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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909

Rev. bras. Ci. Soc. vol.25 no.72 São Paulo fev. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092010000100013 

RESENHAS

 

Os fantasmas da memória

 

 

Sabrina Finamori

 

 

Janet ARSTEN (org.). Ghosts of memory: essays on remembrance and relatedness. Malden, Blackwell, 2007. 253 páginas.

Parentesco e memória podem ser tratados como questões separadas? Quais as conexões possíveis de serem estabelecidas entre parentesco e política? Tais conexões podem atravessar contextos sociais e geográficos diversos? Essas são algumas das perguntas que perpassam a introdução à obra Ghosts of memory, organizada pela antropóloga Janet Carsten. Retomando a recente literatura antropológica sobre parentesco, cujo enfoque incide na experiência emocional e nas dimensões cotidianas do parentesco e, ainda, as obras que abordam as conexões entre memória, história e política, a coletânea organizada por Carsten propõe uma análise que une os aspectos cotidianos do parentesco no presente, as memórias do passado e os contextos políticos nos quais os eventos ocorreram. O objetivo da perspectiva é deixar pra trás tanto um viés antropológico despreocupado com as questões políticas envoltas no parentesco, como as análises sobre memória mais centradas nos grandes contextos e na grande política do que na reverberação disso nas biografias pessoais.

As obras anteriores de Carsten (2000, 2006) já tinham sua originalidade ao introduzir o conceito de relatedness ao lado ou em substituição ao de parentesco. O conceito, que tem sido largamente utilizado, propõe um enfoque nas relações, visando apreender o que é "ser parente" em diferentes contextos, independentemente de laços biológicos. Nesta coletânea, por sua vez, a antropóloga reúne uma série de autores interessantes, cujos artigos refletem sobre memória e parentesco tendo como pontos de partida distintos temas, localidades geográficas e temporalidades.

Na introdução à coletânea, Carsten não apenas apresenta os artigos, mas também a perspectiva teórica que os informa. Para tanto, ela retoma, de um lado, os estudos centrados nas "políticas da memória" e, de outro, os estudos antropológicos sobre as dimensões emocionais do parentesco. Ela mostra as duas perspectivas para, então, assinalar que a proposta do livro é trazê-las junto. Segundo Carsten, o objetivo dos artigos reunidos é mostrar como pequenos processos cotidianos de relatedness têm em larga escala importância política. Para sustentar essa conjunção, a autora volta-se para a noção de "eventos críticos" de Veena Das (1995), segundo a qual eles são definidos como momentos em que a vida cotidiana é interrompida e os mundos locais são devastados, trazendo à tona novos modos de ação e alterando as categorias dentro das quais as pessoas operam. Os impactos desses eventos não ficam confinados a instituições particulares, mas reverberam entre diferentes localidades, instituições e atores. Das sugere que na construção de metanarrativas sobre esses eventos, algumas instituições - incluindo o Estado - apropriam-se da experiência das vítimas para seus próprios fins, e a passagem do tempo tem papel importante na absorção dos deslocamentos das narrativas nacionais e familiares.

Os eventos críticos enfocados na coletânea são, entre muitos outros, violência étnica, diagnóstico de doenças terminais e adoção. Para Carsten, nessas circunstâncias, a guarda segura de memórias pessoais e familiares, ou seu esquecimento, podem contribuir para as narrativas maiores que constituem, mantêm ou negam a diferença local ou nacionalmente. De outro lado, por intermédio de eventos políticos de larga escala e de estruturas institucionais do Estado, que afetam a vida social e familiar, o parentesco emerge como um tipo particular de socialidade no qual certas formas de temporalidade e de memória e certas disposições em direção ao passado, presente e futuro são possíveis, enquanto outras são excluídas.

Os fantasmas da memória evocados no título são literalmente objetos de discussão em alguns desses artigos. A etnografia de Laura Bear sobre as famílias anglo-indianas de Kharagpur, por exemplo, mostra como os amigáveis fantasmas domésticos contêm uma visão particular do passado e possuem uma influência determinante no presente, materializando as conexões entre as gerações e a localidade de Kharagpur. Ao falar dos fantasmas, as pessoas diziam que suas casas haviam sido construídas sobre um cemitério católico e, portanto, estavam fundadas sobre seus ancestrais. A associação com o catolicismo torna-se freqüente num contexto em que outras formas de pertencimento - baseadas em noções indianas de jati ou em princípios genealógicos ingleses - foram excluídas; o catolicismo lhes permite, assim, uma conexão histórica com o lugar, os ancestrais e a idéia de uma comunidade angloindiana. A autora assinala que ao se traçar a cultura material do parentesco é preciso estar atento a tipos específicos de reificações experienciais envolvidas. Neste caso, os fantasmas domésticos tornam-se provas irrefutáveis de conexões com o passado.

No artigo de Rebecca Empson sobre os Buryat na Mongólia, as relações entre parentes mortos e vivos são elaboradas por meio da idéia de renascimento. Segundo ela, reconhecer uma criança como o renascimento de um parente morto é uma forma de ancorar uma pessoa a outras, criando assim relações entre os vivos.

Outro ponto enfocado nos textos diz respeito às conexões entre geografia e memórias familiares. No artigo de Empson sobre os Buryat, parentesco e lugar relacionam-se de um modo bastante peculiar. Na Mongólia, o movimento é um aspecto essencial da vida, contudo a separação entre pessoa e lugar não é vista como uma falha de relações. Neste contexto, a ausência é um meio através do qual as pessoas se relacionam. Empson faz uma bela leitura sobre a rememoração da ausência como um meio através do qual se revela, aos outros, o conhecimento sobre os próprios parentes. Se o renascimento é uma forma de estabelecer relações entre mortos e vivos, as montagens fotográficas e os bordados estabelecem, na casa, relações com aqueles que estão ausentes, permitindo ainda relacionar os filhos à parentela materna numa sociedade agnática. Tanto o renascimento como outras formas de conexão entre parentes ausentes separados pelas práticas nômades são vistos pela autora como containers vivos para se refazer o parentesco naquela sociedade.

Já entre os muçulmanos do Norte do Sri Lanka, analisados por Sharika Thiranagama, os vínculos com o local de origem haviam sido interrompidas pela expulsão (the eviction) que, em 1990, baniu a maior parte deles do norte do país. A autora enfatiza a importância da casa (ou ur, o conceito nativo) para esse grupo, que considera que diferentes casas produzem diferentes pessoas. Assim, a pesquisa no campo de refugiados, em Puttalam, mostra as complexas relações entre gerações - pais e filhos - provenientes de diferentes casas, que se dividem em relação à possibilidade de retornar ao local de origem.

Se o parentesco cria obrigações, os cuidados em relação a alguém criam também laços, que, se não genealógicos, podem ser considerados na ampla noção de relatedness. O artigo de Michael Lambek sobre Alice Alder, uma curandeira suíça, retoma as relações entre o parentesco e os atos e as práticas que fazem parentesco. O autor enfatiza que lembrar é uma prática moral. Para ele, quando um amigo ou parente lhe pergunta se você se lembra de algo e você responde "eu me lembro", isso demonstra a afirmação de um relacionamento social em sua temporalidade mais profunda e, nesse sentido, a memória é dialógica e expressa uma ética do cuidado, o que, para Lambek, não seria diferente do parentesco. Ele assinala as implicações mútuas entre parentesco e memória por meio das múltiplas conotações da palavra cuidado (care em inglês e suas composições): cuidar de, preocupar-se com, ser cuidadoso, ter cuidados, estar vulnerável, cuidar do que os outros dizem e fazem. Cuidar, segundo ele, é uma forma de lembrar característica dos ethos e das práticas de parentesco, que inclui os ascendentes e mesmo os mortos. Alice Alder, cuja biografia Lambek analisa, vinha de uma família de curandeiros. Na narrativa dela, o avô materno aparece como o grande mentor; no decorrer da vida ela descobre, contudo, que o avô havia internado as próprias irmãs numa clínica psiquiátrica porque o dom que elas tinham era inconveniente para ele - Alice sequer sabia da existência delas. Embora os ascendentes cuidassem dos talentos de Alice, analisa Lambek, eles também conspiravam para cercar suas memórias e reduzir suas práticas.

No artigo de Veena Das e Lori Leonard sobre as adolescentes com HIV/Aids, nos Estados Unidos, é também o cuidado que delineia o parentesco. Neste caso, a clínica, que fornecia o atendimento e na qual a pesquisa se desenrolou, reconhecia a multiplicidade de cuidadores que uma adolescente poderia ter, como parente, vizinho, namorado, amigo, não se prendendo a uma visão genealógica de parentesco. Das e Leonard assinalam o quanto é fascinante pensar sobre família e parentesco configurados nos encontros entre uma vida e uma doença, neste caso o parentesco se configura justamente na interseção entre estado, clínica e família. A conjunção entre sexo e morte torna também inevitável pensar a corporalidade, o corpo que se torna perigoso para as adolescentes, seus parceiros e possíveis filhos; nesse sentido, a memória está também incrustada no próprio corpo.

A importância do nome, questão recorrente ao se tratar de parentesco e memória, é abordada, nesta coletânea, com particular ênfase no artigo de Sophie Day. Na pesquisa com trabalhadoras do sexo em Londres, a autora depara-se com os múltiplos nomes, correspondentes a múltiplas biografias, que cada uma dessas mulheres mobiliza para organizar o passado e também administrar decisões no presente. Por meio dos nomes, elas se conduzem por múltiplas biografias, que levam a diferentes clientes, histórias, preços, relações. Essa multiplicidade de nomes e personas levanta também o problema de contar a história certa para a pessoa certa, fazer os detalhes se encaixarem. Ao enfocar a trajetória de duas mulheres, interrogando seus relacionamentos, nomes, biografias, Day percebe que um sentido de família é invocado por elas como recurso para isolar períodos desagradáveis no trabalho do sexo, como se aquilo fosse apartado do fluxo de uma vida normal e familiar. Contudo, quando elas se afastam do trabalho sexual para constituir família, esta perde seu apelo e passa a ser reconfigurada em termos de trabalho. A análise da autora enfoca ainda como um novo parentesco pode ser forjado entre consociados, sejam eles colegas de trabalho ou parceiros.

Ainda que não haja uma tematização autobiográfica mais geral, alguns dos artigos iluminam seus trabalhos etnográficos a partir de questões trazidas por suas próprias memórias familiares. O artigo de Frances Pine remete ao que as pessoas lhe diziam acerca da visita que sua mãe havia lhe feito em campo e também sobre a filha que residia com a pesquisadora no período. Para a autora, as memórias das pessoas faziam parentesco ao enfatizar similitudes e relações sociais apropriadas da mãe e da filha da pesquisadora mais do que as possíveis diferenças, transformando assim coisas de fora em coisas "nossas".

Stephan Feuchtwang ao analisar as misturas no parentesco judeu compara sua história pessoal em relação ao pertencimento judeu à história de outras famílias. Nascido em Berlim, de pai judeu e mãe que era filha de pai judeu e mãe não judia, o autor casou-se com uma mulher inglesa, nascida anglicana, e seus filhos não foram criados em nenhuma tradição religiosa. Analisando a história de quatro homens, ele discute as diferentes negociações feitas por eles em relação ao pertencimento judeu. Em todas as narrativas, a história familiar está amplamente entrelaçada à história nacional, especialmente em relação ao anti-semitismo.

O Holocausto como o grande turning point do século XX nas relações entre história e memória é enfatizado, ainda, na introdução por meio de uma história pessoal. Carsten conta que quando o pai morreu, em 1998, ela e os irmãos foram em busca dos inúmeros documentos emitidos pelas instituições do Estado. Eles encontraram, então, dois passaportes em nome do pai, um britânico e outro alemão. Este último expedido em 1990, mais de quarenta anos depois de sua naturalização como cidadão britânico, quando migrou para a Inglaterra como refugiado do nazismo. Para ela, a descoberta desse novo passaporte mostrava o forte comprometimento do pai com uma Europa sem fronteiras, ultrapassando a retórica de laços religiosos ou nacionalistas e demonstrando ainda uma improvável reconexão com o passado. O outro documento encontrado foi também um passaporte, da mãe, que ela e os irmãos julgavam perdido. Estampado com um grande "J" e a insígnia do Reich alemão, o passaporte havia sido expedido em 1936 e permitia a saída da Alemanha. Para Carsten, a assimetria dos dois passaportes mostra os complexos entrelaçamentos entre histórias pessoais, nacionais e familiares. A autora vale-se, portanto, da história de sua própria família para dizer que a história familiar é, entre muitas outras coisas, também uma história política.

Em muitos dos artigos da coletânea os entrelaçamentos entre grande política e formas cotidianas de parentesco são explícitas. Contudo, é no artigo da própria organizadora, Janet Carsten, no qual ela discute sua etnografia sobre os adotados, que, talvez, essas associações sejam menos óbvias e, por isso mesmo, levantem questões importantes sobre as possibilidades dessa abordagem. Carsten enfoca a narrativa de adotados que haviam buscado, na idade adulta, pelos pais biológicos. As entrevistas foram conduzidas na Escócia no fim da década de 1990. A autora questiona o que essas histórias teriam a dizer numa antropologia comparativa de parentesco, já que ao contrário das outras não tem como foco políticas de migração ou colonialismo. Dando grande ênfase às correlações entre memória e self, a autora sugere que entre os euro-americanos a busca por raízes de parentesco tem mais a ver com uma produção do self do que com uma disposição em direção ao parentesco passado. Assim, ainda que entre os euro-americanos o parentesco seja pertinente apenas em um acanhado conjunto de contextos, o self preenche as lacunas; parentesco e memória podem ser vistos como fontes de identidade. Neste caso, diz ela, a busca por um parente é uma forma de remendar uma ausência de memória. A autora caracteriza esse olhar fixo no self como reflexo de uma ideologia das sociedades euro-americanas que tendem a separar o mundo da família e das relações íntimas do mundo das trocas econômicas e políticas, e isso tende a obscurecer as circunstâncias políticas e econômicas em que os deslocamentos de parentesco ocorreram. O foco excessivo no self desloca, em certos momentos, a atenção da questão mais geral da coletânea sobre a junção parentesco/política, embora a autora sempre tente retomá-la. O interessantíssimo capítulo deixa, contudo, ao final, uma dúvida: ao enfocar narrativas que não fazem uma óbvia junção entre práticas cotidianas de relatedness e grande política, pode-se levar mais adiante a idéia de que as práticas cotidianas são também políticas ou, ao contrário, será que certos campos de pesquisa ou contextos não permitiriam uma junção tão explicitada entre parentesco e política?

O instigante conjunto de artigos reunidos na coletânea traz interessantes propostas de perspectivas teóricas. Partindo de narrativas biográficas, histórias de família, fotos, documentos, as etnografias realizadas em diferentes locais do mundo mobilizam ainda uma vasta bibliografia e apresentam uma rica discussão sobre parentesco, memória, política e biografia, propondo uma antropologia na interseção dessas questões.

 

BIBLIOGRAFIA

CARSTEN, Janet. (2000), Cultures of relatedness: new approaches to the study of kinship. Cambridge, Cambridge University Press.         [ Links ]

______ . (2004), After kinship. Nova York, Cambridge University Press.         [ Links ]

DAS, Veena. (1995), Critical events: an anthropological perspective on contemporary India. Nova Déli, Oxford University Press.         [ Links ]

 

 

SABRINA FINAMORI é mestre em Antropologia Social e doutoranda em Ciências Sociais pela Unicamp. E-mail: sabrinafinamori@yahoo.com.br.

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