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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909

Rev. bras. Ci. Soc. vol.26 no.76 São Paulo jun. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092011000200009 

ARTIGOS

 

Sírios e libaneses: redes sociais, coesão e posição de status*

 

Syrians and lebanese: social networks, cohesion, and status

 

Syriens et libanais: réseaux sociaux, cohésion et position de statut

 

 

Elaine Meire Vilela

 

 


RESUMO

O objetivo central deste estudo é compreender o processo de inserção e de localização de sírios e libaneses na estrutura hierárquica de distribuição de prestígio e de riqueza na sociedade hospedeira. O artigo mostra que esses imigrantes tiveram uma inserção ocupacional padronizada, com predomínio na área do comércio. Esse fato proporcionou-lhes prestígio econômico, uma vez que a maioria deles alcançou a posição de empregador. Reconhecimento social ainda maior foi obtido a partir da formação educacional de seus filhos. A sustentação da inserção padronizada e da ascensão social foi proporcionada pela grande coesão das redes sociais. Essa coesão é mantida pelos contatos e pelos costumes (tais como, linguagem e casamento endogâmico) alimentados pelas instituições mantidas por tais grupos.

Palavras-chave: Sírios; Libaneses; Redes sociais; Casamento; Língua árabe.


ABSTRACT

The main objective of this study is to understand the process of insertion and location of Syrians and Lebanese in the hierarchical structure of the distribution of prestige and wealth in the host society. The article shows that these immigrants have a standardized occupational insertion, with a strong presence in commerce. This factor gives them economic prestige, since the majority of these immigrants attain the position of an employer. They attain another and greater form of social recognition with the educational achievements of their children, "the doctors." The maintenance of this standardized insertion and social ascension occurs as a result of the strong cohesion of social networks. This cohesion is sustained through contacts and customs (such as language and endogamous marriages) encouraged by the institutions these groups belong to.

Keywords: Syrians; Lebanese; Social networks; Marriage; Arabic language.


RESUMÉ

L'objectif central de cette étude est de comprendre le processus d'insertion et de localisation des Syriens et des Libanais dans la structure hiérarchique de la distribution du prestige et de la richesse et dans la société qui les reçoit. L'article démontre que ces immigrants ont eu une insertion occupationnelle standard, principalement dans le domaine du commerce. Cela leur a proportionné du prestige économique, puisque la majorité d'entre eux a atteint la position d'employeur. Une reconnaissance sociale encore plus importante a été obtenue à partir de la formation éducationnelle de leurs enfants. Le maintien de l'insertion standardisée et de l'ascension sociale a été proportionnée par une grande cohésion des réseaux sociaux. Cette cohésion est assurée par les contacts et les coutumes (comme la langue et le mariage endogame) alimentés par les institutions maintenues par de tels groupes.

Mots-clés: Syriens; Libanais; Réseaux sociaux; Mariage; Langue arabe.


 

 

Introdução

Neste trabalho, tenho como preocupação central entender o processo de inserção dos imigrantes sírios e libaneses1 antigos2 no mercado de trabalho em um "novo mundo". As perguntas a serem respondidas são: como se dá a inserção socioeconômica e ocupacional desses imigrantes no Brasil, em geral, e em Minas Gerais, em específico? Em que posição na hierarquia socioeconômica se concentram esses imigrantes? Qual o principal elemento facilitador dessa inserção? Para responder essas questões, uso como referência a teoria do capital social, principalmente com base na abordagem das redes sociais.

Os estudos que utilizam as análises de redes sociais verificam que as conexões com os primeiros imigrantes3 proporcionam recursos que reduzem os riscos e os custos da migração para os que os sucedem (Meyer, 2001; Hammar, 1997; Portes e Bach, 1985b; Truzzi, 2008). Esses recursos são de tipos diferentes, tais como: suporte financeiro, propostas de trabalho, assistência administrativa nos negócios, solidariedade emocional. Os imigrantes pioneiros servem como o elo de ligação para os que migram depois deles - tanto nos países de origem como nos de destino - e são elementos fundamentais na determinação das profissões que os sucessores irão ocupar (Truzzi, 2008;Vilela, 2002). Isto sugere que os movimentos desses indivíduos são influenciados pelas ações de suas respectivas redes sociais.

Vale ressaltar que as redes de ajuda e de solidariedade criadas pelos imigrantes não são utilizadas apenas nas decisões de migrar e para onde migrar. Elas se mantêm em todo o processo de imigração, incluindo a inserção no mercado de trabalho, a empregabilidade e a posição ocupacional dos membros do grupo. Dessa forma, as redes sociais são instrumentos utilizados pelos imigrantes para evitar a competição do mercado aberto (mercado segmentado) e alcançar melhores ocupações, status econômico e social na sociedade hospedeira (Portes, 1995; Portes e Bach, 1985a; Bonacich, 1973).

Outro ponto a destacar é que, quanto maior a densidade e a multiplicidade das redes sociais, maior será a homogeneidade de escolha profissional dos seus membros. Por isso, comunidades empresariais étnicas tendem a se especializar em poucos nichos de atividade econômica e neles permanecerem por várias gerações (Portes, 1995).

Para a execução da pesquisa, uso duas fontes de dados diferentes. Uma primária e qualitativa, baseada em informações obtidas por entrevistas e histórias de vida4 de residentes em Minas Gerais. Outra secundária e quantitativa, referente aos dados do censo demográfico brasileiro de 1960, com uma amostra de todos os imigrantes internacionais e de seus descendentes no país. Chamo atenção para o fato de que os dados qualitativos são os mais ricos de informação, mas não me permitem fazer generalizações. Ao contrário, os dados quantitativos provenientes do censo, embora menos detalhados, possibilitam fazer determinadas generalizações, uma vez que o número de informantes é representativo do universo pesquisado.

Utilizo o censo de 1960 porque ele contém um estoque de imigrantes que fixa residência no país de 1920 a 1960, em maioria. Os sírios e os libaneses analisados nessa pesquisa são majoritariamente cristãos.5 Quando chegaram ao Brasil, encontraram uma rede social já estabelecida pelas colônias e os locais de destinos razoavelmente bem definidos.6 Esses imigrantes são diferentes dos "pioneiros" que entraram no país entre 1870 e 1920, quando não havia ainda redes de solidariedade já consolidadas, nem lugares especificamente definidos como destino. Eles são também distintos dos imigrantes "recentes", os quais chegaram ao país depois de 1960 com um percentual alto de muçulmanos. Distinguem-se, ainda, pelo fato de esses últimos terem escolhido como destino principal também os estados do sul do país, na fronteira com a Argentina e o Paraguai. Cabe destacar que, para cada um desses períodos, são diferentes os motivos de migrar, os fatores de atração para o Brasil e as características dos imigrantes, como demonstrado por outros trabalhos (Silva, 2008; Pitts Jr., 2006; Truzzi, 1997).

Este artigo divide-se em cinco partes, além dessa introdução e das reflexões finais. A primeira refere-se a um breve debate sobre a teoria do capital social, focado nas redes sociais estabelecidas pelos indivíduos. A segunda contém uma análise da inserção dos sírios e dos libaneses nos mercados de trabalho mineiro e brasileiro, buscando identificar os ramos de atividades e as posições ocupacionais desses imigrantes. A terceira parte apresenta uma discussão sobre a busca de ascensão social desses imigrantes, via educação dos filhos e a inserção deles na esfera política do local de destino. A quarta e a quinta partes referem-se à linguagem e ao casamento endogâmico, mecanismos importantes para a manutenção da coesão e das redes sociais.

 

As redes sociais: breve reflexão

Muitos estudiosos utilizam a teoria de capital social no intuito de compreender as motivações, a persistência no tempo e as consequências do fenômeno migratório (Portes, 1995; Mullan, 1989; Majka e Mullan, 2002; Meyer, 2001). Essa teoria liga-se à abordagem de redes sociais naquilo que diz respeito à capacidade dos indivíduos em controlar recursos escassos por virtude de relações pessoais em redes sociais ou estruturas sociais exteriores (Portes, 1995).

Além de Bourdieu (1998), de Coleman (1988 e 1990) e de Putnam (1996 e 1993), outros estudiosos, como, por exemplo, Lin (2006) contribuíram para o debate sobre capital social, os quais afirmam que esse tipo de capital pressupõe que redes de relacionamentos (networks) são elementos importantes na definição da mobilidade social. Isto porque as pessoas "de posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de reconhecimento mútuo a utilizam, de modo a produzir benefícios, tanto de ordem econômica quanto de ordem emocional" (Helal, 2005, p. 17).

Para Lin (2006), capital social consiste de recursos embutidos nas redes ou nas associações a que os indivíduos pertencem. Esses recursos são emprestados e, por isso, temporários, no sentido de que o indivíduo não o possui (diferente do capital humano que possui). Uma implicação do uso do capital social é assumir a obrigação da reciprocidade ou da compensação.

Outro autor que contribui para o debate é Granovetter (1973, 1985). Segundo ele, as relações pessoais estabelecem as redes (embeddedness), geram confiança, constituem esperanças, criam e reforçam normas. Dessa forma, os imigrantes pioneiros acabam servindo de "cabeças" para os imigrantes seguintes, tanto no que diz respeito à geografia (países de destino) como também à profissão nas quais são inseridos (Meyer, 2001, p. 93).

Granovetter (1973) ressalta a importância das densidades das redes e enfatiza os laços fracos,7 os quais se referem ao poder de influência indireta dos relacionamentos fora do círculo imediato, isto é, os círculos da família e dos amigos mais próximos. A ideia parte do princípio de que indivíduos participantes de clubes, de grupos ou associações (espaços fornecedores de laços fracos) podem estar conectados com uma maior gama de informação e de conhecimento relativo à educação e ao emprego do que aqueles que não participam de tais espaços.

Apesar de familiares e amigos estarem mais propensos a ajudar, os laços fracos estão estruturalmente localizados de tal modo que são mais úteis no processo de busca por emprego (Granovetter, 1973). Essa ideia ressalta o papel da igreja e dos clubes no processo de inserção dos imigrantes na sociedade hospedeira, como fonte (ou instrumento) de capital social para obtenção de resultados econômicos melhores e de elevação do status dos membros das redes sociais.8

Segundo Lin (2006), essa forma de capital é eficiente, permitindo que indivíduos engajados em interações e em redes sejam beneficiados. Isso ocorre porque o fluxo de informação é facilitado; as teias sociais exercem influência sobre os responsáveis pelas decisões envolvendo o ator; as redes podem ser concebidas pela organização como as credenciais sociais do indivíduo, uma vez que elas refletem a acessibilidade do indivíduo a recursos; e a interação reforça a identidade e o reconhecimento.

Em acordo com essa ideia, muitos estudiosos afirmam que os imigrantes integrados às redes sociais mantidas pelos grupos étnicos/nacionais têm mais vantagens para se adaptarem à nova sociedade e para se inserirem no mercado de trabalho, em comparação com imigrantes que não se encontram bem integrados (Vilela, 2002, 2008; Portes e Bach, 1985b e c; Zhou, 1998).

Portes ressalta que, quanto maior a densidade e a multiplicidade das redes sociais, maior é a conformidade da conduta dos indivíduos com os padrões de conduta econômica estabelecidos pelo grupo. Por isso, comunidades empresariais étnicas tendem a se especializar em poucos nichos de atividade econômica e permanecer neles por várias gerações (Portes, 1995). Essas ideias e o argumento de Bonacich (1973) da função do middleman em empregar grupos de conterrâneos nas grandes firmas, em uma economia étnica, descartam a noção da teoria do mercado dual de que os imigrantes estão restritos à inserção em ocupações precárias no mercado de trabalho (Wilson e Portes, 1980).

As redes formadas pelos imigrantes são frutos de um compartilhamento de certas características e ideologias, tais como: laços de sangue, origem, crença étnica, membros de uma organização comum e, até mesmo, o nível de capital humano. Dessa forma, podemos inferir que as redes sociais estão entre os mais importantes tipos de estruturas nas quais transações econômicas e sociais estão inseridas. Portanto, é um instrumento essencial para a ascensão socioeconômica dos imigrantes na sociedade hospedeira.

Baseando-me nessas considerações, formulo as seguintes hipóteses: a) sírios e libaneses estabelecem um processo padrão de inserção ocupacional na sociedade mineira produzido pelas redes sociais, mecanismo de ajuda mútua entre imigrantes; b) esses imigrantes alcançam prestígio econômico e social no destino, a partir dos recursos despendidos pelas redes sociais, isto é, via capital social.

 

Sírios e libaneses no mercado de trabalho

Logo que chegaram ao Brasil, sírios e libaneses pioneiros, vindos a partir de 1870, tinham poucas opções de trabalho. Em primeiro lugar, depararam-se com um sistema produtivo baseado em grandes lavouras, que lhes vedava o acesso à terra. Esse é um sistema totalmente diferente daquele ao qual estavam habituados, em que predominavam pequenos terrenos, trabalhados e cultivados por toda a família. Em segundo, como a maioria imigrou sem recursos financeiros e sem subsídios do governo, era muito difícil, num curto espaço de tempo, tornarem-se proprietários rurais. E, por último, dificilmente eles se converteram em colonos nas grandes fazendas, pois os imigrantes europeus eram os "preferidos",9 tendo inclusive emprego garantido como camponeses. Já com os sírios e os libaneses aconteceu de forma diferente: quando aventuravam-se como colonos, pouco tempo depois, fugiam para as cidades mais próximas, uma vez que não havia perspectivas de melhoria de vida na lavoura a curto prazo. Os relatos daqueles que experimentaram a vida de colonos contribuíram para dissuadir outros a trabalharem na agricultura (Knowlton, 1960). Não tendo muitas opções e desejando voltar para a terra natal o mais breve possível, os primeiros sírios e libaneses tornaram-se mercadores ambulantes (mascates), ocupando o papel de um dos agentes do processo produtivo: o de distribuidor de mercadorias (El Kadi, 1997).

Eles argumentam que o comércio "está em suas veias, em seus sangues". O fato de se inserirem no ramo do comércio tem o efeito do contexto do destino, mas também o da origem, já que a história do Oriente Médio é marcada por comércio intenso e muita negociação.

Uma vez que os imigrantes sírios e libaneses eram, em sua maioria, homens, solteiros, com a determinação de alcançarem riqueza e retornarem à terra natal, não hesitavam em optar por mascatear, isto é, uma função de grande desgaste físico e que mantinha o indivíduo distante por longo tempo da família. Tratava-se de uma atividade que podia mantê-los na condição de autônomos, poupando-os de se tornarem empregados contratados, como colonos ou operários. Isto facilitaria o posterior retorno ao país de origem, pois, sem contratos, não tinham acordos a cumprir (Truzzi, 1997; Bonacich, 1973).

O ofício de mascate implica riscos, mas apresenta vantagens também. Trata-se de um tipo de trabalho que dispensa qualquer habilidade técnica10 ou grande quantidade de recursos financeiros. Não exige mais que o conhecimento rudimentar da língua portuguesa, o que vai sendo facilmente aperfeiçoado com este tipo de trabalho. Dessa forma, o desemprego não significava para eles uma ameaça como ocorria entre colonos e operários (Truzzi, 1997). Além disso, na visão deles, mascatear permitia que o trabalhador, ainda que com muito sacrifício, atingisse mais rapidamente a prosperidade.

Logo que obtinham recursos suficientes, deixavam de viajar à pé e compravam uma "tropa de burros". Segundo os entrevistados, com mais dinheiro no "caixa", eles acabavam fixando-se em vilarejos, onde havia uma maior freguesia, e montavam uma pequena loja. A obtenção e o estabelecimento de lojas próprias era a meta dos mascates. Essas lojas vendiam produtos de bazar, secos e molhados; elas tinham "de tudo: tecidos, ferragens, miscelâneas; matava porco e vendia o toucinho fresco no balcão" (Carvalho e Pequeno, 2000, p. 34). Segundo Pitts Jr. (2006), esse processo inicia-se em 1890, quando os pioneiros já estão no mercado há cerca de vinte anos.

As lojas tornaram-se verdadeiros centros comerciais, e, como tais, estímulos para a renovação do fluxo migratório. Assim, o proprietário, consciente de seu crescimento, mandava dinheiro para que seus parentes e amigos viessem trabalhar com ele. Ao chegar, começavam a vender nos arredores as mercadorias do patrício, do parente, do amigo, ou do conterrâneo já estabelecido (Pitts Jr., 2006, Vilela, 2002).

Uma terceira fase percorrida pelos imigrantes é a transferência das lojas nas cidades pequenas para os centros urbanos mais desenvolvidos (Deffontaines, 1952), como bem ilustra o caso seguinte:

Rachid Salomão Handere nasceu em Kalluet, Felugah (Líbano), em 15/04/1901. Chegou ao Brasil em 1929, fixando residência em Aimorés, município de Nanuque. Não fugindo ao estilo árabe, estabeleceu-se como comerciante [...].

Em busca de um espaço maior, com o crescimento de sua atividade empresarial, transferiu-se para Caravelas, próspera cidade do litoral baiano. Ali, desenvolveu um trabalho mais intenso, se servindo do porto daquela cidade, como meio de transporte, para a compra e venda de mercadorias.

O seu Empório Comercial cresceu em pouco espaço de tempo, tornando-se o mais próspero comerciante daquela região.

Sempre à procura de centros mais desenvolvidos, Rachid Handere deixou a velha Caravelas, trazendo consigo a sua família, que tanto amava, vindo residir em Teófilo Otoni, em 1945, crescendo como atacadista, fundando também a Fábrica de Bebidas Damasco (Costa, 2000, p. 30).

Não demora muito e esses mascates passam a ser lojistas estabelecidos em cidades maiores, especializando-se, sobretudo, na venda de tecidos e armarinhos. Eles começam com sociedades entre parentes ou amigos e separam-se logo que prosperam. Vale destacar que a separação é apenas comercial, mantendo-se todas as outras relações entre eles.

Sírios e libaneses concentraram-se, principalmente, nas capitais dos estados da região sudeste do país. Além disso, estabeleciam seus negócios em locais específicos das cidades. Em São Paulo, na rua 25 de Março; no Rio de Janeiro, próximo à Praça Tiradentes; e, em Belo Horizonte, na rua dos Caetés. Esses são locais estratégicos, como notado por Knowlton (1960), porque ligam o centro da cidade diretamente às estações de trem e/ou rodoviárias, "assegurando constante passagem de potenciais consumidores" (Pitts Jr., 2006, p. 13).

Segundo os entrevistados, os imigrantes instalavam suas lojas nos grandes centros urbanos e muitos, logo depois, tornaram-se empresários, com várias lojas de atacado e de varejo, e alguns poucos, industriais, o que é confirmado nas entrevistas realizadas. Entre os imigrantes do sexo masculino, há as seguintes frequências: proprietários de rede de lojas (74%), industriais (14%), padres (3%), médicos (3%) e aposentados assalariados (6%). Os dados do censo de 1960, como podem ser visto na Tabela 1, corroboram essa visão.

 

 

A maior parte dos sírios e dos libaneses encontra-se inserida em ocupações ligadas à área de comércio, tais como empresários comerciais (39,2%) e vendedores ambulantes (5,8%). Um número significativo (4,6%) é de empresários industriais. Entretanto, como bem exposto por Pitts Jr. (2006), outros tipos de negócios não eram incomuns entre esses imigrantes. Para o autor, "Um informante relatou que seu avô residente em Oliveira, Minas Gerais, nos anos 1930, trabalhou com diversos empreendimentos no ramo da indústria de transporte, tais como, linhas de ônibus, postos de gasolinas e lojas de autopeças" (Pitts Jr., 2006, p. 14). Outro entrevistado afirma que seu pai e seu tio trabalharam em um jornal em São Paulo, que funcionou até os anos de 1930, quando o governo Getúlio Vargas proibiu as publicações em línguas estrangeiras.

Considerando a classificação internacional de status em emprego (ICSE - International Classification of Status in Employment - 1993), os dados do censo de 1960 indicam que os sírios e os libaneses alcançam uma posição de alto prestígio econômico na sociedade brasileira, pois tornaram-se empregadores em números significativos. Em comparação com os grupos que iniciaram a imigração na mesma época, eles são os que têm um maior percentual de empregadores entre os imigrantes, como podemos verificar no Gráfico 1.

Comparados aos outros imigrantes, essa predominância de sírios e libaneses mantém-se.12 Tal fato pode ser constatado na Figura 1, onde relaciono as seguintes informações: médias de empreendedores e de idade dos indivíduos para cada país, agregado por continente.

Entretanto, essas análises ainda não permitem identificar, com segurança, até que ponto a origem do imigrante é importante para determinar seu status ocupacional. Especificamente, não possibilitam verificar o quanto os sírios e os libaneses têm maior propensão para se tornarem empregadores. O Gráfico 1 e a Figura 1 não respondem se é a origem do imigrante ou se são outras variáveis que afetam a posição do indivíduo na hierarquia ocupacional, tais como idade, escolaridade, tempo de residência no destino ou posição no domicílio. Para uma análise mais precisa, lanço mão de um modelo de regressão logística binária, comparando esses imigrantes com todos os outros, para verificar se origem tem efeito sobre a inserção na posição de empregador. Esse modelo é formado pela variável dependente dicotômica "posição de empregador", onde estar como empregador é igual a "1" e estar em outra posição é igual a "0". As variáveis independentes de controle são: idade e escolaridade medidas em anos; tempo de residência no estado13 (de 0 a 11 ou mais anos); cor (branca ou não branca); religião (cristã ou não cristã); estado civil (casado ou não casado); responsabilidade pelo domicílio (sim ou não). As variáveis independentes que foco minha análise são as binárias: "sírio" e "libanês", comparados com todos os outros imigrantes.

Os resultados podem ser observados na Tabela 2. Como esperado, as razões de chances de sírios e libaneses se inserirem na posição de empregador, comparados aos outros imigrantes internacionais, são positivas e significativas. Vale destacar que as chances são maiores para os libaneses do que para os sírios. Os primeiros têm uma chance de 206% maior de se inserirem na posição de empregador do que os outros imigrantes. Já os sírios têm 136% mais chances de se concentrarem nessa posição hierárquica do mercado de trabalho. Outro ponto a ressaltar é que os estimadores das variáveis "sírio" e "libanês" são significativos ao nível de 1%, demonstrando assim a importância dessas variáveis no modelo para explicar a posição de empregador.

 

 

As outras variáveis que apresentam um efeito positivo sobre as chances de um indivíduo se tornar empregador são: ser responsável pelo domicílio (168%), anos de escolaridade (para cada um ano a mais eleva em 8% as chances), ser casado (42%), idade (um ano a mais de idade aumenta em 1% as chances) e tempo de residência no estado (para cada um ano a mais eleva em 5% as chances). Entretanto, as variáveis "cristão" e "cor branca" apresentam um efeito negativo. Isso é, ser cristão ou da cor branca reduz em 48% e 25%, respectivamente, as chances de o indivíduo estar na posição de empregador, comparado a estar em outras localizações no mercado de trabalho. Embora não surpreendam, esses resultados levantam questões, apresentando-se, pois, como uma oportunidade interessante para estudos futuros.

Outra forma de medir o sucesso socioeconômico dos imigrantes é por meio da análise de seus rendimentos mensais. Usando essa medida, verifico que, mais uma vez, sírios e libaneses encontram-se em vantagem, quando comparados com os outros grupos de imigrantes. O Gráfico 2 mostra que os dois grupos possuem os maiores percentuais de pessoas com os melhores rendimentos.

Ao observar a inserção ocupacional de sírios e libaneses no comércio e um número significativo em cargos de empregador, perguntei aos entrevistados - imigrantes e filhos de imigrantes - qual seria o motivo desses imigrantes em seguir o caminho da atividade comercial. Responderam que, como principal razão, tal atividade "está no sangue". O depoimento a seguir é ilustrativo da percepção deles de que a habilidade para o comércio é fruto de uma herança genética:

Eu acho que ser comerciante, para o libanês, é nato. Dizem que os maiores mercantilistas do mundo foram os fenícios. Eu não sei, talvez seja até um pouco de folclore, mas eu acredito que possa ser uma descendência, porque nós somos descendentes dos fenícios (Entrevistado, filho de libanês).

No entanto, ao questioná-los sobre a ocupação em seus países de origem antes de migrarem, não obtive como maioria das respostas o comércio; pelo contrário, foi rara tal citação. O estudo e a lavoura foram as atividades mais mencionadas como ocupação antes da migração. Quando questionei a respeito da ocupação do pai, a lavoura e a criação do bicho-da-seda foram as mais frisadas. A justificativa de muitos de que a dedicação ao ramo do comércio deve-se a uma "inclinação natural" é, no mínimo, questionável. Por isso, pressuponho que a ideia de uma característica natural, hereditária, "sanguínea" faz parte da visão "etnizada" (do grupo étnico/nacional) da inserção dos membros no Brasil. Nesse sentido, atribui-se a uma propriedade étnica a escolha de uma atividade econômica comum (o comércio), quando, na verdade, ela é, em grande parte, fruto da falta de opções de trabalho para os pioneiros que abriram as portas para os imigrantes seguintes (Vilela, 2002).

Na verdade, a escolha da atividade comercial pode ser explicada, em parte, pelo contexto socioeconômico do Brasil na época da chegada dos pioneiros. Segundo as teorias estruturalistas, o homem é o resultado do meio cultural em que foi ou está sendo socializado. "Ele é um herdeiro de um longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adquiridos pelas numerosas gerações que o antecederam" (Laraia, 1989, p. 46). Portanto, os sírios e os libaneses não são comerciantes por "questões genéticas", mas sociais, pois as atividades de mascate e de comércio foram socializadas entre os imigrantes das coortes seguintes, transformando-se em uma estratégia grupal.

Nessa pesquisa, identifico que os primeiros sírios e libaneses que se fixaram no Brasil contribuíram para a criação de espaços (igrejas, clubes, comércios e residências), onde parentes, conterrâneos e amigos, provenientes da mesma aldeia ou da mesma região, buscavam solidariedade e cooperação. Os imigrantes pioneiros formaram redes sociais, organismos de ajuda aos recém-chegados (Vilela, 2002).

Meus irmãos já tinham uma condição boa aqui em Minas. Então, eu vim e eles encaixaram-me na colônia. Eu segui o exemplo das outras famílias. [...] Quando meu filho formou-se, eu disse a ele: você não deve só a mim; deve também ao berço onde nasci que me ensinou para que eu o pudesse educar; deve à colônia que nos recebeu de braços abertos e nos encaminhou; deve a seus tios e primos (Entrevistado, libanês, comerciante).

Como vimos, as redes sociais são mecanismos facilitadores do processo migratório. Elas geram confiança, estabelecem esperanças, criam e reforçam normas. Os pioneiros, naturalmente, serviram como "cabeças" para os imigrantes ulteriores, influenciando a sua adaptação e a sua integração no novo contexto.

Sobre se eles, os entrevistados, receberam ajuda, ao instalarem-se no "novo mundo", todos os sírios responderam afirmativamente. Entre os tipos de ajuda as mais importantes são: trabalho, moradia e ajuda financeira. Entre os libaneses, todos os homens afirmaram auferir auxílio das redes sociais. Nelas, há pessoas influentes, indivíduos que indicam trabalho e oferecem moradia. Já as mulheres disseram não receber qualquer tipo de ajuda. No entanto, em sua maioria, elas são cônjuges de "patrícios" ou de seus descendentes que já se encontravam bem instalados em Minas Gerais. Sendo assim, talvez elas não tenham recebido ajuda de forma direta, mas por meio de seus respectivos maridos.

Pode-se afirmar, assim, que as redes sociais influenciam no "ajustamento" dos imigrantes no mercado de trabalho. O pioneiro é o "ego da colônia", isto é, o centro de um conjunto de pessoas que, por sua vez, mantêm várias outras relações, produzindo uma rede social ampliada. Os imigrantes envolvem-se em relações interconectadas umas às outras, formando uma rede social que os levam a criar teias familiares, econômicas e políticas. As redes sociais transformam-se em fatores que asseguram uma inserção econômica comum na sociedade hospedeira, devido à conformidade dos indivíduos com os padrões de conduta econômica estabelecidos pelos membros do grupo. Dessa forma, as comunidades empresariais sírias e libanesas especializaram-se em poucos nichos de atividade econômica, principalmente o comércio, e permaneceram neles por várias gerações.

 

Reconhecimento social: doutores e políticos

Os sírios e os libaneses estão em número reduzidos quando comparado com outros contingentes imigratórios, a exemplo de italianos, portugueses e espanhóis, como pode ser observado na Tabela 3. Apesar disso, são dois grupos que alcançam importância econômica nos quadros da sociedade brasileira, em todos os tipos de cidade e em todo o país.

 

 

Além de conquistar o sucesso econômico, sírios e libaneses almejavam status social, fazer parte do conjunto dos nomes das grandes famílias brasileiras. Todavia, para isso, em suas visões, precisavam ter filhos "doutores". Tratava-se do instrumento-chave para a ascensão social da família. Eles desejavam que seus filhos estudassem e se tornassem "autoridades", como observado na fala de muitos entrevistados. Essa valorização da educação para os filhos também é percebida por Pitts Jr (2006). Segundo o autor, a mudança de suas lojas para os grandes centros urbanos está diretamente relacionada com esta ideia.

Oswaldo Truzzi (1992), em seu estudo De mascates a doutores: sírios e libaneses em São Paulo, apresenta a ambição desses dois grupos de transformarem seus filhos em "doutores" e/ou em "autoridades". O autor afirma que, não raro, os filhos de imigrantes deveriam ingressar preferencialmente em cursos que proporcionassem o trabalho autônomo - profissionais liberais -, para que não precisassem ser empregados após formados.15 Confirmando essa afirmativa, os filhos dos entrevistados concentram-se, em maior número, nas profissões liberais e de status como medicina (21%), engenharia (18%) e direito (13%) - ver Tabela 4.

As famílias libanesas e sírias preocupavam-se bastante com a formação universitária dos filhos, pois almejavam mobilidade social, prestígio e privilégio sociais que um título de "doutor" proporcionaria. Portanto, a preocupação com os estudos deu-se principalmente pelo desejo da consagração total do sucesso das famílias e sua inclusão na elite brasileira.

Dessa forma, a inserção desses imigrantes no contexto brasileiro, especificamente em Minas Gerais, não se deu apenas no comércio e na indústria, mas também na política, especialmente por intermédio de seus descendentes "doutores".16 Sua dispersão por todo o território explica, em parte, o grande número de representantes dessas comunidades no universo político nas diversas regiões do país. Por estarem no comércio e estabelecerem muitos contatos, sírios e libaneses incentivavam seus descendentes a se candidatarem a cargos eletivos (Pitts Jr., 2006).

Além dos votos obtidos em seus próprios grupos étnicos, a atividade comercial proporcionava uma interação com grupos diversificados, o que ajudava a viabilizar a trajetória política. Assim, membros da colônia começaram a conquistar cargos estaduais e federais tanto no poder Legislativo como no Executivo. Entre 1946 e 1950, cinco deputados federais são eleitos; em 1954, quatorze; em 1958, vinte; em 1962, o número cresce para trinta e três. Esse número cai durante o governo militar e volta a crescer nos anos de 1970 e com o restabelecimento da democracia em fins da década de 1980 (Pitts Jr., 2006). Segundo o autor, 10% das cadeiras do congresso federal pertenciam a descendentes de sírios e libaneses em 1954.

Minas Gerais não foge à regra. O Quadro 3 mostra que sírios e libaneses ocupam os mais diversos cargos políticos espalhados pelo estado.

 

 

Em suma, o processo de inserção ocupacional de sírios e libaneses no Brasil manteve uma trajetória semelhante entre os imigrantes. Ela inicia-se com a atividade de mascate, passando para o pequeno comércio e depois estabelecendo grandes redes comerciais e, em alguns casos, as indústrias. Esses são os principais ramos de atividades a que tais imigrantes se dedicam, que lhes possibilitam sucesso econômico. Entretanto, isso não é suficiente para obterem posições de honrarias e privilégios sociais na sociedade. Para tanto, eles encontram outro caminho: a formação profissional dos filhos e sua inserção na arena política. Essa trajetória torna-se "possível" também em função da forte coesão dos grupos, das colônias, ou do que chamo de "redes sociais densas", formadas pelos pioneiros e expandidas para os outros imigrantes. No entanto, surgem duas questões: como eles sustentam essa coesão? Quais seriam os elementos mantenedores das redes sociais?

 

A língua de origem

Em geral, os sírios e os libaneses que aportaram no Brasil não dominavam a língua portuguesa. Não se trata evidentemente de uma característica exclusiva desses grupos, pois a língua era também uma dificuldade para alemães, japoneses, chineses e italianos.

Segundo os entrevistados, após o domínio político e econômico francês na Síria e no Líbano, em 1920, alguns imigrantes, depois dessa época, chegaram com um pequeno conhecimento do francês, o que os ajudou, ainda que pouco, no aprendizado do novo idioma, o português. Contudo, a grande maioria aprendeu a língua no cotidiano do mundo do trabalho e do comércio:

Quando chegamos, abrimos uma loja. Eu até hoje lembro: compramos nem sei quantas dúzias de vassouras. Chegou uma freguesa e falou com o meu marido: tem vassoura?

- Não tem não.

Ela foi lá na frente e comprou, voltou e falou:

- Oi! Oi! Isso é o que chamamos de vassoura.

Meu marido disse:

- Ah! Eu tenho um tanto.

Aí, tinha um Senhor, escurinho, que estava construindo uma casa no nosso lado; ele entra e fala:

- José tem vassoura. José tem massa de tomate...

É assim que a gente foi aprendendo... Eu aprendi a falar no balcão (Entrevistada, síria, aposentada).

As dificuldades na assimilação do idioma local revelam identidades contrastantes e alimentam uma visão estereotipada e estigmatizante dos brasileiros em relação a eles, denominando-os "turcos", "sovinas", "mercenários". Porém, atualmente, a dificuldade toma forma de anedota. Por exemplo: muitos caem no riso ao ouvir as frases: "breço bom a toda brova". Segundo Wadih Safady,

[...] a dificuldade em distinguir masculino e feminino e em pronunciar os nomes (os fonemas p e v não existem no alfabeto árabe e o g é pronunciado com c: borta por porta, balavra por palavra, fitória por vitória etc.) produziu complexo de inferioridade, fazendo com que muitos até mesmo decidissem traduzir seus nomes... O próprio Safady admitiu que as várias letras do alfabeto árabe, inexistentes na língua portuguesa, ao serem pronunciadas emitem uma fonética esquisita e grotesca para os que a ouvem, causa de riso e deboche. Arbatache (catorze, em árabe) veio a ser há uns trinta anos atrás o motivo duma peça teatral em São Paulo, debochando de nossa pronúncia (Truzzi, 1997, p. 75).

Tal dificuldade pode ser atribuída à grande diferença entre os idiomas árabe e português e, também, ao pequeno grau de instrução dos imigrantes que fixaram residências no país no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Grande parte desses imigrantes, especialmente os pioneiros, era analfabeta ou semianalfabeta.

Porém, se o não aprendizado da língua portuguesa se torna um obstáculo para a assimilação, ele não representa impedimento para a adaptação necessária ao avanço dos negócios e à integração cultural. Além disso, tal dificuldade acabou por estimular a coesão social desses grupos, na medida em que passavam a viver em âmbitos etnicamente cerrados - assegurados pelos espaços privados como igrejas, clubes, residências, lojas - apegados cada vez mais às culturas de origem. A existência de um espaço público, onde se fala português, e de um espaço privado, onde o árabe predomina, revela as alteridades e as fronteiras estabelecidas pelos grupos étnicos na sociedade hospedeira. A constatação das diferenças determina o significado organizacional das identidades elaboradas por libaneses e sírios, delimita as fronteiras, estabelece os estereótipos e assegura a ordem social (Figoli e Vilela, 2004). Nesse contexto, constituem-se as redes sociais e os enclaves econômicos que proporcionam vantagens para seus membros.

Vale destacar que a manutenção da língua árabe foi bem mais forte nas grandes cidades, onde os imigrantes construíram igrejas e mesquitas em passo acelerado, clubes e organizações beneficentes que asseguravam o espaço "privado" de sustentação da língua e dos costumes de origem (Pitts Jr., 2006). Embora os imigrantes não enfatizassem o ensino do idioma aos filhos, nas conversas com os amigos, nos clubes e nos rituais da igreja, o árabe era o meio essencial para a interação entre eles. A força disso pode ser notada até hoje; já que as igrejas - melquitas, maronitas, ortodoxas - e as mesquitas, sunitas e xiitas,17 por exemplo, ainda celebram suas orações em árabe (Idem).

Outro fator que ajudou a manutenção da língua natal foi a constituição da imprensa árabe, com jornais e revistas que circularam até os anos de 1930 na língua materna. De acordo com Pitts Jr. (2006), entre 1890 e 1940, as colônias mantinham aproximadamente 394 revistas e jornais,18 muitos dos quais permaneceram pouco tempo em funcionamento.

Dessa forma, o uso da língua original falada (em clubes, igrejas e mesquitas, principalmente) e escrita (em jornais e revistas) passou a ser um mecanismo de manutenção e perpetuação das identidades contrastantes de sírios e libaneses perante os brasileiros. Esse é um instrumento de sustentação dessas identidades e, por conseguinte, da coesão do grupo e das redes sociais. Mas não foi o único meio usado por esses imigrantes para manter suas culturas e sustentar suas identidades, como veremos a seguir.

 

O casamento endogâmico

Na tradicional cultura dos imigrantes sírios e libaneses daquela época, o casamento visava aumentar a coesão familiar e, em um sentido mais amplo, a coesão do grupo. O poder e a influência da unidade familiar são sustentados por uma prática institucional: "o casamento arranjado" 19 (Nunes, 2000), em que a escolha dos cônjuges não resulta de escolhas individuais, mas, sim, de interesses familiares.

Na visão tradicional de sírios e libaneses, e mais fortemente na ótica islâmica, o amor é o fundamento do casamento, mas ele pode, diferentemente dos costumes ocidentais, aparecer após o matrimônio. De acordo com um entrevistado "vocês amam para casar, nós casamos para amar" (Entrevistado, libanês, comerciante).

Assim, para eles, o amor existe e deve existir entre o homem e a mulher, mas não pode ser incontrolável, imprevisível, arbitrário, desmoralizante, mais importante do que os deveres filiais e a lealdade.20 Autosacrifício e abnegação submetem o amor aos interesses dos grupos representados - família ou entidades mais amplas (Truzzi, 2008; Lobato, 1994).

Essa visão baseia-se no contraponto entre a ideia do amor intrinsecamente relacionado com valores individualistas exaltados pelas sociedades ocidentais e de amor ligado às sociedades holistas, em que o social está sempre acima dos desejos individuais (Lobato, 1994). No âmbito das sociedades individualistas, em que os indivíduos constituem a realidade primeira e a coletividade apenas um meio de satisfazer suas necessidades e demandas, o amor deve ser domesticado, ou seja, pensado como proveniente do íntimo do indivíduo, de forma espontânea, incontrolável e selvagem. Portanto, deve ser transformado em amor dócil e tido como uma experiência emocional desejável como fonte de autorrealização e engrandecimento pessoal, "não levando em conta as lealdades político-familiares" (Idem, p. 4). Para as sociedades holistas, como é o caso das sociedades árabes, o amor deve ser disciplinado, ou seja, é necessário ser contido para que a vida social seja possível e as responsabilidades a elas concernentes sejam cumpridas.

Tendo consciência dessa diferença na motivação cultural para se casar, é possível compreender por que muitos sírios e libaneses (60% dos homens entrevistados) retornaram à terra natal para se casarem. Muitos, obedecendo a um pedido dos pais; alguns, cedendo aos conselhos de amigos, conterrâneos e parentes, ou ainda voltavam por vontade própria. Segundo Pitts Jr. (2006), vários enviaram cartas a familiares, pedindo uma esposa para eles.

As famílias desses grupos de imigrantes (sejam cristãs, sejam muçulmanas) exerciam um importante papel de aprovação-reprovação na escolha dos cônjuges. Se o rapaz ou a moça insistisse em querer alguém "de fora", os pais, em geral, consentiam relutantemente, pois desejavam que o casamento fosse realizado dentro da colônia e com certeza exerciam pressão nesse sentido. Entre os muçulmanos, a pressão familiar era ainda maior. Ainda hoje, alguns pais mandam seus filhos de volta aos locais de origem, no intuito de buscarem jovens da mesma religião, costumes e tradições. Isso é especialmente frequente no caso das filhas.

Como observa Truzzi (1997), apesar da desproporção entre os sexos dos imigrantes ser muito expressiva, em comparação a outras etnias, cerca da metade dos sírios e dos libaneses casaram-se dentro do próprio grupo. Em 1927, um relatório sobre esses grupos corrobora tal argumento, ao mostrar que eles realizaram casamento dentro de suas colônias em 50,5% das vezes, indicando um "índice de fusibilidade" mais baixo do que o de italianos, espanhóis e portugueses (Pitts Jr., 2006). Em um estudo sobre dados de batismo da igreja ortodoxa em São Paulo, Pitts Jr. identifica que, em 1959, 75,9% das crianças tinham ambos os pais com sobrenomes árabes. Esses dados reforçam o argumento de que "por muitos anos, membros da colônia árabe exibem uma forte preferência pela endogamia" (Idem, p. 47).

Os dados do censo demográfico de 1960 confirmam esses achados. É grande o número de casamentos endogâmicos entre os sírios e os libaneses, conforme se observa no Gráfico 3. Embora com menos intensidade que os japoneses, muito endogâmicos, os sírios e os libaneses misturam-se bem menos do que outros grupos de imigrantes, tais como portugueses, espanhóis, italianos e alemães. Enquanto mais da metade dos sírios e dos libaneses casam-se no interior do mesmo grupo, o índice entre alemães e italianos atinge pouco mais de 30%.

Chamo atenção para o fato de que as mulheres dessas origens tinham uma propensão maior do que os homens de se casarem dentro dos próprios grupos de origem21(Truzzi, 1992). A partir dos dados do censo, 82% de sírias e libaneses casaram-se dentro dos seus próprios grupos étnicos/nacionais, contra 39% de seus conterrâneos homens. Além disso, as divergências na propensão ao casamento endogâmico não se refere apenas ao fator gênero, mas também ao religioso. Em outras palavras, membros de determinadas religiões, tais como os muçulmanos e os cristãos ortodoxos, têm maiores chances de se casarem dentro dos próprios grupos do que membros de religiões como maronitas e melquitas.22

O casamento endogâmico e "arranjado", no caso de sírios e libaneses, contribuiu fortemente para a coesão e a reprodução grupal. A família, como orientadora, é a principal articuladora dessa reprodução, por meio de processos de socialização dos jovens e do estímulo, algumas vezes até obrigação, ao casamento dentro do próprio grupo.

A endogamia étnica é vista, pelos agentes, como valor fundamental de preservação dos valores étnicos da comunidade. A justificativa para a prática da endogamia aparece em um conjunto de estereótipos e preconceitos que, com maior ou menor intensidade, desqualifica aqueles que não pertencem à colônia. De fato, para sírios e libaneses, homens e mulheres brasileiros não eram considerados "bons partidos". De acordo com Knowlton (1960), os libaneses e os sírios não desejavam o casamento com brasileiros, italianos ou outras nacionalidades, pois os consideravam imorais, com costumes diferentes, maus cônjuges, "farristas e mulherengos". Além disso, a endogamia era reforçada pela atitude dos nativos, pois muitas famílias brasileiras também não aceitavam o casamento com "turcos".

O meu tio avô não queria que meu pai se casasse com minha mãe. Ele dizia: - Você não vai casar com este turco,23 não. Você não o conhece. Naquela época, estrangeiros não eram bem vindos (Entrevistada, filha de sírio).

Esse fenômeno supõe que, quando sírios e libaneses ingressaram na sociedade brasileira, um sistema de relações assimétricas foi constituído. Esse sistema resultou do contato intenso entre os grupos que se enxergavam como essencialmente diferentes e, em virtude de uma ótica étnica, criavam espaços de inclusão e de exclusão. No momento em que sírios e libaneses passaram da expectativa de uma imigração de curto prazo, para a de uma fixação no Brasil por um período mais longo, eles começaram a produzir mecanismos de elaboração e de alimentação das identidades e, consequentemente, instrumentos mantenedores da coesão social. Esta, por sua vez, foi sustentada principalmente pelo casamento endogâmico, mantendo as redes sociais que definiram a inserção e a ascensão social desses imigrantes.

 

Considerações finais

A inserção ocupacional de sírios e libaneses ocorreu em massa no ramo do comércio. Isso pode ser explicado com base nas redes sociais estabelecidas pelos pioneiros, criando espaços onde o migrante pôde se beneficiar da presença de iguais que já tinham se incorporado, de alguma forma, à sociedade anfitriã, e propiciando um menor impacto durante seu período de inserção, além de informações indispensáveis para a entrada no mercado de trabalho.

Cabe lembrar que, em grande parte, a inserção inicial no comércio foi motivada pela falta de opção de trabalho. Não sendo os imigrantes "preferidos" para o trabalho na lavoura e não tendo recursos para serem proprietários, sírios e libaneses voltaram-se para a área comercial. Primeiro como vendedores ambulantes; aos poucos, ascenderam da ocupação de mascates para pequenos comerciantes, até se tornarem grandes proprietários de redes de lojas. Esse fator, juntamente com as redes sociais, pode explicar por que as comunidades dos sírios e dos libaneses se especializaram em poucos nichos de atividade econômica, permanecendo ali por várias gerações.

A despeito do número de imigrantes desses grupos não ser elevado, vis-à-vis outros grupos de imigrantes, é evidente seu destaque nas atividades comerciais e industriais. Os imigrantes alcançaram um status econômico elevado, mas investiram também na educação de seus filhos, de forma que pudessem se tornar "doutores", autoridades e, em muitos casos, políticos. Dessa forma, a ascensão tornou-se completa.

As redes sociais foram imprescindíveis nesse sentido. Para mantê-las, sírios e libaneses utilizaram-se do casamento endogâmico e da manutenção do uso da língua materna nos espaços privados, como instrumentos privilegiados para assegurar e intensificar a coesão do grupo étnico.

 

Notas

1 Embora ciente das grandes diferenças étnicas e religiosas entre esses dois povos (ver Figoli e Vilela, 2004; Vilela, 2002), trato-os aqui como fazendo parte de um mesmo grupo, haja vista a semelhança no seu processo de inserção na sociedade brasileira (cf. Pitts Jr., 2006; Vilela, 2002; Truzzi, 1997, 1992).

2 Aqueles que fixaram residência no Brasil entre 1920 e 1960. Compreende a maioria dos entrevistados dessa pesquisa e dos informantes do censo de 1960.

3 Um exemplo típico é aquele da migração "em cadeia", que se refere ao deslocamento de indivíduos motivado por uma série de informações e arranjos fornecidos por parentes, amigos ou conterrâneos já instalados no local de destino (Truzzi, 2008, p. 200)

4 As entrevistas foram feitas com pessoas residentes nas cidades de Belo Horizonte, Uberlândia, Juiz de Fora e Teófilo Otoni, representando as principais regiões mineiras, quais sejam: Região Metropolitana, Triângulo Mineiro, Zona da Mata e Vale do Mucuri, respectivamente. A pesquisa não partiu de uma amostra estatisticamente calculada, mas da seleção de sujeitos expressivos para os meus propósitos dentro de uma determinada população. Essa amostra intencional constitui-se de 26 libaneses: vinte homens e seis mulheres; dezessete sírios: oito homens, nove mulheres; onze descendentes desses imigrantes e quatro brasileiros. Foram feitas também oito histórias de vida, sendo quatro libanesas e quatro sírias.

5 Essa e outras características dos imigrantes podem ser vistas no Apêndice 1.

6 Há outras formas de divisões das correntes migratórias de sírios e libaneses. As diferenças encontram-se no número de recortes, se 3 ou 4 correntes, não acarretando grandes problemas para as análises. Para um exemplo, ver Gattaz (2001).

7 Para Lin (2006, p. 60), ao contrário de Granovetter (1985), é a força dos laços fortes que é importante em um mercado de trabalho (ver Portes, 2000, p. 144).

8 Guimarães (2008) verificou que, ao procurarem trabalho, as pessoas buscam mais frequentemente os mecanismos institucionais do mercado (como, por exemplo, agência de emprego, jornal, Internet). No entanto, são as redes pessoais e, principalmente, os laços fortes os mecanismos mais efetivos para a obtenção de um emprego, embora a qualidade do mesmo não seja o desejável. Esse fato é altamente significante para os mais jovens, uma vez que a família e os amigos próximos são os principais meios de obterem trabalho. Já para os adultos, que têm experiência no mercado de trabalho, são os grupos de antigos colegas de trabalho (os laços fracos) que os ajudam a sair do desemprego. Contudo, esses resultados referem-se a um mercado diferente do encontrado pelos sírios e libaneses "antigos", os quais, aliás, não encontram as agências de empregos institucionais, públicas ou privadas, para orientá-los.

9 Preferidos porque a elite brasileira os considerava elementos de melhoria na composição genética do povo brasileiro que era composta, na maioria, de negros e mulatos. Seria uma forma de promover o "branqueamento" da população mestiça. Além disso, os europeus estavam dispostos a trabalhar na lavoura, diferentemente dos sírios e libaneses.

10 Como, por exemplo, o agricultor, com a técnica de plantio e de colheita.

11 Compreende apenas indivíduos do sexo masculino, com mais de cinco anos de residência no país. A seleção dessa subamostra deve-se à um percentual alto (95%) de dados de ocupação do tipo "inválido" para as mulheres e pela literatura sobre mercado de trabalho argumentar sobre um tempo limite para adaptação e inserção dos imigrantes no mercado de trabalho. A amostra inicial é de 41.700 indivíduos (com peso) e a subamostra é de 15.760 (com peso).

12 Utilizo uma amostra de no mínimo cem pessoas por origem.

13 Essa variável foi usada pelo fato de a informação sobre o ano que fixou residência no país estar inválida, não me permitindo, assim, calcular o tempo de residência no país.

14 Considero apenas os homens, entre 18 e 55 anos de idade. Isso porque o percentual de mulheres fora do mercado de trabalho é altíssimo (mais de 90%) e porque essas idades são das pessoas que potencialmente fazem parte da população economicamente ativa (PEA), uma vez que, até os 18 anos, os jovens devem estar nas escolas e, acima de 55, os adultos já podem estar aposentados, como era previsto em lei em 1960. Para maior informação sobre a questão da aposentadoria, ver Matias (2004). Vale dizer que há variáveis importantes que não se encontram no modelo apresentado, tais como educação e ocupação dos pais. Isso ocorre devido à inexistência de tais dados no banco. Contudo esse fato não invalida as análises apresentadas, como exposto por Vilela (2008) e Valle Silva (1980).

15 Pitts Jr. (2006) chama a atenção para o fato de que, até os anos de 1930, os estudantes da colônia que têm cursos superiores são das áreas de comércio, administração e contábeis, as quais podem ajudar no progresso dos negócios da família. Após essa data, no entanto, os estudantes direcionam-se para os campos da medicina, da advocacia e da engenharia. Outro ponto interessante é que, diferentemente de outros imigrantes, sírios e libaneses enviavam, naquela época, suas filhas para a universidade, como uma maneira de bem educá-las para se tornarem boas esposas e mães.

16 Segundo Pitts Jr. (2006), esse fato inicia-se em fins da década de 1940.

17 Para uma melhor compreensão sobre essas instituições religiosas, verificar Pitts Jr. (2006).

18 Esses jornais e revistas, em um primeiro momento, focam em questões políticas, sociais e econômicas do Oriente Médio, mas depois passam a dar atenção aos problemas dentro das colônias no Brasil e, principalmente, para as questões sociais e de classe (Vilela, 2002; Pitts Jr. 2006).

19 Chamo atenção para o fato de que, naquela época, sendo o Brasil uma sociedade ainda majoritariamente rural e tradicional, esse tipo de casamento era comum. Até as primeiras décadas do século XX, a escolha do cônjuge era negociada pelos pais. Como exposto por Antonio Candido: "Um barão do Império, fazendeiro de Minas Gerais, disse que bons cães de caça vivem do acasalamento bem selecionado por parte do dono, porque só ele sabia quais eram os bons Pedigrees; deixados a si mesmos, logo se deterioram e perdem qualidades especiais. O mesmo se dá para os seres humanos, que devem ser acasalados pelos velhos e mais experientes, porque somente uma boa raça cruzada com uma boa raça produz uma boa raça" (Candido, 1982, apud Nunes, 2000, p. 132). Essa é uma característica forte nas sociedades tradicionais e raras nas sociedades modernas. Entretanto, parece-me que esse sentimento é ainda mais forte entre os sírios e libaneses residentes no Brasil antes de 1960.

20 Ver a história de Layla e Majnun (Lobato, 1994).

21 Segundo Truzzi (1992), de 1940 a 1946, 27% dos homens sírios e libaneses são casados dentro de suas colônias, contra um percentual de 65% para as mulheres, o que indica maior pressão para a endogamia entre o grupo das mulheres.

22 Infelizmente, os dados do censo de 1960, desagregados por religião, não permitem fazer distinções entre cristãos, maronitas, melquitas e ortodoxos.

23 Hoje esse não é o termo dominante entre os brasileiros para designar sírios e libaneses. Além desse, há outras expressões dominantes nesse sentido: árabes, sírio-libaneses (o mais comum hoje), judeus (no Pará), galegos (no Ceará), carcamanos (no Ceará, Maranhão e Pará). Ver Pitts Jr. (2006).

 

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Artigo recebido em maio/2009
Aprovado em fevereiro/2011

 

 

* Agradeço as sugestões de Pedro Neiva e dos pareceristas anônimos da RBCS, bem como as contribuições de Izabel Cristina Vilela Santos.

 

 

Apêndice 1

 

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