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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909versão On-line ISSN 1806-9053

Rev. bras. Ci. Soc. vol.24 no.69 São Paulo fev. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092009000100001 

CONFERÊNCIAS

 

O fetiche totêmico da sexualidade masculina: oito erros comuns*

 

The totemic fetish of male sexuality

 

Le fétiche totémique de la sexualité masculine: huit erreurs courants

 

 

Matthew Gutmann

Tradução: Arlete Dialetachi

 

 


RESUMO

A noção de apetites, ímpetos e impulsos sexuais tem sido constantemente desafiada e explorada em uma sofisticada literatura feminina sobre as sexualidades das mulheres. Se apesar disso, porém, com Simone de Beauvoir desvendamos (ou começamos a esconder) a questão do destino do corpo da mulher ao longo dos últimos 50 anos, por que então o mito do destino sexual do homem é ainda tão dominante dentro da cultura popular e por que esse tema permanece tão incontestável nos ambientes femininos? Para um semelhante corpus de trabalho no que diz respeito aos homens, somente a Teoria Queer e os estudos do sexo com parceiros do mesmo sexo podem se gabar de tratar das sexualidades em todas as suas modalidades, complexidades e nuances. Já passou da hora de acabar com nossa obtusa visão das heterossexualidades masculinas, ou seja, de levar em consideração a lamentavelmente negligenciada categoria do heterossexual masculino, que, a despeito de sua dominância oculta nos modelos de sexualidade, há muito tem sido superdeterminada e insuficientemente estudada. Nesta era da psicologia evolucionária e da medicalização de todas as formas de (supostos) processos corporais, a crença na hiper-sexualidade dos homens se tornou, em diversos contextos culturais, algo como uma ilusão totêmica que enxerga a sexualidade masculina como uma característica naturalizada, fixa, e completamente diferente da feminina. Neste ensaio, examino a noção do destino sexual do homem, um assunto que é amplamente tomado como um consenso no imaginário popular e que ainda é, lamentável e estranhamente, raramente explorado por especialistas em estudos feministas e de gêneros.

Palavras-chave: masculinidade, sexualidade, reprodução, heterossexualidade, Teoria Feminista, Teoria Queer.


ABSTRACT

The notion of innate female sex drives, urges, and impulses has been repeatedly challenged and explored in a sophisticated feminist literature on women's sexualities. Yet if, with Simone de Beauvoir, we settled (or began to unsettle) the matter of women's bodily destiny over 50 years ago, why is the myth of men's sexual destiny still so pervasive in popular culture and why does it remain largely unchallenged in feminist venues? For a similar corpus of work among men only queer theory and studies of same-sex sex can make any claim to wide-ranging, complex, and nuanced treatments of sexualities. It is high time to queer our dull understanding of male heterosexualities, that is, to consider the woefully unmarked category of the male heterosexual that, despite and perhaps because of its hidden dominance in models of sexuality, has nonetheless too long gone overdetermined and understudied. In an age of evolutionary psychology and the medicalization of all manner of (alleged) bodily processes, the belief in men's hypersexuality has, in more than a few cultural contexts, become something of a totemic illusion which treats male sexuality as naturalized, something fixed, and as entirely distinct from female sexuality. In this essay I examine the notion of men's sexual destiny, a topic that is widely taken for granted in the popular imagination yet sadly and oddly is seldom studied by feminist and gender studies scholars.

Key-words: masculinities, sexualities, reproduction, heterosexualities, feminist theory, queer theory.


RÉSUMÉ

La notion d'appétits, d'impétuosités et d'impulsions sexuelles a, constamment, été défiée et explorée dans une littérature féminine sophistiquée à propos des sexualités des femmes. Si, malgré cela, avec Simone de Beauvoir, nous dévoilons (ou commençons à occulter) la question du destin du corps de la femme au cours de ces cinquante dernières années, pourquoi alors le mythe du destin sexuel de l'homme est toujours si dominant à l'intérieur de la culture populaire et pourquoi ce sujet demeure si incontestable dans les environnements féminins? Pour un corpus de travail similaire en ce qui concerne les hommes, uniquement la Théorie Queer et les études du sexe avec des partenaires du même sexe peuvent se flatter d'aborder les sexualités dans toutes ses modalités, complexités et nuances. L'heure d'en finir avec notre approche obtuse des hétérosexualités masculines est déjà passée, c'est-à-dire, de considérer la catégorie de l'hétérosexuel masculin, lamentablement négligée, qui, en dépit de sa dominance occulte dans les modèles de sexualité, est, depuis longtemps, surestimée et insuffisamment étudiée. Dans cette ère de psychologie évolutionnaire et de médicalisation de toutes les formes de (supposés) processus corporels, la croyance dans l'hypersexualité des hommes est devenue, dans divers contextes culturels, quelque chose semblable à une illusion totémique qui apréhende la sexualité masculine comme une caractéristique naturalisée, fixe et complètement différente de la féminine. Dans cet essai, j'examine la notion du destin sexuel de l'homme, un sujet largement considéré un consensus dans l'imaginaire populaire et qui est encore, lamentablement et étrangement, rarement exploité par les spécialistes en études féministes et de genres.

Mots-clés: Masculinité; Sexualité; Reproduction; Hétérosexualité; Théorie féministe; Théorie Queer.


 

 

A filósofa francesa Simone de Beauvoir escreveu em O segundo sexo que "fatos biológicos [oferecem] uma das chaves para se entender a mulher". Ela se apressou, porém, a acrescentar: "Nego que eles estabeleçam para ela um destino pré-determinado e inevitável" (Beauvoir [1949] 1960, p. 29).1

Essa tese revolucionária que separava o corpo feminino do destino feminino foi um princípio básico do feminismo e dos estudos sobre a mulher por várias décadas, e às vezes era contida no aforismo "Biologia Não é Destino". Desde que Simone de Beauvoir escreveu O segundo sexo, nossa compreensão dos fatos biológicos em si mesmos se tornou ainda mais complexa.2 Algumas verdades consagradas sobre os corpos, entretanto, foram mais difíceis de desalojar do que outras. Neste trabalho examino a noção do destino sexual dos homens, um tópico que tem sido amplamente tomado como óbvio na imaginação popular, mas que, infelizmente e por mais estranho que pareça, em raras ocasiões tem sido objeto de estudo.

Podem-se encontrar convicções em torno do voraz apetite sexual dos homens em qualquer lugar do mundo. Nos círculos acadêmicos de hoje, os psicólogos evolucionários alegam ter descoberto o motivo primordial da licenciosidade masculina: uma compulsão inerente ao macho da espécie no sentido de espalhar sua semente. Em sua obra introdutória a essa nova ciência da psicologia evolucionária, Robert Wright, por exemplo, pergunta em tom de provocação: "Há alguém aí que conheça uma única cultura em que as mulheres com um apetite sexual desenfreado não sejam consideradas mais anormais do que os homens com um apetite comparável?" (1994, p. 45). Mesmo que descartemos displicentemente essas afirmações biologicamente deterministas e universalistas (ou suas amplamente populares contrapartidas), temos ainda de lidar com a escassez de bons conhecimentos - feministas ou não - sobre a (hetero)sexualidade e reprodução masculina. Por ter deixado de estudar a sexualidade e a reprodução masculina, deixamos também de desafiar a conclusão, comum aos psicólogos evolucionários, de que, no que diz respeito à sexualidade, "a licenciosidade masculina e a (relativa) reserva feminina são, até certo ponto, inatas" (Idem, p. 46). E caso surja algum mal-entendido com respeito à escassez de estudos sobre a heterossexualidade e a reprodução masculina, essa situação resulta não de alguma tendência feminista de oposição aos homens, e sim do caráter fetichista geral que cerca a sexualidade masculina.

Nesta era da psicologia evolucionária e da medicalização de todas as formas de (supostos) processos corporais, a crença na hipersexualidade dos homens tornou-se, em diversos contextos culturais, algo como uma ilusão totêmica que enxerga a sexualidade masculina como uma característica naturalizada, fixa e completamente diferente da feminina. À guisa de crítica ao caráter fetichista atribuído às sexualidades masculinas, as teorias feministas da desigualdade entre os gêneros podem fornecer a estrutura em que desenvolvemos o estudo dos homens, da sexualidade, da procriação e da masculinidade como parte de um projeto mais geral de exploração da história e da diversidade dos sistemas de gênero e sexualidade no mundo. Em particular, o presente trabalho baseia-se na pergunta retórica de Wendy Brown: "O que acontece quando as convicções que unificam uma ordem política se tornam fetiches?" (2001, p. 4). Como uma maldição que vai passando de geração em geração, as supostamente inatas características comportamentais dos homens - que se acreditam devidas à testosterona e ao DNA - são erigidas em forma de um fetiche pós-moderno, modelado sobre convicções políticas que unem uma ordem de gênero que vem de muito tempo atrás.

O que os investigadores das questões relacionadas com saúde, por exemplo, dizem sobre a sexualidade masculina, mesmo que simplesmente por dedução, pode causar - e efetivamente causa - uma série de conseqüências àqueles a quem procuramos representar. O fato de um tópico tão importante e cotidiano como a heterossexualidade e a reprodução masculina ter passado tão despercebido na antropologia e nas outras ciências sociais demonstra tanto a importância como a urgência da tarefa que se apresenta; isso porque, se não for adequadamente examinado e analisado, esse tópico pode facilmente descambar para biologismos superficiais que reduzem os homens e suas sexualidades ao homem e sua sexualidade - no singular.

Em resumo, se estabelecemos (ou começamos a desestabelecer) a questão do destino corporal das mulheres mais de cinqüenta anos atrás, por que será que o mito do destino sexual dos homens continua tão impregnado na cultura popular, e por que continua a ser tacitamente aceito nos círculos eruditos?

Uma pista para a resposta a essa pergunta pode estar naquilo a que Carole Vance (1999 [1991]) chamou de "o modelo de influência cultural", em que as diferenças culturais recobrem os corpos masculinos e femininos primordiais com uma pátina de diversidade sexual. Isso remete ao principal dilema da pesquisa da sexualidade ocidental nos últimos cem anos: a interação entre corpos materiais e significados culturais no decorrer dos periódicos lamber, chupar, introduzir, conter nas mãos, ficar por cima e ficar por baixo um do outro. Na fórmula de Vance, o modelo de influência cultural é utilizado para descrever a sexualidade tanto dos homens como das mulheres, de forma que "a sexualidade é encarada como o material básico - uma espécie de massa de modelar - sobre o qual a cultura trabalha, uma categoria naturalizada que permanece fechada à investigação e análise" ([1991] 1999, p. 44). Com o modelo de influência cultural se pode detectar, de uma cultura para outra, toda uma gama de práticas sexuais mutuamente exóticas e/ou repugnantes, mas cada uma delas não passa de uma manifestação da essência corporal básica e subjacente aos seres humanos. À guisa de correção delicada da crítica de Vance ao conceito de que a cultura exerce uma mera influência epifenomenal na sexualidade, eu acrescentaria que na investigação feminista - embora, evidentemente, não na imaginação popular - há ainda quem acredite que o corpo masculino, mais ainda que o feminino, já "sai da fábrica" com um previsível disco rígido de massa de modelar.

A noção de apetites, ímpetos e impulsos sexuais, por exemplo, tem sido constantemente desafiada e explorada em uma sofisticada literatura feminina sobre as sexualidades das mulheres. Para um semelhante corpus de trabalho no que diz respeito aos homens, somente a Teoria Queer e os estudos do sexo com parceiros do mesmo sexo podem se gabar de tratar das sexualidades em todas as suas modalidades, complexidades e nuanças. Já passou da hora de acabar com nossa obtusa visão das heterossexualidades masculinas, ou seja, de levar em consideração a lamentavelmente negligenciada categoria do heterossexual masculino, que, a despeito de sua dominância oculta nos modelos de sexualidade - ou talvez justamente em razão dessa dominância -, há muito tem sido superdeterminada e insuficientemente estudada. E, ao fazê-lo, não devemos também nos esquecer da advertência de R.W. Connell com relação aos construtivistas sociais:

Como grupo, eles enfrentam dificuldades no que diz respeito à dimensão corporal da sexualidade: os processos e produtos corporais - excitação sexual, orgasmo, gravidez e parto, menarca e menopausa, tumescência e detumescência, sêmen, leite e suor. Enfatizar a historicidade da sexualidade, como fazem Foucault e seus seguidores, costuma marginalizar essas questões (1997, pp. 63-64).

Não podemos continuar a ignorar a confluência dos parâmetros biológico e cultural sobre a sexualidade, e a forma como esses fatores alimentam e transformam um ao outro.

O estratagema antropológico de primeiro obter uma clareza conceitual nas margens sociais nos tem sido útil, mas agora é necessário aplicar as lições aprendidas a um estudo a ser executado do lado de dentro dessas margens. Em sucessivas ondas conceituais, de início ligando intimamente os sistemas de sexo/sexualidade e gênero (Rubin, 1975), em seguida separando-os de forma não somente analítica (Rubin, [1984] 1999), com uma ligação mais recente de sexualidade e gênero novamente em uma síntese feminista pós-freudiana (Segal 1994), aprendemos alguma coisa sobre a forma limitada como temos tratado a sexualidade sob a ótica da biologia e o gênero sob a ótica da cultura. Isso é importante, pois se a sexualidade masculina for o dado biológico básico e o restante do que fazemos com ela depender de nossa visão cultural de gênero, então a ampla gama de reações ou sensações sexuais masculinas - desejo, temor, prazer, preocupação, obsessão, fantasia, experiência e prática - está apenas à espera de ser formalmente descoberta e documentada, e não muito mais do que isso.

Relativamente pouco se tem escrito, por exemplo, sobre homens heterossexuais que não gostam de sexo, que não gostam de sexo freqüente e que não sentem falta de sexo quando não o têm. Esses tópicos são excepcionalmente raros na literatura pertinente. Entre os escassos relatos a esse respeito, na tentativa de contestar o "conceito freudiano de que cada pessoa possui certa quantidade inata de energia sexual que precisa se expressar de alguma forma", Karl Heider (1976, p. 195) escreveu que entre o povo Dani do Grand Valley na Indonésia, pelo menos na década de 1960 em que ele conduzira sua pesquisa de campo, havia um período-padrão de quatro a seis anos de abstinência sexual pós-parto e, o que é ainda mais notável, que ninguém demonstrava qualquer sinal de desgosto ou estresse como resultado desse celibato. Entre os hijras na Índia, Nanda escreve que "sua castração é a 'prova' culturalmente definida que eles oferecem de que não sentem desejo sexual nem precisam de alívio sexual como homens" (1990, p. 29).3 E, em uma pesquisa sobre a mudança nas identidades e nas práticas de gênero na Cidade do México, um amigo me confessou: "Vou lhe dizer com sinceridade; para mim o sexo nunca foi tão importante quanto parece ser para muitos outros sujeitos" (Gutmann, 2000, p. 211). Apesar disso, a própria escassez de relatos como esse nas diferentes culturas pode nos levar a presumir displicentemente que (a) a maioria dos homens não é assim, e que (b) sabemos como é a maioria dos homens no que diz respeito à sexualidade e à procriação.

Embora com pouca freqüência, os antropólogos parecem ter um prazer perverso em registrar a promiscuidade polimórfica de homens e mulheres de todas as idades, formatos e tipos.4 São sagazes observadores da variedade e da amplitude sexual, e têm uma alergia fóbica aos tipos ideais e aos modelos de normatividade. Eles podem também, não obstante, acreditar que a maioria dos homens heterossexuais se sente e se comporta de uma determinada maneira (com um apetite inato pelo sexo, digamos). Na antropologia cultural contemporânea, costuma-se contornar essa situação difícil enfatizando o local e evitando qualquer suposição de experiências pan-humanas, ou seja, recorrendo à lógica localista da antropologia - "As convicções e práticas são sui generis em todos os locais e em todos os momentos da história". Esse direcionamento foi particularmente importante e necessário como resposta à medicalização dos corpos humanos e às afirmações biomédicas com respeito à normalidade e à patologia corporal (ver Scheper-Hughes, 1994). Tendo passado boa parte dos últimos vinte anos nas regiões central e sul do México, tenho total consciência dos perigos da generalização para regiões, quanto mais para populações de Estados-nação inteiros e quanto mais ainda para grupos ainda maiores de pessoas quando se trata de sexualidade, procriação, homens e masculinidade, e muito mais. Não obstante, meu objetivo neste trabalho é o de levantar uma série de questões que, espero, venham a ser relevantes em diversos contextos históricos e culturais.

Como forma de explorar idéias pertinentes e ridicularizar essas concepções errôneas, passo a enumerar os "enganos e mentiras comuns" a respeito dos homens e da procriação. Será uma incursão conceitual geral pelas sexualidades dos homens.5

 

Premissa 1

A procriação e a saúde reprodutiva são questões exclusivas das mulheres. É evidente que muita gente não é ingênua a ponto de achar que a procriação é um assunto que diz respeito somente às mulheres. Vale destacar, porém, que essa realidade não é tão óbvia quanto deveria ser, como demonstra o fato de que, em algumas das recentes e importantes coletâneas de trabalhos sobre procriação e gênero e saúde, os editores não puderam incluir artigos que tratassem substancialmente de homens e procriação (ver, por exemplo, Ginsburg e Rapp, 1995; Sargent e Brettell, 1996). Para realçar a ausência dos homens nas discussões sobre procriação, Greene e Biddlecom deram a um estudo crítico de 2000 o título de "Absent and problematic men: demographic accounts of male reproductive roles" ("Homens ausentes e problemáticos: descrições demográficas dos papéis dos homens na procriação") (ver também Dudgeon e Inhorn, 2003). O fato de os homens terem estado ausentes dos estudos sobre procriação é um problema em si mesmo; o truque agora é incorporá-los a esse campo sem perder de vista a política da procriação.

Felizmente, ao descobrir esse elo perdido (gameta?) na história da procriação e da sexualidade, tornamo-nos capazes de construir sobre a base das literaturas substanciais já existentes que tratam de tópicos como mulheres e procriação,6 paternidade e "envolvimento prévio" dos homens, e homens que fazem sexo com outros homens. Sem dúvida, a inclusão dos homens em qualquer campo é mais do que simplesmente "adicionar os ingredientes e mexer a mistura", embora isso não deixe de já ser um começo. Entre os assuntos que merecem atenção imediata nesse empreendimento, alguns são mencionados a seguir.

Com engenhosidade e um bocado de talento, os adeptos da Teoria Queer e as da segunda onda do feminismo tomaram a si a tarefa de classificar a heterossexualidade masculina como normativa e nada mais. No ensaio clássico de Rich ([1982] 1993) sobre a "heterossexualidade compulsória", lemos que a categoria da (hetero)sexualidade masculina, que não recebia atenção por ser julgada óbvia, vinha há muito sendo empregada como forma substituta - a forma não-identificada - para todas as formas de sexualidade. Analiticamente, porém, retirar os homens heterossexuais de seus armários não identificados - em outras palavras, demonstrar que eles possuem tipos particulares e não universais de sexualidades - foi praticamente tudo o que se fez com respeito a eles. E assim, até recentemente no âmbito do conhecimento feminista, eles analiticamente permaneceram à sombra do armário, embora um tanto despidos em sua heteronormatividade.7

Não se trata de como melhor representar as opiniões e as experiências da população de homens envolvidos na procriação de uma forma ou de outra, e as mulheres e os homens nas vidas deles; nem simplesmente de como discutir a diversidade de heterossexualidades masculinas no que diz respeito a direitos, comportamentos e tecnologias de procriação. O desafio é o de desenvolver esse campo sem perder as percepções fundamentais do feminismo e da Teoria Queer no que concerne à desigualdade e ao privilégio, em particular as verdadeiras restrições corporais e sociais que os homens e as mulheres enfrentam. No caso dos homens, então, deveríamos perguntar qual seria o outro lado da moeda na seguinte caracterização feita por Segal: "Ignora-se a complexidade do aspecto social, reduzindo-o a generalizações sobre relações fixas de poder - como se o fato de se ter menos poder na sociedade, como costuma acontecer com as mães, significasse ser, e ser consideradas como sendo, simplesmente submissas e incapazes" (1994, pp. 148-49). E o que dizer de os homens serem considerados fortes e poderosos: será que eles são automaticamente assim em todos os contextos, inclusive nos contextos sexualmente mais íntimos?

A esse respeito, finalmente, há nas ciências sociais um número surpreendentemente reduzido de estudos sobre gênero que tratem tanto dos homens como das mulheres. Embora a abordagem do tipo "ou uma coisa, ou outra" seja vantajosa em alguns contextos para alguns tópicos de investigação (para a América Latina, ver Gutmann, 2003), ela funciona também como um sério obstáculo quando se trata de examinar um assunto como a procriação. Na florescente literatura sobre partos e parteiras, por exemplo, os homens raramente recebem mais do que uma rápida referência, a despeito do papel fundamental que eles podem desempenhar antes e depois e durante o próprio parto. No que diz respeito à infertilidade, os homens vêm há muito sendo tratados como irrelevantes, ou, quando incorporados aos estudos, apresentados como aqueles que se recusam a admitir a possibilidade de que o problema é com eles. Faz pouco que se iniciou um trabalho significativo nessa área (ver Inhorn, 2003; Kahn, 2000).8 Após as conferências internacionais do Cairo em 1994 e de Pequim em 1995, a intersecção da política e da procriação e a incorporação dos homens às questões de saúde reprodutiva receberam sanção estatal na maioria dos países. Por mais necessárias que sejam essas mudanças, e por mais conveniente que seja envolver os homens no conhecimento acerca da procriação, como ocorre no campo de desenvolvimento e na mudança de direção de Mulheres em Desenvolvimento para Gênero e Desenvolvimento, há riscos envolvidos (ver Chant e Gutmann, 2000). No âmbito da antropologia, os homens, a sexualidade e a saúde reprodutiva foram amplamente estudados e discutidos somente nas pesquisas sobre o HIV.

 

Premissa 2

A saúde reprodutiva diz respeito apenas às mulheres em geral e aos homens e às mulheres portadores de AIDS. A epidemia de AIDS fez com que os homens se tornassem relevantes para a procriação e a sexualidade, pelo menos no que dizia respeito à saúde deles e de seus(suas) parceiros(as). Inicialmente considerada um problema de saúde para homens gays e homens que faziam sexo com homens mas que não se identificavam como gays - na linguagem arrogante da saúde pública, esses homens foram classificados coletivamente como um significativo "grupo de risco" -, sobretudo quando os estudos epidemiológicos mostravam uma progressão geométrica do contágio em partes da região sul da África e do subcontinente da Índia, não demorou para que os homens heterossexuais e a higiene de seus prepúcios, as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e as peculiaridades do sexo seco começassem a receber uma atenção cada vez maior. Como aconteceu no mundo inteiro, a saúde reprodutiva e a sexualidade na América Latina foram ambas resultado das campanhas da AIDS por medicamentos e práticas sexuais mais seguras e, em grande medida, permaneceram ligadas a esses temas.9

A relação entre heterossexualidade masculina, bissexualidade e homossexualidade tem uma importância fundamental no estudo dos homens, da sexualidade e da procriação por uma série de motivos, dos quais as deficiências teóricas nos modelos de heterossexualidade existentes não são os menos significativos. De que forma os estudos da (homo) sexualidade masculina se harmonizam com a (hetero)sexualidade masculina e com a sexualidade humana em geral? Nancy Chodorow examinou a literatura psicanalítica e chegou à conclusão de que - veja só!:

[...] a psicanálise não tem um registro da heterossexualidade "normal" em termos de desenvolvimento (sendo que, evidentemente, a heterossexualidade se expressa em uma ampla variedade de heterossexualidades) que se compare em riqueza e especificidade aos registros que temos do desenvolvimento das várias homossexualidades e daquilo a que chamamos perversões. A maior parte do que se pode trazer à tona sobre a teoria psicanalítica da heterossexualidade "normal" resulta de se ler nas entrelinhas de textos a respeito das perversões e da homossexualidade (1994, p. 34).

Continuam abundantes, porém, as suposições baseadas em lugares comuns e clichês sobre a heterossexualidade.

Em alguns países do mundo, a recente atenção da saúde pública a problemas como câncer de testículos e de próstata (que afetam em especial homens mais jovens e mais velhos, respectivamente), disfunção erétil (um problema que vai aumentando com o tempo e com as soluções farmacêuticas) e ejaculação precoce trata das preocupações dos homens em relação à saúde reprodutiva, independentemente da orientação sexual. A ênfase nos análogos masculinos aos problemas ginecológicos femininos, porém, não nos fará avançar no desenvolvimento de nossas ferramentas conceituais no que concerne às sexualidades masculinas. Para imprimir textura e vigor ao estudo dos homens, da sexualidade e da procriação, precisamos descobrir maneiras de ampliar e desenvolver as literaturas do feminismo e da Teoria Queer no que diz respeito à sexualidade, incluindo a bissexualidade. Assim, se as heterossexualidades masculinas já não são vistas como compulsórias, não deverão também ser necessária e geralmente compreendidas como compulsivas.

 

Premissa 3

Nos homens, a capacidade de procriação corresponde à sexualidade (e vice-versa?), ou uma solução biológica para a reprodução da espécie. Pode ser coincidência o fato de o pênis e os testículos serem pontos de excitação e prazer sexual e, ao mesmo tempo, estarem estreitamente envolvidos na fertilização masculina. A verdade, porém, é que, na vasta maioria dos momentos da vida dos homens, o pênis e os testículos não se encontram em estado de intensa excitação. O pênis ereto não é o pênis-padrão.10

É claramente perceptível que um dos principais problemas com essa equação entre procriação masculina e sexualidade masculina é que ela deixa de fora todas as formas de sexo com o mesmo sexo entre homens, mais uma vez confirmando o conceito de que masculinidade é igual à homofobia (ver Kimmel, 1994). Compreender os homens que fazem sexo com outros homens como, ainda uma vez, uma categoria omitida envolve mais do que o reconhecimento franco e objetivo de que homens fazem sexo uns com os outros sem absolutamente pensar em procriação. Na história dos estudos sobre a sexualidade, a noção de ativo e passivo entre os homens que fazem sexo uns com os outros também se tornou predominante como estrutura analítica substituta para a sexualidade reprodutiva heterossexual; esses termos, assim, ligam homens e mulheres heterossexuais com preferências de "ficar por cima ou ficar por baixo" a homens que fazem sexo com outros homens. Nesse aspecto, também, podemos aprender com a etnografia recente (ver, por exemplo, Parker, 2002) de homossexualidades emergentes, que esclarece como a dicotomia ativo/passivo pode originar mais problemas conceituais do que aqueles que soluciona. Essa lição é valiosa, pois até agora a (hetero)sexualidade masculina vinha sendo relacionada, de forma excessivamente freqüente e desdenhosa, com uma atitude ativa (e com agressão) em contraste com a (hetero)sexualidade passiva e ressentida das mulheres.

Não obstante, o sexo masculino com o mesmo sexo não é a única modalidade de sexo improdutivo que existe; não apenas o sexo entre homens e mulheres geralmente não resulta em gravidez, como também a maior parte do sexo entre homens e mulheres é intencionalmente "não reprodutiva". Esse fato reforça a importância de não se reduzirem todas as discussões sobre a sexualidade masculina à procriação masculina, da mesma forma como é importante não se reduzir a procriação masculina aos problemas da saúde reprodutiva masculina como disfunção erétil, baixa mobilidade dos espermatozóides e impotência. Questões de prazer e desejo (e da falta deles), de bem-estar (e mal-estar) emocional, de fantasia (e medo) - todos esses fatores fazem parte da vida sexual e reprodutiva dos homens.

Um estudo recente sobre homens que freqüentam clubes de strip-tease na Carolina do Norte, Estados Unidos, oferece uma evidência ainda maior de por que a sexualidade masculina precisa ser separada da procriação masculina e mesmo das próprias ações sexuais masculinas básicas. Nesse livro, Katherine Frank (2003) descreve por que certos homens chegam a gastar centenas de dólares por semana para não fazer sexo com mulheres e, nesse processo, revela como, em vez de procurar um alívio sexual direto, esses homens pagam apenas para contemplar as strippers e tê-las como companhia. A autora observa que os clubes de strip-tease oferecem a muitos homens um espaço em que seus sentimentos de impotência psicológica encontram um refúgio seguro, a salvo do mundo social em que os homens são detentores de uma reconhecida autoridade.

Em resumo, como demonstra a extensa e amplamente citada literatura sobre as políticas relativas ao sexo com o mesmo sexo, aos travestis e aos transexuais, a separação entre procriação masculina e sexualidade masculina como categorias analíticas é indispensável. A charada mais difícil de decifrar é a de como e quando se devem recombinar essas categorias, e não apenas para fins analíticos, para, por exemplo, investigar as vidas de bilhões de homens para quem a procriação e a sexualidade estão vinculadas no dia-a-dia e de uma forma concreta. Pelo que tudo indica, atividades como as relações sexuais e outras atividades sexuais que ocorrem entre homens e mulheres têm sido surpreendentemente evitadas e/ou ignoradas no mundo acadêmico dos dias de hoje. Poder-se-ia esperar que os antropólogos se interessassem por essas atividades simplesmente pelas características de hábito e ritual que elas apresentam.

Há quem afirme que, nos homens, a procriação depende da sexualidade - e mais especificamente das ereções que eles conseguem - de modos que não valem para as mulheres.11 Não obstante, para levar esse argumento à sua conclusão lógica, a não ser que se pretenda afirmar que todas as ereções são iguais - e que todas as ereções acontecem pelo mesmo motivo -, exagerar esses aspectos da sexualidade masculina é uma insensatez tão grande quanto considerá-las totalmente diferentes das formas como a procriação feminina pode depender da sexualidade das mulheres. Tanto para os homens como para as mulheres, pareceria que o aspecto que mais salta à vista não são as supostamente universais maneiras fisiológicas de se reagir ao estímulo sexual, e sim o que causa quais tipos de reações em quais contextos culturais, e quando, como e por quê.

 

Premissa 4

Os homens não assumem responsabilidade pelo controle da natalidade. Essa afirmação pode não ser um verdadeiro equívoco e muito menos uma mentira por atacado. Muitos homens não assumem responsabilidade pela contracepção, jamais assumiram e jamais assumirão. Além disso, há quem tenha conhecimento de algum homem que exija controle da natalidade em nome dos homens? Em todo o mundo, os únicos movimentos sociais coerentes entre homens que se identificam com o conceito de "energia masculina" são as multifilamentadas lutas pelos direitos e liberdades dos gays. Em diferentes países, naturalmente, existem organizações que declaram promover os direitos dos homens, como os Christian Promise Keepers de direita nos Estados Unidos. Em nenhum desses movimentos, porém, existem homens tentando obter um maior controle sobre a própria fertilidade por meio de implantes hormonais masculinos, injeções de silicone em seus canais deferentes ou outros métodos contraceptivos. E os homens também não se apresentam como uma força social coesa exigindo mais preservativos e mais vasectomias para as massas.

Outro item que anda em falta na maioria dos países é um histórico da participação dos homens na prevenção da gravidez. Até que ponto se podem comparar as experiências masculinas àquelas descritas por Schneider e Schneider (1996) na Sicília dos séculos XIX e XX, onde o coitus interruptus era amplamente praticado e visto como sinal de respeitabilidade? Já que, antes da introdução dos métodos químicos, a "marcha a ré" (como era chamada na Itália) constituía uma técnica anticoncepcional de capital importância também em outras partes do mundo, seria conveniente descobrirmos em que medida o coitus interruptus "tinha menos a ver com uma ascética renúncia ao prazer do que com uma demonstração de poder", sendo uma forma de controle sobre a vida e o amor (Idem, p. 162).

Nesse meio-tempo, como costumam as mulheres mexicanas descrever a situação contraceptiva, "Las mujeres ya saben de eso." No México, as mulheres se cuidan quando empregam um ou mais métodos para evitar a gravidez. Ainda está muito pouco claro até que ponto essa situação existe porque são as mulheres e não os homens que ficam grávidas, ou porque os homens, por natureza, não querem dividir a responsabilidade pelo planejamento familiar, ou porque as opções contraceptivas disponíveis no mercado mundial, em sua esmagadora maioria, são destinadas a serem ingeridas, introduzidas ou injetadas pelas mulheres. A verdade é que existem menos opções de contracepção para os homens. Por quê? Até que ponto estariam a cultura e a fisiologia, por exemplo, implicadas na falta de contraceptivos masculinos? As experiências que foram conduzidas com métodos hormonais para a contracepção masculina e tampões temporários de silicone para os canais deferentes não chegaram a ser desenvolvidas e comercializadas para a enorme população de homens que, presumivelmente, estão se aproveitando das opções de contracepção para as mulheres.

A ignorância, a falta de informação e os temores infundados amplamente disseminados são, no mínimo, tão significativos quanto o machismo desenfreado e peculiarmente mexicano para que se entenda por que tão poucos homens fazem vasectomia nesse país. Segundo muitos homens que conheci e entrevistei em clínicas de vasectomia nos últimos anos, a falta de conhecimento é um dos motivos pelos quais o número de homens que procuram a vasectomia é tão baixo (ver Gutmann, 2007). Alguns homens e mulheres obtêm informações sobre a vasectomia em anúncios de serviços públicos pela televisão, pelo rádio ou pelos jornais; outros as obtêm em panfletos distribuídos em clínicas de planejamento familiar; outros ainda de enfermeiras e médicos que trabalham nessas clínicas. A informação boca a boca, principalmente de um homem para outro, é com freqüência o método mais convincente de dar publicidade a esse procedimento. Além disso, em todo o México, nas paredes externas das clínicas médicas de muitas cidades, é comum ver cartazes pintados para divulgar a disponibilidade de se obterem vasectomias lá dentro, promovendo, assim, a participação masculina dessa modalidade de contracepção permanente.

Na maioria das situações clínicas que encontrei em iniciativas de planejamento familiar controladas pelo governo, porém, a vasectomia é apresentada como uma questão de escolha individual e não se insere no contexto das relações gerais entre homens e mulheres em que os homens raramente assumem uma responsabilidade primordial pela contracepção. Os panfletos oficiais, por exemplo, não comparam a vasectomia à ligadura de trompas para as mulheres, sendo esta última um procedimento muito mais invasivo e temporariamente debilitante. A vasectomia é divulgada como um método de controle da natalidade que está disponível para qualquer homem que decida beneficiar-se desse serviço, mas não é de surpreender que, para os homens que realmente decidem se submeter a uma vasectomia, conseguir esse procedimento pode ser difícil.

Descartar completamente a participação ativa e a empatia dos homens na contracepção é um grande equívoco. Uma das conclusões a que cheguei com base em minha pesquisa sobre a vasectomia no México é de que os homens expressam um grande alívio quando deixam de ter motivos para se preocupar em engravidar as mulheres com as quais fazem sexo. Não menos importante é o fato de que, no mesmo estudo, diversas mulheres relataram o mesmo alívio com relação à preocupação em engravidar que, antes, partilhavam com os homens ao longo de suas vidas sexualmente ativas. Não obstante, quando se comparam as estatísticas da participação dos homens no que se costuma considerar "modalidades mais masculinas de controle da natalidade", como os preservativos e a vasectomia, os números variam imensamente de um país para outro (e às vezes de uma região para outra dentro do mesmo país). Será que esses números representam algo de fundamental com respeito às atitudes e às práticas culturais relacionadas com a sexualidade masculina? Será que podemos, de forma significativa, correlacionar a falta de prevalência da contracepção entre os homens às "culturas machistas" nacionais particulares?12

O envolvimento dos homens na contracepção não é, no final das contas, somente uma questão de escolha individual, de culturas "machistas e não machistas", nem uma questão de homens versus mulheres, de aqueles que inseminam com espasmos que duram alguns poucos segundos versus aquelas que, potencialmente, vão carregar um feto no ventre por nove meses. Na realidade, para explicar o que eruditos latino-americanos como Barbosa e Viera Villela (1997) chamam de "introdução de uma cultura contraceptiva" e o que a antropóloga colombiana Mara Viveros (2002) denomina "cultura contraceptiva feminina", segundo a qual as mulheres do mundo inteiro são predominantemente responsáveis pelo controle da natalidade, temos de observar não apenas os homens negligentes e velhacos que procuram se eximir da responsabilidade de evitar a gravidez de suas parceiras (ver também Barbosa e Di Giacomo do Lago, 1997). Devemos perguntar também sobre o papel dos governos no controle populacional, no planejamento familiar e, mais recentemente, nas campanhas pela saúde reprodutiva e sexualidade, sobre a Igreja Católica em várias partes do mundo, o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA - United Nations Fund for Population Activities), a Federação Internacional para uma Paternidade Planejada (IPPF - International Planned Parenthood Federation) e suas afiliadas locais, o Conselho da População e as Fundações Ford, MacArthur e Rockefeller e os papéis que desempenham na criação de uma cultura contraceptiva feminina. Da mesma forma decisiva, temos de examinar o papel desempenhado pela indústria farmacêutica em demarcar os limites do que é considerado por seus pesquisadores biologicamente possível e viável para assegurar estratégias de marketing. Algumas dessas instituições têm claramente desempenhado um papel muito melhor do que outras para encontrar a maneira de avançar além da assim chamada regulamentação da fertilidade, para oferecer resistência ao avanço da maré da cultura contraceptiva feminina, para envolver os homens e para desenvolver uma abordagem abrangente para a saúde das mulheres.

Como um último aspecto no que diz respeito aos homens e à contracepção, não podemos esquecer de que, mesmo antes do advento da pílula, muitos homens desempenharam um papel maior na prevenção da procriação e que os preservativos e o coitus interruptus foram recursos significativos em mais encontros sexuais heterossexuais do que na maioria das circunstâncias da época atual. É evidente que a situação é muito diferente hoje, quando, em nível mundial, 61% de todas as "mulheres em idade reprodutiva" que são casadas ou em união consensual estão, elas próprias, utilizando a contracepção (United Nations, 2003).

 

Premissa 5

O impulso sexual dos homens é uma aptidão (natural). Esse enorme tópico vem tão carregado de crendice popular que é difícil saber por onde começar a esclarecer os equívocos e as mentiras. Uma boa forma de começar seria, talvez, fazer a seguinte pergunta: Onde foi parar o tal gene gay? Uma das respostas, naturalmente, é a de que ele jamais existiu e, portanto, não foi parar em lugar nenhum. De forma mais substancial, a pesquisa que proclamou ter descoberto o gene gay estava totalmente equivocada, pois se apoiou em um constructo social (o conhecimento e consenso sobre, antes de qualquer coisa, quem é gay e quem não é) e depois tentou traçar o caminho de trás para diante para encontrar alguma semelhança genética entre essas pessoas. É impossível dissociar os aspectos atributivo e delimitativo da "qualidade de ser gay", seja isso o que for. Outro problema é o que Roger Lancaster chama de "'genomania' e fetichismo heterossexual". Como explica Lancaster, "Não acredito que a homossexualidade seja realmente suscetível nem mesmo a uma 'boa' investigação biológica. Como atividade humana complexa, significativa e motivada, o desejo pelo mesmo sexo simplesmente não é comparável a aspectos [geneticamente relacionados] como cor dos olhos, tipo e cor dos cabelos, cor da pele ou estatura" (2003, p. 256).

A fútil busca pelo gene gay é relevante para a questão dos impulsos sexuais masculinos na medida em que eles são naturalizados de maneira semelhante. No que diz respeito aos homens heterossexuais, parece que não temos avançado muito em compreender de que forma eles são considerados - embora hoje com a sanção da psicologia evolucionária e dos testes de níveis hormonais - detentores de seu próprio tipo de condição sexual homogênea. É verdadeiramente extraordinário, por exemplo, que tenhamos tão poucos estudos feministas sobre homens e estupro - motivos, contextos e históricos do estupro - e a relação de poder e sexualidade para entender o estupro.13 Um dos principais problemas com as versões naturalizadas, até mesmo medicalizadas da sexualidade masculina, é que elas servem para legitimar o militarismo, a violência e o estupro - em qualquer teoria "biologística" do comportamento masculino se esperaria encontrar uma explicação para o fato de que a maioria dos homens não mata nem estupra, mas, na verdade, nenhuma delas trata adequadamente dessa evidente contradição da fetichização da violência e da sexualidade masculinas. Os significados e as conseqüências do fato de os homens serem "sexualmente incontroláveis" seriam completamente diferentes se compreendêssemos que os homens são "culturalmente descontrolados" ou portadores de hormônios fora de controle.14 Além disso, os primeiros estágios da segunda onda feminista contribuíram inadvertidamente para o problema do raciocínio biologístico. Trata-se especificamente, como aponta Lynne Segal, da "impropriedade teórica do cientificamente respeitável, mas mesmo assim redutivo modelo de sexualidade que foi usado nesses primeiros textos feministas, com base na idéia de apetites e de sua repressão ou liberação" (1994, p. 41).

No México, no decurso da exploração da influência penetrante de noções relativas a uma sexualidade intrínseca e totêmica entre os homens desse país, descobri também que o estereótipo de que "os homens de verdade precisam procriar para provar que são homens" está historicamente vinculado ao pró-natalismo, patrocinado pelo Estado, que se desenvolveu após a Revolução Mexicana no início do século XX e, em seguida, se acelerou ao longo de um período - os primeiros anos da década de 1970 - em que a nação mexicana se confundia, em termos gerais, com os homens e a masculinidade (ver Gutmann, 2000). Além da fetichização das sexualidades masculinas, que não diminuiu no século XXI, essa história natural nacional desempenhou um importante papel nos dogmas e nos truísmos contemporâneos no que concerne ao que os homens mexicanos desejam, fazem, buscam e precisam em termos sexuais.

Uma das implicações da fetichização da sexualidade masculina para a questão dos homens e a procriação é a promoção da compreensão mecanística de que "a participação dos homens no processo reprodutivo está, na verdade, limitada ao esperma com o qual eles contribuem" (Marsiglio, 1998, p. 50). O modelo de influência cultural que se encontra em jogo aqui permite a Marsiglio (Idem, p. 51) especular que, já que os homens não carregam um feto no ventre por nove meses como as mulheres, isso gera uma "indiferença" por parte deles em relação à gravidez e até mesmo uma "alienação geral que os afasta do processo reprodutivo" e que somente é ligeiramente abrandada pelas novas tecnologias, como o ultra-som, que permite aos homens (de algumas classes sociais e em alguns países) visualizar o crescimento do feto e o iminente nascimento de seus filhos.

Tal abordagem do estudo dos homens, da sexualidade e da procriação é demasiadamente limitada em termos culturais e, no final das contas, suporta a noção de que conceitos de biologia estreitamente concebidos acabam por prevalecer sobre todo o restante. Não há dúvida, porém, de que essa abordagem tem um aspecto reabilitado de verdade nos dias de hoje, em que o papel dos testes genéticos para a determinação da paternidade vem obrigando alguns pais negligentes a assumirem suas responsabilidades paternas. Não obstante, até mesmo a paternidade, inclusive em sociedades partidárias das famílias nucleares normativas, tem provado que não é assim tão redutível à consangüinidade. E, menos ainda, deve a sexualidade ser jamais reduzida a simples descargas neurais e fluxos sangüíneos.

 

Premissa 6

O amor nada tem a ver com os homens, a sexualidade e a procriação. Essa afirmação pode ser manifestamente ridícula, mas, depois de analisar a maior parte do conhecimento acerca dessas questões, pode-se muito bem ficar com essa impressão. Parte desse equívoco talvez se deva a Foucault ([1980] 2005), para quem o amor estava perceptivelmente ausente. A falta de atenção ao amor e a sentimentos semelhantes, principalmente no que diz respeito aos homens e suas histórias de vida sexual e reprodutiva, é uma evidente omissão. É óbvio que vocábulos como "amor" precisam ser totalmente contextualizados cultural e historicamente, mas a dificuldade de tal empreendimento, em si, não explica nossa anterior relutância em assumir essa tarefa. Em vez disso, e como resultado de suposições naturalizadas sobre a sexualidade masculina, podemos ter involuntariamente presumido que o amor, para os homens, não é tão relevante para o estudo do sexo e da procriação. Por mais absurdo que isso possa parecer, é muito difícil encontrar outra explicação para nosso lapso erudito.

Uma das indicações de quão distorcida pode ser, às vezes, a nossa perspectiva com respeito ao amor e à sexualidade é a linguagem que usamos para discutir a saúde reprodutiva em geral, seja ela relacionada com as mulheres, os homens ou ambos. Em panfletos e textos médicos, a contracepção é geralmente apresentada em termos um tanto negativos, como quando falamos de população e controle da natalidade, regulamentação da fertilidade, planejamento familiar e prevenção da gravidez. Se existe na sexualidade, ao menos para alguns em certas ocasiões, uma alegria que não resulte em procriação ou mesmo, que Deus não o permita, em reprodução, deve valer a pena prestar atenção aos complexos significados que esse prazer pode transmitir.

 

Premissa 7

Em termos de sexualidade e procriação, os homens fazem o que bem entendem, independentemente da intervenção das mulheres. A inclusão dos homens nos estudos da procriação reflete, em parte, a erudição tratando de não ficar para trás em relação à realidade. Os obstáculos conceituais e empíricos a essa inclusão são muitos, e eu gostaria de chamar a atenção para um ponto fraco em particular nos estudos dos homens e das masculinidades, que causou problemas de forma mais geral e não apenas com respeito às questões reprodutivas: a ausência de uma pesquisa substancial que documente e teorize a influência que as mulheres adultas exercem sobre os homens adultos. Há muitos estudos que mostram a influência das mulheres sobre os meninos. Há também estudos acerca da influência dos homens adultos sobre as mulheres adultas. Existe, porém, um número extremamente pequeno de investigações que examinem o que mães, irmãs, esposas e outras mulheres dizem e fazem nas vidas dos homens com quem convivem. Essa omissão, no mínimo, alimenta a noção de que, em suas vidas cotidianas, os homens não dão muita atenção a negociações, súplicas, ameaças e seduções que vêm das mulheres.

O pessoal da publicidade e do marketing não é tolo a ponto de aceitar essa conclusão; e, em seguida às campanhas iniciais de propaganda em 1998, dirigidas especificamente aos homens, que anunciavam o advento do Viagra no mercado mundial, medicamentos mais novos como o Cialis e o Levitra fizeram questão de utilizar mulheres para promover a idéia de que "Se você deseja fazer sexo e seu parceiro sofre de disfunção erétil, faça-o experimentar este comprimido". Em uma pesquisa sobre a tomada de decisões com respeito à contracepção no México, descobri a influência que as mulheres exercem nos homens: dos poucos que optavam pela vasectomia, muitos se referiam às experiências que suas esposas haviam tido com a contracepção, a gravidez e o parto; e, à guisa de motivo primordial pelo qual haviam decidido ser esterilizados, diziam "Agora é minha vez de sofrer". Até mesmo os tópicos de interesse de longo prazo nos estudos da saúde reprodutiva das mulheres deveriam ser reestudados para se examinar o relacionamento das mulheres com os homens no que concerne, por exemplo, aos tabus sexuais pós-parto; não se dedica uma séria atenção aos significados e às experiências dessas restrições para os homens - significados e experiências que costumam ser recebidos com um mero olhar de soslaio, dissimulado e desdenhoso com relação ao ressentimento e à frustração sexual dos homens. Ainda há muito a ser explorado no que concerne a esses tópicos e a outros com eles relacionados.

Não há dúvida de que as águas cambiantes da conceitualização feminista com respeito às semelhanças e às diferenças nas sexualidades dos homens e das mulheres fazem parte do quadro que temos aqui. Na medida em que as diferenças fundamentais são esperadas e enfatizadas, parece haver uma tendência a supor que, quando deixados à vontade com seus estratagemas sexuais, os homens podem até se submeter às restrições femininas, mas não são realmente receptivos a mudanças, nem mesmo a pedido ou sob o comando das mulheres. Se a influência das mulheres adultas sobre os homens heterossexuais adultos for matéria de estudo em pesquisas etnográficas, encontraremos evidências de homens relatando temor e acanhamento, e não apenas confiança e desrespeito em suas relações sexuais e reprodutivas com as mulheres.

É muito fácil ridicularizar a disfunção erétil, por exemplo, como apenas mais uma historinha triste por parte de homens insatisfeitos com suas vidas sexuais com as mulheres; é mais difícil, porém, desenvolver exames etnográficos esmerados e sutilmente variados de tópicos como impotência e prostituição, que são objetos de piadas mais freqüentemente que de estudos sérios. A menção de Cornwall a respeito do impacto que as acusações de impotência podem ter sobre os homens na região sudoeste da Nigéria é demasiadamente curta e escassa: "Ridicularizado pelos amigos e acusado de ser impotente por não se sentir propenso a correr atrás das mulheres, ele lutava para se tornar um homem nos termos deles, aprendendo a disfarçar a timidez por trás do álcool e acabando por obliterar a própria inquietação" (2003, p. 238). Com muita freqüência, ignoram-se as implicações do estigma da impotência ou se evita deliberadamente falar sobre elas. Por mais estranho que isso possa parecer, estudos sobre homens que procuram prostitutas são ainda mais raros, como se as únicas questões a merecer uma cuidadosa atenção em relações como essas fossem as experiências das mulheres, e se o único ponto de controvérsia fosse se essas mulheres se apresentam mais como vítimas do que como agentes dessas relações sexuais com os homens.

 

Premissa 8

Às vezes um charuto não passa de um simples charuto. Infelizmente já não é mais esse o caso, e não apenas graças às indiscrições de Bill Clinton e Mônica Lewinsky. Ao escrever sobre as mulheres e as realidades corporais femininas, Simone de Beauvoir inadvertidamente também nos ensinou alguma coisa, por implicação, sobre os corpos masculinos e os destinos predeterminados. As suposições sobre os corpos dos homens e a sexualidade, a procriação e a masculinidade permaneceram surpreendentemente superdeterminadas nas décadas subseqüentes à literatura feminista sobre gênero e sexualidade. Dessa forma, talvez tenhamos de voltar um pouco não somente a Simone de Beauvoir, mas até o bom e velho Sigmund Freud, que ainda deve ter algumas coisinhas a nos ensinar com respeito a não seguir modelos biomedicalizados das sexualidades masculinas, da procriação e das masculinidades. (Além disso, não, não se pode deixar de levar em conta o fato de que Freud, à sua maneira caracteristicamente autocontraditória, também ajudou a promover os homens ativos e as mulheres passivas, e os charutos que não poderiam jamais ser fumados.) Precisamos lembrar de que a física e a química do sexo não nos dizem muita coisa a respeito do desejo e do prazer, ou mesmo da dominação e da submissão, precisamente os itens que têm tudo a ver com a compreensão das sexualidades e das vidas reprodutivas dos homens - ou que pelo menos deveriam ter.

 

Notas

1 E, é claro, ela passou a defender que tais fatos biológicos "são insuficientes para a criação de uma hierarquia dos sexos; eles não conseguem explicar por que a mulher é o Outro; eles não a condenam a permanecer eternamente nesse papel subalterno" (Beauvoir, [1949] 1960, p. 29).

2 Ver, por exemplo, Sexing the body, de Anne Fausto-Sterling (2000).

3 Não há dúvida de que, na atual discussão sobre a sexualidade dos homens e a procriação, o caso dos hijras pode ser inerentemente problemático, porque eles não apenas não definem a si próprios como heterossexuais, mas não vêem a si próprios nem como homens nem como mulheres.

4 Freud ([1905] 1997), evidentemente, criou a expressão "disposição polimorficamente perversa" para revelar, entre outras coisas, que a sexualidade humana não se inicia com a puberdade, mas pode ser detectada também ao longo das experiências infantis.

5 Um pedido de desculpas e um agradecimento a Eduardo Galeano (1982), de cujo ensaio tomei emprestado o subtítulo "Literatu ra y cultura popular en América Latina: diez errores o mentiras frecuentes".

6 Além de Ginsburg e Rapp (1995), ver especialmente Browner (2000); Browner e Sargent (1996); e Clarke (1998).

7 E se não conseguimos tratar a heterossexualidade como uma entidade única, o que dizer da heteronormatividade? Podemos falar de heteronormatividades?

8 Para a melhor coletânea de demografia antropológica elaborada até hoje sobre os homens e a fertilidade, ver Bledsoe, Lerner e Guyer (2000).

9 Para súmulas de estudos sobre masculinidade na América Latina, ver Valdés e Olavarría (1997, 1998) e Gutmann e Viveros (2005). Na rica literatura sobre os homossexuais e os homens que fazem sexo com outros homens (MSMs) na América Latina, ver Carrillo (2005); Green (1999); Lancaster (1992); Núñez Noriega (1994); Parker (2002, 2003); e Parker e Cáceres (1999). Os estudiosos que se concentraram mais nos homens heterossexuais e na procriação nessa região são quase todos, eles próprios, da América Latina; ver especialmente Amuchástegui (2001); Arilha, Unbehaum Ridenti, e Medrado (1998); Figueroa (1998); Fuller (2001); García e Oliveira (2004); Leal (1995, 1998); Lerner (1998); Minello (2002); Olavarría (2002); Oliven (2006); Szasz (1998); Szasz e Lerner (1998); e Viveros (2002).

10 E, quando é, expressa uma enfermidade chamada priapismo, motivo para imediatos cuidados médicos.

11 Embora, segundo a famosa descoberta de Laqueur (2001), por muito tempo na Europa se acreditou que, para conceber, a mulher tinha também de ter um orgasmo.

12 Sobre a "erosão" do machismo no México, ver Barbieri (1990).

13 Para uma coletânea recente com críticas aos modelos de estupro da psicologia evolucionária, ver Travis (2003) e, especialmente, os artigos de Kimmel (2003) e Martin (2003). Para uma discussão sobre as origens darwinianas do pensamento moderno a respeito da natureza sexual dos homens, ver Lancaster (2003, pp. 86-90).

14 Sapolsky (1997) afirma que os níveis de testosterona dentro da faixa de normalidade pouco podem predizer no que concerne à agressividade masculina, e que, com muita freqüência, são as diferenças comportamentais em violência, por exemplo, que causam as alterações hormonais, e não o contrário. Para um estudo refinado da violência entre homens e mulheres no Brasil, ver Fonseca (2000).

 

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* Conferência apresentada no 32º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, Caxambu, MG, 27 a 31 de outubro de 2008. Meu muitíssimo obrigado a Ruben Oliven e à Anpocs pelo convite para participar de suas reuniões de 2008. Agradeço também a outros estudiosos dos homens e das masculinidades, entre eles Ondina Fachel Leal, Cláudia Fonseca, Richard Parker, Ana Amuchástegui, Héctor Carrillo, Michael Kimmel, Raewyn Connell e Mara Viveros. Grande parte deste texto foi extraída do Capítulo 2 de meu livro Fixing men: sex, birth control, and AIDS in Mexico (University of California Press, 2007).

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