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ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

Print version ISSN 0102-6720On-line version ISSN 2317-6326

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.29 no.3 São Paulo July/Sept. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0102-6720201600030016 

Artigo Original - Técnica

ANORRETOPLASTIA LAPAROSCÓPICA E A UTILIZAÇÃO DO SELAMENTO BIPOLAR DA FISTULA RETOURINÁRIA

Robson Azevedo DUTRA1 

Adriana Cartafina Perez BOSCOLLO1 

1Departamento de Cirurgia Pediátrica, Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG, Brasil

RESUMO

Racional:

As anomalias anorretais consistem de um grupo complexo de defeitos congênitos. A anorretoplastia laparoscópica permite melhor visualização da fístula retourinária e propicia o posicionamento do reto abaixado dentro do complexo muscular do elevador do ânus com mínima dissecção. Não há consenso na literatura sobre o melhor tratamento dessa fístula.

Objetivo:

Avaliar a anorretoplastia laparoscópica e o selamento bipolar da fístula retourinária.

Método:

Ela foi realizada de acordo com a descrição original de Georgeson1. Utilizou-se o acesso infraumbilical com portal de 10 mm para a ótica de 30º. O pneumoperitônio foi estabelecido com pressão de 8-10 cm de H2O. Dois trocárteres adicionais de 5 mm foram colocados à direita e à esquerda da cicatriz umbilical. A dissecção foi iniciada na reflexão peritoneal usando Ligasure(r). Com a redução do calibre do reto distalmente, foi identificada a fístula para a o trato urinário. O local do novo ânus foi definido por meio da localização do complexo muscular do esfíncter anal externo, utilizando-se estimulador eletro muscular externamente. Por fim, foi confeccionada uma anastomose entre o reto e o novo local do ânus. Uma sonda uretral de Foley foi deixada durante sete dias.

Resultados:

Sete meninos foram operados, seis com fístula retoprostática e um retovesical. O período de seguimento variou de um a quatro anos. Os dois últimos pacientes operados foram submetidos ao selamento bipolar da fístula entre o reto e a uretra, sem suturas ou ligadura cirúrgica com pontos. No seguimento em longo prazo não houve evidências de fístulas urinárias.

Conclusão:

Há benefícios da anorretoplastia laparoscópica para o tratamento de anomalia anorretal. O uso de uma fonte de energia bipolar que promova o selamento da fístula retourinária propiciou redução significativa do tempo cirúrgico e tornou o procedimento mais elegante.

DESCRITORES: Anomalia anorretal; Videocirurgia; Selamento bipolar

INTRODUÇÃO

As anomalias anorretais consistem em um grupo complexo de defeitos congênitos com ampla variedade de apresentações. A incidência é de um para 5.000 nascimentos e ocorre devido à anormalidade de desenvolvimento embrionário do ânus, reto, e/ou do trato urogenital; apresenta alta morbidade e mortalidade3,4. O defeito mais comum no sexo masculino é a fístula retouretral e nas meninas a retovestibular. Existem diferentes técnicas para a correção, cada uma com a sua morbidade específica. O mais importante é o adequado abaixamento do reto dentro do complexo muscular esfincteriano8. A anorretoplastia sagital posterior (ARPSP) tem sido a técnica mais utilizada para o tratamento das anomalias anorretais altas desde o início dos anos 803. Em 2000, Georgeson et al.1 introduziram a anorretoplastia videolaparoscópica (ARPVL) que ganhou interesse devido à melhor visualização da fístula reto urinária e estruturas vizinhas, ao adequado abaixamento do segmento de reto dentro do complexo muscular esfincteriano, sem nenhuma divisão muscular e com mínima dissecação abdominal e perineal. O tratamento da fístula retourinária é controverso. Existe a descrição da utilização de clipes, suturas, ligaduras ou simplesmente a divisão do trajeto fistuloso4,7,9.

O objetivo deste estudo foi demonstrar o tratamento cirúrgico da anomalia anorretal alta por videocirurgia e a apresentar o tratamento da fístula retourinária por meio do selamento com dispositivo bipolar.

MÉTODOS

Análise retrospectiva de revisão dos prontuários de março de 2012 a janeiro de 2016. Foram operados sete crianças do sexo masculino com idades entre oito meses a um ano e seis meses no momento da operação. Seis pacientes eram portadoras de fístula retoprostática e um retovesical. O período de seguimento variou de um a quatro anos. Os dois últimos pacientes operados foram submetidos ao selamento bipolar da fístula entre o reto e a uretra, sem suturas ou ligadura cirúrgica com pontos.

Técnica cirúrgica

A ARPVL foi realizada de acordo com a descrição original de Georgeson4 com pequenas modificações. Utilizou-se o acesso infraumbilical com portal de 10 mm para a ótica de 30º. O pneumoperitônio foi estabelecido com pressão de 8-10 cm de H2O. Dois trocárteres adicionais de 5 mm foram colocados à direita e à esquerda da cicatriz umbilical (Figura 1). A dissecção retal laparoscópica foi iniciada na reflexão peritoneal usando o dispositivo bipolar (Ligasure, Valleylab, Boulder, CO). O mesorreto distal foi dividido e a dissecação bipolar continuou anterior e lateralmente bem próxima da parede retal. Com a redução do calibre do reto distalmente, foi identificada a fístula para a o trato urinário (Figura 2). Nos cinco primeiros casos, ela foi transfixada com um ponto de fio absorvível e seccionada. Nos dois últimos, a fístula foi meramente selada e seccionada na inserção da uretra posterior (Figura 3). O local do novo ânus foi definido por meio da localização do complexo muscular do esfíncter anal externo, utilizando-se estimulador eletro muscular externamente, identificando-se a região com a melhor contração muscular (Figura 4). Uma agulha de Veress foi introduzida neste ponto e por visão laparoscópica foi identificado sua posição próxima e paralela ao trato urinário. Em seguida, o complexo muscular foi dilatado com trocárteres de 5 e 10 mm e o reto abaixado através de um trocarte de 10 mm (Figura 5). Por fim, foi confeccionada uma anastomose entre o reto e o novo local do ânus (Figura 6). Uma sonda uretral de Foley foi deixada durante sete dias.

FIGURA 1  Posição da criança com um trocarte de 10 mm no umbigo e dois de 5 mm nos flancos direito e esquerdo 

FIGURA 2  Reto dissecado entrando na uretra prostática (seta) 

FIGURA 3  Selamento da fístula retourinária 

FIGURA 4 Localização do ponto de maior contração do esfincter externo com eletroestimulador cutâneo 

FIGURA 5 Pinça laparoscópica ( seta) dentro de um trocarte de 10 mm introduzido pelo local escolhido com o eletroestimulador (novo ânus), abaixando o reto 

FIGURA 6 Reto abaixado dentro do complexo muscular anorretal 

RESULTADOS

A operação abdominal foi efetuada exclusivamente por via laparoscópica, com tempo cirúrgico total (abdominal e tempo perineal) variando, em média, de 90 min (com selagem bipolar da fístula retourinária) a 120 min (com transfixação e secção da fístula retourinária). Um paciente apresentou uma perfuração do reto durante a dissecação laparoscópica e foi tratado com suturas em dois planos. Outra criança apresentou prolapso retal mucoso 90 dias após a operação, que foi corrigido. Os dois últimos pacientes tiveram suas fístulas retourinárias seladas por um dispositivo bipolar. O acompanhamento em longo prazo não identificou complicação. Cinco crianças com mais de três anos foram avaliadas de acordo com o Consenso de Krickenbeck2. Os critérios avaliados foram a percepção das evacuações, a presença de perda fecal involuntária e a constipação intestinal. Quatro crianças tiveram perda fecal involuntária ocasional (bom resultado) e uma perda fecal involuntária frequente (mau resultado). As últimas duas submetidas ao selamento da fístula estavam com menos de três anos e não foram avaliados pelos critérios de Krickenbeck. Não houve evidências de fístulas uretrais.

DISCUSSÃO

Os benefícios da ARPVL para o tratamento da anomalia anorretal alta incluem a melhor visualização da fístula retourinária e estruturas vizinhas, ao adequado abaixamento do segmento de reto dentro do complexo esfincteriano, sem nenhuma divisão muscular e com mínima dissecção abdominal e perineal. Ela promove a melhoria da pressão de repouso retal e do reflexo inibitório anorretal9. É procedimento menos invasivo e os resultados são semelhantes aos da operação tradicional (ARPSP) com melhor recuperação pós-operatória e menor tempo de internação. No sexo masculino, é indicada para o tratamento de anomalias altas com fístulas retoprostáticas ou retovesicais. Nas anomalias do sexo feminino, a operação minimamente invasiva é raramente indicada. A fístula retourinária é geralmente tratada de maneira convencional por transfixação cirúrgica.

O dispositivo bipolar é utilizado com frequência para selamento de vasos sanguíneos. Ele gera energia que promove a desnaturação do colágeno e da elastina nas paredes dos vasos, criando um selo. Foi demonstrado em um modelo experimental, a possibilidade da anastomose de uma alça intestinal utilizando-se o dispositivo bipolar, devido ao rico conteúdo de colágeno na parede submucosa intestinal, selando as bordas justapostas5. Desta forma, foi possível o simples selamento da fístula retourinária. Foi deixado um cateter uretral durante sete dias. Depois de mais de um ano de seguimento, estas crianças não tiveram complicações.

CONCLUSÃO

Há benefícios de LAARP para o tratamento de anomalia anorretal. O uso de uma fonte de energia bipolar que promova selamento da fístula retourinária proporcionou diminuição significativa do tempo cirúrgico e tornou o procedimento mais elegante.

REFERÊNCIAS

1. Georgeson KE, Inge TH, Albanese CT. Laparoscopically assisted anorectal pull-through for high imperforate anus-a new technique. J Pediatr Surg 2000;35:927-30. [ Links ]

2. Holschneider AM, Hudson JM. Anorectal malformations in children. Berlin Heidelberg: Springer-Verlag; 2006. [ Links ]

3. Pena A, De Vries PA Posterior sagittal anorectoplasty: important technical considerations and new applications. J Pediatr Surg 1982;17:796-811. [ Links ]

4. Rollins MD, Downey EC, Meyers RL , Scaife ER. Division of the fistula in laparoscopic-assisted repair of anorectal malformations-are clips or ties necessary? Journal of Pediatric Surgery (2009) 44, 298-301 [ Links ]

5. Smulders JF. de Hingh IHJT Stavast J, Jackimowicz JJ. Exploring new technologies to facilitate laparoscopic surgery: creating intestinal anastomoses without sutures or staples, using a radio-frequency-energy-driven bipolar fusion device. Surg Endosc (2007) 21: 2105-2109 [ Links ]

6. Sydorak RM, Albanese CT. Laparoscopic repair of high imperforate anus. Semin Pediatr Surg 2002;11:217-25. [ Links ]

7. Van der Zee DC, Dik P, Beek FJ. Laparoscopy-assisted Anorectal Pull-through in Anorectal Malformations: A Reappraisal World J Surg (2013) 37:1934-1939 [ Links ]

8. Vick LR, Gosche JR, Boulanger SC, et al. Primary laparoscopic repair of high imperforate anus in neonatal males. J Pediatr Surg 2007;42:1877-81. [ Links ]

9. Yang J, Zhang W, Feng J, et al. Comparison of clinical outcomes and anorectal manometry in patients with congenital anorectal malformations treated with posterior sagittal anorectoplasty and laparoscopically assisted anorectal pull through. J Pediatr Surg 2009;44:2380-3. [ Links ]

Fonte de financiamento: não há

Recebido: 18 de Janeiro de 2016; Aceito: 17 de Maio de 2016

Correspondência: Robson Azevedo Dutra E-mail: robsondutra50@gmail.com

Conflitos de interesse:

não há

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