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Revista Brasileira de Ciências Sociais

Print version ISSN 0102-6909

Rev. bras. Ci. Soc. vol.17 no.49 São Paulo June 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092002000200012 

Onde touradas, antropologia e arte se encontram

 

Michel LEIRIS. Espelho da tauromaquia. Trad. de Samuel Titan Jr. São Paulo, Cosac & Naify, 2001. 80 páginas.

 

Fraya Frehse

 

Não há como se debruçar sobre este livro, do antropólogo e escritor francês Michel Leiris (1901-1990), sem considerar que, 63 anos depois do lançamento original da obra, na França do pré-Guerra, é a primeira vez que o autor é traduzido no Brasil. A novidade pode ser saudada como absolutamente bem-vinda. Já estava mais do que na hora que adentrasse o mercado editorial brasileiro a obra desse antropólogo singular, que, depois de incursões profundas na poesia – surrealista –, na política – comunista – e na arte – como colecionador –, buscou na psicanálise e na etnografia, em especial nesta última, novas maneiras de se aproximar daquilo que, no interior dele próprio, Leiris, expressaria aquilo que o transcende: o mundo de todos os outros humanos.

A publicação é bem-vinda também porque, diante do recém-lançado volume, constatamos que, como se costuma dizer, "valeu a pena ter esperado". A tradução do crítico literário Samuel Titan Jr. consegue, com muita propriedade, transportar o leitor para o universo de referências lingüísticas – e literárias – do próprio Leiris, de forma a destacar, com a merecida distinção, todo o talento literário do autor. Ademais, o projeto gráfico prima por uma sensibilidade que se insinua, de maneira privilegiada, no modo como são acopladas ao texto fotografias bem precisas sobre as touradas espanholas descritas pelo escritor americano Ernest Hemingway em Death in the afternoon (1932) – ao qual, aliás, Leiris se reporta no livro. As 21 imagens em preto e branco compõem uma narrativa paralela, que pode ser lida, por um lado, a partir da diacronia interna à seqüência de imagens. Isso conduz o leitor da entrada colossal dos toureiros na arena à sua apoteose final – num duplo sentido que nas últimas páginas do livro apenas se insinua, misteriosamente: apoteose na vida da arena e na arena da vida... Por outro lado, pode-se contemplar cada imagem em sua sincronia com o texto. Já que os lugares de inserção das fotografias parecem ter sido escolhidos a dedo, em dependência do respectivo momento da narrativa textual, as imagens acabam brincando semioticamente com os sentidos do leitor: do desencontro entre o que lemos e vemos brota um espaço fecundo para a impressão provocativa de que o escrito existe em favor do visto e vice-versa; e emerge sobretudo uma melhor compreensão das instigantes e absolutamente bem estruturadas teses que o autor formula em torno de uma preocupação teórica fundamental sua: como apreender "os recessos de nossa vida passional" (p. 39).

Na verdade, a inquietação vem desde a década de 1920 e, quando da publicação do livro, já tinha sido submetida a experimentações no campo da antropologia – se considerarmos que, tornando-se amigo do antropólogo Marcel Griaule, Leiris foi convidado por este a integrar, como secretário arquivista, a missão etnográfica e lingüística "Dakar-Djibouti", organizada com o objetivo principal de, segundo o autor diria mais tarde em seus diários, ampliar o tamanho das coleções africanas do então museu de Etnografia do Trocadero. Aluno de etnologia de Marcel Mauss durante o período de preparação da viagem, Leiris fez com que desta primeira experiência intensa de estranhamento antropológico (1931-1933), voltada, no caso do autor, para o estudo da temática do "homem e seu interior", resultasse o livro L’Afrique fantôme (1934). Trata-se, de fato, de um detalhado diário de campo em que etnografia e subjetividade se unem de forma absolutamente pioneira para os padrões correntes na antropologia francesa da época.

A inovação que o Espelho da tauromaquia oferece para a reflexão teórica de Leiris reside sobretudo no método ali desenvolvido, cunhado na etnografia. Vislumbradas por Leiris como objeto de estudo "intelectualmente" interessante já nas anotações ligadas à missão, as corridas de touro espanholas são alçadas, no livro, a referências metodológicas tácitas da investigação pela sua visceral relação com a emoção estética, fundamento mesmo da compreensão da "nossa estrutura interior" (p. 28). O estudo é, assim, passível de ser concebido, ao mesmo tempo, como de antropologia da tauromaquia, da estética e da emoção.

Ainda antes de adentrarmos as páginas do livro, vale a pena entender o porquê da opção pela tauromaquia. À preocupação teórica do Leiris-pensador une-se toda a visceralidade da biografia do Leiris-homem. Conforme explica uma importante biógrafa do autor, Aliette Armel, há o fascínio pela Espanha, cuja corporificação mais inspiradora é, certamente, Picasso, amigo que o levou à primeira tourada, em Fréjus (1926), e à segunda, marcante e definitiva porque corrida de touros, em Barcelona (1934). Ademais, houve a república espanhola, momento de enorme efervescência política e cultural que levou Leiris a cogitar inclusive uma mudança de especialidade profissional (em vez do africanismo, o americanismo), mais adequada ao seu projeto de livro sobre a tauromaquia. Em meio a tudo isso e a mais um retorno ao país, há a influência de amigos artistas e intelectuais fortemente inspirados pelo universo da tauromaquia espanhola, em particular Colette Peignot (1903-1938), confidente de Leiris, sua cúmplice no amor pela Espanha e pela tauromaquia, e pessoa a quem o livro passa a ser dedicado a partir da edição de 1964.

Há, todavia, também um contraponto a esse universo – e aí chegamos ao livro: as "nossas civilizações" (p. 14). É o mundo ocidental que, no ano de publicação de Espelho da tauromaquia, tinha destruído o sonho republicano espanhol e não contava mais, afora algumas "criações artísticas" e as corridas de touro, com "fatos reveladores" como "ritos, jogos, festas que servem de natural exultório aos impulsos da afetividade" e permitiriam aos homens "imaginar, ao menos por algum tempo, que assinaram um pacto com o mundo e reencontraram a si mesmos" (p. 14). Nesse contexto, Leiris começa a dar corpo aos projetos sobre a tauromaquia: um capítulo do que mais tarde seriam as memórias íntimas Age d’homme (1939); poemas curtos; e, após a assistência a touradas inclusive em Marselha e em Nîmes e a dois meses de trabalho intensivo em 1938, o Espelho da tauromaquia. Este constitui inicialmente o primeiro volume da série "L’érotisme", da coleção Acéphale, publicação da sociedade secreta de mesmo nome fundada por Leiris, Colette Peignot e Georges Bataille, entre outros.

O ensaio compõe-se de cinco breves capítulos, em que a economia nos conceitos e a precisão nas definições se aliam em favor da demonstração de uma tese definida, ao final do primeiro capítulo: "Analisada sob o ângulo das relações que mantém notadamente com a atividade erótica, a arte tauromáquica assumirá, bem se presume, o aspecto de um desses fatos reveladores que esclarecem partes obscuras de nós mesmos, na medida em que agem por uma espécie de simpatia ou semelhança, e cuja força emotiva deriva de serem espelhos que guardam, já objetivada e como prefigurada, a imagem mesma de nossa emoção" (p. 15). A partir daí, o leitor é levado a conhecer o modo instigante como Leiris concatena, em favor da compreensão da "emoção", temas à primeira vista tão díspares como a tauromaquia, "a atividade passional (ou, de modo mais restrito: genital)" (p. 12), estética e religião. Decisiva para tanto é a categoria de "tangência": "assim como Deus [...], encontra-se entre os inúmeros fatos que constituem nosso universo certa espécie de nós ou pontos críticos que poderíamos geometricamente representar como lugares onde o homem tangencia o mundo e a si mesmo " (p. 11). Esses lugares – acontecimentos, objetos; por exemplo, a corrida de touros – teriam o poder, "por um brevíssimo instante, de trazer à superfície insipidamente uniforme em que habitualmente deslizamos mundo afora alguns elementos que pertencem com mais direito à nossa vida abissal, antes de deixar que retornem – acompanhando o ramo descendente da curva – à obscuridade lodacenta donde haviam emergido" (p. 12). Dito isso, está estabelecida, no melhor padrão maussiano, a relação entre aquilo que nos é mais próprio porque subjetivo e aquilo que, precisamente por ser próprio de cada um de nós, nos une a todos os outros. Só que aqui, e em especial no "atual estado de coisas" do mundo ocidental (p. 14), o princípio se aplica à corrida de touros, por ser um dos únicos "fatos" – "sociais totais", diria Mauss – a nos colocar, qual espelho, diante da "dinâmica" que envolve a nossa emoção na vida real, no "simulacro cênico", no "campo de treinos" (p. 15).

A fim de definir essa dinâmica assumindo a tauromaquia como referência, é imperativo provar, primeiro, que ela é mais do que um esporte (capítulo 2). Estaria imbuída de um caráter eminentemente trágico, reiterado a cada nova corrida por meio dos preparativos técnicos e cerimoniais destinados à morte pública do touro. Por outro lado, o que daria uma dignidade peculiar – mais do que esportiva – à tauromaquia é o fato de que o sacrifício se dá à luz do dia, trazendo risco para o torero. Assim, Leiris tem em mãos o argumento de que necessita para avançar na associação entre tauromaquia e arte, arte esta "em que o trágico, de algum modo explicitado, seria particularmente empolgante" (p. 21) e que se insinuaria, entre outros, através do elemento estético intrínseco à figura do torero.

Mas há mais do que arte em jogo (capítulo 3). É que essa beleza fugiria ao padrão clássico: não mais a conjugação de contrastes, e sim a irrupção de antagonismos, dada a inevitabilidade da falha no interior da ordem, do elemento torto no interior do elemento reto da beleza imortal. O belo transforma-se, portanto, em tudo que nos comove, em "tradução mítica de nossa estrutura interior" (p. 28), assumindo o aspecto de tangência (p. 28). Só que se trata de um limite ideal, nunca atingido mas sempre almejado, essa "incompletude obrigatória" (p. 29).

Nada melhor, numa análise eminentemente espacializada como a de Leiris, do que ilustrar essa tese por meio do passe tauromáquico, momento crucial em que torero e touro se tangenciam sem se tocar, pela mediação do pano: "tudo se passa como se houvesse geometria com desobediência, torção constante dessa geometria" (p. 33). É precisamente desse descompasso mínimo que explode, caloroso, o "olé"; "desse hiato ou falha mínima, onde um lábio seria o ‘além’ e o outro lábio seria o ‘aquém’" (p. 35), nasceria o ápice do prazer. Entende-se, assim, por que a tauromaquia, historicamente anterior ao advento da modernidade, carrega consigo uma noção de beleza que só os modernos chegariam a definir: o prazer estético que ela produz depende da transgressão, do pecado em relação à regra. E eis que Leiris chega ao "símbolo mais adequado do que são os recessos de nossa vida passional" (p. 39).

Definida a relação entre tauromaquia e arte, é possível discorrer, no capítulo 4, sobre algo mais abstrato: "que é essa rachadura pela qual se manifesta o elemento sombrio?" (p. 41). Responder a questão implica aludir à associação existente entre beleza estética e beleza erótica, que se expressa, entre outros, na própria utilização do termo "belo" como atributo tanto para uma mulher quanto para um quadro (p. 78, n. 2). Abre-se assim espaço analítico para a compreensão do papel da idéia de pecado como jogo em certa medida culposo no interior do erotismo; conseqüentemente, é possível compreender também a raiz da noção de fissura no interior da beleza estética. Porém, isso não se dá sem retornar à corrida e comprovar que nela tanto torero quanto público estariam envoltos por uma atmosfera erótica. Em particular o passe seria análogo ao coito, pela dinâmica quase tangencial que envolveria, a cada vez, a busca de plenitude, o paroxismo, a divergência.

Essencial é, no entanto, levar adiante a associação, já que ela revelaria o que constitui a "rachadura". O valor desconcertante tanto da tauromaquia quanto do "amplexo amoroso" (p. 50) residiria no fato de que em ambos a ilusão momentânea da união do sujeito pensante com o mundo (o torero com o touro, os amantes entre si) convive com a incapacidade dessa união (já que esta implicaria a "fusão fatal", a morte). É desse desencontro que nasceria a falha, à qual seguiriam a dilaceração, a separação; na tauromaquia, é esse o momento da estocada final, expressão da decepção diante da impossibilidade da plenitude.

Mas isso não basta a Leiris: é fundamental caracterizar essa falha. Adentra a argumentação o sentimento do sagrado, "centelha" que marcaria repentinamente "a união estridente de duas naturezas – torta e reta – no momento em que estamos separados da tangência por um hiato infinitesimal" (p. 56), escancarando "o que há de inacabado (literalmente: de infinito) em nossa condição" (p. 57).

Construído esse tripé entre o passional, o estético e o sagrado pela mediação metafórica da tauromaquia, é possível ao autor debruçar-se sobre o questionamento final (capítulo 5): definir como se expressa essa idéia de sagrado e demonstrar que a "mola central do todo é o estado de infortúnio" que Baudelaire considerava condição fundamental da beleza (p. 59). Quanto ao primeiro aspecto, mais um "retorno" analítico à tauromaquia serve para explicitar que há, na corrida, uma construção ritual paulatina do elemento torto (o touro) –, a fim de que só ao final esse se manifeste, transformando a conflagração de contrários mal insinuados em ambigüidade a ser logo abolida por meio da entrada em cena do sagrado. Dessa forma, Leiris acaba por aplicar à análise da tauromaquia o pressuposto maussiano da alternância entre processos de sacralização e dessacralização como inerente a todas as operações propriamente religiosas (p. 12).

No que se refere à demonstração da tese sobre o infortúnio, não falta mais muito: o pecado intervém necessariamente sempre na apreensão do sagrado, dando sentido, assim, à dupla acepção desse termo – temor e fascínio –, e que é expressão da ambigüidade. Seria esse o solo onde se erige o tabu – enquanto projeção ideal que polariza o torto e o reto (p.74); solo de infortúnio que caracterizaria a nossa condição. Finalizada a argumentação antropológica, crucial para a aquisição de conhecimento acerca dos confins da nossa vida passional, é hora de o Leiris-pensador da antropologia abrir espaço para o Leiris-pensador da estética e da religião, demonstrando, assim, toda a sua versatilidade intelectual. Diante do quadro esboçado, o papel da religião seria o de neutralizar os males e a morte, enquanto caberia aos "construtores de espelhos – i. e. aqueles que se tornam, pela criação estética ou por qualquer outro meio, artesãos lúcidos de nossas revelações" (p. 74) – incorporar o torto ao reto, a morte à vida (como o torero faria em relação ao touro). E a arena de touros fica para trás novamente: em favor da estética – e da antropologia.

 

 

FRAYA FREHSE, bolsista da Fapesp, é doutoranda do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo e pesquisadora do Núcleo de Antropologia Urbana (NAU) da mesma universidade.