SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.29 issue3RELATIONSHIP BETWEEN ESOPHAGITIS GRADES AND HELICOBACTER PYLORIRELATIONSHIP BETWEEN THE PRESENCE OF HELICOBACTER PYLORI WITH INFLAMMATORY ENDOSCOPIC CHANGES IN GASTRODUODENAL MUCOSA author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

Print version ISSN 0102-6720On-line version ISSN 2317-6326

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.29 no.3 São Paulo July/Sept. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0102-6720201600030003 

Artigo Original

FATORES PROGNÓSTICOS E ANÁLISE DE SOBREVIDA NO CARCINOMA ESOFÁGICO

Francisco TUSTUMI1 

Cintia Mayumi Sakurai KIMURA1 

Flavio Roberto TAKEDA1 

Rodrigo Hideki UEMA1 

Rubens Antônio Aissar SALUM1 

Ulysses RIBEIRO-JUNIOR1 

Ivan CECCONELLO1 

1Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), São Paulo, SP, Brasil.

RESUMO

Racional:

Apesar dos avanços recentes nos métodos diagnósticos e tratamento, o câncer de esôfago mantém alta mortalidade. Fatores prognósticos associados ao paciente e ao câncer propriamente dito são pouco conhecidos.

Objetivo:

Investigar variáveis prognósticas no câncer esofágico.

Métodos:

Pacientes diagnosticados entre 2009 e 2012 foram analisados e subdivididos de acordo com tipo histológico (444 carcinomas espinocelulares e 105 adenocarcinomas), e então características demográficas, anatomopatológicas e clínicas foram analisadas.

Resultados:

Não houve diferença entre os dois tipos histológicos na sobrevida global. Carcinoma espinocelular apresentou sobrevida de 22,8% em 5 anos, contra 20,2% de adenocarcinoma. Quando considerado somente os tratados com operação com intenção curativa, sobrevida em cinco anos foi de 56,6% para espinocelular e 58% para adenocarcinoma. Para o subtipo espinocelular, tumores pouco diferenciados e extensão tumoral mostraram associação com pior estadiamento oncológico, o que não foi verificado para adenocarcinoma.

Conclusão:

Perda de peso, variação de IMC e porcentagem de perda de peso foram fatores associados ao pior estadiamento oncológico para espinocelular, o que não se confirmou para adenocarcinoma.

DESCRITORES: Neoplasia de esôfago; Adenocarcinoma; Carcinoma espinocelular.

INTRODUÇÃO

Apesar dos avanços recentes nos exames diagnósticos e nos métodos terapêuticos, câncer de esôfago permanece sendo doença de alta mortalidade. A sobrevida média para carcinoma espinocelular (CEC) é 13,95±11,2 meses e para adenocarcinoma (AE) de 13,22±10,23 meses4,11,13.

Fatores prognósticos associados ao paciente e ao câncer esofágico propriamente dito são múltiplos e pouco estudados. O conhecimento de tais parâmetros pode auxiliar na estratificação e melhor condução terapêutica2,3.

O objetivo deste estudo foi avaliar variáveis demográficas, clínicas e patológicas e suas implicações no prognóstico e sobrevida global.

MÉTODO

Este estudo retrospectivo revisou todos pacientes diagnosticados com câncer esofágico entre 2009 e 2012 em um centro oncológico especializado. A população estudada foi composta por 565 indivíduos, dos quais 444 CEC e 105 AE. O restante era composto por tipos histológicos pouco frequentes, como tumores neuroendócrinos.

As variáveis analisadas foram idade, gênero, performance status, antecedentes oncológicos pessoais e familiares, extensão tumoral, perda de peso, IMC, topografia do tumor, grau de diferenciação celular, estadiamento oncológico, qualidade de linfadenectomia e realização ou não de operação com intenção curativa.

Características demográficas, patológicas e clínicas foram analisadas frente a estadiamento oncológico e sobrevida global em 60 meses. O seguimento médio dos pacientes foi de 19,8 meses.

Análise estatística

Para comparação de médias foi utilizado teste de ANOVA. Para análise de curva de Kaplan-Meier foi utilizado testes de Log-Rank e Wilcoxon. A influência de variáveis prognósticas foi analisada por regressão de Cox. Foi admitido nível de significância de 0,05.

RESULTADOS

Não houve diferença entre curvas de sobrevida entre CEC e AE. Sobrevida em cinco anos foi de 22,81% para CEC e de 20,19% para AE (Figura 1).

FIGURA 1 Curvas de Kaplan-Meier para sobrevida AE e CEC mostrando que não houve diferença estatisticamente significante entre as curvas (p=0,473 para Log-Rank; p=0,098para Wilcoxon) 

Dos pacientes com AE, 30,4% foi submetido à operação com intenção curativa. Esta proporção foi de 20% nos pacientes com CEC (p=0,114 para Log-Rank e para Wilcoxon p=0,042). A sobrevida em cinco anos para AE foi de 58% e para CEC 56,6%. Por análise univariada, ressecção com intensão curativa foi claramente associada a melhor sobrevida (p<0,001). As Figuras 2 e 3 representam sobrevida global de acordo com estadiamento oncológico.

FIGURA 2 Adenocarcinoma de esôfago: sobrevida global de acordo com estadiamento oncológico3  

FIGURA 3 Carcinoma espinocelular de esôfago: sobrevida global de acordo com estadiamento oncológico3 

Extensão tumoral ao diagnóstico foi comparada ao estadiamento oncológico, também ao diagnóstico pelo teste Chi-quadrado, mostrando relação de extensão tumoral com pior prognóstico no CEC (p=0,00), mas não no AE (p=0.173). Por regressão de Cox, somente no CEC a extensão tumoral teve relação com sobrevida (p=0,001).

O grau de diferenciação tumoral demonstrou relação com pior estadiamento ao diagnóstico no CEC (p=0.00), mas não no AE (p=0.242).

Perda de peso (kg), variação de IMC (kg/m²) e porcentagem de perda de peso do início dos sintomas até diagnóstico são fatores que predisseram pior estadiamento oncológico ao diagnóstico no CEC. No AE, este achado não foi estatisticamente significante. Por regressão logística, IMC menor que 20 kg∕m² foi preditor de menor sobrevida (Tabelas 1 e 2).

TABELA 1 Fatores prognósticos no adenocarcinoma de esôfago: análise uni e multivariada 

†=impossível estimar; ‡=no momento do diagnóstico; §=tempo entre início dos sintomas e diagnóstico; ¶=tempo entre diagnóstico e início dos sintomas; HR=hazard ratio; ECOG=Eastern Cooperative Oncology Group performance status; KPS=Karnofsky performance status

TABELA 2 Fatores prognósticos no carcinoma espinocelular de esôfago: análise uni e multivariada 

‡=no momento do diagnóstico; §=tempo entre início dos sintomas e diagnóstico; ¶=tempo entre diagnóstico e início dos sintomas; HR=hazard ratio; ECOG=Eastern Cooperative Oncology Group performance status; KPS=Karnofsky performance status

Considerando somente pacientes submetidos à operação com intenção curativa, linfadenectomia de mais de 23 linfonodos não demonstrou relação com maior sobrevida por análise univariada (p=0,678 no AE e p=0,493 no CEC).

Por análise uni e multivariada (Tabela 1 e 2), variáveis associadas à pior sobrevida no AE foi perda de peso, baixo performance status e tumores de localização distal; e no CEC foi gênero masculino, perda de peso, performance status, antecedente pessoal de malignidade e demora ao se iniciar tratamento. Para ambos os tipos histológicos, operação com intenção curativa foi associada com maior sobrevida.

DISCUSSÃO

Vários fatores têm sido relacionados ao prognóstico no carcinoma de esôfago1,6,12.

O presente trabalho analisou fatores prognósticos associados ao paciente (idade, gênero, performance status, antecedentes pessoal e familiar oncológicos, perda de peso e IMC); fatores associados à neoplasia em si (extensão tumoral, topografia do tumor, grau de diferenciação celular, estadiamento oncológico) e fatores associados ao tratamento (qualidade de linfadenectomia, operação com intenção curativa).

Fatores associados ao paciente

Idade tem associação com pior prognóstico somente no CEC. Eloubeidi et al. também notarasm associação de idade avançada com pior sobrevida5. Outros trabalhos demonstraram também que história familiar de câncer de esôfago pode predizer pior prognóstico12. Este achado não está de acordo com estes resultados.

Fatores associados à neoplasia

Tumores com maior extensão tumoral ou estadiamento oncológico avançado tiveram pior sobrevida. Estas conclusões vão de acordo com outras publicações5,10.

Este trabalho demonstra associação no CEC de tumores pouco diferenciados com tumores de pior estadiamento ao diagnóstico. Tachibanaet al.10 também demonstraram associação do grau de diferenciação com prognóstico.

Fatores associados ao tratamento

Apesar de não demonstrar-se aqui relação de sobrevida com número de linfonodos dissecados, outros estudos salientam a importância desta variável.

O número de linfonodos positivos (mais contra menos que cinco) tem associação com maior mortalidade (razão de risco 1,29; intervalo de confiança de 95% 1,06-1,56) segundo Eloubeidi et al.5 Rizk et al.9 demonstraram que pacientes com mais de quatro linfonodos acometidos teriam sobrevida similar com paciente metastáticos. Consequentemente, a qualidade da linfadenectomia seria um fator independente de prognóstico. Para Peyre et al.7, um mínimo de 23 linfonodos regionais deveria ser ressecado.

Neste trabalho, o aumento de sobrevida em pacientes submetidos à esofagectomia oncológica deve ser visto com ressalva, uma vez a seleção dos pacientes (tumores não-avançados) pode influenciar no desfecho.

CONCLUSÃO

Carcinoma esofágico é doença de prognóstico ruim com sobrevida global em torno de 20% em cinco anos. Perda de peso, variação de IMC e porcentagem de perda de peso foram fatores associados ao pior estadiamento oncológico para espinocelular, o que não se confirmou para adenocarcinoma.

REFERÊNCIAS

1. Andreollo NA, Coelho Neto Jde S, Calomeni GD, Lopes LR, Tercioti Junior V. Total esophagogastrectomy in the neoplasms of the esophagus and esofagogastric junction: when must be indicated? Rev Col Bras Cir. 2015 Nov-Dec;42(6):360-5. doi: 10.1590/0100-69912015006002. [ Links ]

2. Aquino JL, de Camargo JG, Cecchino GN, Pereira DA, Bento CA, Leandro-Merhi VA. Evaluation of urgent esophagectomy in esophageal perforation. Arq Bras Cir Dig. 2014 Nov-Dec;27(4):247-50. doi: 10.1590/S0102-67202014000400005. [ Links ]

3. Braghetto MI, Cardemil HG, Mandiola BC, Masia LG, Gattini SF. Braghetto MI, Cardemil HG, Mandiola BC, Masia LG, Gattini SF. Impact of minimally invasive surgery in the treatment of esophageal cancer. Arq Bras Cir Dig. 2014 Nov-Dec;27(4):237-42. doi: 10.1590/S0102-67202014000400003. [ Links ]

4. Coral RV, Bigolin AV, Coral RP, Hartmann A, Dranka C, Roehe AV. Metastatic lymph node ratio, 6th or 7th AJCC edition: witch is the best lymph node classification for esophageal cancer? Prognosis factor analysis in 487 patients. Arq Bras Cir Dig. 2015 Apr-Jun;28(2):94-7. doi: 10.1590/S0102-67202015000200002. [ Links ]

5. Eloubeidi MA, Desmond R, Arguedas MR, Reed CE, Wilcox CM. Prognostic Factors for the Survival of Patients with Esophageal Carcinoma in the U.S. Cancer. 2002 Oct; 95 (7):1434-43. [ Links ]

6. Pereira MR, Lopes LR, Andreollo NA. Quality of life of esophagectomized patients: adenocarcinoma versus squamous cell carcinoma. Rev Col Bras Cir. 2013 Jan-Feb;40(1):3-9. [ Links ]

7. Peyre CG, Hagen JA, DeMeester SR, Altorki NK, Ancona E, Griffin SM, Hölscher A, Lerut T, Law S, Rice TW, Ruol A, van Lanschot JJ, Wong J, DeMeester TR. The number of lymph nodes removed predicts survival in esophageal cancer: an international study on the impact of extent of surgical resection. Ann Surg. 2008 Oct; 248(4): 549-56. [ Links ]

8. Rice TW, Blackstone EH, Rusch VW. 7th edition of the AJCC Cancer Staging Manual: esophagus and esophagogastric junction. Ann SurgOncol. 2010 Jul;17: 1721-4. [ Links ]

9. Rizk N, Venkatraman E, Park B, Flores R, Bains MS, Rusch V. The prognostic importance of the number of involved lymph nodes in esophageal cancer: implications for revisions of the American Joint Committee on Cancer staging system. J ThoracCardiovasc Surg. 2006 Dec; 132: 1374-81. [ Links ]

10. Tachibana M, Dhar DK, Kinugasa S, Yoshimura H, Fujii T, Shibakita M, Ohno S, Ueda S, Kohno H, Nagasue N. Esophageal cancer patients surviving 6 years after esophagectomy. Langenbecks Arch Surg. 2002 Jun; 387: 77-83. [ Links ]

11. Tustumi F, Kimura C, Takeda FR, Sallum RAA, RibeiroJr U, Cecconello I. Esophageal carcinoma: Is Squamous Cell Carcinoma different disease compared to adenocarcinoma? A transversal Study in a Quaternary High volume Hospital in Brazil. ArqGastroenterol. 2016 53: 44-8. [ Links ]

12. Yuequan J, Shifeng C, Bing Z. Prognostic Factors and Family History for Survival of Esophageal Squamous Cell Carcinoma Patients After Surgery. Ann Thorac Surg. 2010 Sep; 90: 908-13 [ Links ]

13. Zamuner M, Herbella FA, Aquino JL. Standardized clinical pathways for esophagectomy are not a reality in Brazil, even with a high prevalence of esophageal cancer and achalasia. Arq Bras Cir Dig. 2015 Jul-Sep;28(3):190-2. doi: 10.1590/S0102-67202015000300011. [ Links ]

Fonte de financiamento: none

Recebido: 15 de Fevereiro de 2016; Aceito: 17 de Maio de 2016

Correspondência: Francisco Tustumi E-mail: franciscotustumi@gmail.com

Conflito de interesses:

none

Creative Commons License This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License