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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909versão On-line ISSN 1806-9053

Rev. bras. Ci. Soc. v. 13 n. 36 São Paulo Fev. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69091998000100009 

Mesa-redonda*

POR QUE RIR DA FILOSOFIA POLÍTICA?
Abertura

 

Renato Lessa

 

Não é a primeira vez que a Anpocs abriga uma discussão que envolve questões de teoria política e de Filosofia Política. Até onde minha memória alcança, essa é a terceira vez que nós nos reunimos, em tempos recentes e em eventos fora dos grupos de trabalho regulares, para discutir questões dessa natureza. Na primeira dessas ocasiões, em 1994, sob a coordenação de Celia Quirino Galvão, Fábio Wanderley Reis, Carlos Nelson Coutinho e eu nos reunimos para discutir algumas perspectivas da teoria política no fim do século. Dois anos mais tarde, nova iniciativa coordenada por Walquíria Leão Rego reuniu Décio Saes e a mim em uma produtiva manhã que Euclides da Cunha certamente teria designado como de contrastes e confrontos. Já se pode, portanto, falar em uma certa tradição, e a expectativa é a de que essa rotina benigna possa contar com uma acolhida cada vez maior.

Antes de passar a palavra para meus colegas, eu gostaria de, rapidamente, falar, em primeiro lugar, a respeito das razões do título desta mesa. Qual a razão de propor uma discussão sobre questões de teoria e filosofia políticas com esse título? Além da provocação, que sempre se espera que a gente faça, esse título evoca uma polêmica memorável, constituída no campo da Filosofia propriamente dita, que envolveu os professores Osvaldo Porchat Pereira, Bento Prado Jr. e Tércio Sampaio Ferraz, e que resultou num belo livro, lamentavelmente esgotado, Filosofia e visão comum do mundo. O livro contém um artigo do Bento Prado Jr. com esse título: "Por que rir da Filosofia?". Tratava-se, então, de interpelar uma perspectiva de trabalho dentro do campo da Filosofia que, recusando o predomínio de sistemas dogmáticos de representação do mundo e do conhecimento, propunha aderir à visão comum do mundo, à visão do homem comum, e, tal como o professor Porchat dizia então, sair em silêncio da Filosofia. O percurso então sugerido pela adesão à visão comum da vida aparece como irrealizável, já que qualquer abandono da Filosofia implicará, necessariamente, uma justificação filosófica desse abandono.

Foi uma bela conversa. Mas, nossa intenção não é a de reeditá-la. Trata-se apenas de tomar de empréstimo a pergunta para iniciar uma conversa sobre os lugares da Filosofia Política em nossa tradição disciplinar. Portanto, a pergunta não deve ser tomada de maneira literal, mesmo porque muitas das reações, na nossa área, a quem trabalha com Filosofia Política não são exatamente bem-humoradas. Com freqüência são coléricas. Então, nesse caso, a pergunta mais apropriada seria: por que ter cólera da Filosofia Política? Mas, nós preferimos começar a discussão de uma maneira leve, sem provocação excessiva.

Eu acho que um esclarecimento adicional se faz necessário para tentar estabelecer em que sentido muito preciso esta expressão imprecisa, Filosofia Política, está empregada na proposta desta mesa. A idéia é absolutamente trivial, quase que acaciana. Trata-se de supor, para fins de trabalho, que a reflexão política contém, desde os seus primórdios, um conjunto de preocupações que envolvem postulações de ordem ontológica, isto é, proposições a respeito da constituição do mundo; premissas e decisões epistemológicas, que dizem respeito ao alcance do conhecimento humano sobre o mundo político; definições quanto à natureza dos agentes sociais que habitam o mundo político, isto é, descrições da natureza humana e da conduta humana; postulações de ordem normativa e dotadas de implicações práticas; e decisões a respeito da forma narrativa de exprimir essa combinação. A definição básica — e mínima, já que sobre ela muitas outras redefinições podem ser construídas — representa o campo do conhecimento político como necessariamente marcado por essas várias formas de reflexão: ontológica; epistemológica; a que trata da natureza dos agentes sociais; a que estabelece os padrões de boa conduta humana e institucional; e a que circunscreve decisões a respeito da estética discursiva adotada para dizer o que se pensa e o que se acha. Nesse sentido, a proposta da mesa é estabelecer uma conversa a respeito de modos distintos e, eventualmente, convergentes de trabalho nessa área, indicando mais a possibilidade de uma convergência de agendas do que, necessariamente, de respostas por parte das pessoas que vão participar do debate.

 

 

RESUMOS / ABSTRACTS /RÉSUMÉS

Palavras-chave: Filosofia Política; Ciência Política; Ciências Sociais; Pensamento político; Ação política
As diferentes intervenções que compuseram este debate têm como referência comum uma reflexão sobre os lugares da Filosofia Política na tradição disciplinar que designamos como Ciência Política. Recusando a perspectiva que dissocia a Filosofia Política da dimensão empiricamente orientada da disciplina, os argumentos apresentados destacam o papel de fertilização de formas de vida cumprido pela primeira. A agenda dos pesquisadores devotados à boa faina da investigação empírica foi, e segue sendo, em grande medida definida e configurada por exercícios prévios de invenção social e política e por decisões de ordem ontológica, epistemológica e retórica. Neste sentido, a distinção entre ciência e filosofia é, além de obscurantista e marcada por enorme otimismo epistemológico, sintoma de um desconhecimento forte com relação à história do conhecimento político.

 

Key words: Political Philosophy; Political Science; Social Sciences; Political thought; Political action
The participants in this round table have in common the consideration of the role of Political Philosophy in the theoretical tradition named Political Science. Refusing the position that dissociates Political Philosophy of the empirically-oriented dimension of the discipline, the arguments here presented outline the importance of Political Philosophy as a promoter of life forms. The agenda of the researchers devoted to the good conduction of empirical investigation has been, and still is, greatly defined by previous initiatives of social and political invention and by ontological, epistemological and rhetorical decisions. In this sense, the distinction between science and philosophy is not only obscurantist and epistemologically-optimistic, but also a symptom of a strong ignorance concerning political knowledge history.

 

Mots-clé: Philosophie Politique; Science Politique; Sciences sociales; Pensée politique; Action politique
Les différentes interventions qui ont composé ce débat ont toutes une référence commune à la reflexion sur la place de la Philosophie Politique dans la tradition théorique que l'on appelle Science Politique. Tout en réfusant la perspective qui dissocie la Philosophie Politique de la dimension empiriquement orientée de la discipline, les arguments ici presentés font ressortir le rôle de fertilisation des formes de vie que joue celle-là. L'emploi du temps des chercheurs qui se consacrent ao succès de l'investigation empirique fut, et l'est toujours, en grande partie défini par des exercices préalables d'intervention sociale et politique et par des decisions d'ordre ontologique, épistemologique et rhétorique. En ce sens, la distinction entre science et philosophie est non seulement obscurantiste et marquée par un énorme optimisme épistemologique, mais aussi le symptôme d'une grande méconnaissance de l'histoire du savoir politique.

 

* Realizada no XXI Encontro Anual da Anpocs, Caxambu, MG, em 24 de outubro de 1997, com a participação de Renato Janine Ribeiro, Luiz Eduardo Soares, Gildo Marçal Brandão e Renato Lessa, coordenador da mesa.

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