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Revista Brasileira de Ciências Sociais

On-line version ISSN 1806-9053

Rev. bras. Ci. Soc. vol.25 no.72 São Paulo Feb. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092010000100001 

Gildo Marçal Bezerra Brandão (1949-2010) no coração da grande política

 

 

Marco Aurélio Nogueira

 

 

Quem se interessa pelas coisas associadas ao poder e à comunidade humana costuma distinguir duas formas dominantes de política.

A pequena política expressaria um lado mais demoníaco e mesquinho, concentrado no interesse imediato, na artimanha e no uso intensivo dos recursos de poder. Seria o reino dos políticos com "p" minúsculo, onde preponderariam a simulação e a dissimulação, a frieza, o cinismo e a manipulação.

A grande política, por sua vez, refletiria o lado nobre, grandioso e coletivo da política, focado na convivência e na busca de soluções para os problemas comunitários. Seria o reino dos políticos com "p" maiúsculo, onde o privilégio repousaria na construção do Estado e da vida coletiva, na aproximação, inclusão e agregação de iguais e diferentes.

A grande política sempre carregou as melhores esperanças e expectativas sociais. Não seria exagero dizer que os avanços históricos estiveram na dependência da ação de grandes políticos, de estadistas, e da prevalência de perspectivas capazes de fazer com que frutificassem projetos abrangentes de organização social. Sem pontes para unir os territórios e as fronteiras em que vivem homens e mulheres - com seus problemas, idéias, sentimentos e interesses -, o futuro fica turvo demais, entregue ao imponderável.

Mas a grande política não é o oposto da pequena, nem tem potência para eliminá-la. De certo modo, é seu complemento necessário, que a impede de produzir somente o mal ou o inútil, aquele que lhe empresta utilidade e serventia. Toda operação de grande política traz em si um pouco de pequena política, que ela tenta domar e direcionar. Não há muralhas separando um tipo do outro, que se retroalimentam. O estadista nem sempre veste luvas de pelica.

Há momentos em que a pequena política parece tomar conta de tudo. Em que faltam perspectivas e o chão duro dos interesses se distancia uma enormidade do céu dos princípios e dos valores que enriquecem e dão sentido à vida. Nesses momentos, a pequena política desloca a grande para a margem. Cai então sobre as sociedades uma névoa de pessimismo e desesperança, que se materializa ou numa adesão unilateral aos assuntos de cada um, ou no reaparecimento de uma fé fanática na ação providencial de algum herói. Os políticos - grandes ou pequenos que sejam - terminam assim por ser execrados e empurrados para a vala comum que deveria acomodar os dejetos sociais.

Existem também os que pensam e estudam a política. Hoje, costumamos chamá-los de cientistas políticos, abusando de um vocábulo, a ciência, que nos convida a eliminar o que existe de poesia, paixão e fantasia na explicação do mundo. Alguns desses cientistas, radicalizando o significado intrínseco da palavra, acreditam que só podem "fazer ciência" à custa do sacrifício da história, das circunstâncias, das ideologias, da própria política, e por extensão das pessoas apaixonadas, cheias de dúvidas e motivos não propriamente racionais. Fecham-se numa bolha e cortam a comunicação com o mundo, enredando-se numa fraseologia despojada de maior efeito magnético.

Muitas vezes, de tanto se concentrar em seu objeto, tentar recortá-lo e isolá-lo da vida social, os cientistas políticos se banalizam. Perdem o interesse em ligar a grande e a pequena política, por exemplo. Dividem-se em grupamentos mais especializados na dimensão sistêmica do Estado - competições eleitorais, governabilidade, reformas institucionais - ou mais dedicados a articular Estado e sociedade, ou seja, a encontrar as raízes sociais dos fenômenos do poder. Não são tribos estanques, e invariavelmente se combinam entre si. Mas distinguem-se pelas apostas que fazem. Ao passo que uns investem tudo na lógica institucional, outros se inquietam na busca dos nexos mais explosivos e substantivos, que explicam por que as coisas são como são e como poderiam ser diferentes.

Nos momentos em que a pequena política prepondera, multiplicam-se os que se ocupam da dimensão sistêmica. Embalados pelos ventos a favor, tornam-se especialistas em soluções técnicas, quase indiferentes à opinião e à sorte das maiorias. Suas soluções, porém, não resolvem os problemas das pessoas. E como, além do mais, não se preocupam em construir pontes de aproximação ou romper fronteiras que separam e afastam, deixam de contribuir para que se afirmem diretrizes capazes de fornecer novo sentido ao convívio social.

Um belo dia, aqueles que vêem a política sistêmica como a quintessência da política esgotam seus arsenais. Tropeçam diante da abissal complexidade da vida, que escapa das fórmulas mais engenhosas. Nesse momento, as atenções se voltam para os que pensam a grande política. Que são capazes de injetar idéias e perspectivas à política, retirá-la da rotina e da mesmice, fazê-la falar a linguagem dos muitos, projetá-la para além de fronteiras e interesses parciais enrijecidos.

Um círculo então se fecha e a política se mostra por inteiro. Na face menor, revela a pequenez, a malícia e a vocação egoística de tantos que se aproximam do poder para usá-lo sem causas maiores. Na face grande, resplandece o ideal de que o futuro, por estar sempre em aberto, pode ser construído com ideais, instituições democráticas, bons governos e cidadãos ativos, dando expressão igualitária a desejos, esperanças e convicções de pessoas dispostas a viver coletivamente.

O cientista político surge então de corpo e alma. Sem olhar com desprezo para o pequeno mundo da política miúda, que ele sabe ser parte da vida, mas sem perder de vista o valor da grande política, que exige idéias e doses expressivas de criatividade e desprendimento.

Quando ele falta, ou desaparece, um vazio se abre. E fica mais difícil de ser preenchido.

A morte precoce e repentina do cientista político Gildo Marçal Bezerra Brandão, ocorrida em 15 de fevereiro de 2010, abalou ao menos uma das gerações de intelectuais que se lançaram no universo das idéias e da política no início da década de 1970, no Brasil.

Por opções e armadilhas da vida, Gildo chegou relativamente tarde ao trabalho acadêmico mais sistemático. Entre 1973 e 1989, o jornalismo e a política o consumiram. Trabalhou na Folha de S. Paulo com Cláudio Abramo, organizou e dirigiu o jornal comunista Voz da Unidade de 1980 a 1981, ajudou a editar o Diário do Grande ABC. Especialmente na Voz, com a contribuição de um seleto grupo de colaboradores e companheiros, viveu uma intensa aventura intelectual, de que pude ser testemunha e partícipe. Entregou-se a ela com um sentido de missão que jamais cedeu à tentação do fanatismo ou da prepotência e que buscou explorar ao máximo as oportunidades que se abriam - mas que logo se fechariam - para uma reinvenção do comunismo, de sua cultura, de sua linguagem, de sua forma de comunicação com a sociedade. Perdeu uma batalha, mas nenhuma guerra.

Incorporou-se então ao Departamento de Ciência Política da USP em 1989, defendeu seu doutoramento em 1992, foi para a Universidade de Pittsburgh (Estados unidos) fazer seu pós-doc entre 1995 e 1997, defendeu a livre-docência em 2004 e pavimentou uma carreira consistente. Ela culminaria, em março de 2010, com as provas que iriam consagrá-lo professor titular, título e cargo a que faria jus com todos os méritos.

Em pouco mais de vinte anos, Gildo Marçal Brandão percorreu uma trajetória digna do respeito e da admiração de todos os que puderam com ele conviver. Entregou-se de corpo e alma ao ensino e à pesquisa. Deu aulas, orientou, formou discípulos e companheiros de idéias, ajudou a estruturar e a impregnar de sentido os ambientes em que trabalhou. Permaneceu duas gestões (4 anos) como dirigente da Anpocs e editor da Revista Brasileira de Ciências Sociais. Sua livre-docência, Linhagens do pensamento político brasileiro, converteu-se não só num livro maravilhoso, publicado em 2008, como também deu origem a uma linha de pesquisa que cresceu em importância. Hoje, ultrapassou a USP. Está pronta para alçar vôos mais altos e homenagear assim seu principal animador.

Seu primeiro livro, A esquerda positiva: as duas almas do Partido Comunista. 1920-1964, publicado em 1992, ajudou centenas de pessoas - militantes, dirigentes, analistas, pesquisadores - a rever a história e o significado dos comunistas na política e na cultura nacionais. É um texto escrito com serenidade e paixão, a partir do qual a história do PCB ganha nova densidade. O partido clandestino que jamais desistiu da busca da legalidade mas que, paradoxalmente, alma dilacerada, acabou por se deixar levar mais por seus momentos de reclusão e fechamento do que pelo ar puro que pode respirar, num processo que forjou mentalidades, personalidades, taras, virtudes, estilos, visões do mundo. E terminou por aprisionar o PCB numa duplicidade que o embaraçou de forma permanente e inexorável: partido positivo, interessado em encontrar soluções realistas para o país, misturado com restos duradouros de partido-seita, impermeável à crítica, à diferença, à renovação. Ao final, um patrimônio duramente acumulado se desperdiçou. Sua lenta e progressiva derivação para a margem da vida foi um epitáfio doloroso.

A geração político-intelectual de que fez parte Gildo, porém, não se deixou subsumir na trajetória de suas referências simbólicas e institucionais, seja na política (o comunismo), seja na teoria (o marxismo). A parte mais expressiva dela soube se atualizar, seguir adiante, escapar daquele círculo de fogo em que havia apostado parte da vida. Foi em frente com um acumulado de experiências, um modo de ver as coisas, um jeito de fazer política, uma linhagem de pensamento. Marcas do tempo, cicatrizes, cacoetes, léxico particular, um cadinho que identifica.

Há legados nessa história. Coletivos e particulares. Gildo Marçal Brandão não nos deixou somente uma obra no sentido formal da expressão, composta de livros, artigos, ensaios, aulas e conferências. Deixou-nos um exemplo de conduta intelectual, de dedicação, de celebração da vida, sabedor que era da sua temporalidade e, ao final, da sua finitude. Sua herança é múltipla, está composta de filhos, pessoas, amigos, idéias, gestos e atitudes. Ou seja, tem tudo aquilo que uma obra precisa para se reproduzir.

 

 

Marco Aurélio Nogueira, doutor em ciência política pela universidade de São Paulo (USP), é professor titular da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Araraquara). Tem experiência na área de ciência política e de gestão pública, trabalhando principalmente com os temas: teoria política, reforma do Estado, democracia, sociedade civil, globalização, modernidade e integração latino-americana. É autor, entre outras obras, de O encontro de Joaquim Nabuco com a política. As desventuras do liberalismo (2ª edição, Paz e Terra, 2010). E-mail: nogueira@fclar.unesp.br.

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