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Revista Brasileira de Ciências Sociais

Print version ISSN 0102-6909

Rev. bras. Ci. Soc. vol.14 n.40 São Paulo Jun. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69091999000200011 

Tempos de eleição: a política interrompe o cotidiano

 

Irlys BARREIRA. Chuvas de papéis. Ritos e símbolos de campanhas eleitorais no Brasil. São Paulo, Relume Dumará, 1998. 234 páginas.

 

Céli Regina Jardim Pinto

 

As eleições no Brasil pós-regime militar têm merecido especial atenção dos cientistas sociais. Importantes investigações têm sido desenvolvidas especialmente nas áreas do comportamento eleitoral e do acompanhamento de campanhas. O livro de Irlys Barreira vem não somente se somar a esses estudos, como se constitui num trabalho de grande importância, pela forma criativa pela qual a autora intervém no tema, pelos resultados que apresenta e pelas perspectivas de pesquisa e reflexão que propicia.

Ao longo de cinco partes e dez capítulos, a autora abarca um longo período de campanhas eleitorais, de 1985 a 1996, percorrendo: a campanha de Maria Luiza Fontenelle para a Prefeitura de Fortaleza (1985); as reuniões preparatórias para o lançamento de candidaturas a vereador num bairro popular em Fortaleza (eleições de 1988); a "Caravana da Cidadania" liderada por Lula (1994), quando este passou pelo sertão do Ceará; e, finalmente, o acompanhamento das candidaturas femininas para as prefeituras de Fortaleza e Natal (eleições de 1996). Utilizando um farto material, portanto, o trabalho propõe-se a discutir a problemática da representação a partir da análise das campanhas eleitorais como momentos dinâmicos de ruptura do espaço restrito da política e de encontro com o cidadão comum. É na ruptura do cotidiano de ambas as partes, políticos e cidadãos comuns, que acontecem os encontros propiciadores da representação. Ao mesmo tempo em que argumenta que a representação é uma relação construída ao longo da campanha, a autora constrói ao longo do livro essa própria noção, ao descrever, principalmente em três capitulos, como se faz política, quem faz política, onde se faz política.

Acompanhar a construção da representação no decorrer do livro não é tarefa fácil: a autora tece um argumento em que se cruzam e entrecruzam situações, locais, tipos de políticos, tempos, e no qual a cada momento somos chamados a prestar atenção em um número significativo de dimensões que constroem o político e o simbólico, em meio ao cotidiano e às diferentes rupturas nesse espaço. A riqueza da abordagem deste livro está nas muitas leituras que ele permite: podemos lê-lo acompanhando o refinado argumento sobre a construção da representação, mas cada parte pode ser lida também como uma unidade. Assim, por exemplo, o capítulo sobre as candidatas ou o capítulo sobre as candidaturas populares são estudos que, por si só, se justificam, isoladamente. De qualquer forma, ainda estamos diante da análise de um material que trata de campanhas no Nordeste do país, mais especificamente no Ceará e na capital do Rio Grande do Norte. Tomando em conta isso, a forma como o trabalho é organizado tem um aspecto curioso: a autora não está preocupada em analisar especificidades da região, mas sim tendências do jogo político.

Decorrente dessa escolha, o livro revela o que é sua grande qualidade e, paralelamente, seu maior problema. De fato, as conclusões a que o trabalho chega não ficam prejudicadas pela regionalidade dos dados; definitivamente, não é um trabalho sobre política nordestina. Mas, por outro lado — e talvez aí esteja uma fragilidade —, a presença de tantos dados sobre uma região tão específica mereceria algumas reflexões que trouxessem à luz questões regionais colocadas vis-à-vis as questões mais gerais analisadas.

Ainda uma outra questão é fundamental no arcabouço do trabalho: trata-se da noção de rituais. Da mesma forma como é tratada a representação, também os rituais são vistos como constantes produções, que interagem com o eleitor e por sua vez constroem a própria representação: nos comícios, nas "carreatas", nas caminhadas, no bairro, nos movimentos sociais, os rituais são marcas do momento eleitoral, marcas que reinauguram o simbólico, que abrem espaço para a recriação dinâmica da representação. Em síntese, nas palavras da própria autora, e já nas primeira páginas, o fio condutor do livro fica claro ao leitor: "as categorias de representação, apresentação e reconstrução passaram a dar sentido ao conjunto das campanhas que inicialmente me suscitaram, em demasiado, a percepção das eleições como espaço exclusivo de conflitos. Essas categorias me permitiram ver que algo também se constituía no interior das disputas acirradas. Esse algo era a própria política em seus dilemas e paradoxos na busca de instituir o princípio de representação. Além de colocar em disputa candidatos e propostas, o ritual das campanhas instaurava os elementos de preservação e legitimação das atividades políticas." (p. 28).

A primeira parte do livro compõe-se de dois cuidadosos capítulos teórico-metodológicos que, com vários subtítulos, apresentam as diversas facetas da pesquisa e da própria elaboração do livro. No primeiro capítulo, apresenta-se o material que será analisado, a forma como foi coletado, suas potencialidades e os avanços que significam. No capítulo seguinte, contrói-se o arcabouço do conceito de representação, que será o fio condutor de toda a análise; nele é detalhada a noção de representação como construção. E é essa reflexão que permite à autora transitar com grande propriedade, nos meandros de seu material empírico, nas duas partes seguintes do livro, propondo um estudo que foge de qualquer tipo de viés prescritivo, muito fácil de encontrar nesse tipo de abordagem. Vale lembrar que a noção de representação tem sido vista em muitos estudos atuais do ponto de vista da crise da representação política. Sem entrar no mérito da discussão, que não cabe neste espaço, é preciso, entretanto, chamar a atenção para a potencialidade explicativa das formas de se fazer política, abandonando a idéia pura e simples de crise, e buscar, como é o caso do presente trabalho, as formas pelas quais se constrói a própria representação.

A segunda parte reserva ao leitor os mais interessantes capítulos do livro, não só pela cuidadosa análise que apresenta, como pelo prazer que a leitura propicia. Neles, a autora trata da caminhada como símbolo, trabalhando com a "Caravana da Cidadania" e com o comício — exatamente com o local específico e especial da política. Enquanto aquela vai para o interior e para a zona rural, este marca o espaço da cidade, da praça, da periferia, que se reconstrói em centro através do comício. Sobre a caravana e sobre Lula especificamente, a autora escreve: "No percurso, o candidato vai adotando a mesma fisionomia de seus potenciais representados. Ornado de penas de índio na cabeça ou de um chapéu usado pelas castanheiras, a expressão de identificação assume sua nitidez emblemática. São dimensões que apontam, simultaneamente, proximidade e distanciamento, na medida em que destacam o uso de artefatos populares cotidianos por parte de um figura que busca personificar o espaço máximo de representatividade." (p. 73). No espaço urbano, as caminhadas e os comícios eleitorais são centrais porque relocalizam a política, criam um novo espaço para o político, de construção de representação: "A troca que se estabelece entre os políticos e o público repõe os mecanismos de construção da representação e apresentação." (p. 99).

A terceira parte do livro discute a presença das candidaturas femininas de um ponto de vista pouco usual nas análises correntes. Os trabalhos sobre a presença da mulher na política estão muito marcados pela ênfase na ausência de candidaturas femininas, pela quase denúncia de situações de discriminação que as mulheres sofrem no mundo da política, pela presença ou ausência da luta pelos direitos da mulher nos discursos das candidatas etc. Irlys Barreira, sem ignorar os traços de discriminação e sexismo relativos às campanhas das mulheres, trabalha com uma dimensão especialmente importante, que é a incorporação do feminino e de todos os significados a ele atribuídos como estratégia de campanha. A análise da vitoriosa campanha de Maria Luiza Fontenelle para a Prefeitura de Fortaleza, em 1986, é um momento particular em que a autora desenvolve com muito detalhamento tais estratégias, desde o uso do nome Maria até a idéia da mulher como o novo na política: "Identificada cada vez mais com a canção Maria, Maria, de Milton Nascimento e Fernando Brandt, Maria Luiza adotou em sua campanha para prefeita o primeiro nome. Trata-se de uma mudança que teve significativo papel na imagem da candidata, pela associação entre o feminino e o popular que porta o nome de Maria." (p. 122).

Além da campanha de Maria Luiza Fontenelle, são analisadas as candidaturas de mulheres para as prefeituras de Fortaleza e Natal em 1996 e discutidos detalhadamente os usos estratégicos, nessas campanhas, da polissêmica posição do feminino neste fim do século. Retomando seu tema condutor — a representação —, a autora conclui suas reflexões sobre as candidaturas femininas: "As candidaturas femininas explicitam a construção emblemática de uma forma de representação que se faz acompanhar da instituição de um lugar no espaço da política, lugar de referências complexas, que induz tanto à reprodução como à ruptura de atributos positivos e negativos no âmbito da cultura"(p. 155).

A quarta parte do livro é composta de dois capítulos sobre as candidaturas populares. Aqui, da mesma forma pela qual foi discutido o feminino como estratégia de campanha, o argumento se desenvolve mostrando não os limites de candidaturas populares, ou suas filiações ideológicas, mas sim a importância que o espaço popular tomou na política após a redemocratização, e a luta que se trava em torno dele ou, mais especificamente, para construí-lo como estratégia de campanha. As candidaturas populares têm uma lógica própria no jogo político e ocupam um espaço particular na construção da representação: o popular está sempre agregado ao autêntico, ao verdadeiro. A legitimidade da candidatura popular se dá pela pertença ao local. Enquanto o candidato de fora faz comício na periferia para marcar sua presença, para mostrar o conhecimento que tem da situação do bairro, o candidato de dentro é "um de nós". Os dois capítulos exploram com detalhes essa inclusão e a articulação de características populares como estratégias. Exemplos disso são: a pouca escolaridade do candidato, seu descuido com a imagem física, a liderança que tem no bairro e o fato de ele ser um igual e ao mesmo tempo um diferente, aquele que terá o poder de representar os interesses do local: "Na percepção dos moradores, o papel do líder é complexo, constituindo uma condição referida a um dever-ser ou a uma conjunção de atributos de identificação e diferenciação. Um líder é simultaneamente alguém `como nós' e alguém também possuidor de atributos que o tornam diferente dos demais." (p. 171).

Na quinta e última parte do livro, retomam-se todos os temas tratados para fechar as questões abertas ao longo do trabalho, ou seja, para recolocar as campanhas como espaços e tempos privilegiados da política, onde o que se observa não é a repetição monótona de rituais sem sentido, mas o fazer político, em que os candidatos, os que estão dentro do campo da política, vão buscar nos de fora, no cidadão, no eleitor, as formas de construir a intrincada relação de representação.

Chuvas de Papéis é um rigoroso estudo sobre as formas de fazer política no Brasil. A partir de uma perspectiva criativa e bastante rara nos estudos brasileiros, faz com que o leitor se confronte, momento após momento, com as escolhas dos eleitores e com as estratégias dos candidatos. O livro é, sem dúvida, um convite para novos estudos nessa direção.

 

 

CÉLI REGINA JARDIM PINTO
é professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.