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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909

Rev. bras. Ci. Soc. vol.28 no.81 São Paulo fev. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092013000100016 

RESENHAS

 

Riqueza e rigor científico das abordagens qualitativas

 

 

Lorenzo Frangi

 

 

Giampietro GOBO. Doing ethnography, Thousand Oaks, CA, Sage, 2008. 376 páginas.

Não se pode produzir conhecimento científico sem que antes se saiba como produzir tal conhecimento. O desenvolvimento das ciências sociais é marcado por uma disputa interna acerca da metodologia mais adequada para o estudo dos fenômenos sociais e, sobretudo, da validade dos resultados obtidos com a utilização de diferentes métodos e técnicas de pesquisa. Em particular, os defensores das abordagens marcadamente quantitativas têm refutado os métodos qualitativos de pesquisa baseados em argumentos que colocam em suspeita a estrutura e o rigor científico pelo qual o conhecimento é produzido através desses métodos.

Muito embora não seja uma questão nova, trata-se de um debate que não se esgota. Ao contrário, demonstra sua vitalidade e atualidade a cada nova contribuição. Um exemplo é o livro Doing ethnography, do sociólogo italiano Giampietro Gobo, que discorre detalhadamente sobre os aspectos metodológicos que, ao longo de uma história de mais de um século, estruturam a pesquisa etnográfica e se inserem no mais amplo background das abordagens qualitativas. A sistemática e ampla análise contemplada nesse trabalho contribui para a reavaliação das argumentações contrárias às abordagens qualitativas, demonstrando como a etnografia se estruturou a partir de rigor científico próprio, nada inferior a outras abordagens de pesquisa, alimentada por uma reflexividade específica acerca da relação entre teorias e técnicas e entre estas e as práticas de pesquisa.

A análise dessas relações é explorada pelo autor, com base tanto em pesquisas clássicas que marcaram a história da etnografia como por aquelas que representam novas fronteiras de estudos, ressaltando a sólida estrutura que envolve essas pesquisas, o grande aporte que oferecem ao debate metodológico das ciências sociais e o seu potencial desenvolvimento nos contextos contemporâneos.

Com um conteúdo estruturado de forma didática, o livro pode ser considerado um instrumento valioso de orientação para estudantes que estão iniciando suas atividades de pesquisa ou docentes interessados na abordagem e no aprofundamento de aspectos metodológicos nas disciplinas que ministram. Duas características centrais fazem dessa obra uma ferramenta útil para esses públicos. Por um lado, reúne de maneira sistemática e bem organizada um material detalhado que explora as potencialidades e os limites do método etnográfico, abordando múltiplos aspectos de exemplos contidos em pesquisas etnográficas de grande reconhecimento no campo das ciências sociais e também de casos retirados de estudos sobre a vida cotidiana. Os exemplos espalham-se ao longo dos capítulos ou em quadros analíticos específicos. Esse vasto material, por sua vez, estimula a reflexividade analítica do leitor, fornecendo elementos que o auxiliam a refletir com maior propriedade sobre a escolha metodológica, as vantagens e os aspectos alinhados à prática etnográfica, assim como das novas fronteiras abertas no debate acadêmico internacional. Outro aspecto que reforça o didatismo do livro é a retomada ao final de cada capítulo dos principais conceitos trabalhados, com indicação de leituras adicionais sugeridas conforme a característica do leitor – não graduado, graduado ou pesquisador especialista – além de testes de autoavaliação sobre a compreensão do conteúdo abordado.

O livro é composto por quatro partes. A primeira situa a etnografia no panorama dos métodos de pesquisa das ciências sociais e discorre sobre os principais momentos de desenvolvimento histórico e da sua consolidação como um "saber fazer" específico de pesquisa. Além da apresentação das grandes escolas que marcaram o nascer dos estudos etnográficos (como a escola de Chicago, o interacionismo, a grounded theory), também abarca os desenvolvimentos mais recentes ("etnografia da recepção" nos estudos das mídias, "etnografia feminista" e "etnografia pós-moderna") e as novas fronteiras do campo ("etnografia global" e "etnografia institucional"). A primeira parte finaliza destacando a importância do desenho de pesquisa, na atenção adequada e cuidadosa à conceituação do fenômeno a ser estudado, à forma de operacionalização e definição da amostra. O autor igualmente estimula o pesquisador a refletir sobre a identificação e o enfrentamento dos possíveis vieses de pesquisa. Para tal são analisadas as potencialidade e limitações de diversos tipos de amostras, participação e envolvimento de pesquisadores, contribuindo para a conscientização do pesquisador a respeito da precisão de certas escolhas e práticas de pesquisa.

O pensar por variáveis e hipóteses não é descartado, mas, ao contrário, assumido pelo autor como parte inerente a qualquer pensar e fazer científico; contudo, inserido em uma forma de proceder não padronizada (como o fazem as abordagens quantitativas), mas construída ad hoc em relação ao contexto ao qual o pesquisador se debruça. Nesse sentido, é interessante destacar a ênfase dada ao desenho da pesquisa etnográfica como um processo em espiral, no qual uma subsequência de conceitos, hipóteses e indicadores encontram refinamento e foco ao longo do desenvolvimento da pesquisa.

A segunda parte do livro delineia os aspectos mais comuns da fase empírica do estudo etnográfico. Inicialmente, discute o acesso ao campo e os problemas éticos implicados, para depois analisar aspectos referentes aos procedimentos de observação, "como" e "o que" observar, reservando particular atenção a contextos, discursos e estruturas sociais. Na sequência, descreve as técnicas para descobrir as convenções e os significados compartilhados em um âmbito social específico. Novamente o caráter didático do livro se sobressai nos capítulos dedicados à entrevista etnográfica, em que detalha características e dinâmicas de entrevista, e às técnicas de organização e estruturação do diário de campo, ponderando sobre as possibilidades de trabalhar com elaborações estatísticas etnográficas baseadas em uma proposta de contar em vez de mensurar.

Na terceira parte, o trabalho detém-se no processo de análise do material empírico, esmiuçando com exemplos o complexo problema de desconstrução, construção e confirmação para "documentar" uma hipótese e formular uma teoria. Importante nessa parte é a discussão sobre a legitimação de um estudo, destacando a imprescindível condição de atenção analítica rumo ao "fazer pesquisa", da rigorosidade metodológica no proceder etnográfico e da conceituação apropriada como bases importantes para garantir a consistência das generalizações de tipo qualitativo.

Na parte final, Audiences, o autor trata da comunicação dos resultados e dos problemas relativos à escrita etnográfica, analisando vários estilos e os estímulos reflexivos fornecidos ao pesquisador pelo processo de escrita. Gobo sublinha como a ­finalização do trabalho de campo também faz parte de um processo, pois deixar o campo não é tarefa­ simples. Não se trata de "capturar e escapar". A própria forma de encerramento do campo deve ser problematizada pelo pesquisador. Com uma densida­de material menor do que as partes anteriores, o último capítulo discute as novas oportunidades de aplicação da observação etnográfica, dos possíveis desdobramentos metodológicos e dos objetos de pesquisa em uma sociedade que cada vez mais pode ser definida como "sociedade da observação".

O livro tem o mérito de apresentar uma reflexão crítica acurada de uma vasta e reconhecida produção etnográfica, constantemente expondo as conexões entre teorias e práticas de pesquisa; entre o "conhecer" e o "como conhecer". Ao estruturar toda a discussão na experiência etnográfica, permite ao leitor/pesquisador seguir um eixo norteador claro e consistente, fornecendo instrumentos e sugestões para o enfrentamento adequado e reflexivo dos diversos contextos e fases de uma pesquisa.

Na ampla abordagem proposta por Gobo, está ausente um aspecto relativo à condução e comunicação dos resultados de pesquisa etnográfica: trata-se do amplo espaço de significados subjacentes à "coragem" do pesquisador. Refere-se às motivações subjetivas do pesquisador envolvidas no processo de pesquisa.

Como poderíamos ter pesquisas fundamentais acerca da marginalidade social se os etnográfos não tivessem tido a coragem de acessar esse tipo de campo? E como poderíamos dispor de etnografias tão ricas e complexas se os pesquisadores não tivessem tido a coragem de persistir na contínua, e às vezes exaustiva, espiral de revisão das relações entre conceitos, hipóteses e interpretações dos fenômenos? Como, ainda, garantir elementos, além da fundamental rigorosidade metodológica, de legitimação da etnografia como método estruturado, sem uma boa dose de coragem para enfrentar as críticas e desconfianças comumente apontadas por pesquisadores quantitativos? Isso talvez mereça uma atenção analítica mais profunda, que ajude a esclarecer quais influências a dimensão da coragem pode ter no "conhecer como" e no "conhecer o que" das etnografias.

A qualidade e a relevância científica no campo das ciências sociais de Doing ethnography têm sido reconhecidas por conta de sua publicação em diversos idiomas. Aguardamos, pois, a oportunidade para uma tradução na língua portuguesa.

 

 

Lorenzo Frangi é pós-doutorando na HEC-Montréal, Lecturer na Universidade de Montreal e pesquisador do CRIMT, E-mail: <lorenzo.frangi@hec.ca>.

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