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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909versão On-line ISSN 1806-9053

Rev. bras. Ci. Soc. v.22 n.63 São Paulo fev. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092007000100014 

RESENHAS

 

Política e nação no drama moral da TV

 

 

Heloisa Buarque de Almeida

 

 

Esther HAMBURGER. O Brasil antenado: a sociedade da novela. Rio de Janeiro, Zahar, 2005. 193 páginas.

Sempre intrigou aos pesquisadores estrangeiros no Brasil a particular história da televisão e a hegemonia da Rede Globo na cultura nacional. De modo semelhante a alguns outros países da América Latina, o Brasil teve na produção televisiva nacional seu ponto forte, ancorado nas narrativas seriadas melodramáticas que ainda predominam no horário nobre dos canais abertos. A presença da telenovela como formato cultural produzido aqui foi associada a uma menor importação direta de produtos culturais norte-americanos do que outros países periféricos.1 Sua grande penetração na vida cotidiana é um fato sociocultural nacional que ainda merece reflexão. No âmbito de uma abordagem antropológica desta temática – que inclui, portanto, a pesquisa etnográfica sobre a produção desse modelo de narrativa – destaca-se o trabalho de Esther Hamburger. O Brasil antenado é uma adaptação de sua tese de doutorado, defendida em 1999 na Universidade de Chicago sob a orientação de Marshall Sahlins, intitulada Política e intimidade na novela brasileira (idéia retomada no capítulo de conclusão do livro). É exatamente dialogando com a imagem de pesquisadores estrangeiros sobre a novela brasileira que Hamburger constrói seus questionamentos. Se para os brasileiros parece coerente a relação entre novela e imagens de nação, a pesquisadora explora os vários aspectos até então pouco estudados e busca explicar como isso se dá, não por meio de conjecturas gerais muito comuns quando se fala e se escreve sobre essa temática, mas com base em pesquisa empírica, de coleta e interpretação de dados.

É possível interpretar o livro a partir de dois ângulos. De um lado, Hamburger delineia as formas particulares de interação entre a produção da novela e a sua audiência; e, de outro, reflete sobre os conteúdos de algumas novelas e como, ao longo dos anos de 1970, 1980 e 1990, as narrativas construíram e disseminaram imagens sobre a nação e a política nacional.

O primeiro aspecto refere-se às formas de interação entre a produção da novela e as audiências – uso aqui audiências no plural, pois é importante destacar que não se trata de um público homogêneo, mas de espectadores oriundos de classes sociais distintas e de diferentes regiões da nação. A idéia da antena é central e refere-se a dois processos: ao aparelho que capta os sinais que vêm das emissoras e sua noção invertida usada pelos produtores de TV de "estar antenado" aos desejos e aos sonhos do público. A imagem da antena e a concepção êmica do "estar antenado" são usadas para refletir sobre tal interação. Relativizando uma imagem simplista que entende a novela como "obra aberta", porque escrita e produzida ao mesmo tempo em que vai ao ar e reagindo aos índices de audiência do Ibope, Hamburger oferece uma pesquisa etnográfica que detalha os mecanismos particulares e desiguais dessa interlocução. Cabe destacar que, neste ponto, foi especificamente sua pesquisa etnográfica na emissora, com os autores das narrativas e fontes diversas (inclusive o próprio Ibope) que formou o escopo de dados para entender a complexidade dessa interação parcial e desigual. Não se restringir a uma análise de conteúdos ou de imagens, mas buscar sua interpretação com base em dados advindos da pesquisa empírica no meio industrial e profissional que produz tais imagens, constitui uma contribuição específica de pesquisadores das ciências sociais aos estudos sobre mídia. Foi entrevistando profissionais do meio e propondo um diálogo com ampla bibliografia sobre essas formas de produção de TV e de interação com as audiências que Hamburger construiu sua interpretação. A pesquisa de campo permitiu o detalhamento de como se dá essa interação: a imagem que os produtores de TV e os autores de novela têm de suas audiências nem sempre está de acordo com a visão dos executivos, que, orientados pela estrutura comercial da TV, preocupam-se com a audiência, uma vez que ela é vista como consumidora. Há, portanto, como bem explora a autora, uma disjunção entre quem é realmente a audiência e aquela parcela que é considerada consumidora. Este é um dos pontos fortes desta pesquisa, na medida em que explica vários aspectos da televisão comercial aberta. Vale lembrar que, desde os anos de 1970, Raymond Williams2 já chamava a atenção para a diferença entre as estruturas de produção de TV, que geram conteúdos muito distintos. A autora busca entender as formas de funcionamento da indústria cultural e, nesta lógica industrial, como as imagens e as categorias usadas para definir a audiência afetam a produção. Nesse sentido, vê-se a maneira pela qual o poder de decisão da audiência é relativo e que parcelas da população podem afetar e interagir na produção dos conteúdos.

A segunda parte do livro diz respeito à capacidade das novelas de atingir uma grande parcela da população e ao imaginário de nação que surge a partir daí. As novelas e seus conteúdos são analisados como um repertório cultural compartilhado pela população. O Brasil antenado disseca imagens, entrevista autores e analisa vinhetas de abertura de novelas para mostrar, de um lado, a relativa continuidade de conteúdos e temáticas ao longo dos anos de 1970 e 1980 e, de outro, as mudanças evidentes na década seguinte, que delinearam o perfil de novela hoje em exibição. A referência imediata é a idéia de nação como uma comunidade imaginada, nos termos de Benedict Anderson,3 e o foco são os tipos de discursos sobre nação reiterados nas formas e nas convenções narrativas mais comuns que permearam várias novelas. Tomando Irmãos coragem e Selva de pedra como inaugurais nas formas de politizar e atualizar as narrativas ao cotidiano nacional, Hamburger revela algumas formas culturais recorrentes, como a oposição entre o país rural e "atrasado" e a "modernização" do mundo urbano–modernização esta associada também à formação da sociedade de consumo, às mudanças nas relações de gênero e familiares e a processos migratórios e de urbanização do país. Dialogando com a literatura mais ampla sobre TV no Brasil,4 Hamburger explicita a fase que podemos denominar "nacional-popular" da novela. Nos anos de 1990, destacam-se mudanças no panorama televisivo, com o relativo sucesso de Pantanal na concorrente Rede Manchete, e então uma mudança no padrão das narrativas da Globo em direção a um modelo de "novelas de intervenção". Nesta segunda parte do livro, o foco da análise são as formas e as convenções narrativas, e mais uma vez a pesquisadora teve que recorrer a fontes diversas para completar um arcabouço de imagens que são ainda bastante inacessíveis pela falta de um arquivo ou museu público de TV.

Há uma temática teórica que permeia todo trabalho e que estava resumida no título da tese: política e intimidade. A novela constitui um programa seriado considerado feminino (tanto por aqueles que a produzem, como por suas audiências), cuja narrativa é basicamente construída em torno de histórias de amor, de família, de relações pessoais e de intimidade – temas considerados femininos. Mesmo se mantendo dentro de suas convenções narrativas melodramáticas, a particularidade desta produção brasileira estaria em tratar temas relativos à política, a imagens da nação, de sua história e suas formas de poder, o que é associado ao mundo masculino. O trabalho de Hamburger problematiza as fronteiras entre o público e o privado, as formas parciais de construção de esferas femininas e masculinas (como na oposição entre novelas e jornais), e revela como a política pode ser lida pela ótica melodramática e pedagógica de uma narrativa moral que mistura temas da vida íntima, afetiva e familiar.5 Em outras palavras, a discussão de temas da ordem política e da nação se faz de modo particular, ou seja, dentro de uma estrutura melodramática, nos moldes do drama moral.

Ao final do livro, a autora retoma novamente as duas partes do trabalho e busca refletir a interação mais complexa que está em jogo nas representações da nação, na relação das novelas com a promoção do consumo, nas imagens sobre o mundo rural e urbano – discutindo a partir daí as concepções da nação como "país do futuro" –, nas mudanças na construção dos gêneros em termos dos ideais de mulher e homem e nas relações familiares. Percebe-se, então, como os conteúdos e as imagens descritos na segunda parte do livro estão em sintonia com processos sociais mais amplos e interativos. Esta é a tese central do trabalho: a relação entre a presença cotidiana da novela e sua capacidade de articular, em formatos narrativos e convenções estéticas, os processos sociais. Decorre daí o sugestivo subtítulo, A sociedade da novela.

 

Notas

1 Cf., por exemplo, o trabalho de Joseph Straubhaar, "The electronic media in Brazil", em R. Cole (ed.), Communication in Latin America: journalism, mass media and society (Wilmington, SR Books, 1996).

2 R. Williams, Television: technology and cultural form (Hanover, University Press of New England, 1992 [1972]).

3 B. Anderson, Imagined communities: reflections on the origin and spread of nationalism (Londres/Nova York, Verso, 1991).

4 Há uma vasta bibliografia sobre a temática do nacional popular dos anos de 1970 na televisão. Entre outros, cf. Alcir Costa, Inimá Simões e Maria Rita Kehl, Um país no ar: história da TV brasileira em três canais (São Paulo, Brasiliense, 1986); Sérgio Mattos, Um perfil da TV brasileira: 40 anos de história – 1950/1990 (Salvador, Associação Brasileira de Agências de Propaganda/A Tarde, 1990); Ricardo Miranda e Carlos Alberto Pereira, Televisão: as imagens e os sons: no ar, o Brasil (São Paulo, Brasiliense, 1983); Renato Ortiz, A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural (São Paulo, Brasiliense, 1988); Renato Ortiz, Silvia H. Simões Borelli, José Mário Ortiz Ramos, Telenovela: história e produção (São Paulo, Brasiliense, 1989).

5 Cf. P. Brooks, The melodramatic imagination: Balzac, Henry James, melodrama, and the mode of excess (New Haven, Yale University Press, 1976); Ismail Xavier, O olhar e a cena (São Paulo, Cosac & Naify, 2003).

 

 

Heloisa Buarque de Almeida é pesquisadora do Pagu – Núcleo de Estudos de Gênero da Unicamp.

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