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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909

Rev. bras. Ci. Soc. vol.28 no.83 São Paulo out. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092013000300002 

ARTIGOS

 

Elogio da Sociologia: discurso de aceitação da Medalha de Ouro do CNRS*

 

In praise of Sociology: acceptance speech for the Gold Medal of the CNRS

 

Éloge de la Sociologie: discours d'acceptacion de la Médaille d'Or du CNRS

 

 

Pierre Bourdieu

 

 


RESUMO

Trata-se de discurso proferido por Pierre Bourdieu após o recebimento da Medalha de Ouro do Centre National de la Recheche Scientifique (CNRS), a mais importante distinção científica da França. Bourdieu realiza aqui um elogio à sociologia. Discute o status de ciência da disciplina, sempre alvo de polêmicas. Para que possa ser efetivamente uma forma de conhecimento autônoma e cumulativa, a sociologia, segundo Bourdieu, deve ser necessariamente reflexiva, ao tomar-se como objeto e empregar os instrumentos de conhecimento para revelar os próprios efeitos sociais que produz. Daí a importância que adquire a sociologia para a compreensão das demais ciências, pois traz à tona o inconsciente recalcado na lógica social de qualquer conhecimento científico. Sociólogos e historiadores, ao analisarem os mecanismos sociais que regem o funcionamento do mundo da ciência, podem contribuir, assim, para um controle coletivo capaz de fazer frente à arrogância cientificista. Sem sucumbir às pretensões proféticas, o sociólogo tem o direito de reivindicar a função exercida pelos demais cientistas, no sentido de dar respostas precisas e verificáveis nos domínios restritos em que trabalha. Mas não deve assumir o papel do expert a serviço dos poderes. Pelo contrário, segundo Bourdieu, a sociologia deve ser sempre um contrapoder crítico, em oposição aos poderes que se apoiam em ciências, reais ou supostas, para exercer ou legitimar sua existência.

Palavras-chave: Sociologia da ciência; Sociologia reflexiva; Consagração; Poder; Ciência e política.


ABSTRACT

The text is a transcription of Pierre Bourdieu's speech by occasion of the reception of the Gold Medal awarded by the Centre Nationale de la Recherche Scientifique (CNRS), the most important scientific distinction in France. Bourdieu develops here a discourse in praise of sociology, discussing its status as science, always subjected to controversy. According to Bourdieu, In order to be effectively an autonomous and cumulative form of knowledge, sociology must be necessarily reflexive, taking itself as an object and employing the instruments of knowledge in view of revealing the social effects generated by its own production. Hence, the importance of sociology for the understanding of the other sciences, for it draws forth the repressed unconscious in the social logic of any scientific knowledge. In analyzing the social mechanisms that govern the functioning of the world of science, sociologists and historians can contribute to a collective control able to confront the arrogance of scientism. Without succumbing to prophetic pretensions, the sociologist has the right to claim for the function exerted by the other scientists, in the sense of giving precise and verifiable answers in the restraint domains in which he works. But he should not assume the role of an expert at the service of the powers. On the contrary, according to Bourdieu, sociology should always be a critical counter-power, in opposition to the powers based on sciences -real or supposed - in order to carry out its existence or legitimize it.

Key-words: Sociology of Science; Reflexive Sociology; Consecration; Power; Science and Politics.


RESUMÉ

Il s'agit du texte du discours proferé par Pierre Bourdieu à l'occasion de la réception de la Médaille d'Or du Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), la plus importante distinction scientifique en France. Bourdieu fait ici un éloge de la Sociologie. Il discute le statut de la discipline en tant que science, toujours objet de polémique. Pour être effectivement une forme autonome et cumulative de connaissance, la sociologie, selon Bourdieu, doit être nécéssairement réflexive, en prenant elle même como objet et en employant les instruments de connaissance pour révéler les effets sociaux mêmes qu'elle produit. De là l'importance qu'acquiert la sociologie pour la compréhension des autres sciences, puisqu'elle ramène à la surface l'inconscient refoulé dans la logique de n'importe quelle connaissance scientifique. Les sociologues et les historiens, en analysant les mécanismes sociaux régissant le fonctionnement du monde de la science, peuvent contribuer, de cette façon, à un contrôle collectif apte à faire face à l'arrogance scientificiste. Sans succomber aux prétentions profétiques, le sociologue a le droit de revendiquer la fonction exercée par les autres scientifiques, dans le sens de donner des réponses précises et vérifiables dans les domaines restreints dans lesquels il travaille. Mais il ne doit pas assumer le rôle d'expert au service des pouvoirs. Tout au contraire, selon Bourdieu la sociologie doit être toujours un contre-pouvoir critique, en contraposition aux pouvoirs que s'appuient en sciences, réelles ou supposées, pour exercer ou légitimer son existence.

Mots-Clés: Sociologie de la Science; Sociologie Réflexive; Consécration; Pouvoir; Science et Politique.


 

 

Senhor ministro, senhor presidente, senhor diretor, prezados colegas e amigos, senhoras e senhores:

As consagrações, em vez de tranquilizar, têm o poder de despertar em mim inquietude e um sentimento de indignação. No entanto, elas não abalam minha certeza profunda de que a sociologia e os sociólogos são plenamente dignos do reconhecimento que a comunidade científica lhes demonstra por meio de minha pessoa. É esta convicção que eu gostaria de compartilhar esta noite, aproveitando a oportunidade de me encontrar diante das mais altas autoridades da política e da ciência, e dos representantes mais eminentes do jornalismo, para tentar responder a algumas das perguntas habituais, e com frequência críticas, feitas a essa ciência.

Porém, não gostaria que esta apologia da sociologia fosse um exercício acadêmico totalmente desprovido de efeitos reais. Desejo, portanto, assumir por um momento o papel de porta-voz de todos os sociólogos ou, ao menos, daqueles que compartilharam comigo o orgulho de ver a consagração de sua ciência e peço, como numa petição solene, que a sociologia francesa, universalmente reconhecida como uma das melhores do mundo, beneficie-se de todas as vantagens simbólicas, e também materiais, associadas a um verdadeiro reconhecimento.

Penso particularmente em todos aqueles que estão começando na profissão e que precisam muitas vezes viver de expedientes durante os anos mais decisivos de sua existência científica, sem terem a certeza de um dia alcançarem o posto de professor ou de pesquisador que lhes garanta condições decentes de trabalho.

Desejo - não tentarei dissimular - que os benefícios que espero para a sociologia recaiam principalmente sobre todos aqueles e aquelas que trabalharam em minhas equipes, em um momento ou outro, no Centre de Sociologie Européennee e no Centre de Sociologie de l'Éducation et de la Culture:1 a maioria está presente, e eu gostaria de poder nomeá-los um a um, afirmando publicamente minha dívida e toda minha gratidão; gostaria também de apagar todos os traços das dificuldades por que passamos, internas e externas, causadas, estou convencido, por nossa tentativa de criar, assim como os durkheimianos, um estilo de trabalho coletivo, talvez incompatível com as tradições e as expectativas de um mundo intelectual ainda apegado à lógica literária, com suas alternativas mundanas do singular e do banal, do novo e do ultrapassado, que favorecem os mestrezinhos presunçosos e a busca de originalidade a qualquer preço.

 

 

Eu gostaria de destacar os pesquisadores que participaram comigo do projeto, um tanto desmedido, que originou a obra A miséria do mundo (Bourdieu et al., 1993) e também aqueles ou aquelas - em parte os mesmos - que me ajudaram, por quase vinte anos, a coordenar a revista Actes de la Recherche em Sciences Sociales e seu suplemento internacional Liber.2 E bem frequentemente sem outra gratificação (não se pode dizer que a comunidade científica tenha sido muito generosa com eles) além da satisfação de participar de uma aventura intelectual. Meu prazer seria maior, esta noite, se eu tivesse certeza de que suas instituições, ou aquelas que deveriam acolhê-los - Centre National de la Recherche Scientifique, École des Hautes Études en Sciences Sociales etc. - reconhecerão seus méritos.

Agora, posso falar de sociologia e das questões que ela levanta. A primeira e mais habitual diz respeito a seu status de ciência. É claro que a sociologia tem as principais características que definem uma ciência: autônoma e cumulativa, ela se esforça para construir sistemas de hipóteses organizados em modelos coerentes, capazes de explicar um vasto conjunto de fatos observáveis empiricamente (Bourdieu et al., 1973). Mas podemos nos perguntar se a questão é realmente essa... Sabemos muito bem que a maioria das disciplinas canônicas das faculdades de Letras e Ciências Humanas, ou das disciplinas menos estabelecidas das faculdades de Ciências, nunca são questionadas quanto a isso.

Na verdade, sempre se suspeita - principalmente nos meios conservadores - de que a sociologia compactue com a política. E é verdade que o sociólogo, diferentemente do historiador ou do etnólogo, toma como objeto o próprio mundo de que faz parte e sobre o qual parece tomar partido. Não há dúvida de que ele tem, inevitavelmente, interesses nesse mundo e sempre corre o risco de investir em sua prática preconceitos, ou pior, pressupostos. Na realidade, o perigo é muito menor do que parece ao leigo: talvez por ser particularmente exposta, a sociologia conta com um arsenal muito poderoso de instrumentos de defesa.

Além disso, a lógica da concorrência, inerente a todos os universos científicos, cria para cada sociólogo coerções e controles que ele, por sua vez, transpõe para todos os outros. É o conjunto do universo sociológico mundial, com toda a diversidade de posições e de posicionamentos científicos (e não políticos), que se interpõe, como uma barreira, entre cada sociólogo e o mundo social: a lógica das censuras cruzadas o impede de se entregar às seduções leigas e às transigências mundanas, sobretudo aquelas do jornalismo, sem correr o risco de ser excluído do "colégio invisível" dos intelectuais (Bourdieu, 1991a). Terrível exclusão, mesmo que seja ignorada pelos leigos - e por certos jornalistas, que tomam diferenças de nível por diferenças de opinião, destinadas a se relativizar mutuamente.

A independência puramente negativa que se encontra assim garantida só se realiza de modo realmente autônomo se o sociólogo tiver dominado os conhecimentos coletivos de sua disciplina, conhecimentos imensos cujo domínio é condição para participar dos debates propriamente científicos. É fato que os sociólogos estão divididos, mas segundo dois princípios muito diferentes: aqueles que se apropriaram da herança coletiva estão unidos até em seus conflitos por essa herança - eles falam, como se diz, a mesma língua - e se opõem entre si dentro da lógica constitutiva da problemática e da metodologia diretamente oriundas dessa herança.

Porém, esses herdeiros também se opõem, mas de maneira bem diferente, àqueles que não partilham dessa herança e que, por essa razão, estão geralmente mais próximos das expectativas midiáticas. Isso significa que as discordâncias mais gritantes, frequentemente invocadas para questionar a cientificidade da sociologia, encontram seu fundamento, puramente sociológico, na dispersão extrema (no sentido estatístico do termo) daqueles que se atribuem o título de sociólogo.

Para ser verdadeiramente autônoma e cumulativa, e estar plenamente de acordo com sua vocação científica, a sociologia deve também e sobretudo ser reflexiva (Bourdieu, 1982; 1993). Deve tomar-se como objeto e empregar todos os instrumentos de conhecimento a seu dispor para analisar e compreender os efeitos sociais que se exercem sobre ela e que podem perturbar a lógica propriamente científica de seu funcionamento. Remeto aqueles que acharem essas análises abstratas demais ao que afirmei, em Homo academicus (Bourdieu, 1984), acerca da sociologia e das instituições onde ela se encontra (talvez me julguem então concreto demais...).

Imperativa para os sociólogos, parece-me que a sociologia do universo científico é igualmente necessária, com pouca diferença, também para as outras ciências. De fato, sem dúvida é a realização mais eficaz da "psicanálise do espírito científico" reivindicada por Gaston Bachelard (1938): ela pode trazer à tona o inconsciente social, coletivamente recalcado e inscrito na lógica social do universo científico, nos determinantes sociais da seleção dos comitês de seleção e dos critérios das comissões de avaliação, nas condições sociais do recrutamento e do comportamento dos gestores científicos, nas relações sociais de dominação que se dão sob a égide de relações de autoridade científica, freando ou impedindo, muitas vezes, ao invés de liberá-las, a inventividade e a criatividade, sobretudo dos mais jovens, nas redes nacionais e hoje em dia locais de cooptação, que protegem alguns dos rigores da avaliação científica e proíbem a outros a plena expressão de suas possibilidades criadoras etc. etc.

Como as circunstâncias de hoje me impõem permanecer alusivo ou obscuro, vou me contentar em evocar uma passagem, sempre ignorada, do famoso discurso sobre "a ciência como vocação", no qual Max Weber faz, para uma plateia de colegas, uma pergunta totalmente capital para a vida da ciência, mas em geral reservada às conversas privadas: por que as universidades nem sempre selecionam os melhores? (a linguagem empregada por Max Weber é muito mais brutal). Como bom profissional, ele não cede à tentação de atacar pessoas, no caso, "os pequenos personagens das faculdades e dos ministérios", e convida a buscar a causa desse estado de coisas "nas próprias leis da cooperação entre os homens", aquelas que, na eleição dos papas ou dos presidentes americanos, levam quase sempre à escolha do "candidato número dois ou três". E conclui, com um realismo cheio de humor: "O que admira não é que com frequência aconteçam equívocos nessas condições, mas que [...] se constate, apesar de tudo, um número tão considerável de nomeações acertadas" (Weber, 1948, p. 192). Uma política cientifica menos resignada poderia se basear no conhecimento dessas leis para contrariar e neutralizar seus efeitos. Para dar apenas um exemplo, penso na liberdade que proporcionaria, em todo o sistema da pesquisa, a criação em cada departamento de uma seção com todos aqueles que têm dificuldades com a divisão em disciplinas e com as disciplinas, mais ou menos arbitrárias e cientificamente funestas, que elas impõem.

Eu já disse o suficiente para que se compreenda que a ideologia da "comunidade científica" como pólis ideal, cujos cidadãos teriam um único objetivo, a busca da verdade, não serve realmente aos interesses da verdade. A análise do funcionamento da pólis cientifica tal como ela é, e de todos os mecanismos que impedem a concorrência pura e perfeita e, ao mesmo tempo, o progresso científico, poderia contribuir enormemente para o aumento da produtividade cientifica, que tanto preocupa nossos tecnocratas. O que é certo, em todo caso, é que os cientistas - hoje em dia cada vez mais numerosos, sobretudo entre os biólogos, que se preocupam com o futuro de sua ciência, carregada pela força descontrolada de seus mecanismos - só podem contar com um controle coletivo do devir de sua prática se fizerem, auxiliados por sociólogos e historiadores das ciências, uma análise coletiva dos mecanismos sociais que regem o funcionamento real de seu mundo (Bourdieu, 1997; 2001).

É possível que me perguntem com que direito, ou em nome de que autoridade especial essa ciência iniciante se intromete, analisando o funcionamento de ciências mais avançadas e estabelecidas. Na verdade, essa acusação de imperialismo vem, sobretudo, dos filósofos e dos escritores e de alguns cientistas particularmente inclinados à convicção cientificista. E esta é outra virtude da sociologia da ciência: ela oferece poderosos antídotos a essa arrogância, altamente funesta para a própria ciência. Com efeito, sem condenar ao niilismo anticientífico (por falta de tempo, não demonstrarei isso aqui), ela lembra suas origens históricas ou sociais à ciência: longe de serem essências eternas, totalmente concebidas pelo cérebro humano, as verdades cientificas são produtos históricos de um certo trabalho histórico submetido às coerções e aos controles deste mundo social muito particular que é o campo científico, com suas regras e regularidades (Bourdieu, 1975; 1991b; 2001). Talvez a sociologia exista para lembrar às outras ciências, por meio de sua existência e de suas análises, a origem histórica das ciências, princípio tanto de sua validade provisória quanto de sua falibilidade. E ela mostra que as tentativas sem fim de fundar a ciência em princípios transcendentes estão condenadas ao círculo, evocado por James Joyce, da autoproclamação da infalibilidade por um papa cuja palavra não pode ser recusada devido à sua infalibilidade.3

Comecei respondendo para que serve a sociologia. Eu poderia me contentar em responder como Toni Morrison, escritor negro que, quando inquirido se seus próximos romances teriam personagens brancos, retorquia "Você perguntaria isso a um escritor branco?": vocês questionariam a utilidade e a razão de ser a um físico ou químico, a um arqueólogo ou mesmo a um historiador? Estranhamente, se o sociólogo tem tanta dificuldade para justificar sua existência, é que sempre se espera dele demais ou de menos. E que sempre há "sociólogos" em demasia para responder às demandas mais desmedidas e assumir o papel impossível, e um tanto ridículo, de "pequeno profeta privilegiado e mantido pelo Estado", como diz Max Weber.

Do sociólogo se esperam, como do profeta, respostas definitivas e (aparentemente) sistemáticas às questões de vida ou de morte do dia a dia da existência. E lhe é recusada a função que ele tem direito de reivindicar como todo cientista: dar respostas precisas e verificáveis apenas às questões que ele consegue estabelecer de maneira científica, ou seja, rompendo com as questões levantadas pelo senso comum e também pelo jornalismo.

Não se deve entender por isso que ele possa assumir o papel do expert a serviço dos poderes. Ele não pode e não quer substituir o político na definição dos fins (por exemplo, levar 80% dos adolescentes a concluir os exames finais do secundário, ou proporcionar a 100% das crianças escolarizadas o domínio da leitura). Mas ele pode lembrar as condições econômicas e sociais para a realização desses fins àqueles que as estabelecem, frequentemente em pleno desconhecimento de causa, e que se expõem assim a resultados opostos aos perseguidos.4 A sociologia está agora bastante segura de si mesma para dizer aos políticos que eles não podem pretender governar, em nome de todos, universos cujas leis mais elementares ignoram. Durkheim (1895) gostava de dizer que um dos maiores obstáculos ao progresso da ciência da sociedade reside no fato de que nessas matérias todo mundo pensa ter a ciência inata... E o que dizer dos políticos que, baseados em uma pequena experiência de professor ou de funcionário público, não hesitam em dar aos sociólogos lições de sociologia da educação ou da burocracia!

Longe de aprovar as políticas que, ao menor movimento das faculdades, apressam-se a estimular os estudantes descontentes a buscarem formações menos procuradas do que as ciências humanas, penso que se deve desejar que os estudos de sociologia sejam largamente estimulados e desenvolvidos: em primeiro lugar, em si mesmos e por si mesmos, nas faculdades de Letras e de Ciências Humanas; mas principalmente, como formação complementar, nas faculdades de Ciências, de Direito e de Medicina, e também, mas agora em grandes doses, nas escolas de Ciência Política e na Escola Nacional de Administração.5

Não seria difícil mostrar a utilidade do olhar sociológico ao magistrado, ao médico (já se começou essa experiência há muito tempo nos Estados Unidos e seus efeitos podem ser estudados), ao alto funcionário, ao professor, ao jornalista e talvez, sobretudo, às ações e às produções desses profissionais, portanto, às suas clientelas. Eu gostaria de ver esses sociólogos considerados em número excessivo em todas as "instituições totais", como chama Erving Goffmann (1964) - manicômios, hospitais, internatos, prisões - , e também nos grandes conjuntos habitacionais, nos condomínios populares, nas escolas secundárias, nas empresas (deveríamos evocar aqui, mas de outro modo, o caso japonês). Todos esses universos sociais complexos cujas disfunções e tensões eles poderiam analisar e manifestar, desempenhando o papel socrático de "parteiros" dos indivíduos ou dos grupos (Bourdieu, 1993).

Não creio que se possa ver nestas palavras uma manifestação de imperialismo corporativista. De fato, estou convencido de que o desenvolvimento da sociologia e o progresso do conhecimento científico da sociedade são conformes ao interesse geral. É da constituição da sociologia se definir como um serviço público, o que não quer dizer que deva responder instantaneamente às necessidades imediatas da "sociedade" ou daqueles que se dizem seus porta-vozes e, menos ainda, daqueles que a governam.

As somas gastas pelos governos, tanto de direita quanto de esquerda, para financiar pesquisas cientificamente inúteis e financeiramente ruinosas (uma única pesquisa deve representar dez a vinte vezes o orçamento anual de minha cátedra no Collège de France) são a prova mais indiscutível do que eles esperam da ciência social: não o conhecimento da verdade do mundo social, mas os instrumentos de uma demagogia racional. Entre as tarefas que incumbem à sociologia, e que só ela pode fazer, uma das mais necessárias é o desmonte crítico das manobras e das manipulações dos cidadãos e dos consumidores que se apoiam em usos perversos da ciência. De fato, é inquietante que o Estado, que representa a única liberdade em relação às coerções do mercado, subordine cada vez mais suas ações, e a de seus serviços, principalmente em matéria de cultura, de ciência ou de literatura, à tirania das pesquisas de marketing, das sondagens, das pesquisas de opinião, e de todos os registros supostamente confiáveis das expectativas presumidas da maioria. Vê-se que, desde que ela saiba se servir da independência econômica garantida pela assistência do Estado para afirmar sua autonomia de todos os poderes, inclusive aqueles do Estado, a sociologia pode ser um dos contrapoderes críticos capazes de se oporem efetivamente a poderes que se apoiam, cada vez mais, na ciência real ou suposta para exercer ou legitimar seu império.

Eu faltaria ao princípio da reflexividade se omitisse dizer, ao concluir, que não tenho muitas ilusões sobre a eficácia de minha alocução: sei que ela corre o risco de ser desrealizada pelo tom imposto pela solenidade da ocasião. Mas sempre se pode ter esperança...

 

Notas

1 O Centre de Sociologie Européenne foi fundado em Paris em 1959 por Raymond Aron (com recursos da Fundação Ford), que, para remediar a sua falta de experiência em pesquisa empírica, nomeou Bourdieu como seu "secretário" (diretor executivo), em 1960. Depois de sua saída, em 1968, Bourdieu formou um grupo de pesquisa independente, que foi a base institucional de suas investigações por mais de três décadas. Um relato detalhado da gênese e do funcionamento inicial do CSE, com base em uma análise meticulosa dos arquivos de Aron depositados na Bibliothèque Nationale, encontra-se em Joly (2011).

2 Fundada em 1975 e editada no Centre de Sociologie Européenne, a revista Actes de la Recherche en Sciences Sociales foi animada pela visão transdisciplinar e internacional de Bourdieu de uma sociologia reunindo teoria, observação empírica e pertinência cívica, juntamente com inovação formal. Também com base no CSE, Liber - Revue Européenne des Livres foi uma revisão crítica da pesquisa de primeira linha nas ciências sociais, na literatura e nas artes que visava "desnacionalizar" a produção intelectual e acelerar a sua circulação, publicada em várias configurações em uma dúzia de idiomas europeus e países entre 1989 e 1998.

3 Bourdieu alude aqui a uma passagem famosa de James Joyce em The Dubliners ([1914] 1967, pp. 168-169), em que amigos em um pub discutem a doutrina.

4 Refere-se aqui ao objetivo da política definida pelo ministro da Educação socialista, Jean-Pierre Chevènement, sob o governo Fabius, em 1985, de levar 80% do grupo etário correspondente a completar o ensino médio e daí ter acesso à universidade, até o ano de 2000. Uma correta análise sociológica dos efeitos desta política sobre a experiência acadêmica e as trajetórias sociais de jovens de classe baixa pode ser encontrada em Beaud (2002).

5 Referência às duas principais escolas de pós-graduação de elite (Sciences-Po e ENA) que formam aqueles que irão ocupar as posições de tomada de decisão no Estado francês e nas empresas líderes; para uma análise aprofundada da localização e da função dessas escolas no campo francês de poder, ver Bourdieu, La noblesse d'État (1989). Muitos dos funcionários de gabinete e do staff presentes na cerimônia foram alunos dessas duas escolas.

 

BIBLIOGRAFIA

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Artigo recebido em 30/01/2013
Aprovado em 11/02/2013

 

 

Tradução de Patrícia C. R. Reuillard
* Discurso proferido em 7 de dezembro de 1993, após o recebimento da Medalha de Ouro do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), a mais alta distinção científica de França, de François Fillon, ministro do Ensino Superior e da Pesquisa. Tradução de Patrícia C. R. Reuillard (UFRGS); notas e referências de Loïc Wacquant. Agradecemos a Jérôme Bourdieu pela autorização para publicação da versão em português do discurso.

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