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Revista Brasileira de Ciências Sociais

Print version ISSN 0102-6909On-line version ISSN 1806-9053

Rev. bras. Ci. Soc. vol.14 n.40 São Paulo Jun. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69091999000200001 

IN MEMORIAM

 

 

Este número é dedicado a Olavo Brasil de Lima Junior, membro fundador e presidente da Anpocs

 

 

Não temos medo de cara feia

 

O professor Olavo Brasil de Lima Júnior, fundador e presidente da Anpocs, faleceu no dia 17 de abril de 1999. Sua perda foi profundamente sentida e lamentada na comunidade de cientistas sociais. Não são poucas suas razões. Fôssemos enumerá-las nesta breve, porém singela e sincera homenagem, teríamos de sublinhar sua importante contribuição para a formação de novos pesquisadores, para a consolidação de um campo próprio de investigações científicas, para a circulação de idéias inovadoras nos domínios que foram seus e para a divulgação de conhecimento através de memoráveis publicações. Sua freqüente presença nos principais fóruns nacionais e internacionais jamais passou desapercebida. Eram sempre oportunidade para uma intervenção enriquecedora diante de uma platéia que o ouvia com atenção, curiosidade e o respeito devotado aos grandes mestres.

Antes de tudo, nunca é demais lembrar sua marcante atuação nos principais acontecimentos que viram nascer esta associação e que assistiram à expansão, ao crescimento e ao desenvolvimento das ciências sociais brasileiras. Esteve na origem de todas as articulações que resultaram na criação da Anpocs. Redigiu a ata de sua fundação, aos 29 de setembro de 1977, tendo sido seu primeiro secretário executivo (gestões 1977-78 e 1979-80). Colaborou ativamente na criação dos Grupos de Trabalhos sobre partidos, comportamento eleitoral e problemas de institucionalização política. Teve um de seus livros premiado como melhor obra científica no tradicional concurso da Anpocs. Pertenceu ao Comitê Acadêmico na gestão 1996-98. Portanto, parte substantiva de sua vida acadêmica e intelectual esteve atada aos destinos desta Associação.

Em outubro de 1998, durante o XXII Encontro Anual, tradicionalmente realizado no Hotel Glória, em Caxambu, Minas Gerais, foi eleito presidente. Tratava-se de um momento muito delicado, pois a crise financeira internacional, com suas conseqüências sobre as finanças públicas brasileiras, colocava imensas interrogações sobre o futuro do apoio governamental à educação, à ciência e à tecnologia. Ao tomar posse, anunciou como se fosse um profeta: não temos medo de cara feia. Acenava estar decidido a lutar, não a capitular.

Com esse mesmo espírito presidiu a primeira reunião de diretoria, em fevereiro próximo passado. Deixou em todos nós a mesma imagem que nutriu junto a seus amigos e colegas de trabalho: a de um cidadão do mundo, obstinado e perseverante nos objetivos que perfilava e no ideal de ciência que acreditava.

 

A Diretoria

 

 

 

Já se tentara antes, sem sucesso. Mas a enérgica teimosia de Olavo Brasil de Lima Jr. não se deixaria domesticar com facilidade. Disso pode dar testemunho Helio Guerra, então responsável por um programa de fomento da Capes, assediado até a exaustão, isto é, até prometer apoio a uma reunião de sociólogos, antropólogos e cientistas políticos com o objetivo de criar uma associação. Garantido o patrocínio, cuidou Olavo das minúcias secretariais, valendo-se dos serviços do Iuperj, rua da Matriz, 82, Botafogo, Rio de Janeiro, local previsto para o encontro. Mais: selecionou com cuidado e zelo os participantes, contemplando os programas de pós-graduação existentes e alguns institutos de pesquisa nas três áreas nucleares. Redigiu um esboço de estatuto. Considerando o período de turbulência em que os centros paulistas se encontravam — estávamos em 1977 —, Olavo cautelarmente convidou, de São Paulo, somente Fernando Henrique Cardoso e Francisco Weffort. Quem reclamaria? Reclamar como, sobretudo quando, demais assuntos resolvidos, o avalista e apresentador da chapa disposta a compor a primeira diretoria da associação foi justamente o professor Fernando Henrique Cardoso? A chapa — Francisco Weffort, presidente; Olavo Brasil de Lima Jr., secretário-executivo — foi aprovada por aclamação. Golpe de mestre — uma dessas raras ocasiões em que a raposa presta serviço às uvas. Estava criada a Anpocs.

 

Wanderley Guilherme dos Santos

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