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ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

versión impresa ISSN 0102-6720

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.27 no.1 São Paulo enero/mar. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-67202014000100008 

Artigo Original

Qualidade de vida de pacientes submetidos à hernioplastias laparoscópicas da parede abdominal anterior

Ricardo Zugaib ABDALLA

Rodrigo Biscuola GARCIA

Danniel Frade SAID

Beatrice Martinez Zugaib ABDALLA

2Hospital Sírio-Libanês em São Paulo, SP, Brasil

RESUMO

Racional

: A técnica de reparo de hérnia ventral via laparoscópica possibilitou operações com menor incisão na pele e menor dissecção dos tecidos moles ao redor da hérnia, portanto, melhor ferida operatória, rápido pós-operatório do paciente, retorno breve às atividades e menor taxa de complicações.

Objetivo

: Avaliar a aplicabilidade de um questionário de qualidade de vida baseado nos moldes da American Hernia Society, European Hernia Society e Carolinas Equation for Quality of Life em pacientes submetidos à hernioplastias laparoscópicas da parede abdominal anterior (incisional/epigástrica/ umbilical).

Método

: Em estudo retrospectivo de coorte envolvendo total de 21 pacientes no pós-operatório de 12 meses de hernioplastia laparoscópica da parede abdominal anterior pela técnica de "intraperitoneal onlay mesh" foram submetidos, por via telefônica, ao questionário da qualidade de vida.

Resultados

- Dos 21 pacientes, 19% sentiram retorno da hérnia e 81% relataram que nada aconteceu. Além disso 19% passaram por outra operação abdominal, sendo que dentre esses, 75% estava relacionada à hérnia previamente corrigida e 81% não passaram por nenhuma outra operação abdominal.

Conclusão

- Foi possível aplicar o questionário de qualidade de vida por via telefônica; a qualidade referida foi satisfatória e mostrou que os pacientes, de modo geral, ficaram satisfeitos com o procedimento cirúrgico.

Palavras-Chave: Hérnia ventral; Questionário; Qualidade de vida; Laparoscopia; Parede abdominal

INTRODUÇÃO

As hérnias da parede abdominal anterior (epigástrica, umbilical/paraumbilical e incisional) podem ser congênitas ou adquiridas. A epigástrica ocorre principalmente pela diástase dos músculos retoabdominais. A umbilical/paraumbilical situa-se junto à cicatriz umbilical, geralmente quando o conteúdo intracavitário atravessa a musculatura abdominal. A incisional é complicação frequente da laparotomia (3-13%), ocorrendo também em menores proporções na laparoscopia (0,8-2,8%)5 , 10 , 11.

Inicialmente, as herniorrafias eram realizadas por sutura simples através de procedimentos abertos, apresentando taxa de recidiva de 10-50%11. Já com a introdução do uso de próteses (telas) pela via aberta, a recidiva diminui permanecendo entre 3-18%1 , 5.

Na década de 90, quando LeBlanc e Booth descreveram a técnica de reparo de hérnia com prótese via laparoscópica, a recorrência herniária permaneceu ao redor de 10%, semelhante à taxa de recidiva da aberta1 , 8. Mesmo assim, a técnica laparoscópica possui diversas vantagens em relação à tradicional técnica aberta, como menor tempo de pós-operatório no hospital, retorno às atividades/trabalho em média de dois dias6 , 14; e reduzida taxa de complicações da ferida operatória devido à menor dissecção do tecido mole ao redor da hérnia5. Além disso, a via laparoscópica permitindo manuseio através de pequenas incisões - ao todo três, duas de 5 mm e uma de 10 mm11, fica esteticamente mais aceitável que a via aberta, no qual o tamanho da incisão depende da dimensão da hérnia.

Nas hernioplastias laparoscópica de parede abdominal anterior, a tela é ancorada no defeito herniário com margem de pelo menos 5 cm, realizada por suturas ou grampos, dentro do peritônio e em contato com as vísceras abdominais3 , 15. Essa técnica utilizada é chamada de IPOM (intraperitoneal onlay mesh), permanecendo a tela em contato com as vísceras.

O objetivo deste trabalho foi o de avaliar a aplicabilidade de um questionário telefônico de qualidade de vida em pacientes submetidos à este procedimento.

MÉTODOS

Entre o período de 11 de novembro de 2005 e 21 de maio de 2012, 62 pacientes foram submetidos à hernioplastia laparoscópica de parede abdominal anterior (incisional, umbilicar, epigástrica) pela técnica de IPOM, pelo mesmo cirurgião. As próteses utilizadas foram composix (Bard), dualmesh (Gore), proceed (Johnson) e dynamesh IPOM.

Em maio de 2013 foi realizada, via telefone, a tentativa de contato com esses pacientes para a aplicação de um questionário de qualidade de vida baseado nos moldes da American Hernia Society, European Hernia Society e Carolinas Equation for Quality of Life. Desses 62 pacientes, somente foi possível aplicá-lo em 21, isso porque não foi possível o contato com 36, e cinco recusaram-se a responder.

Ao efetuar o contato com o paciente, era explicitado que se tratava de avaliação de qualidade de vida pós-hernioplastia de parede abdominal anterior, e que os dados obtidos seriam convertido em estatísticas, não sendo o nome do paciente revelado. Desta forma, foi realizado um termo de consentimento telefônico para a realização do trabalho.

O questionário era composto de 12 perguntas que avaliavam a qualidade de vida do indivíduo após um ano do ato cirúrgico (Figura 1).

FIGURA 1 Questionário utilizado na entrevista telefônica com os pacientes operados (baseado no da American Hernia Society, European Hernia Society e Carolinas Equation for Quality of Life) 

RESULTADO

Levou-se em média sete minutos para efetuar o questionário completo por via telefônica. Dos 21 pacientes, 19% sentiram retorno da hérnia e 81% relataram que nada aconteceu. Além disso 19% passaram por outra operação abdominal, sendo que dentre esses, 75% relacionados à hérnia previamente corrigida e 81% não passaram por nenhuma outra operação abdominal (Tabela 1).

TABELA 1 Perguntas referentes à recidiva herniária (1 e 2) 

SIM NAO TOTAL
1. Você sente que sua hérnia voltou? 4 17 21
2. Você já passou por outra cirurgia abdominal 3 (relacionados à hérnia) 1 (não relacionado à hérnia) 17 21

A Tabela 2 detalha, numericamente, as respostas de cada entrevistado para as perguntas 3 à 12.

TABELA 2 Respostas dadas às perguntas de números 3 a 12 

DISCORDO FORTEMENTE DISCORDO MODERADAMENTE POUCO DISCORDO POUCO CONCORDO CONCORDO MODERADAMENTE CONCORDO FORTEMENTE TOTAL
Minha parede abdominal tem um grande impacto na minha saúde. 3 (14,2%) 1 (4,7%) 0 2 (9,5%) 5 (23,8%) 10 (47,6%) 21
Minha parede abdominal me causa dor. 15 (71,4%) 1 (4,7%) 0 0 4 (19,0%) 1 (4,7%) 21
Minha parede abdominal interfere quando pratico atividades físicas intensas. Ex: levantar pesos. 9 (42,8%) 3 (14,2%) 2 (9,5%) 2 (9,5%) 1 (4,7%) 4 (19,0%) 21
Minha parede abdominal interfere quando pratico atividades físicas moderadas. EX: fazer abdominais. 14 (66,6%) 3 (14,2%) 0 0 3 (14,2%) 1 (4,7%) 21
Minha parede abdominal interfere quando ando ou subo escadas. 18 (85,7%) 0 1 (4,7%) 0 2 (9,5%) 0 21
Muitas vezes eu fico em casa em virtude da minha parede abdominal. 15 (71,4%) 3 (14,2%) 0 2 (9,5%) 1 (4,7%) 0 21
Eu realizo menos tarefas domésticas em virtude da minha parede abdominal. 16 (76,1%) 2 (9,5%) 0 0 2 (9,5%) 1 (4,7%) 21
Eu realizo menos tarefas do trabalho em virtude da minha parede abdominal. 14 (66,6%) 3 (14,2%) 0 1 (4,7%) 2 (9,5%) 1 (4,7%) 21
Minha parede abdominal interfere na maneira como eu me sinto diariamente. 14 (66,6%) 4 (19,0%) 1 (4,7%) 0 2 (9,5%) 0 21
Muitas vezes me sinto triste em virtude da minha parede abdominal. 18 (85,7%) 2 (9,5%) 0 0 1 (4,7%) 0 21

DISCUSSÃO

Na escolha de um questionário para avaliação da qualidade de vida pelo telefone tem que se considerar, principalmente, três fatores: 1) extensão do questionário, não podendo ser muito curto pois não fornece todas as informações desejadas, e nem muito extenso, a ponto de fadigar e diminuir a colaboração do paciente; 2) abrangência das perguntas, desde aspectos físicos dolorosos, quanto psicológicos; 3) possuir perguntas de fácil compreensão, sucintas e objetivas.

A aplicação do questionário por telefone possui tanto suas facilidades quanto dificuldades. Mesmo sendo mais barato e com maior facilidade de administração dos resultados do que a aplicação do questionário com a presença do paciente4, as dificuldades se sobressaem, tornando essa via de contato a de menor taxa de resultados favoráveis, segundo alguns estudos7 , 13.

Por ser efetuado por aparelho telefônico permite que o entrevistador o faça em qualquer ambiente, não precisando agendar retorno com o paciente. Contudo, por não possuir contato pessoal, alguns pacientes não dão a devida importância para o questionário, respondendo com displicência, ou nem mesmo respondendo. Outra dificuldade encontrada, principalmente nesse trabalho, foi o fato de os pacientes, em sua maioria, estarem em horário comercial no período que foram efetuadas as ligações (quartas-feiras das 16 h às 20 h), não podendo responder as perguntas de qualidade de vida e pedindo para retornar a ligação fora do expediente.

O questionário utilizado nesse trabalho, nos moldes da American Hernia Society, European Hernia Society e Carolinas Equation for Quality of Life foi muito bem aceito pelos pacientes que foram submetidos a ele. Pode-se afirmar isso, pois apenas um, dos 26 pacientes contatados, se recusou a terminar de responder as perguntas. Já os outros quatro que se recusaram a responder, nem começaram.

A impressão final do avaliador telefônico era de um questionário simples, com 12 perguntas de fácil compreensão que demorava em média sete minutos para ser finalizado. Apenas uma pergunta, a de número 3, gerou dúvidas em alguns dos pacientes, mas sem alterar o resultado da pesquisa. O conceito da importância da parede abdominal na vida do paciente não foi bem estabelecido.

CONCLUSÃO

Foi possível aplicar o questionário de qualidade de vida por via telefônica; a qualidade referida foi satisfatória e mostrou que os pacientes, de modo geral, ficaram satisfeitos com o procedimento cirúrgico.

REFERENCES

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Recebido: 19 de Agosto de 2013; Aceito: 17 de Dezembro de 2013

Correspondência: Danniel Frade Said Email: dfrade1990@gmail.com

Fonte de financiamento: não há

Conflito de interesses: não há