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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909

Rev. bras. Ci. Soc. vol.28 no.81 São Paulo fev. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092013000100012 

ARTIGOS

 

Classes e práticas sociais

 

Social classes and social practices

 

Classes et pratiques sociales

 

 

Edison Ricardo Emiliano Bertoncelo

 

 


RESUMO

Este artigo tem como principal objetivo lidar com um dilema interpretativo no campo da análise de classe e nas ciências sociais mais amplamente: a análise de classes é útil para investigar os padrões de sociabilidade cotidiana? É possível conectar classe e status? Para tanto, inicialmente o artigo faz uma breve incursão pela literatura sociológica atual para descrever os contornos desses debates. Depois, o artigo produz um estudo empírico que tenta iluminar aspectos da relação entre classes e práticas sociais. A hipótese principal é que a classe conforma ativamente os padrões de sociabilidade cotidiana e a formação de estilos de vida.

Palavras-chave: classe, coletividade, estilo de vida, cultura.


ABSTRACT

This article has as its main goal to deal with an interpretative dilemma in the field of class analysis and, more broadly, in the social sciences as a whole: is class analysis useful to the investigation of the ordinary patterns of sociability? Is it possible to connect class and status? Initially, the article proceeds to a brief discussion of the sociological literature aiming at describing the broad contours of such debates. Then, it produces an empirical study in order to illuminate aspects of the relationship between classes and social practices. The main hypothesis is that class effectively shapes the patterns of usual sociability and the formation of lifestyles.

Keywords: Class; Collectivity; Lifestyle; Culture; Sociability.


RÉSUMÉ

Cet article a pour but principal de traiter un dilemme interprétatif dans le domaine de l'analyse de classe et, plus généralement, dans les sciences sociales : l'analyse de classes est-elle utile pour rechercher les modèles de sociabilité quotidiens ? Est-il possible de connecter classe et statut ? Pour cela, l'article propose initialement une brève incursion par la littérature sociologique actuelle pour décrire les contours de ces débats. Ensuite, l'article produit une étude empirique qui tente d'éclairer des aspects du rapport entre classes et pratiques sociales. L'hypothèse principale est que la classe détermine activement les modèles de sociabilité quotidienne et la formation des styles de vie.

Mots-clés: Classe; Collectivité; Style de vie; Culture; Sociabilité.


 

 

Introdução

O principal eixo que estrutura o campo dos estudos de classes atualmente é um que opõe, de um lado, perspectivas analíticas que enfocam a construção de esquemas de posições de classe com base em dimensões objetivas (definidas a priori pelo pesquisador), buscando captar as principais divisões sociais geradas pelo funcionamento do mercado e pelos processos produtivos (em que se destacam os sociólogos John Goldthorpe e Erik Olin Wright), e, de outro, perspectivas analíticas que concebem as classes como coletividades sociais constituídas tanto no plano material como no plano cultural, trazendo ao centro da investigação as fronteiras simbólicas e sociais construídas nas práticas classificatórias (e classificáveis) dos agentes sociais (em que se destaca o sociólogo Pierre Bourdieu).

O que está em jogo nesses debates, obviamente, é a possibilidade (e a utilidade) de vincular classe e status. Nos estudos de classe de Bourdieu, esses "aspectos da estratificação social" são concretamente conectados pelo habitus, sistemas de esquemas de ação, percepção e classificação (resultantes da incorporação das propriedades relacionais do espaço social), que produz homologias entre o espaço simbólico dos estilos de vida, conjunto de "escolhas" que materializam uma mesma intenção expressiva em campos sociais diversos (alimentação, mobília, arte etc.) e o espaço objetivo de posições sociais, definidas em termos de volume e composição do capital (cultural, econômico e social) (Bourdieu, 1966).1

Diferentemente, parte da produção sociológica recente tem sublinhado uma crescente desconexão entre classe e status. Para alguns, a classe é um elemento cada vez mais marginal na explicação das escolhas de consumo e na conformação de estilos de vida (Baudrillard, [1975] 2008, [1981] 1991; Pakulski e Waters, 1996; Lash e Urry, 1994; Giddens, [1999] 2002). No campo dos estudos de classe, teóricos associados ao Programa de Nuffield sublinham a necessidade de se tomar classe e status separadamente: por se tratarem de aspectos distintos da ordem de estratificação social, classe e status impactariam diferencialmente sobre as chances de vida dos indivíduos e grupos sociais. Assim, do ponto de vista desses autores, embora o conceito de classe seja útil para revelar as desigualdades nas chances de vida (sobretudo as oportunidades de mobilidade social e de construção de trajetórias educacionais vantajosas), ele teria pouca relevância para a compreensão da sociabilidade cotidiana, especialmente dos padrões de consumo que orientam determinados estilos de vida (Goldthorpe e Chan, 2004, 2005, 2006, 2007a, 2007b).2

O objetivo deste artigo é investigar esse dilema (a análise de classes pode ser útil para a investigação dos padrões de sociabilidade cotidiana?) e tentar superá-lo, sugerindo um arcabouço teórico e escolhas metodológicas para a investigação empírica das relações entre classe e práticas sociais.

 

Conectando classe e status?

Parte da literatura contemporânea sobre a "época atual" argumenta que as mudanças associadas à transição para a alta modernidade ou modernidade tardia (Beck, 1992; Lash e Urry, 1994; Giddens, [1999] 2002) ou pós-modernidade (Baudrillard, 2008, 1991) teriam cindido a relação entre classe e consumo e, mais profundamente, atenuado (ou destruído) os efeitos das relações de classe sobre processos sociais diversos.

A transição para a alta modernidade envolveria mudanças profundas nas relações entre estrutura e agência. A libertação dos indivíduos de contextos tradicionais de ação (entre eles, as classes sociais) seria acompanhada pela emergência de um novo regime de construção do eu, baseado na reflexividade. Em um contexto de forte ampliação das oportunidades de escolha (e dos riscos associados a elas), produzida pela emergência de uma ordem social pós-tradicional, os indivíduos seriam crescentemente responsáveis pela construção de trajetórias de vida em termos de uma "biografia do eu". Segundo Giddens, "nas condições da alta modernidade, não só seguimos estilos de vida, mas num importante sentido somos obrigados a fazê-lo – não temos escolha senão escolher". Nesse sentido, o estilo de vida expressaria "uma narrativa particular da autoidentidade." (2002, p. 79) A reflexividade na alta modernidade estaria relacionada, portanto, com a ampliação do leque de escolhas em torno dos estilos de vida e do planejamento da vida.

Já para os teóricos da pós-modernidade, a cultura atual seria marcada pela rápida expansão no volume e na circulação dos bens como signos (separados de seus referentes), colocando em risco a legibilidade dos velhos marcadores sociais. Nas condições da cultura pós-moderna, os indivíduos poderiam manipular os signos da cultura de consumo por livre associação, o que permitiria um posicionamento social apenas precário e instável em termos das escolhas de consumo. A estabilização do sentido dos objetos culturais e a estruturação deles em formas hierárquicas relativamente estáveis, correlacionadas a divisões sociais em termos de classe ou outra categoria qualquer, se tornariam problemáticas (Baudrillard, 1991).

Em contrapartida, outros autores tendem a ver as formas culturais pós-modernas (marcadas pela mistura de códigos e estilos, pelo pastiche, pela subversão de fronteiras simbólicas tradicionais etc.) como movimentos "novos" dentro do espaço social, associados à emergência de uma "nova" fração de classe (a dos intermediários ou especialistas culturais). Sendo marcada por um habitus que valoriza uma atitude de aprendizagem perante a vida, de estetização da vida cotidiana e de relaxamento dos padrões de comportamento, essa fração de classe buscaria legitimar novos gostos e estilos de vida nas disputas simbólicas com outras frações de classe.3 Atuando como intermediários entre os campos culturais e o campo das classes sociais, os especialistas culturais ampliariam o leque de bens culturais disponíveis ao consumo e estimulariam uma nova pedagogia e orientação em relação à vida, que valorizam a estetização do cotidiano, a exploração emocional e a mistura de estilos e códigos (Featherstone, [1990] 1995; Lash, 1990).

De forma similar, a ênfase sobre a reflexividade na teorização sobre a modernidade tardia ou alta modernidade poderia expressar as orientações de grupos sociais específicos (daqueles que, de fato, possuem as disposições e os recursos para fazer das "trajetórias de vida" a materialização de projetos do eu reflexivamente construídos) e não uma condição geral de um "novo" período histórico (Savage, 2000; Skeggs, 2004). Ou seja, talvez nem todos possam se tornar "os novos heróis da cultura de consumo [que] transformam o estilo num projeto de vida e manifestam sua individualidade e senso de estilo na especificidade do conjunto de bens, roupas, práticas, experiências, aparências e disposições corporais destinadas a compor um estilo de vida" (Featherstone, 1995, p. 123).

Em outra vertente desse debate, nos campos da sociologia da cultura e da análise de classes, pesquisas recentes têm chegado a conclusões diferentes, mesmo contraditórias, quanto à conexão entre classe e consumo e, de forma mais ampla, sobre a possibilidade de concebermos as classes como uma categoria útil para entendermos a sociabilidade cotidiana. As principais questões em debate concernem aos argumentos de Bourdieu acerca das homologias entre o espaço das classes sociais e o espaço dos estilos de vida e sobre a relevância do capital cultural para estratégias de reprodução social.

Nas ciências sociais norte-americanas, a obra de Bourdieu foi apropriada, sob o foco da relação entre capital cultural e reprodução de classe, por um conjunto de sociólogos orientados para a construção de um novo tipo de sociologia da cultura (Paul DiMaggio, Craig Calhoun, Richard Peterson, Michèle Lamont, David Halle). Particularmente, os autores preocupam-se em examinar se, nessa sociedade, as práticas culturais demarcam fronteiras simbólicas e sociais e, consequentemente, se o capital cultural é um recurso relevante mobilizado em estratégias de ascensão social ou de reprodução de classe.

Em um de seus principais estudos sobre o tema, Michèle Lamont examina as formas de articulação do capital cultural na sociedade norte-americana e na sociedade francesa, com base em entrevistas com indivíduos de "classe média" (especialmente profissionais e administradores) em Paris, Clermont-Ferrand, Nova York e Minnesota. As evidências do estudo apontam que as fronteiras simbólicas nessas sociedades são construídas com base em três eixos distintos: hierarquia cultural, valores morais e posses materiais. Comparativamente, nota a autora, as fronteiras baseadas em posses materiais e valores morais são mais relevantes na sociedade norte-americana do que na sociedade francesa, enquanto o oposto se daria com as fronteiras baseadas em hierarquias culturais. Ou seja, as classificações simbólicas baseadas em hierarquias culturais seriam pouco importantes para distinguir conjuntos de agentes na sociedade norte-americana (Lamont, 1992). De forma semelhante, Halle (1991) investiga a possível formação de capital cultural na sociedade norte-americana examinando dados sobre a posse de obras de arte. As evidências do estudo mostram que o gosto pela "alta cultura", tal como objetivado na posse de obras de arte, é predominantemente encontrado entre as "classes médias", mas esse é minoritário mesmo nessa fração de classe. Isso indicaria que o consumo de "alta cultura" não seria uma prática social distintiva nessa sociedade.

Embora tais estudos sejam relevantes para desenvolver a perspectiva analítica de Bourdieu de um ponto de vista comparativo, talvez eles não apreendam adequadamente sua natureza relacional. Bourdieu sublinhava que os resultados empíricos de seus estudos (as homologias particulares encontradas entre o espaço social e o espaço simbólico) deveriam ser entendidos relacionalmente (Bourdieu, 2005). Quer dizer, o sentido ou significado de um objeto social deriva não de suas características intrínsecas, o que caracterizaria uma leitura substancialista; ao invés, o significado ou o "valor distintivo" de um bem ou prática (vulgar ou elegante, legítimo ou ilegítimo, belo ou feio etc.) reside nas relações com outros bens e práticas em um campo social qualquer, com outros bens e práticas em outros campos sociais (devido à transponibilidade do habitus que produz um senso de homologia entre as escolhas de consumo) e nas relações dos campos sociais entre si. Isso implica, ainda, que o significado ou o valor de um bem ou prática pode mudar ao longo do tempo no contexto de mudanças nas relações entre os campos sociais e dentro deles. Com efeito, enfatiza Holt, o substancialismo da literatura sociológica norte-americana anteriormente analisada reside no fato de ela enfocar:

[...] se a articulação particular do capital cultural na sociedade parisiense de 1960, objetivada primariamente nas artes legítimas e incorporada na apreciação estética formal, vale para os Estados Unidos contemporaneamente [...]. A falha nesse argumento é que as artes constituem apenas uma pequena fração do universo dos campos de consumo que podem ser alavancados para a reprodução social. Ao enfocarem exclusivamente o campo artístico, esses estudos subestimam as atividades para as quais as elites culturais norte-americanas dedicam a maior parte de suas energias fora do trabalho, como alimentação, decoração de interiores, férias, moda, esportes, leitura, hobbies e eventos sociais (Holt, 1998, p. 6, tradução livre).

Atentando, ainda, para as particularidades históricas da articulação do capital cultural em uma sociedade fortemente marcada pela cultura de consumo, Holt sublinha a centralidade da dimensão incorporada do capital cultural: "as elites culturais nas sociedades capitalistas avançadas agora buscam assegurar distinção adaptando suas práticas de consumo de forma a acentuar a forma incorporada" (Idem, p. 5). Quer dizer, o modo de se apropriar de um bem ou prática pode valer tanto ou mais do que simplesmente consumi-lo. Além disso, diz o autor que, no contexto da cultura de consumo, as práticas das "elites" tendem frequentemente a atravessar fronteiras culturais tradicionais, mas isso não significa necessariamente o desaparecimento das oposições simbólicas. Na verdade, ocorreria uma apropriação seletiva de elementos da "cultura de massa", na busca pelas "elites" de um estilo de vida único e autêntico, criando uma oposição entre a "originalidade" e a "mera imitação". Nesse sentido, a combinação entre connoisseurship, que acentua determinados saberes sobre os objetos sociais, e o ecletismo, marcado pela mistura de estilos e códigos, experimentação seletiva e transposição de fronteiras, pode se tornar um trunfo relevante nas lutas classificatórias contemporaneamente.4

Outra vertente desse debate ocorre dentro do campo dos estudos de classe. Na Grã-Bretanha, um dos principais centros de produção de pesquisas sobre estratificação social, uma corrente importante defende que os estilos de vida (e, mesmo, os padrões de interação e associação) não variam substancialmente segundo a posição de classe dos indivíduos ou famílias. De fato, um dos principais expoentes do Programa de Nuffield, John Goldthorpe, produziu um conjunto de artigos (com Tag Wing Chan) acentuando a importância da velha distinção weberiana entre classe e status (Goldthorpe e Chan, 2004, 2005, 2006, 2007a, 2007b). Diferentemente dos estudos de Bourdieu, para quem as distinções simbólicas são transfigurações de diferenças objetivas (ou seja, as marcas de distinção exprimem, segundo a lógica do sistema simbólico, as propriedades relacionais do espaço social), os autores argumentam que a estrutura de classe e a ordem de status deveriam ser tomadas como dimensões distintas da estratificação social, permitindo investigar em que medida tais dimensões se articulam concretamente e os processos e mecanismos específicos pelos quais impactam as ações e as experiências dos indivíduos. O ponto que os autores desejam sublinhar é que, "empiricamente, classe e status têm poder explicativo diferencial segundo o domínio da vida social" (Idem, 2005, p. 3).

Enquanto a estrutura de classes está baseada nas "relações sociais da vida econômica", as relações de status consistem em uma estrutura de relações que expressa "superioridade, igualdade ou inferioridade" (percepção que se liga às posições sociais e não às qualidades dos indivíduos) (Idem, 2004, p. 1).

Seguindo os estudos de classe no Programa de Nuffield, os autores constroem a estrutura de posições de classe com base em relações de emprego, diferenciando aquelas em termos de status empregatício (empregador, empregado ou autoempregado) e, entre os empregados, segundo o tipo de contrato de trabalho que regula as relações de emprego (Erikson e Goldthorpe, 1992).

Em relação à construção da ordem de status, os autores tomam como seu traço central os padrões de associação e interação entre os indivíduos e grupos sociais. Diferentemente dos estudos conduzidos por L. Warner nos Estados Unidos, que restringiam­ a investigação dos padrões associativos e de interação às fronteiras das comunidades locais em pequenas cidades, os autores argumentam que, em sociedades urbanizadas e massificadas, os sistemas de status não podem ser tomados como "propriedades de comunidades". Seguindo a trilha aberta por Laumann (1966), os autores argumentam que os padrões associativos e de interação em sociedades desse tipo podem ser mais adequadamente investigados a partir de estruturas ocupacionais de amizade: com base em informações sobre as ocupações dos indivíduos e aquelas de seus amigos próximos, tenta-se estabelecer a relação entre os padrões de associação e interação e as posições ocupacionais. Essa escolha metodológica tem duas premissas: (i) em sociedades modernas, o status é conferido predominantemente a determinadas características associadas às ocupações; (ii) as relações de amizade próxima são um bom indicador de relações de igualdade. Assim, é possível definir grupos de status como conjuntos de indivíduos em posições ocupacionais entre os quais as relações de amizade (e, portanto, de igualdade) são mais frequentes (Goldthorpe e Chan, 2004, pp. 5-6).

Um conjunto de evidências empíricas produzido nos estudos (baseadas em dados obtidos a partir de uma amostra representativa da população britânica) sugere a existência de uma ordem de status, em que as categorias ocupacionais estão hierarquizadas segundo a natureza "manual" ou "não manual" do trabalho e, entre as ocupações não manuais, as profissionais estão acima das gerenciais. Mais fundamentalmente, os autores notaram que a ­ordem de status assim construída não se sobrepõe à estrutura de posições de classe, pois existe variação significativa de status entre as categorias ocupacionais alocadas a uma mesma posição de classe.

Assim, concluem os autores, há "disjunções significativas entre posições de classe e níveis de status", o que significa que classe e status captam aspectos distintos da estratificação social. Por isso, classe e status impactam as chances de vida dos indivíduos e grupos sociais segundo processos ou mecanismos distintos. As posições de classe constituem o principal fator que conforma as chances de vida no mercado: as relações de emprego, especialmente os diferentes tipos de contrato de trabalho, estão por trás das variações nos riscos de desemprego e de perda de rendimento no curto prazo, e das variações nas oportunidades de incremento de renda monetária no longo prazo.5 Quanto aos padrões de consumo cultural, as evidências apontaram que a posição na ordem de status permite prever mais adequadamente a orientação das escolhas de consumo e, portanto, o estilo de vida dos indivíduos: assim, quanto mais elevada a posição de status do indivíduo (segundo sua ocupação), maior é a probabilidade de ser um onívoro cultural, quer dizer, de expressar, em suas escolhas de consumo, uma orientação em relação aos bens e às práticas marcada pela abertura à diversidade (que geralmente se materializa em escolhas de consumo que atravessam fronteiras culturais estabelecidas, como aquela entre "alta cultura" e "cultura popular").6 Fundamentalmente, pode-se concluir a partir disso que a investigação dos padrões de sociabilidade cotidiana (padrões de consumo que orientam certos estilos de vida, padrões de associação e de interação) é um domínio da análise de status.7

Contrariamente, estudos recentes realizados por pesquisadores sediados na Universidade de Manchester, e baseados na perspectiva analítica de Bourdieu, acentuam a importância da classe para a estruturação das práticas e escolhas de consumo e a relevância destas para a conformação das relações de classe, além da importância do capital cultural para a reprodução social (Savage et al.; 2007; Bennett­ et al., 2009). Segundo eles, o fato de diversos estudos não "encontrarem" evidências empíricas ligando classe social e práticas sociais (estilos de vida) é produto de escolhas metodológicas inadequadas, pouco propícias para captar essa relação. Fundamentalmente, dizem eles, um esquema de posições de classe construído com base em critérios objetivos (definidos pelo pesquisador) tende a diminuir a importância da cultura como um componente constitutivo das relações de classe e a negligenciar as práticas de classificação dos agentes sociais que delineiam fronteiras simbólicas e sociais. De forma a superar essa limitação (e, ainda, incorporar a concepção relacional e a ênfase sobre a autonomia dos campos sociais, que marcam a obra de Bourdieu), os autores utilizam um modelo indutivo de classe, em que se constrói um "mapa cultural" das práticas e gostos dos agentes sociais e, a partir daí, observam-se as prováveis fronteiras sociais demarcadas pelas tomadas de posição dos agentes no plano simbólico/cultural. Assim, essa estratégia metodológica busca incorporar de modo sistemático a cultura como um fator que ativamente conforma as relações de classe (Savage et al., 2007).

No principal estudo produzido pelos autores – Culture, Class, Distinction – há uma tentativa de investigar, ao modo de A Distinção, os fatores determinantes das práticas e gostos dos agentes sociais, sobretudo a relação entre, de um lado, preferências e escolhas nos campos culturais e, de outro, as relações de classe na sociedade britânica atual (Bennett et al., 2009). Embora os argumentos apresentados questionem alguns aspectos centrais à referida obra de Bourdieu (especialmente o argumento de que a classe é o fator primário de diferenciação social e, portanto, de conformação dos estilos de vida),8 eles também indicam, com base nas evidências produzidas, que existe, de fato, uma conexão relevante entre as práticas dos agentes e as classes sociais (relação que expressa uma homologia entre os princípios de organização das práticas em diferentes campos sociais com o campo das classes sociais), além de sublinhar a relevância do capital cultural como um recurso ou um trunfo para obtenção de ganhos em determinados campos sociais (ganhos que podem estar associados à reprodução de uma posição no campo). Fundamentalmente, o estudo sustenta que as práticas e gostos culturais continuam a demarcar divisões sociais (de classe e de outros tipos) e podem servir para a acumulação de capital cultural mobilizado em estratégias de reprodução social (Idem, pp. 251-259).

O estudo constrói "mapas culturais" – por meio da Análise de Correspondências Múltiplas (ACM) – com base em dados quantitativos obtidos através de um questionário especialmente desenhado para identificar três aspectos do capital cultural em sete campos culturais distintos (música, artes visuais, televisão, cinema, esportes, "alimentação fora" e leitura): participação (frequência de engajamento em alguma atividade), gosto (apreciação positiva ou negativa de um bem ou prática) e conhecimento. Além disso, o estudo utiliza dados qualitativos, obtidos através de entrevistas e grupos focais, de modo a apreender as modalidades da prática.9

Os "mapas culturais" permitem revelar os padrões de escolhas e de práticas culturais que opõem conjuntos de indivíduos (os entrevistados na amostra representativa). A principal oposição refere-se ao engajamento em práticas culturais (frequência de participação): de um lado, indivíduos fortemente engajados em um conjunto de atividades culturais que ocorrem especialmente fora do âmbito doméstico e, de outro, indivíduos largamente desengajados em relação a elas. Como ressaltam os autores,

[...] essa evidência é importante porque ela sugere que a principal divisão cultural na Grã-Bretanha contemporaneamente não reside na distinção entre "alta" cultura e cultura "popular". Em vez de opor formas culturais "legítimas" (ex.: ópera) a atividades 'populares' (tais como heavy metal e urban), [esse eixo] opõe aqueles que estão engajados em formas culturais estabelecidas e populares (música clássica e rock), de um lado, àqueles que participam raramente ou nunca (com poucas exceções como assistir TV por várias horas), de outro" (Idem, pp. 48-49, grifo no original, tradução livre).

A sobreposição das variáveis referentes ao perfil dos respondentes nos "mapas culturais" indica uma forte correlação entre a referida oposição (engajamento versus desengajamento cultural) e posição de classe. Os indivíduos em posições de classe superiores (ex.: profissionais) tendem a se engajar mais ativamente em atividades culturais que ocorrem fora da esfera doméstica do que aqueles em posições de classe inferiores (ex.: operários). Mais do que isso, a partir das evidências obtidas das pesquisas quantitativas e qualitativas, o estudo revela os contornos de uma classe executivo-profissional relativamente "coesa" (composta de grandes empregadores e gerentes/administradores em níveis hierárquicos superiores, profissionais de alto nível e profissionais de baixo nível), cuja formação se apoia no princípio da "abertura à diversidade" e num sentimento de competência cultural resultante da habilidade de lidar, de forma reflexiva, com as classificações culturais existentes. Uma orientação onívora em relação aos objetos culturais marca distintivamente essa classe em relação às demais: "as classes médias educadas buscam posicionar-se socialmente através da demonstração de competência em lidar com uma variedade de produtos culturais em um contexto em que conhecimento, informações e mídias proliferam [...]" (Idem, p. 178).

Consequentemente, essa orientação pode sustentar uma estratégia emergente de distinção social: em vez de se valorizar o controle da cultura legítima e uma orientação desinteressada – como se dava entre as frações dominantes na sociedade francesa da década de 1960 –, entre as classes "superiores" na Grã-Bretanha contemporaneamente, valoriza-se uma orientação que sublinha a "apreciação reflexiva, em um espírito de abertura, de uma diversidade de produtos culturais, mas isso continua a produzir divisões sutis além das quais não é respeitável ultrapassar" (Idem, p. 194).10

Como a "identidade" das classes é definida de maneira relacional, o padrão das "escolhas" de consumo dos indivíduos da "classe manual" é marcado pela diminuta participação nos campos culturais investigados e por preferências predominantemente centradas em objetos da cultura "popular" ou de "massa". Na verdade, o estudo revela um padrão de sociabilidade que se opõe, em diversos aspectos, àquele da classe executivo-profissional: entre os indivíduos de classe operária, "o maior papel da família e parentes tende a promover uma sociabilidade centrada na casa, baseada predominantemente nas tecnologias domésticas, enquanto as classes médias, com redes sociais mais dispersas, engajam-se mais prontamente em atividades que ocorrem fora de casa" (Idem, p. 71).

Para os autores, enfim, as práticas e os gostos culturais continuam a demarcar divisões sociais. Entre os membros da classe executivo-profissional, uma orientação onívora em relação aos objetos culturais, marcada por um ecletismo seletivo e pela habilidade de manipular classificações culturais, combinada a qualificações educacionais valorizadas e certo refinamento cultural derivado do monopólio da cultura "legítima" (este componente sendo mais fundamental entre as frações superiores), constituem a forma principal de articulação do capital cultural na sociedade britânica atual.

 

Problema de pesquisa e metodologia

Vemos, então, que há um dilema interpretativo importante no campo da análise de classes e nas ciências sociais mais amplamente: de um lado, há estudos que sublinham que a análise de classes pode revelar aspectos da sociabilidade cotidiana (como os padrões de consumo, lazer, padrões de interação e de associação etc.); de outro, há estudos que propõem um programa de pesquisa menos ambicioso para a análise de classe, qual seja, revelar as desigualdades nas chances de vida (sob suas diversas manifestações) que estão associadas às relações de classe.

Este artigo ocupa-se desse dilema, buscando revelar a possível associação entre práticas sociais e relações de classe. Do ponto de vista metodológico, este estudo utiliza um modelo indutivo de classes: em primeiro lugar, são observadas as práticas dos agentes sociais, como elas se distribuem relacionalmente no espaço e as possíveis fronteiras simbólicas que daí emergem; a partir disso, tenta-se evidenciar se tais fronteiras simbólicas demarcam divisões sociais significativas (entre classes e entre outros grupos sociais). Em outras palavras, o modelo teórico aqui empregado enfoca as fronteiras simbólicas que emergem das disputas em torno da apropriação de bens e práticas e que possivelmente demarcam divisões sociais.

A técnica estatística mais adequada a esse propósito é a Análise de Correspondências Múltiplas. A ACM permite analisar

[...] a associação entre duas ou mais variáveis categóricas ao representar as categorias [dessas] variáveis como pontos em um espaço bidimensional. As categorias com distribuições similares serão representadas como pontos que estão próximos no espaço e categorias que têm distribuições dissimilares estarão distantes umas das outras (Clausen, 1998, p. 2, tradução livre).

Essa técnica parte de uma tabela de contingência, em que as linhas representam indivíduos e as colunas representam respostas (modalidades) a questões (variáveis). Com base nessa tabela, examina-se "a relação entre as diferentes modalidades e [identificam-se] os eixos que separam as respostas relacionalmente [...] de modo a representar graficamente as distâncias simbólicas entre os itens" (Bennett et al., 2009, p. 46, tradução livre).

A interpretação (numérica e visual) dos eixos nos permite revelar os padrões de distribuição das categorias ou, em outros termos, as oposições entre elas. Como argumenta Benzécri, "interpretar um eixo implica descobrir o que é similar, de um lado, entre todos os elementos que estão à direita da origem e, de outro, entre todos os elementos que estão à esquerda dele; e expressar, com concisão e precisão, o contraste (ou oposição) entre os dois extremos" (1992, p. 405, apud Le Roux e Rouanet, 2004, p. 49, tradução livre).

Os espaços "simbólicos" obtidos com base nessa técnica são construídos a partir das relações mútuas­ entre as modalidades, quer dizer, não dependem da definição a priori dos determinantes das práticas sociais (e tampouco pressupõe relações necessárias entre as respostas a determinadas modalidades e os respondentes). Isso implica que a ACM permite construir um mapa das relações entre as escolhas ou práticas dos agentes (revelando os padrões de associação entre elas) sem supor "relações hierárquicas de dependência causal" (Bennett et al., 2009, p. 44, tradução livre). Nesse sentido, essa técnica difere dos "métodos sociológicos multivariados convencionais, que se preocupam predominantemente em estimar o impacto de certas variáveis causais sobre fenômenos específicos" (Idem, ibidem).

Por isso, essa técnica é mais adequada para operacionalizar a perspectiva relacional de construção dos "três espaços" (espaço social, espaço do habitus, espaço simbólico) presente nos estudos de Pierre Bourdieu: uma modalidade qualquer é interpretada com base em sua posição em relação às demais modalidades no espaço, ou seja, o significado e o valor dessa modalidade dependem de sua posição relativa no espaço. Então, as distâncias relativas entre as modalidades no espaço de correspondências podem revelar oposições entre elas e, possivelmente, entre conjuntos de agentes associados a elas.

Este artigo utiliza um banco de dados representativo da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) que traz informações sobre atividades de lazer, práticas de associação e interação social, valores (orientações normativas diante do trabalho, criação dos filhos, aborto etc.), entre outras coisas. Além das variáveis de "perfil sociodemográfico" do respondente, o banco traz informações sobre escolaridade e ocupação dos pais, o que permite investigar a importância da trajetória social para a conformação das práticas sociais.

Por se tratar de uma fonte de dados secundária – quer dizer, cuja construção não foi orientada pela problemática aqui definida –, há alguns limites que nos impedem de responder de forma adequada a algumas das questões colocadas pelo problema de pesquisa. Em primeiro lugar, há o limite da abrangência e representatividade dos dados: como se referem à RMBH, não é possível, do ponto de vista estatístico, generalizar os resultados empíricos para a sociedade brasileira.11 Além disso, os dados permitem apreender apenas uma dimensão da prática, que é a participação/engajamento (frequência absoluta e relativa). Não se possui informação sobre o gosto por bens ou práticas ou o conhecimento sobre eles (entre outras coisas, isso poderia revelar a importância das "marcas"). Assim, embora se possam diferenciar os indivíduos com base na frequência com que se engajam em uma atividade cultural, como ir ao cinema, não se podem captar as prováveis diferenças no gosto por filmes (filmes de ação, aventura, drama etc.) ou no conhecimento sobre o campo do cinema (diretores, atores, produções etc.). Por fim, por se tratar de uma pesquisa quantitativa, não se consegue apreender a chamada modalidade da prática que, como vimos, é um aspecto fortemente distintivo da sociabilidade cotidiana em sociedades de consumo de massa.

Por conta desses limites, o objetivo aqui é modesto, qual seja, investigar aspectos da sociabilidade cotidiana (práticas associadas a determinados estilos de vida e, mesmo assim, de forma aproximada, por não incorporar sistematicamente o gosto) e revelar se existe alguma relação significativa entre classe social (e outras categorias sociologicamente relevantes) e tais dimensões da prática social.

 

Resultados empíricos

O exame das evidências produzidas pela ACM revela alguns padrões de organização das escolhas dos indivíduos que podem ser satisfatoriamente interpretados utilizando-se apenas dois eixos: o primeiro contribui com 78% da variância total dos dados; o segundo contribui com cerca de 8% dela. A partir do terceiro eixo, tem-se um acréscimo relativamente irrelevante na "explicação" da variância total.12

Podemos observar um conjunto de oposições ao longo do primeiro eixo (Figura 1, ver Apêndice adiante). As questões referentes à posse de certos bens de consumo (carros, computador), ao engajamento em atividades culturais que ocorrem predominantemente fora do ambiente doméstico (cinema e teatro, restaurantes, prática de esporte etc.), ao interesse por política e a orientações morais são as variáveis que mais contribuem para o eixo. Talvez a oposição mais importante, pela quantidade de modalidades (e contribuições delas para a variância total do eixo), seja aquela entre engajamento em práticas culturais (frequência com que o indivíduo vai ao cinema, teatro ou restaurantes, lê livros, jornais ou revistas etc.), à direita do primeiro eixo, e desengajamento de tais práticas, à esquerda dele.

Assim, à direita do eixo, encontram-se as modalidades que indicam leitura frequente de livros ou revistas, leitura frequente de jornal, acesso à internet banda larga, idas frequentes ao cinema, teatro e restaurante, passeios em praças e a prática de esportes. Contrariamente, à esquerda do eixo, estão as modalidades que indicam leitura pouco frequente ou inexistente de livros, revistas ou jornais, idas pouco frequentes a restaurantes, cinemas ou teatro, praças, festas ou a casas de amigos, ausência de conexão de internet banda larga e prática pouco frequente de esportes.

Outra evidência empírica de diferenciação social ao longo do primeiro eixo diz respeito à posse de determinados bens de consumo13 que, por sua relativa raridade e/ou pela oportunidade da busca de exclusividade em um campo de inúmeras possibilidades, provavelmente abre espaço para a dialética entre distinção e imitação, entre inclusão e exclusão (Bourdieu, 2008).14 À esquerda do primeiro eixo, encontram-se as modalidades que indicam exclusão ou privação relativa em termos do consumo de alguns bens materiais, como a ausência de veículos ou computador, e a posse de residências relativamente menores, com não mais de sete cômodos; à direita dele, localizam-se as modalidades que indicam o consumo mais frequente de determinados bens materiais (ex.: dois ou mais carros) e de residências maiores (com mais de oito cômodos), com maior probabilidade de encontrarmos empregadas domésticas. De fato, a oposição entre as modalidades "emp.dom" (à direita do primeiro eixo, que evidencia a presença de empregada que realiza as tarefas relacionadas com o cuidado da casa) e "mulher" (à esquerda do eixo, que indica que as mulheres no núcleo familiar – esposa, filha etc. – assumem tais tarefas) indica provavelmente que ter uma empregada doméstica é um aspecto distintivo e também uma condição para estilos de vida distintivos, sobretudo no caso das mulheres.15

Além disso, há uma oposição baseada no interesse por política e na percepção sobre a relevância de diferentes questões políticas. Essa evidência sugere com toda probabilidade uma elevação da alienação política à medida que se vai da direita para a esquerda do primeiro eixo. À direita, estão modalidades que indicam interesse elevado por política (leitura frequente sobre política em jornais; conversa frequente sobre temas que envolvem política com amigos) e a valorização da participação política como uma questão prioritária (reivindicação de maior participação nos assuntos políticos); diferentemente, à esquerda do eixo, estão as modalidades que indicam pouco interesse por política (leitura pouco frequente sobre política em jornais ou conversas raras sobre o tema com amigos) e uma preocupação mais elevada com a inflação do que com a liberdade política.

Por fim, pode-se observar uma oposição em termos das características valorizadas em crianças: à esquerda do eixo, está a modalidade que indica que a obediência é a característica mais importante para as crianças, enquanto, à direita do eixo, está a modalidade que indica que a determinação é a característica mais valorizada nelas. A valorização diferencial de tais características sugere que existem diferentes orientações em relação à criação dos filhos como também padrões distintos de socialização entre o conjunto de indivíduos e famílias na sociedade.

Quando se considera o segundo eixo (Figura 2, ver Apêndice adiante), pode-se notar a presença de algumas modalidades já presentes na interpretação do primeiro eixo, indicando que elas contribuem significativamente para ambos os eixos. Talvez a principal oposição neste eixo seja aquela que contrapõe o engajamento em algumas práticas de lazer, como as que ocorrem provavelmente no contexto da vizinhança ou do bairro ou que estão associadas à "cultura de massa" (como ir a praças, festas ou casas de amigos e ouvir rádio etc.) e, de outro, o desengajamento em relação a essas atividades.

Os "mapas culturais" examinados anteriormente foram construídos com base nas posições relativas das modalidades de variáveis que buscam captar aspectos da sociabilidade cotidiana. Uma vez construído o espaço de correspondências, podemos definir as posições relativas dos indivíduos (segundo suas respostas às modalidades consideradas) e indicar a localização provável de categorias de indivíduos (segundo gênero, idade, raça, ocupação, escolaridade, renda etc.). A seguir, projetamos algumas dessas categorias sobre os mapas culturais examinados de forma a investigar possíveis correlações entre elas e os eixos considerados para interpretação. As variáveis sociodemográficas são incorporadas como suplementares, de forma a não afetar a distribuição das modalidades ativas no espaço de correspondências (Le Roux e Rouanet, 2004, p. 197).16 Quer dizer, a ACM não supõe qualquer relação necessária entre determinada prática (ex.: ir ao cinema) e categoria social (ex.: ser homem ou mulher). A partir desse procedimento, é possível revelar os padrões que diferenciam categorias de indivíduos (homens e mulheres, trabalhadores manuais e profissionais etc.) e captar – mesmo que de forma aproximada – alguns princípios que regulam as escolhas dos agentes sociais e que possivelmente conformam a sociabilidade cotidiana.

Na Figura 3, observamos que as categorias das variáveis "classe", "educação" e "renda" se distribuem claramente ao longo do primeiro eixo, que, como vimos, articula um conjunto de oposições relacionadas com o engajamento em práticas culturais, posse de alguns bens de consumo, interesse por questões políticas, orientações morais etc. De forma semelhante, as categorias da variável "raça" (codificadas binariamente: "branco" versus "não branco") também se distribuem ao longo do referido eixo, embora estejam relativamente mais próximas entre si do que as categorias das variáveis citadas acima. Em contrapartida, as modalidades da variável "idade" (especialmente os mais jovens, de um lado, e os mais idosos, de outro) se distribuem ao longo do segundo eixo, como se vê na Figura 4 (ver Apêndice adiante). As categorias de gênero estão relativamente próximas à origem dos planos, o que significa que homens e mulheres pouco se distinguem no que se refere às modalidades consideradas.

Observando mais detalhadamente as posições relativas das categorias de classe,17 notamos um padrão de distribuição bem definido: as categorias vinculadas ao trabalho manual e aquelas vinculadas ao trabalho não manual ocupam posições relativas opostas no espaço, com empregadores mais próximos aos profissionais. A distribuição das categorias ocupacionais no "mapa cultural" ao longo do primeiro eixo indica que os ocupantes das categorias manuais estão relativamente mais desengajados de atividades culturais ou de lazer (como ir a restaurantes, cinema ou teatro, ler livros, revistas ou jornal etc.), são relativamente mais alienados do ponto de vista político (conversam ou leem sobre política raramente), expressam orientações mais tradicionais em relação à criação dos filhos (por exemplo, valorização da obediência) e, por fim, estão mais frequentemente excluídos do consumo de alguns bens. Os profissionais e, em menor medida, os trabalhadores não manuais de rotina têm condições de vida e "estilos de vida" que se opõem, sob tais aspectos, àqueles das categorias manuais: posse mais numerosa de certos bens de consumo; engajamento cultural mais intenso (como idas frequentes a cinemas, teatros, restaurantes; leitura frequente de livros, revistas e jornais; prática de esportes etc.); interesse relativamente elevado por política e orientações mais "liberais" em face dos temas mencionados.18

As evidências apresentadas (limitadas como são pelos motivos já esclarecidos) parecem indicar, com muita probabilidade, que as classes constituem coletividades sociais. Por coletividade social entende-se que, embora as classes não sejam atores coletivos realmente mobilizados para ação, elas tampouco são apenas posições objetivas. Por se constituírem tanto no plano material quanto no plano cultural/simbólico, as classes conformam a sociabilidade cotidiana, afetando os padrões de interação e de associação e a configuração dos estilos de vida. Por isso, é possível identificar as classes por meio da investigação das práticas sociais em domínios diversos da vida social e dos princípios que as orientam (obviamente, revelar os princípios da prática e as disposições para agir exige um esforço de investigação que está bem além dos limites deste artigo). Nesse sentido, tais evidências convergem com aquelas de outros estudos que abordam aspectos dos estilos de vida e da sociabilidade cotidiana que distinguem as classes sociais. Gostaria de sublinhar dois desses aspectos, que são igualmente relevantes neste artigo: o engajamento cultural e a orientação em relação à criação dos filhos. Vimos que a categoria dos profissionais ocupa posição relativa oposta, ao longo do primeiro eixo, àquela dos trabalhadores manuais, indicando que seus ocupantes se engajam mais ativamente em atividades culturais, sobretudo as que ocorrem fora da esfera doméstica. Como demonstram outros estudos sobre o tema, o desengajamento das camadas manuais em relação a certas atividades culturais (como ir a restaurantes, cinema, teatro, ler frequentemente etc.) tem a ver não apenas com a escassez de recursos monetários, mas, sobretudo, com a sensação desses indivíduos de se "estar fora de lugar" em contextos de ação desse tipo – em que prevalecem os formalismos e que exigem tipicamente formas de controle mais rigorosas sobre o comportamento – e com a ausência de determinadas disposições para decifrar os códigos inscritos nos bens culturais.19

Ademais, a posição relativa dos profissionais ante os trabalhadores manuais indica que aqueles, mais frequentemente do que estes, tendem a dar mais valor à determinação das crianças, enquanto os trabalhadores manuais tendem a valorizar mais fortemente a obediência delas. A valorização diferencial de qualidades nas crianças entre os ocupantes dessas posições de classe sugere a existência de diferenças de classe no processo de socialização. Algumas décadas atrás, Bernstein (1971) chamava atenção para as diferenças existentes na socialização de crianças com origem na "classe média" e na classe operária e o impacto desses processos sobre a emergência de formas distintas de uso da linguagem (códigos) e de tipos distintos de orientação em relação aos objetos sociais (ver também Lareau, 2000, 2011; Lareau e Weininger, 2008; Devine, 2004; Reay, 2010).

Por fim, notemos que a distribuição das modalidades da variável "idade" ao longo do segundo eixo do espaço de correspondências (Figura 4) revela prováveis diferenças nos padrões de sociabilidade em termos geracionais. Os mais jovens se engajam mais intensamente em atividades de lazer realizadas provavelmente no contexto da vizinhança ou do bairro (como ir a praças, festas ou à casa de amigos) e em atividades marcadas pela "cultura de massa", como revela a prática frequente entre eles de ouvir rádio por mais de duas horas diariamente (provavelmente programas musicais).20

 

Conclusões

Nesta seção, gostaria de trazer à discussão duas questões centrais à análise de classe: a primeira delas concerne à delimitação das fronteiras de classe; a outra, à mobilidade intergeracional. Como sugeri anteriormente, os estudos atuais de classe utilizam duas maneiras distintas de delimitar as fronteiras entre as posições de classes: de um lado, há estudos que empregam essencialmente um modelo dedutivo, em que o pesquisador define a priori, com base em critérios objetivos (e teoricamente informados), onde se localizam tais fronteiras (ex.: a perspectiva neoweberiana geralmente diferencia posições de classe com base nas relações de emprego e status empregatício); de outro lado, há estudos que utilizam um modelo indutivo, em que o pesquisador identifica as prováveis fronteiras sociais e simbólicas com base na observação das práticas dos agentes em domínios diversos da vida social e na investigação dos princípios que as regulam. Neste caso, a cultura é tomada como um elemento que conforma dinamicamente as relações de classe. Empregando este último modelo, sugiro uma maneira distinta de conceber a estrutura de classes (tendo em mente, como já ressaltado, que os dados não nos permitem apreender algumas diferenciações sociologicamente relevantes nas práticas sociais e que eles são representativos da região metropolitana de Belo Horizonte, e não da sociedade brasileira).

Para realizar esse exercício, utilizo um esquema mais desagregado de posições ocupacionais (de fato, a premissa que orienta o modelo indutivo supõe que se utilize um esquema de posições o mais desagregado possível), com nove agregados ocupacionais: profissionais (ocupantes de profissões credenciadas), administradores (ocupantes de posições hierárquicas superiores em empresas, diferenciados segundo a escolaridade e renda), empregadores com dez empregados ou mais e aqueles com menos de dez, trabalhadores não manuais de rotina, trabalhadores manuais qualificados e não qualificados e trabalhadores urbanos por conta própria.21

A ACM permite definir as posições relativas dos indivíduos no espaço de correspondências segundo suas respostas às modalidades das variáveis consideradas. Ademais, essa técnica torna possível identificar a porção do espaço em que determinada categoria de indivíduos (diferenciados segundo gênero, idade, ocupação, raça, escolaridade, renda etc.) está concentrada. Nas Figuras 5 a 13 (ver adiante Apêndice), podemos observar as elipses que concentram os indivíduos dos diferentes agregados ocupacionais mencionados. Vemos que as elipses que concentram os profissionais, administradores de escolaridade e renda mais elevadas e empregadores com mais de dez empregados se sobrepõem em grande medida, o que indica que os ocupantes desses agregados se encontram em posições relativas próximas no espaço de correspondências, à direita do primeiro eixo. Por sua vez, as elipses que concentram os ocupantes de posições manuais (trabalhadores qualificados, não qualificados e por conta própria) se sobrepõem mais à esquerda do referido eixo. Ademais, há elipses que se estendem ao longo de todo o eixo, sobretudo aquelas que concentram os empregadores com menos de dez empregados e a fração dos administradores de menor escolaridade e renda. A extensão e o formato da elipse indicam que os ocupantes de tais categorias estão em posições relativas não muito próximas entre si, quer dizer, não se assemelham tanto em termos das modalidades consideradas no primeiro eixo.22 Os trabalhadores não manuais de rotina, diferentemente, ocupam mais claramente uma posição intermediária.

Com base nessas observações, proponho, como hipótese, que se tome a estrutura de classe da seguinte forma: na região "superior" (aquela mais à direita do primeiro eixo), encontra-se uma classe composta, sobretudo, por profissionais credenciados, empregadores mais capitalizados e possivelmente mais escolarizados e ocupantes de posições hierárquicas superiores em empresas de médio e grande porte; na região "inferior" (mais à esquerda do eixo), encontramos uma classe cujos ocupantes são essencialmente trabalhadores manuais qualificados e não qualificados, e trabalhadores urbanos por conta própria. Na região intermediária, localiza-se uma classe provavelmente composta por empregadores menos capitalizados e escolarizados, ocupantes de posições hierárquicas em organizações de pequeno porte e trabalhadores não manuais de rotina.23 Diferentemente dos estudos de classe de Bourdieu (e de forma similar àquele de Bennet et al.), este esquema sustenta que as diferenças empíricas (possivelmente oposições que se manifestam em fronteiras simbólicas e divisões sociais) entre as classes podem ser representadas ao longo de um único eixo, provavelmente expressando o volume global de capital (econômico e cultural) possuído pelos agentes.24 Pesquisas posteriores poderiam investigar se tal evidência é simplesmente um produto das limitações empíricas deste estudo.25 O passo seguinte, que depende de pesquisas qualitativas (e também pesquisas quantitativas que permitem diferenciações mais sutis), consistiria em investigar se tais classes de posições contíguas constituem, de fato, coletividades de classe por meio da identificação do elemento que medeia as homologias entre classes de posições e estilos de vida, ou seja, o habitus, os esquemas de ação, classificação e avaliação que orientam as "escolhas" dos agentes.

Por fim, gostaria de investigar a dimensão diacrônica que constitui as relações de classe. Como se sabe, diversos estudos de classe conferem centralidade ao exame da mobilidade dos agentes entre posições de classe. Nos estudos de Bourdieu, o conceito de trajetória modal é empregado para captar as modalidades típicas (mais frequentes) de apropriação do capital econômico e cultural pelos agentes. A modalidade de apropriação do capital, por envolver uma determinada trajetória pelo espaço social, conforma os esquemas de percepção, ação e avaliação (habitus) incorporados pelos agentes e, portanto, estrutura as práticas sociais.

Quando projetamos as modalidades de mobilidade social sobre o espaço de correspondências (Figuras 14 a 16, ver adiante Apêndice), podemos captar essa relação entre trajetória e prática sugerida por Bourdieu.26 Como se vê, os indivíduos em ocupações não manuais cujo pai também era trabalhador não manual estão concentrados especialmente à direita do primeiro eixo, enquanto os indivíduos em ocupações manuais cujos pais também eram trabalhadores manuais estão concentrados à esquerda do eixo. Isso significa que os trabalhadores não manuais de (pelo menos) "segunda geração" têm maior probabilidade de estarem associados às modalidades localizadas do lado direito do eixo: participação frequente em atividades culturais, posse de certos bens de consumo, interesse por política etc. Os trabalhadores manuais de "segunda geração" estão tipicamente "excluídos" dessas práticas (mais do que trabalhadores manuais cujos pais eram trabalhadores não manuais). Embora não seja possível investigar nos limites deste estudo os elos que ligam trajetória e prática, é muito provável que a trajetória – que envolve modalidades típicas de apropriação do capital e de incorporação de disposições para ação, percepção e avaliação – conforme fortemente os padrões de sociabilidade cotidiana. Em outros termos, por ser um fator que afeta a probabilidade de diferentes escolhas de consumo e, por isso, que configura diferentes estilos de vida, a trajetória social pode ser considerada uma propriedade relacional que distingue conjuntos de agentes sociais.

 

Notas

1 Embora de uma perspectiva diversa, os estudos sobre os "trabalhadores afluentes" empregavam um modelo de análise de classe que buscava revelar as articulações empíricas entre três dimensões da ordem de estratificação social: a dimensão econômica, a relacional e a normativa (Lockwood et al., 1969; ver também Lockwood, [1958] 1989).

2 Para uma descrição mais detalhada dos contornos do programa de pesquisa proposto pelos autores associados a essa perspectiva, ver Goldthorpe e Marshall ([1992] 1997).

3 Os intermediários culturais são aqueles que atuam especialmente nas profissões de apresentação e representação (publicitários, especialistas em relações públicas, moda e decoração) e nas profissões dedicadas à venda de bens e serviços simbólicos (conselheiros conjugais, dietéticos, apresentadores de rádio e TV etc.) (Bourdieu, 2008).

4 Ver também os debates em torno da emergência dos onívoros culturais (Warde, Martens e Olsen, 1999; Peterson, 2005; Wade, Wright e Gayo-Cal, 2007).

5 Ademais, os estudos de classe dessa perspectiva têm evidenciado que as trajetórias educacionais e as chances de mobilidade social dos indivíduos variam fortemente segundo a origem de classe (Goldthorpe, 2007).

6 Tais evidências, segundo os autores, questionariam o argumento acerca da existência de homologias entre estilos de vida e classes sociais postulado por Bourdieu em seus estudos. Ao mesmo tempo, a padronização do consumo cultural, como na oposição entre onívoro e unívoro, indica, contrariamente às teses associadas à emergência da pós-modernidade ou modernidade tardia, que a construção de estilos de vida não é algo essencialmente individualizado.

7 Esse postulado marca uma posição mesmo em relação a estudos anteriores nessa perspectiva, que tomavam as classes como conjuntos de indivíduos e famílias distinguidos sob aspectos econômicos, normativos e relacionais. Entre outros, ver Lockwood ([1958] 1989).

8 Em relação ao primeiro ponto, o estudo mostra que gênero e idade são aspectos que estruturam as práticas sociais independentemente da posição de classe do agente.

9 Esse conceito capta os modos pelos quais um objeto é apropriado e, dessa forma, integrado a um estilo de vida (Bourdieu, [1979] 2008, pp. 461-476).

10 Esse argumento qualifica a tese frequentemente associada à emergência do onívoro cultural acerca da perda de relevância do gosto para a demarcação de fronteiras entre os agentes sociais. Para uma revisão desse debate, ver Peterson (2005).

11 A localidade de residência do indivíduo (e suas propriedades relacionais, como o grau de proximidade em relação aos principais centros urbanos) é um dos fatores determinantes das variações nas "escolhas" dos agentes, uma vez que a prática é – se tomarmos os argumentos de Bourdieu – o produto do "encontro" entre disposições incorporadas e possibilidades objetivas. Por isso, é muito provável que a enorme diversidade regional na oferta de bens culturais e de outros tipos esteja associada a variações nas práticas dos agentes.

12 Para uma explicação sobre os critérios de retenção e interpretação dos eixos, ver Le Roux e Rouanet (2004, p. 49).

13 Na maior parte dos estudos de estratificação social, a posse de veículos ou de imóveis é interpretada como um indicador de patrimônio (portanto, de acumulação material) e do fluxo de renda ao longo da vida, que é um fator determinante das chances de vida dos indivíduos e famílias. Ao mesmo tempo, isso pode ser tomado como um índice de consumo, que permite identificar um determinado sistema de escolhas constitutivo de um estilo de vida. Quer dizer, o modo de utilização não esgota o uso social que se faz do bem: assim, um veículo de determinada marca, tipo, tamanho, cor, preço etc. é frequentemente a materialização de um determinado gosto que é o princípio de inúmeras outras escolhas. De forma similar, a posse de "residências mais amplas" (uma das modalidades aqui utilizadas na ausência de dados quantitativos e qualitativos mais detalhados) pode ser entendida como um indicador de "bem-estar material" e, também, como condição para a materialização de um conjunto de escolhas, desde a mobília até a arte, que expressam e legitimam um determinado gosto e estilo de vida. Obviamente, os dados aqui não nos permitem verificar esses argumentos de forma mais aprofundada.

14 Pensemos nos inúmeros usos sociais ou modos de apropriação do carro.

15 As posições relativas das modalidades mencionadas provavelmente indica que a reivindicação de autonomia de gênero está baseada em forte desigualdade de classe (agradeço a um leitor anônimo por este comentário).

16 Tais modalidades são chamadas de "ativas", pois são elas as consideradas pela ACM para a construção do espaço de correspondências e para a definição das posições relativas das modalidades.

17 As categorias de classe são derivadas de agregados ocupacionais. Devido ao tamanho relativamente pequeno da amostra, distinguem-se cinco agregados ocupacionais ou posições de classe: profissionais (entre os quais estão incluídos professores universitários, ocupantes de posições hierárquicas elevadas com ensino superior e empregadores em profissões credenciadas com 1 ou 2 empregados), empregadores (com qualquer número de empregados, exceto os incluídos na categoria anterior), trabalhadores não manuais de rotina (entre os quais se incluem professores, técnicos e administradores sem ensino superior), trabalhadores manuais (em ocupações que exigem maior ou menor qualificação e de diferente status empregatício). Por representarem uma fração pouco relevante da população empregada na Região Metropolitana de Belo Horizonte, os trabalhadores agrícolas foram incluídos nessa última categoria.

18A investigação dos campos de produção é essencial para revelar as possibilidades de materialização das disposições e do gosto nos traços distintivos dos estilos de vida.

19 Outros aspectos do consumo de um bem cultural, como o gosto e o conhecimento sobre o campo da produção (ex.: campo da arte), podem ser ainda mais distintivos do que o aspecto da participação ou engajamento. Entre outros, ver Bourdieu (2008), Bennett et al. (2009) e Warde, Martens e Olsen (1999).

20 Se os dados permitissem diferenciar o gosto por diferentes tipos de programa de TV ou por diferentes estilos de música ou de filme, poderíamos captar mais claramente a idade como um princípio conformador das práticas sociais.

21 De forma a tentar captar a provável diferenciação entre os ocupantes da categoria administradores segundo a hierarquia ocupacional e o tamanho da organização, proponho uma distinção entre os que possuem, pelo menos, ensino superior e têm renda do trabalho acima de 10 salários-mínimos e os que possuem escolaridade até o ensino médio e renda inferior àquela. Pelo fato de utilizar uma amostra relativamente pequena, a desagregação resultou em categorias com número reduzido de ocupantes.

22 É provável que isso reflita a dificuldade em homogeneizar as categorias de empregadores e administradores em termos das propriedades que os caracterizam e os distinguem das demais categorias.

23 Obviamente, a "elite" está ausente desse esquema devido à dificuldade de captá-la em pesquisas quantitativas por amostragem.

24 De fato, as classes sociais são, em um "primeiro momento", posições no espaço social construído segundo suas propriedades atuantes (porque permitem aos agentes exercerem poder sobre outros). Esta pesquisa – dadas as limitações já mencionadas – permitiu captar uma das propriedades do espaço social, qual seja o volume de capital econômico e cultural. Por isso, os agregados ocupacionais podem ser vistos como indicadores das localizações relativas no espaço social, pois as ocupações geralmente indicam – sobretudo em sociedades capitalistas – a participação relativa dos agentes na apropriação de capital econômico e cultural.

25 De fato, é muito provável que eixos adicionais (reveladores das propriedades atuantes) que distinguem as classes e suas frações possam ser identificados com base em dados acerca do gosto por determinados bens, marcas etc.

26 Devido ao tamanho da amostra, emprego quatro categorias de mobilidade social: trajetória ascendente que cruza a fronteira entre trabalho manual e não manual (incluídos aqui os empregadores), trajetória de reprodução no trabalho não manual, trajetória de reprodução no trabalho manual e trajetória descendente que cruza a fronteira entre trabalho manual e não manual.

 

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Apêndice

Foram considerados 894 casos para análise das modalidades ativas, eliminando aqueles em que havia uma ou mais respostas inexistentes. No caso das modalidades suplementares (que não são incluídas para determinar as distâncias relativas entre as modalidades ativas e os eixos que as separam), foram excluídas da representação gráfica as categorias de resposta inexistente.

 

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Legenda: Cinema++: vai frequentemente ao cinema ou ao teatro; Emp.dom: presença de empregada que cuida das tarefas domésticas; Int+: possui internet banda larga; Jornal++: lê frequentemente o jornal; Rest++: vai frequentemente a restaurantes ou bares; >7como: posse de residência com oito a quinze cômodos; Esporte++: pratica frequentemente atividades esportivas ou exercícios físicos; Obed-: não considera obediência uma qualidade importante nas crianças; Part.pol: considera que o aumento da participação política é a questão política mais relevante; Cinema+: vai ao cinema ou ao teatro com alguma frequência; Le.pol+: lê sobre política frequentemente; Conv.pol: conversa sobre política frequentemente; Praça+: vai a praças com alguma frequência; Trab-: trabalhar menos é importante para melhor qualidade de vida; Festa-: não frequenta festas ou vai raramente; Amigos-: não vai à casa de amigos ou vai raramente; Leitura-: não se engaja em atividades de leitura ou faz raramente; Praça-: não frequenta praças ou vai raramente; Rest-: não frequenta restaurante ou vai raramente; Jornal-: não lê jornal ou lê raramente; Cinema-: não frequenta cinema ou teatro ou vai raramente; Esporte-: não pratica esportes ou exercícios ou faz raramente; Le.pol-/conv.pol-: não lê ou conversa sobre política ou faz raramente; Deter-: não considera a determinação uma qualidade importante para as crianças; Obed+: considera a obediência uma qualidade importante para as crianças; <7como: posse de residências com, no máximo, sete cômodos; Comp-: ausência de computador na residência; int-: não possui internet banda larga; Carro-: ausência de ­veículo próprio; Inflação: considera a inflação a questão política mais importante.

 

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Legenda: Radio++: ouve rádio por algumas horas diariamente; Praças++: vai a praças com bastante frequência; Praça+: vai a praças com alguma frequência; Jornal+: lê jornal com alguma frequência; Festas++: vai a festas com bastante frequência; Cacho+: vai a cachoeiras com alguma frequência; Amigos+: vai a casa de amigos com alguma frequência; Leitura+: lê livros ou revistas com alguma frequência; Inde-: não considera a independência uma qualidade importante para as crianças; Radio-: não ouve rádio; Vizinho+: possui amigos na vizinhança; Amigos+: frequenta a casa de amigos; Vizi-: raramente pede favores a vizinhos; Comp-: não possui computador em casa; Igreja++: vai frequentemente à igreja; Vizi+: pede favores frequentemente aos vizinhos; Cacho+: vai a cachoeiras com alguma frequência; Igreja-: não vai a igrejas ou vai raramente; Esporte-: não pratica esportes ou pratica raramente; Festas-: não frequenta festas ou frequenta raramente; Amigos-: não frequenta a casa de amigos ou frequenta raramente; Radio-: ouve rádio com pouca frequência; Praça-: não frequenta praças ou frequenta raramente; Jornal-: não lê jornal ou lê raramente; Vizinho-: não possui amigos na vizinhança; Inde+: valoriza a independência como qualidade das crianças. >7como: possui residência com mais de sete cômodos; Comp+: possui computador em casa.

 

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Legenda: PFR: profissionais; EMP: empregadores; TNM: trabalhadores não manuais; TM: trabalhadores manuais; FI: ensino fundamental incompleto; FC: ensino fundamental completo; MC: ensino médio completo; SUP: ensino superior completo; >1/2sm: renda familiar per capita de até meio salário-mínimo; 1/2-1sm: renda familiar per capita de ½ a 1 sm; 1-2sm: renda familiar per capita de 1 a 2 salários-mínimos; 2-3sm: renda familiar per capita de 2 a 3 salários-mínimos; 3-5sm: renda familiar per capita de 3 a 5 salários-mínimos; +5sm: renda familiar per capita superior a cinco salários-mínimos.

As Figuras 5 a 13 representam elipses de concentração das categorias ocupacionais. Os pontos em destaque situam os indivíduos que ocupam tais categorias no espaço de correspondências. Qualquer discrepância entre o número de pontos e as distribuições apresentadas na tabela anterior resulta do ajuste ao peso dos casos.

As Figuras 14 a 16 representam as elipses das categorias de mobilidade social, respectivamente­ "reprodução em posição de trabalhador não manual",­ "reprodução em posição de trabalhador manual" e "trajetória descendente para posição de trabalhador manual". Os pontos em destaque situam os indivíduos que ocupam tais categorias no espaço de correspondências.

 

 

Artigo recebido em 07/02/2011
Aprovado em 12/07/2012

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