicação de questionário em que foram formuladas perguntas sobre os sintomas relacionados ao preparo de cólon, que foi mantido em sigilo e em poder dos pesquisadores envolvidos. As colonoscopias foram realizadas de forma habitual. Os achados e a qualidade do preparo foram registrados em ficha com escala padronizada baseada em estimativa visual da presença de resíduos fecais observados durante o exame (Figura 1).

FIGURA 1 Escala de qualidade do preparo intestinal 

RESULTADOS

Os principais motivos para o exame foram alteração do hábito intestinal e dor abdominal. Sessenta por cento dos pacientes apresentavam comorbidades, sendo hipertensão a mais prevalente; 10% dos que receberam lactulona e 4% dos que receberam polietilenoglicol não conseguiram completar o preparo; 50% consideraram o gosto do preparo "ruim, mas tolerável" - principalmente os que receberam lactulona. O sintoma subjetivo mais comum após o preparo foi náusea, principalmente após a lactulona. Durante o exame, a maioria dos usuários da lactulona teve desconforto "leve", sendo que os que usaram polietilenoglicol consideraram o desconforto como "tolerável". A qualidade do preparo, segundo a escala de Aronchick, foi "boa" em 75%, independente do preparo utilizado. Assim, o polietilenoglicol apresentou melhor tolerância quando comparado à lactulona, não havendo diferença na qualidade do preparo (Figura 2).

FIGURA 2 Sintomas subjetivos dos preparos 

DISCUSSÃO

O preparo do cólon para a colonoscopia consiste em procedimento essencial para a boa visualização da mucosa dos segmentos avaliados, tendo que ser realizado da maneira mais adequada para que o paciente tenha o menor desconforto e o exame maior acurácia. A via anterógrada (oral) é a mais utilizada na maioria das vezes e induz peristaltismo com cólicas, distensão abdominal e diarreias, entre outros. A intolerância ao preparo é comum e costuma ser associada ao volume de líquido ingerido e ao paladar.

Nenhum laxante resume todas as características para ser ideal (volume reduzido, palatável, com mínimos efeitos colaterais e de custo baixo), existindo, assim, diversas substâncias no mercado. Entre os preparos utilizados, encontram-se o polietilenoglicol, a lactulose, o manitol, entre outros, sendo que cada um deles apresenta suas vantagens e desvantagens. Torna-se necessária, assim, a análise minuciosa de cada substância utilizada e a comparação entre elas nas diversas situações clínicas.

CONCLUSÕES

A lactulona é laxante menos tolerável pelos pacientes para o preparo de cólon quando comparada ao polietilenoglicol, sendo que ambos apresentam a mesma qualidade no preparo para o exame.

REFERENCES

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Recebido: 19 de Agosto de 2013; Aceito: 10 de Dezembro de 2013

Correspondência: Aline Moraes Menacho E-mail: alinemenacho@yahoo.com.br

Fonte de financiamento: não há

Conflito de interesses: não há