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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909versão On-line ISSN 1806-9053

Rev. bras. Ci. Soc. v.22 n.63 São Paulo fev. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092007000100015 

RESENHAS

 

Apresentação de um clássico

 

 

Fernando Antonio Pinheiro Filho

 

 

Frédéric VANDENBERGHE. As sociologias de Georg Simmel. Bauru, SP, Edusc, 2005. 223 páginas.

Entre as muitas conseqüências esperadas da atribuição do epíteto de clássico a um autor, a dispensa de apresentações deveria fazer do título dessa resenha um contra-senso. Não é, todavia, o caso no que diz respeito à recepção do pensamento de Georg Simmel (1858-1918) no Brasil. A despeito da existência de alguns poucos estudos de qualidade sobre ele, a Filosofia do dinheiro, de 1900, assim como sua Sociologia de 1908 – talvez suas obras fundamentais –, permanecem sem tradução para o português, o que limita muito seu alcance. Nesse sentido, a incorporação efetiva do filósofo e sociólogo alemão no campo da sociologia carece de consolidação, fato de que dão prova tanto a freqüência relativamente baixa com que os profissionais da área recorrem a ele como sua inserção via de regra pontual e não orgânica nos cursos universitários da área de ciências humanas. Assim, a designação de "clássico" soa muito mais como menção protocolar de gosto museológico que apenas repercute sua consagração nos ambientes europeu e americano do que a integração das razões disso, que nos levariam a chamar de clássico aquele que é interlocutor permanente na elaboração da teoria sociológica e instrumento relevante para a compreensão da vida social.

O estudo de Frédéric Vandenberghe, entre outras qualidades, constitui-se como oportuno instrumento contra esse estado de coisas. Originariamente, o texto destinou-se a uma coleção de caráter enciclopédico editada na França, que, entre outros assuntos, apresenta uma abordagem de temas e autores das ciências sociais com objetivo de oferecer ao leitor não especialista uma primeira aproximação, mas cujo rigor intelectual e aprofundamento da análise serve também ao especialista. A versão preparada para a edição brasileira preserva tais características, vencendo o desafio auto-imposto de apresentar sistematicamente um pensamento que o autor descreve como avesso a qualquer sistematicidade, além de enfrentar bem a injunção de combinar o distanciamento crítico que se espera de uma introdução com o viés mais pessoal da interpretação. Os dois pontos se resolvem por meio de um único recurso, que, consistindo no grande achado analítico e expositivo do texto, convém tratar mais detidamente.

Se Vandenberghe evita atribuir à obra de Simmel qualquer sistematicidade, sua análise adquire tal caráter graças à reconstituição da unidade do pensamento simmeliano que se dá numa dupla dualidade: de um lado o tema kantiano da oposição entre forma e conteúdo; de outro, na vertente vitalista, o da interação (que implica na tensão entre vida e forma de associação que a limita, fonte da crise da cultura de que se ocupa o último capítulo) – sendo que este último tema implica a adoção por Simmel do pluralismo metodológico e de uma concepção relacional da verdade. Grosso modo, os três primeiros capítulos desenvolvem o sentido dessa unidade subjacente ao estilo que na superfície está tão próximo do ensaio, do comentário, e, portanto, da fragmentação; no entanto, adequada a temas que também numa percepção imediata parecerão tão díspares como, por exemplo, a moda, o conflito, o segredo, o dinheiro. Noções que correspondem todas a formas de associação, como será explicado na seqüência. É o momento de explicitar o sentido dos conceitoschave de forma e interação (ou ação em reciprocidade, como alerta o autor). Conduzido com mão firme por esse itinerário algo árduo, o leitor estará apto para acompanhar, nos capítulos seguintes, o modo como Simmel lida com os temas citados e diversos outros, entendidos como variações de perfis das formas de associação (que não prescindem de um material psíquico cujo suporte é o indivíduo, mas que é socializado pela imposição da forma, o que obriga Vandenberghe a trabalhar as relações entre psicologia e sociologia), de tal modo que se vai urdindo um quase sistema total de inter-relações entre objetos parciais em que cada fragmento é imagem do todo. E que guarda, cada um, uma tensão que não se resolve em síntese. O conflito, por exemplo, implica o partilhamento de representações que separam os contendores e os reúnem no stabelecimento dos objetivos da luta, o que permite pensá-lo como forma de associação.

Desse modo, a interpretação converte-se em princípio organizador de uma introdução à obra, que se preocupa também em situar Simmel em relação a seus contemporâneos – sobretudo Weber, que conviveu com ele e incorporou aspectos de sua sociologia, mas também Durkheim e Mauss, introdutores de Simmel na França, com cujas obras as semelhanças e diferenças são apontadas. E também Marx, num interessante contraponto a respeito das leituras da modernidade, em que desponta a visão nuançada de Simmel: o dinheiro separa os indivíduos porque os liberta de dependências pessoais e aumenta suas diferenças, mas os liga multiplicando as trocas materiais e simbólicas, expressando, assim, as ambivalências da vida moderna de que é o "meio de comunicação simbolicamente generalizado", na expressão de Luhmann. A aproximação com a sociologia mais recente também é contemplada nos muitos momentos em que se mostram as ressonâncias do pensamento simmeliano em outros autores como Elias, Bourdieu (penso no exemplo citado do conflito como elo social), Habermas, Goffman. É importante assinalar que essa aproximação evita a lógica anacrônica da "redescoberta", que consiste em ler parcialmente – e fora da rede de relações em que se produziu – um suposto ancestral consagrado para então evocá-lo como fiador das próprias posições. Vai nessa direção a refutação convincente da reivindicação de Simmel pelo individualismo metodológico, baseado na presença de um elemento irredutível à racionalidade utilitária no âmago das relações sociais.

Ao seu final, a leitura do livro estimulou uma série de questões. Mesmo colocando-me no lugar indevido de interlocutor, menciono duas delas, que talvez possam fazer sentido para o autor e seus leitores.

A abordagem adotada é expressamente "anti-historicista". Trata-se de uma escolha legítima e justificada como a mais fiel ao pensamento que lhe serve de objeto. Mas, dada a centralidade que adquire na análise o problema do vitalismo, creio que se perde algo importante ao deixar de lado a especificidade alemã da clivagem entre arte e ciência, em que a arte expressa a vida e a ciência é-lhe hostil, conforme Wolf Lepenies (As três culturas), que mostra como Simmel opera nesse ambiente como um possível mediador ao propor a estetização da sociologia e a análise sociológica da obra de arte. Finalmente, as considerações epistemológicas mostram bem como o relativismo perspectivista desvia-se de um relativismo radical que levaria ao ceticismo. Mas o autor atribui a Simmel uma "ontologização do princípio relacionista" como antídoto a uma visão substancialista de uma realidade que é, de fato, relação, ou melhor, "rede infinita de relações recíprocas". Mas ontologizar a relação não implica substantivá-la? Noutros termos, está em jogo aqui o estatuto de realidade das unidades de análise e o sentido de assumir que a relação tem mais ou menos realidade do que o indivíduo ou o grupo.

 

 

Fernando Antonio Pinheiro Filho é professor do Departamento de Sociologia da USP.

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