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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909versão On-line ISSN 1806-9053

Rev. bras. Ci. Soc. v.16 n.46 São Paulo jun. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092001000200012 

Roger Bastide e o Brasil

 

Fernanda Arêas PEIXOTO. Diálogos brasileiros: uma análise da obra de Roger Bastide. São Paulo, Edusp/FAPESP, 2000. 224 páginas.

 

Guilherme Simões Gomes Jr.

 

Fernanda Peixoto é uma das antropólogas da nova geração que se tem voltado para a investigação da própria comunidade à qual pertence, em um esforço de reflexão mais do que necessário. Diálogos brasileiros é seu último trabalho sobre a história das ciências sociais no Brasil, particularmente no que diz respeito ao papel dos professores e pesquisadores estrangeiros que passaram por São Paulo, desde os anos 30. Antes, já havia publicado em revistas e obras coletivas uma série de artigos importantes para este campo de estudos, entre os quais se destacam "Franceses e norte-americanos nas ciências sociais brasileiras, 1930-1960" (in Sergio Miceli, org., História das Ciências Sociais no Brasil, 1989) e "Lévi-Strauss no Brasil: a formação do etnólogo" (Mana, 4, 1998).

Dentre os participantes da "missão francesa" trazida ao Brasil na época da fundação da Universidade de São Paulo, Roger Bastide (1898-1974) talvez não tenha tido a notoriedade que Claude Lévi-Strauss ou Fernand Braudel obtiveram posteriormente, por suas contribuições à Antropologia e à História Social. Mas, do ponto de vista brasileiro, não há dúvida que Bastide foi bem mais importante: primeiro, porque ficou aqui por 16 anos (1938-1954), ao passo que os dois outros restringiram-se a uma temporada mais curta (1935-1938); segundo, porque estudou o Brasil; e, por fim, porque dialogou intensamente com as tradições locais e teve um papel formador decisivo para os hábitos intelectuais dos estudantes brasileiros que substituíram os professores franceses quando de seu retorno.

Pode parecer estranha a afirmação de que Bastide se destaca por ter estudado o Brasil, por oposição a Lévi-Strauss, autor do tão famoso Tristes trópicos. Mas, se acompanharmos as reflexões de Fernanda Peixoto no artigo sobre Lévi-Strauss citado mais acima, poderemos perceber que o ilustre antropólogo não teve como alvo privilegiado de seus estudos propriamente o Brasil, mas os povos tribais que aqui existiam antes e independentemente da colonização portuguesa que deu origem ao que hoje se entende por Brasil. Lévi-Strauss foi antes de mais nada um americanista, como outros antropólogos franceses de sua geração foram africanistas. Por minha própria conta, arriscaria dizer que para Lévi-Strauss o Brasil era quase como um estorvo, a despeito das tardias saudades que eventualmente possa ter suscitado. Indício dessa disposição é o quanto o antropólogo evoca, em Tristes trópicos, o sonho de poder ter estado aqui no século XVI, quando o Brasil não passava de uma vaga ficção de cartógrafos e cronistas europeus.

Brasil, civilização brasileira, dinâmico processo histórico de encontros culturais, este foi propriamente o interesse de Roger Bastide, antropólogo, sociólogo, poeta, admirador dos místicos, utopista. E não se trata apenas de tomar tudo isto como objeto de ciência, mas, fundamentalmente, como trajetória de vida. Porque o Brasil foi sendo tecido por interlocuções brasileiras na carreira de Bastide. Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Gilberto Freyre, Florestan Fernandes foram nomes decisivos na formação intelectual do professor francês. E são os diálogos com estes personagens que o livro de Fernanda busca reconstituir.

Não é descabido pensar que nessa história houve quase uma inversão. Bastide veio aqui para ensinar, o que não deixou de fazer com muito êxito, mas acabou por aprender, e muito, com esses notáveis artífices do pensamento brasileiro. Se a USP teve o sentido de constituir um novo padrão de pesquisa científica que deixasse para trás o impressionismo dos velhos bacharéis e homens de letras que haviam estudado o Brasil até então, a atuação de Bastide foi surpreendente, pois esteve baseada não na idéia de um corte com o passado, mas em uma criativa maneira de articular as antigas contribuições locais com as novas rotinas de produção de conhecimento.

Nos relatos de seus alunos dos primeiros anos em que aqui esteve, quase sempre é destacada a surpresa daqueles jovens, ansiosos pelas últimas novidades européias, diante das recomendações do professor, que insistia em trazer para o debate a bibliografia brasileira sobre os mais variados temas. E, nesse sentido, a relação de Bastide com o modernismo paulista foi fundamental, por dois motivos: primeiro, porque o grande autodidata que foi Mário de Andrade já tinha estabelecido uma rica pauta de estudos sobre arte, folclore, música, literatura, articulando tudo isto à religião e às relações raciais; segundo, porque Mário entre todos foi o que levou mais longe a idéia de que a tarefa de sua geração era conhecer o Brasil. Neste sentido, pode-se dizer que os caminhos em direção a Minas Gerais e ao Nordeste trilhados por Bastide já haviam sido parcialmente desbravados por Mário.

E o mesmo se deu com Gilberto Freyre, que também teve estreitas relações com os modernistas de 22. Para o francês que já havia escrito sobre Proust, Gide e a obra poética dos grandes místicos, e que advogava um lugar para a poesia no método sociológico, o encontro com o autor de Casa-grande & senzala não poderia ter sido menos auspicioso. Afinal de contas, a despeito de qualquer consideração sobre as idéias lusotropicalistas do sociólogo pernambucano, também ele admirador de Proust, não há como arrefecer o fascínio pela "livre fantasia" e a brilhante exposição literária de seu mais famoso livro. Além disso, a presença da África no Brasil, tema central da obra de Bastide, já havia sido esquadrinhada por Freyre.

Mas se, em parte, o programa de estudo sobre a especificidade da cultura brasileira conduzido por Bastide já estava presente em Freyre, o professor francês dará outras soluções interpretativas àquilo que o sociólogo pernambucano resolve colocando ênfase na mistura, no equilíbrio dos contrários e na democracia racial.

O que Fernanda Peixoto mostra em detalhe é que Bastide opõe à idéia de sincretismo como mistura o conceito de sincretismo como mosaico, que implica a "coexistência de objetos discordantes". E que o fato, por exemplo, de se ter estabelecido a correspondência de deuses africanos e santos católicos deriva não da assimilação dos contrários, mas de uma necessidade dos escravos de dissimularem suas crenças aos olhos dos brancos: uma forma de resistência, portanto. Submetidos, mas ao mesmo tempo colocados à margem da sociedade, os africanos no Brasil teriam criado "ilhas culturais". Conceito que, por sua vez, foi também motivo de controvérsia, nos anos 70, quando os novos intérpretes das religiões africanas no Brasil criticaram o mestre francês, acusando esta operação mental de propugnar uma pretensa pureza dos candomblés, derivados do "modelo nagô", por oposição à umbanda, vista como forma degenerada. O que faria de Bastide um herdeiro acrítico da tradição "romântica" que remonta a Nina Rodrigues.

Também esta interpretação da obra de Bastide é questionada por Fernanda Peixoto. Bastide tinha clareza sociológica suficiente para entender que uma cultura nunca permanece a mesma quando sua base morfológica é rompida, o que ocorreu com a escravização e o translado para o Brasil, e que a "ilha africana" não corresponde à África original mas é um processo de recriação repleto de lapsos. A "ilha" não é, portanto, um isolado mas aquilo que resultou da especificidade dos contatos culturais. Tampouco pode ser vista sob a ótica da permanência, mas deve ser entendida como um processo de busca que o africano realiza em certas condições: no campo, pelo fato de ter sido mantido em espaços reduzidos e separado do mundo dos brancos; na cidade, porque ela é mesmo propícia à criação de nichos, onde proliferam os batuques, as confrarias, as práticas religiosas.

E o mais interessante do livro de Fernanda Peixoto é que ela mostra como Bastide esteve simultaneamente ligado, por uma rede de influências recíprocas, com os dois grandes adversários na interpretação do problema racial no Brasil: Gilberto Freyre e Florestan Fernandes, seu aluno e sucessor na principal cadeira de Sociologia da USP.

Por oposição ao sociólogo pernambucano, egresso das elites e sempre simpático às soluções autoritárias, seja no Portugal salazarista ou no Brasil dos militares, Florestan, filho de uma empregada doméstica, foi obrigado a desmentir seu destino de classe apoiando-se em um árduo combate pessoal e nas nascentes instituições educacionais republicanas que propiciavam timidamente a ascensão pelo mérito. A sua atuação na USP até ser caçado pelo AI-5, em 1969, e sua obra — de início típica de um scholar mas que tendeu progressivamente para posições engajadas e radicais — marcaram decisivamente o pensamento acadêmico e a vida política de São Paulo.

No que diz respeito à questão racial, tema de pesquisa que coordenou junto com Bastide no início dos anos 50, sob encomenda da Unesco, Florestan, já claramente influenciado pelo materialismo histórico, do qual se aproximou em uma perspectiva nada dogmática, buscou entender o problema do preconceito e da discriminação como um prolongamento da escravidão, que selecionou a cor como marca social, símbolo da posição de classe na nova ordem que se instituiu sem colocar em questão o antigo poder das elites brancas.

Quanto a Bastide, parceiro no empreendimento, o que se percebe pela reconstrução do diálogo promovida por Fernanda Peixoto é que ele se afasta, então, mais um pouco das teses de Freyre, ao pressupor que se o ideal da "democracia racial" impede manifestações mais radicais de racismo, por outro lado escamoteia o preconceito por meio de barreiras ocultas que segregam e discriminam. Com isto, a solução brasileira atenua a eventualidade da revolta e cria uma espécie de ambivalência ideológica, que faz o descendente do africano oscilar entre o orgulho da própria cor e o sentimento de inferioridade que resulta da adoção do ponto de vista do branco.

Muito mais poderia ser dito desse livro que, sem muito alarde, tem a virtude de esclarecer episódios decisivos do pensamento brasileiro no século XX. Livro que se articula a uma tradição que é tanto mais rica quando se volta para dentro, na perspectiva de um cosmopolitismo esclarecido que atrai sem receio homens e idéias estrangeiras, com a consciência de que sem instituições democráticas, sólidas rotinas intelectuais, atitude crítica, e o estudo da própria realidade, os homens podem ser amáveis, as idéias sedutoras, mas tudo isso se dissolve, porque o local continua o mesmo, sempre sujeito a todos os caprichos dos dominantes da hora.

 

 

GUILHERME SIMÕES GOMES JR. é professor de Antropologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

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