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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909versão On-line ISSN 1806-9053

Rev. bras. Ci. Soc. vol.31 no.90 São Paulo fev. 2016

http://dx.doi.org/10.17666/319071-84/2016 

ARTIGOS

ANTROPOLOGIA EM OUTRAS LINGUAGENS: CONSIDERAÇÕES PARA UMA ETNOGRAFIA HIPERTEXTUAL*

ANTHROPOLOGY IN OTHER LANGUAGES: CONSIDERATIONS FOR AN ANTHROPOLOGY IN HYPERTEXT

L’ANTHROPOLOGIE DANS D’AUTRES LANGAGES : CONSIDÉRATIONS SUR L’ÉCRITURE ETHNOGRAPHIQUE HYPERTEXTUELLE

Ana Luiza Carvalho da Rocha1 

Cornelia Eckert2 

1Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre – RS, Brasil. E-mail: analuiza2@feevale.br

2Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) , Porto Alegre – RS, Brasil. E-mail: chicaeckert@gmail.com

RESUMO

Este artigo apresenta reflexões sobre a pesquisa antropológica com coleções etnográficas no formato de acervos digitais multimídia e produção de etnografia hipertextual para o estudo das dinâmicas da cultura no mundo urbano contemporâneo que o Banco de Imagens e Efeitos Visuais (Biev) do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) vem realizando há dezoito anos. A partir de experiências com as políticas de acesso e de preservação de acervos digitais nas redes eletrônicas, abordam-se conceitos-chave – como imagem, imaginário, coleções e constelações –, centrais para o aproveitamento da cultura digital e de suas formas de distribuição do conhecimento como parte do processo de produção da representação etnográfica em sociedades complexas.

Palavras-Chave: Etnografia hipertextual; Coleções etnográficas; Redes digitais e eletrônicas; Antropologia da imagem

ABSTRACT

The paper reflects on anthropological research with ethnographic collections in digital form and on the production of a hypertextual ethnography about the dynamics of culture in contemporary urban world, that is being developed in the last eighteen years by the Banco de Imagens e Efeitos Visuais (Biev) in the Graduate Program in Social Anthropology of the Federal University of Rio Grande do Sul (UFRGS). From experiments with policies of access and preservation of digital collections in electronic networks, the article discusses key concepts such as those of image, imaginary, collections, and constellations, which are central for the enjoyment of the digital culture and its forms of distribution of knowledge as part of the production process of the ethnographic representation in complex societies.

Key words: Hypertext Ethnography; Ethnographic Collections; Digital and Electronic Networks; Images Anthropology

ABSTRACT

L’article présente des réflexions sur la recherche anthropologique avec des collections ethnographiques, sous la forme de collections numériques multimédias et de la production d’ethnographie hypertextuelle en vue de l’étude des dynamiques de la culture dans le monde urbain contemporain que la Banque d’Images et d’Effets Visuels (Biev) du Programme de Troisième Cycle en Anthropologie Sociale de l’Université Fédérale du Rio Grande do Sul (UFRGS, Brésil) propose depuis dix-huit ans. À partir d’expériences avec les politiques d’accès et de préservation des collections numériques dans les réseaux électroniques, nous abordons des concepts-clés - tel que l’image, l’imaginaire, les collections et les constellations - centraux à l’utilisation de la culture numérique et de ses formes de distribution du savoir en tant que partie intégrante du processus de production de la représentation ethnographique dans des sociétés complexes.

Key words: Ethnographie hypertextuelle; Collections ethnographiques; Réseaux numériques et électroniques; Anthropologie de l’image

Introdução

A antropologia da imagem (ou antropologia visual, ou audiovisual) tem-se revelado, tradicionalmente, um instrumento de diálogo vigoroso entre as diferentes culturas que convivem em nosso planeta, sendo hoje uma das principais vertentes dos estudos sobre culturas contemporâneas justamente por propiciar aos grupos sociais estudados que expressem a sua voz, alcançando, assim, uma ressonância muito mais ampla do que a circulação restrita dos meios acadêmicos.

A criação de um banco de imagens (Banco de Imagens e Efeitos Visuais – Biev), de sites, blogs, dvds interativos e jogos eletrônicos são atividades de pesquisa em que investimos desde 1997 na forma de um projeto antropológico,1 ao lado de trabalhos de produção audiovisual, documentários e exposições fotográficas. Privilegiamos tais dimensões não apenas para construir a escrita etnográfica hipertextual, mas também para refletir acerca do processo de patrimonialização do mundo urbano contemporâneo.

No que tange aos recursos multimídia, trata-se de ampliar o processo de divulgação dos resultados da pes- quisa etnográfica nas complexas sociedades do mundo contemporâneo além dos muros das universidades, através de pesquisa com novas redes eletrônicas e digitais, orientada para a criação de sites e blogs. Este movimento, que tem como foco o uso das tecnologias digitais e eletrônicas, também permitiu à antropologia contemporânea expandir a escritura etnográfica para o campo da produção de dvds interativos e de jogos eletrônicos multimídia, fazendo avançar o debate sobre formas de tratamento documental em hipermídias como integrantes da produção do conhecimento antropológico.

Diante de uma realidade em que a informação eletrônica e as redes digitais avançam, a passos largos, na liberação da memória de seus suportes físicos imediatos – a voz humana, os gestos, os rituais, o pergaminho, o papel etc. (Leroi-Gourhan, 1964) –, a disciplina antropológica não pode, hoje, prescindir do estudo da hipertextualidade, oriunda da era da informática (Authier e Levy, 1992), no processo de criação, produção e fruição de experiências etnográficas em ambientes multimídia, sem negligenciar o ambiente convencional do espaço livresco.

Uma das razões dessa tendência diz respeito ao fato de que, na contemporaneidade, quanto mais o passado se condensa, mais a consciência desse tempo se consolida; e em nossas sociedades globais se torna ainda mais relevante a necessidade de conhecer esse tempo, registrá-lo, resgatando e reconstituindo os signos culturais configuradores de identidades e pertencimentos de grupos urbanos.

Os grandes centros urbanos contemporâneos, como testemunham os jogos da memória de seus habitantes, escapam ao tratamento formal das análises usuais sobre patrimônio histórico e cultural, de seus critérios arquivísticos, e nos impelem a explorar novas linguagens na produção do conhecimento antropológico.

A cidade como objeto temporal

Em nosso trajeto intelectual, para refletir sobre a antropologia e as novas linguagens afirmou-se necessário reconhecer os processos teórico-conceituais de transformação inerentes ao movimento das diferentes tradições que fundam a matriz disciplinar da antropologia urbana ou, nos termos de Gilberto Velho (1981), da antropologia das sociedades complexas, e, no âmbito destas metamorfoses, escolher cuidadosamente autores que dialoguem com o desafio de promover o uso de novas linguagens para construir conhecimento antropológico na contemporaneidade.2

Em particular, estamos nos referindo à investigação antropológica sobre as faces do tempo e às modalidades narrativas dos jogos da memória na experiência dos habitantes dos grandes centros urbanos, interlocutores em múltiplos exercícios etnográficos (Eckert e Rocha, 2013b). Diante da assim nominada ausência de monumentalidade dos conjuntos arquitetônicos e urbanísticos das metrópoles brasileiras e confrontadas com a efervescência das experiências que configuram o dia a dia de seus habitantes, nosso esforço tem sido o de investir em formas mais integradoras e criativas de tratamento documental do patrimônio etnográfico, tomando como ponto de partida o estudo da cidade como objeto temporal.

Nessa perspectiva, como parte de nossos estudos sobre memória coletiva, consideramos importante refletir sobre o lugar da imagem e dos recursos audiovisuais na produção do conhecimento antropológico, no e do mundo contemporâneo, não apenas como tratamento documental das ambiências que configuram a fisionomia de uma cidade no tempo em que se processa a elaboração de uma história oficial, mas também como instrumento de produção de um sentido comum (Rancière, 2005) a respeito da vida urbana, a partir do registro de enunciações banais e ordinárias de seus habitantes.

Nesse sentido, não deixamos de refletir sobre os processos de globalização na era das redes eletrônicas e digitais, que caminham lado a lado com os localismos dos conteúdos culturais no interior da própria sociedade contemporânea.3 As políticas culturais de patrimonialização, revitalização ou requalificação que, na contemporaneidade, têm atingido indiscriminadamente os grandes centros urbanos, dentro e fora do Brasil, apontam para uma questão relevante no tratamento documental das memórias de seus habitantes. Mas até que ponto é possível falar do próprio ou do impróprio de um lugar quando abordamos a dimensão temporal, e suas distensões narrativas, para interpretar o fenômeno urbano?

Interpretar a cidade como objeto temporal significa pensar a própria labilidade da configuração de um corpo coletivo, fenômeno sempre desfeito e eternamente reconstruído, num apelo constante às imagens de suas formas, à revelia do que antes afirmava a sociologia durkheimiana. Um ponto de vista sobre a complexa cultura urbana atual, constantemente remodelada em seu processo de difusão, tem nos conduzido progressivamente a incorporar as novas possibilidades narrativas da mídia digital e eletrônica nas investigações que fazemos sobre memória e patrimônio etnológico no mundo contemporâneo, mas sem cair em distorções ou modismos. Nesse sentido, a imagem não é apenas contemplação do mundo, mas resulta de uma transformação dos objetos no mundo, retirando-os de sua indiferença. Se criar imagens, mentais ou não, é pensar o mundo através de uma transformação em sua matéria, produzir imagens configura-se, ontologicamente, como uma operação no tempo.

Em um mundo de crescente complexidade, o banco de imagens (de conhecimento) assim como muitos outros centros de documentação e núcleos de pesquisa integram os recursos da informática como possibilidade de criar, com base nos estudos de universos de valores e de referência da cultura urbana, uma nova forma de arranjo espaçotemporal na organização e no armazenamento de informação, documentos e objetos de valor histórico.4

Além da finalidade de recuperar e divulgar informações da comunidade de experiências históricas ou de gerações, o site do Biev (www.biev.ufrgs.br) e os links que produzimos em formato de etnografia hipertextual exemplificam a perspectiva digital de propor aos habitantes da cidade espaços de interação com seus signos culturais, em função dos diferentes usos que fazem da memória de seus territórios.5

Longe de adotar formas estáticas de apropriação e produção de conhecimentos no âmbito da preservação patrimonial e obedecendo à ordenação criteriosa do conjunto documental de dados etnográficos acerca da cidade de Porto Alegre, o Biev vem se especializando na criação de interfaces com outras linguagens e tecnologias do pensamento, em contraponto às formas usuais do conhecimento no campo antropológico.

A escrita de uma etnografia hipertextual

Nosso interesse central incide sobre a investigação mais detalhada dos sistemas de representação (imagens e valores) que, na cidade, caracterizam a vida tanto dos locais de pertencimento em seus territórios urbanos, como de suas redes afetivas, e são instrumentos significativos para construir um sistema de organização da base de dados multimídia sobre a cidade de Porto Alegre e para resgate de suas informações pelo usuário.

Buscamos refletir sobre esta interface entre antropologia e produção audiovisual, analisando sua intertextualidade e recorrendo a interpretações diferenciadas, seja em sua especificidade histórica, seja em sua singularidade técnica. Nesse sentido, o desafio é evitar, por um lado, o processo de “museo- logização”6 das culturas urbanas; por outro, obliterar as diferenças dos significados culturais disponíveis social e historicamente no interior de uma comunidade urbana, seduzidos pelo tratamento da dimensão formal da representação.

Os pesquisadores do Biev têm enfocado o uso das tecnologias da informática como parte do processo de tradução cultural da diversidade de pontos de vista que configuram a vida urbana porto-alegrense, valendo-se do processo de criação de narrativas etnográficas hipertextuais, no formato de coleções multimídia, com interesse nos jogos de memória de seus habitantes. Em particular, têm investido nas redes digitais e eletrônicas, não apenas como instrumento de gestão eletrônica de documentos, mas como espaço de circulação das imagens produzidas pelos antropólogos, em conjunto com seus parceiros de pesquisas registradas por nossos bolsistas e pesquisadores, tanto quanto em imagens oriundas de acervos públicos e pessoais, explorando suas tensões, dissonâncias e descontinuidades.

Assim, a disponibilização de dados, fatos, acontecimentos e situações da vida ordinária de pessoas e coletividades nas redes digitais e eletrônicas tem possibilitado aos antropólogos, nas últimas décadas, o confronto de suas práticas discursivas com as que provêm de culturas, povos e micromundos os mais diferenciados.

Em uma coleção etnográfica multimídia que contenha imagens de fundos de origem diversa – o que compõe o termo aqui empregado, a etnografia hipertextual –, cada acontecimento é condição de interpretação da prática etnográfica, cabendo ao antropólogo-pesquisador enfocar, em sua escrita, a lógica do compartilhamento de suas reminiscências com os parceiros da pesquisa lembrada e evocada por esta matéria. Em outras palavras, cabe ao antropólogo, em termos epistemológicos, o papel de “guardião” da memória dos grupos e/ou indivíduos com os quais trabalha, agindo, portanto, nos processos de reatualização, restauração e retransmissão de suas aprendizagens imagéticas no campo antropológico orientadas pelas estruturas constelares (Durand, 1984). Tais demandas, hoje, têm apontado cada vez mais para o lugar delicado de “mediação cultural” que configura a prática da etnografia quando ela se debruça sobre os estudos da memória e do patrimônio nas modernas sociedades complexas.

Procedimentos de produção de narrativas etnográficas hipertextuais

A virtualização da informação por desconexão em relação a um meio particular implicou, na história da humanidade, a transformação do espaço-tempo ordinário das coletividades, abrindo-o a novos meios de interação cognitiva. Variabilidade de espaços e de temporalidade faz parte do processo pelo qual registros e sistemas de transmissão (oral, escrita manuscrita, impressão, fotografia, filme, vídeo, redes digitais) constroem diferentes ritmos e velocidades de integração social.

No caso da pesquisa com os jogos da memória, a transformação de acervos patrimoniais (objetos, vestígios da cultura material, fragmentos visuais, textos históricos, informações diversas) em dados digitais gera uma mudança significativa (Yates, 1975) na forma como tais dados/documentos são dispostos em um conjunto de informações pelo antropólogo com a finalidade da produção de narrativas etnográficas. Isso tem a ver com forma pela qual a mídia eletrônica e digital nos tem possibilitado explorar o tratamento documental de nossos dados de pesquisa, tendo em vista o uso da hipertextualidade na produção de novas narrativas etnográficas, processo que nos obriga constantemente a retomar os paradigmas e as tradições de nossa matriz disciplinar, a antropologia, especialmente a antropologia das sociedades complexas.

Documentos com suporte diversificado da memória coletiva de indivíduos e/ou grupos passam a ser quase simulacros de suas lembranças, obtidos a partir da sua transformação em mídia digital, ou seja, “numerizados”; tais simulacros, por símbolos de contraste (Binkley, 1995), armazenam e processam sob a forma de rastro o fluxo da vida social. Os dados digitais tornam-se, assim, virtuais, integrando os sistemas de informação que emergem das propriedades físicas dos documentos, os quais, transformados em símbolos abstratos, traduzem um sistema de medidas que quantifica suas qualidades.

A imagem digital resulta de um processamento das informações7 nos moldes de um conjunto de dados numéricos. Daí pensarmos a imagem digital como dados etnográficos que se tornam “não presentes” e numerizados, portanto, desterritorializados.8 Nos termos de acervos digitais, o espaço-tempo clássico rompe-se, decorrendo desse processo uma desconstrução dos lugares “realistas” da memória na visão do antropólogo, confrontado, cada vez mais, com a possibilidade de pensar os dados etnográficos a partir de sua ubiquidade, de sua distribuição de informação irradiada em larga escala, visto ser esta sua condição de imagem digital.

Se a imagem digital tem, por um lado, a vantagem de armazenar, sob a forma de dados, informações retiradas do original, por outro, ela própria é incapaz de construir conhecimento completo sem recorrer a ferramentas de um sistema de processamento de dados capaz de armazenar, extrair e organizar, de forma seletiva e analítica, suas informações. Quanto mais enveredamos pelo território da imagem digital, mais temos de compreender um processo que envolve coleta, qualificação, transformação, análise e distribuição de suas informações, tanto quanto os cenários em que eles são disponibilizados.

Neste momento, em termos metodológicos, consideramos a relevância de abandonar a perspectiva clássica do registro histórico e etnográfico da imagem técnica. No caso do meio analógico, que funda o conceito de imagem técnica, o registro recebe e mantém os traços físicos dos eventos impressos por ferramentas que misturam de forma expressiva a mensagem e o meio, incorporando-os num material físico (a película, o fotograma etc.). Nessa perspectiva, o material do meio é inseparável da mensagem que transmite.

No processo de tornar digital uma informação (dados agrupados que geram sentido), a imagem-síntese (processada, armazenada e tratada por um computador) diferencia-se dos usos da imagem técnica na descrição da experiência etnográfica ao permitir organizar sua representação segundo novos arranjos de tempo, espaço e causalidade. Ao contrário de sinais contínuos, a imagem-síntese, tratada por meio de processos computacionais, é representada matematicamente, através do uso de matrizes multidimensionais, como uma sequência infinita de números.

Para compreender como a imagem-síntese faz a passagem do mundo real, de sinais contínuos, para o mundo do computador e de suas redes digitais e eletrônicas, onde tudo se torna mais discreto, apresentamos um paradigma que abrange quatro universos: (1) universo físico, em que estão os objetos do mundo real; (2) universo matemático, no qual são formuladas as descrições abstratas desses objetos; (3) universo de representação, que transfere as descrições abstratas para o mundo digital (momento em que os sinais contínuos se tornam discretos); e (4) universo de implementação, onde se codifica o sinal na memória do computador através de uma estrutura de dados.

Por esta razão, precisamente, pontuamos a relevância, na escrita etnográfica sob a forma hipertextual, do uso da mídia eletrônica e digital e suas linguagens, uma vez que ela permite ao estudo dos dados etnográficos captados do seu fluxo original novos procedimentos de sínteses intelectuais.

Coleções etnográficas hipertextuais e perpétuo recomeço

Trata-se, assim, de investir em uma pesquisa sistemática em torno da multiplicidade e do dinamismo da construção do conhecimento com base na tecnologia intelectual, que se origina das redes digitais, e em seus efeitos correlatos, para a apropriação e a recriação de memórias coletivas no mundo contemporâneo, tendo em vista as novas formas de expressão do patrimônio cultural que destilam imagens sobrepostas de pessoas, ruas, lugares, prédios, entre outros, como paisagens da cidade. Assim, o espaço-tempo clássico, com o avanço da tecnologia da informática e das redes eletrônicas (interações em tempo real, transmissões ao vivo, comunicação por correio eletrônico), tende a constranger os lugares “realistas” da memória ao confrontar os sujeitos modernos com a ubiquidade e a profusão de informações.

Por um lado, operar com acervos digitais aproxima o Biev, como núcleo de pesquisa, de muitos outros “lugares” que também processam o estudo da memória da contemporaneidade; espaços de preservação de simulacros das culturas e sociedades humanas, como arquivos, bibliotecas e museus; lugares simbólicos em que se concentram as comemorações e os emblemas de uma comunidade de identidade. Por outro lado, os acervos digitais têm permitido a reflexão acerca das diferentes possibilidades da representação etnográfica e o diálogo com os dados sensíveis da vida social por intermédio da forma como o real, o virtual e o atual (Jencks, 1995) atuam na construção do conhecimento de uma antropologia da e na cidade.

Para refletir sobre a hipertextualidade aplicada ao campo dos estudos das metrópoles contemporâneas, consideramos necessário retomar alguns autores e tradições que fundam a matriz disciplinar da antropologia das sociedades complexas e nos permitem falar, sem constrangimentos, do campo epistemológico de uma antropologia hipertextual. Primeiramente, na presença de outras linguagens, é imprescindível conhecer o ponto de vista do pesquisador em relação à antropologia.

Considerando-se alguns esquemas enunciativos da antropologia urbana e da antropologia visual, investimos na presença de “comunidades interpretativas” no que se refere à apropriação das representações e das práticas sociais relativas ao patrimônio etnológico local. A expressão “comunidades interpretativas” é aqui empregada no sentido crítico a ela atribuído por Paul Rabinow (1986, p. 92). Isto é, consideramos, na produção do hipertexto etnográfico, pela via das tecnologias digitais e eletrônicas, os atos interpretativos que engendram o diálogo entre as formas representacionais do patrimônio e da memória nas sociedades complexas e as práticas sociais dos habitantes locais.

Consolidamos nossa pesquisa no contexto metropolitano de Porto Alegre. Analisamos a cidade a partir dos itinerários urbanos narrados pelos habitantes em seu cotidiano, adotando, para isso, novos paradigmas de pesquisa etnográfica, para não apenas registrar e documentar os acontecimentos históricos geradores de uma identidade citadina, mas também refletir sobre o caráter ético e estético de seus complexos culturais. A partir de 1997, no âmbito do Banco de Imagens e Efeitos Visuais, passamos a cruzar práticas museológicas e etnográficas no estudo do mundo urbano, privilegiando a produção de imagens disponibilizadas num ambiente multimídia nos moldes de uma proposta de um museu virtual da cidade (projeto original acumulado no Biev).

A implantação deste sistema de gestão eletrônica de documentos nos conduziu a criar protocolos informatizados para o tratamento documental de acervos multimídia, com o objetivo de disponibilizá-los sob a forma de coleções etnográficas em hipermídia aos demais pesquisadores interessados no tema da memória coletiva na cidade.

Como parte deste processo, fomos progressivamente adequando técnicas de processamento documental e criando condições para uma organização mais dinâmica dos acervos etnográficos multimídia, tendo por base o uso das tecnologias digitais e eletrônicas aplicadas ao processo de formação de coleções etnográficas a serem disponibilizadas na rede mundial de computadores. Com o recurso de tecnologias da informática, aperfeiçoamos o processo de gestão eletrônica de documentos sob a forma de constelações criadas especificamente para a finalidade da pesquisa, com narrativas hipertextuais no contexto das metrópoles contemporâneas.

Se, por um lado, no trabalho de campo o antropólogo procura estabilizar o fluxo da vida no tempo “imóvel” das imagens técnicas, retirando os fenômenos sociais do seu fluxo original, por outro, na escrita etnográfica multimídia, jogando inteligentemente com o tempo miniaturizado de suas formas, seu esforço é outro. Trata-se, agora, de imitar o real, prolongando-o por meio de uma ação mimética num processo inteligente de representação de uma presença-ausente.

Operar uma narrativa etnográfica por meio do fluxo das imagens sob a forma de coleções significa, neste caso, repensar a ideia bergsoniana de tempo como experiência imediata e interior de uma duração concreta no processo de tratamento documental (Bergson, 1969, 1970). Com base na perspectiva bachelardiana acerca da duração, ou seja, de uma dialética temporal entre o tempo vivido e o tempo do mundo (Eckert e Rocha, 2013a), ao jogar com as constelações de imagens-síntese no âmbito de acervos multimídia, procuramos refletir sobre os atos complexos que configuram o processo de construção da representação etnográfica, assim como sobre os jogos simbólicos que permitem a inteligibilidade do pensamento antropológico.9

Nesse domínio, a implementação do Biev se pauta pela necessidade de conversão do olhar histórico sobre a cidade à feição antropológica da pesquisa etnográfica com acervos digitais multimídia, tendo os recursos das tecnologias da informação e das redes eletrônicas como possibilidade de armazenamento e disseminação de conhecimentos acerca de uma cultura urbana em mídias densas. Tais dados passam a ser organizados e classificados a partir da análise dos dados sensíveis das formas de vida social presentes no meio urbano, tendo em vista a importância do estudo de seus territórios como um dos lugares de produção dos significados das histórias vividas.

A primeira consequência importante de tais comentários é a definição do símbolo como anterioridade, tanto cronológica como ontológica, de toda produção, geração, circulação de imagens, mentais ou técnicas. Sob o plano do símbolo, também se situa toda a linguagem humana, cuja estruturação simbólica está na origem de todo o pensamento, científico ou não. O simbolismo de que é portadora qualquer imagem é o que assegura uma universalidade a todos os processos sociais e culturais que se situam no plano da fabricação de imagens.

A segunda consequência remete ao conceito de trajeto antropológico, cunhado por Gilbert Durand (1984, p. 38). Com ele, o autor aponta, no plano do imaginário, uma incessante troca entre as pulsões subjetivas e assimiladoras e as intimações objetivas do meio cósmico e social. Sob essa perspectiva, a fabricação de imagens resulta de uma gênese recíproca entre os gestos pulsionais humanos e o ambiente material e social que o cerca, isto é, resulta como parte de processos de assimilação e acomodação do sujeito a seu meio objetivo.

Terceira consequência, para o estudo das imagens, é a necessidade de pensá-las em seus núcleos organizadores de sentido, pela via do método de convergência do semantismo de símbolos que toda imagem contempla. Sem dúvida, um método tanto pragmático como relativista de observar a convergência de vastas constelações de imagens, mais ou menos estáveis e regulares, estruturadas por certo isomorfismo de símbolos (Idem, p. 40).

Aplicando este postulado do método de convergência cunhado por Gilbert Durand ao caso do uso de uma antropologia hipertextual para estudar a etnografia da duração – apesar de todo direcionamento de certo fluxo de imagens apontar para o lugar (tempo/espaço) de onde elas se originam e, segundo certas regras de ação, dirigidas ao conhecimento do real –, devemos estar atentos, nesse processo, à produção de imagens como parte do processo de construção de invariantes operatórias no interior do simbolismo que veiculam. Neste tópico, em particular, nossa atenção se concentra no estudo da relação que os jogos da memória estabelecem com a matéria do tempo, num exercício intelectual que, como resultado de uma ação inteligente no mundo (inspiramo-nos em Bateson, 1977, 1984), se apoia na representação.

Isso é muito importante para o caso de um acervo digital multimídia, organizado na forma de coleções etnográficas dispostas num arranjo constelar, pois o exercício da memória deve apoiar-se no ato lúdico de brincar com as imagens. É um processo criativo que, embora não de todo consciente, se torna progressivamente consciente através dos elementos de conhecimento que as imagens agrupadas entre si proporcionam.

O tema da duração e a narrativa em hipertexto

Baseando-se nas novas tecnologias mais integrativas e interativas, o banco de imagem acolhe, em seu processo contínuo de criação e recriação de imagens da cidade (White, 1994), a produção de novos registros visuais e sonoros da vida urbana local a partir da investigação de narrativas etnográficas baseadas nos efeitos da póiesis das imagens passadas e presentes (Debray, 1994) e nas memórias do amanhã, realizando uma condensação espaçotemporal na equivocidade do sentido das diferentes tradições que configuram o “viver a cidade”.

Para o estudo das memórias coletivas sob a olhar de uma etnografia da duração, optamos pelo colecionismo, nos termos de Walter Benjamin (1984, 1985, 1987), como passo fundamental do processo de gestão eletrônica de conjuntos de documentos etnográficos multimídia. Ampliamos, porém, a pesquisa com coleções etnográficas na perspectiva do estudo do semantismo dos símbolos contidos nos jogos das imagens multimídia situadas em tais coleções.

Chegamos, assim, ao estudo dos núcleos de sentido (as constelações) em torno dos quais as coleções de imagens se organizam, adotando-os como critério arquivístico das imagens num banco multimídia, independentemente de seus suportes diversos.10 Na perspectiva de uma etnografia da duração (Eckert e Rocha, 2013a ), procuramos, seguindo Benjamin, refletir sobre as imagens, na categoria “objetos perdidos” de uma determinada sociedade e cultura, em uma ordem de sentido – a do tempo presente – e de sua força de germinação, sem, entretanto, perder a historicidade de suas condições de produção. Reconhecemos, com Walter Benjamin (1984, 1985), a presença de uma relação significativa entre os componentes das imagens, motivada tanto pela proximidade entre elas como pelas diferentes narrativas traçadas sobre seus agrupamentos, segundo suas origens. Contudo, no caso do conceito de “coleções” de Benjamin,11 o núcleo semântico que organiza o centro das constelações é vazio; já para Gilbert Durand (1984), as linhas imaginárias que unem as imagens nos moldes de uma coleção de núcleos de sentido (constelações) podem ser interpretadas pelo trajeto antropológico que orientaram seu nascimento.

Nesses termos, o núcleo semântico de uma constelação de imagens pode ser interpretado do ponto de vista arqueológico e genealógico dos símbolos a partir dos quais as imagens irradiam seu simbolismo. As reflexões sobre o tempo, a imagem e o imaginário de Benjamin, tanto quanto de Durand, convergem de forma complementar, ou seja, a memória como espaço fantástico trata de um processo de restauração do tempo a partir da superposição de fragmentos de seus instantes, que procuram se reconciliar com o tempo por sua consolidação em uma narrativa.

A montagem de coleções etnográficas em ambiente multimídia implica, portanto, atentar para o trabalho de recriação ininterrupto das imagens nos jogos da memória segundo exemplos transitórios, repensando a linearidade convencional da escrita etnográfica produzida no espaço livresco. A montagem das coleções por si só não permite, obviamente, repensar a linearidade intrínseca do texto etnográfico clássico; ela precisa vir acoplada a uma estrutura constelar e randômica dos jogos da memória, o que exige do leitor um máximo de atenção para que não lhe escapem as interligações “verticais” entre os fragmentos das lembranças e das recordações (tempo vivido), por oposição à cômoda sequência início-meio-fim (tempo pensado).

Diante do tempo do mundo, a estrutura constelar do tempo vivido nos mergulha num “mosaico” de lembranças cuja ligação não é feita através da concatenação textual-linear, mas de uma rede de conexões intra ou intertextuais. A maneira como as lembranças se vinculam não é apenas por sua proximidade ou afinidade, mas pelos significados irradiados a partir delas, formando núcleos de significação. Quanto maior a distância entre uma recordação e outra, maior é a perda das camadas de significação. Nos termos de Benjamin, (1987), quanto menor a relação imediata das lembranças com a coisa representada, maior seu “impacto transcendente”.

Nos casos de uma antropologia em hipertexto, o leitor é convidado a contemplar as lembranças dos fragmentos e dos objetos, não como formações naturais de uma cultura urbana, mas como imagens culturais dispostas segundo determinados laços de proximidade. A etnografia em hipertexto desafia a leitura de um texto etnográfico – construído pelo esforço de se pensar através de imagens e segundo uma estrutura constelar – a estabelecer ligações entre partes aparentemente dispersas. As interrupções, mais que as continuidades, são o seu forte. Em termos de uma topografia do imaginário, privilegiam-se os processos de verticalização dos tempos vividos nos jogos da memória, em detrimento dos procedimentos de horizontalização de seus estratos de significação, segundo a lógica do tempo do mundo (histórico ou progressista).

Na montagem de acervos digitais, cujos dados multimídia são alçados na condição de fragmentos/instantes da cultura, a destruição da linearidade de sua leitura é um passo importante rumo a uma estrutura constelar que preside os jogos da memória, contrariando o imobilismo e a cristalização de seus significados. Com essas assertivas, valemo-nos de mais um autor para consolidar o estudo das coleções etnográficas como parte de uma tessitura de imagens, de suas formas e das redes que conectam seus simbolismos.

Trata-se do conceito de coleção associado ao estudo das imagens a partir de sua condição de “con-figuração” de fragmentos de uma totalidade inesgotável de conteúdos diferenciais da vida social. As imagens podem ser consideradas em seu caráter fracionário: de formas ou ruínas, no sentido de Georg Simmel (2002), ou de farrapos, escombros ou detritos, segundo Benjamin (1983, p. 574).

O colecionismo aplicado ao processo de formação de conjuntos de documentos etnográficos multimídia, “con-figurados” segundo o “semantismo dos símbolos” (Durand, 1984, p. 457) contido em tais detritos, pedaços ou farrapos, leva-nos a considerar a dimensão temporal dos testemunhos que eles veiculam. Este procedimento, aplicado ao processo de produção de uma narrativa etnográfica em hipertexto, parte da constatação de que tais coleções etnográficas refletem, de um lado, a matéria perecível do tempo e, de outro, permitem, pela via da vibração dos restos dispersos, a passagem do instante da duração do tempo passado, anteriormente inteiro, para o instante presente.

Com a adesão da produção do conhecimento antropológico a outras linguagens, a antiga cadeia sequencial interpretativa do espaço livresco, que resultava numa ordem linear de produção de narrativas etnográficas, tende a ser interrompida pela ordem constelar dada na simultaneidade da imagem que ultrapassa a terceira dimensão, até mesmo do espaço-tempo fílmico, para atingir a profundidade narrativa, a da quarta dimensão do tempo-espaço da virtualidade.

O estudo da construção das formas do social

É importante mergulharmos nos símbolos intelectuais (Cassirer, 2001) criados pelo conhecimento antropológico para apreender o mundo da cultura no sentido de assinalar que o campo de possibilidades de uma etnografia hipertextual se funda no uso das tecnologias digitais. Do mesmo modo, temos de abdicar de uma perspectiva realista no que se refere ao estudo da produção do conhecimento antropológico e aderir a uma antropologia das formas sensíveis da vida social, que já se encontra desenhada no pensamento de alguns autores clássicos das ciências sociais, tais como Georg Simmel, Walter Benjamin, Gilbert Durand, Norbert Elias, Michel Maffesoli e Pierre Sansot, entre outros, que apostam no caráter figuracional, estético e simbólico da representação etnográfica e de sua dimensão estrutural para o conhecimento antropológico.

Com nossas câmeras e microfones não registramos a cultura, mas culturas, na perspectiva de um arranjo determinado de suas formas, até certo ponto duradouras. O que denominados registros visuais e sonoros de campo, etnografias de rua (Eckert e Rocha, 2013b), abarca a invenção do conceito de cultura que nos permite pensar uma determinada modalidade de ser e estar de um indivíduo e/ou grupo no mundo. Guiados pelo conceito de cultura, nós, antropólogos, modelamos e organizamos os conteúdos sociais de nossas experiências nesse mundo em novas modalidades, agora mais sintéticas. E como assinala Cassirer (2001), os conceitos com os quais operamos o conhecimento antropológico sobre o mundo da cultura, suas manifestações e suas expressões, segundo os símbolos intelectuais de suas diferentes tradições, são mediados pelo mundo das formas, tanto quanto e na mesma medida o são as nossas produções audiovisuais. Não estamos, portanto, tratando de meras reapresentações da realidade. É sob este ângulo que queremos destacar o lugar estratégico da antropologia audiovisual e da imagem para a formação do conhecimento antropológico, tendo em vista que o registro visual e sonoro dos fenômenos sociais dialoga com as formas por meio das quais uma cultura se dá a ver ao etnógrafo segundo alguns traços comuns (invariantes) que atravessam uma pluralidade dos símbolos humanamente criados.

Nesta medida é que nos aproximamos da perspectiva da sociologia configuracional de Norbert Elias (1994, 1999), quando afirma que a apreensão do mundo da cultura e de suas formas simbólicas de controle do tempo, no qual a imagem ocupa papel de destaque, dialoga com a compreensão da sociedade a partir da rítmica de suas figurações ao longo dos séculos. Estamos nos referindo ao conceito de figuração do estudo da vida social que opera nas trajetórias que os indivíduos tecem continuamente. Assim, no caso do uso dos recursos audiovisuais em nossas etnografias, ao falar de captura de imagens da vida social, não estamos buscando substâncias para suas formas, mas as múltiplas perspectivações de seus sentidos a partir de uma mesma configuração invariante de intersecções.12

Nos termos de uma etnografia em hipertexto, abandonamos todo o possível determinismo substantivista associado ao registro etnográfico linear, uma vez que eles estão continuamente em fluxo e seu saber só se dá dentro das figurações formadas pelas trocas sociais que se criam entre o antropólogo e seus parceiros de pesquisa. Sob o ponto de vista de uma etnografia em hipertexto, as imagens contidas em todo o registro audiovisual geram um saber que se configura por meio do deslocamento e/ou posicionamento de seu autor na busca da interpretação de suas formas, sempre transitórias e parciais.

Importante ressaltar que nossos registros audiovisuais não são apenas registros de fragmentos sociais do fluxo da vida – ou fragmentos do fluxo da vida social. Com eles delineamos formas, desenhamos contornos da vida social, fazendo com que ela agora perdure dentro de outro registro. Com essa digressão, adentramos novamente a noção de forma, segundo a sociologia de Georg Simmel (2002), e suas derivações – os conceitos de arranjo, figuração e configuração e, finalmente, de constelação – em seu diálogo com o pensamento de Norbert Elias.13 Este mergulho na antropologia das formas simbólicas, que vai de Cassirer a Simmel,14 nos permitirá seguir adiante em nossas reflexões sobre a importância das novas linguagens para a produção do conhecimento no campo da antropologia visual, audiovisual, da imagem. Em particular, defendemos sua pertinência ao campo da etnografia da duração no contexto das grandes metrópoles contemporâneas e o lugar que os acervos digitais ocupam como parte de seu patrimônio etnológico (Eckert e Rocha, 2013a).

Ao se dedicar ao estudo dos fenômenos da cultura na modernidade, em particular nas grandes metrópoles, Georg Simmel (2002) aponta para a importância metodológica de nos ater ao estudo do fluxo constante da vida social derivado das formas de associação entre os indivíduos, segundo seus interesses pragmáticos, os quais lhe dão um conteúdo singular. Nesses termos, os dados etnográficos traduzem, em formas objetivas, apenas um fragmento da totalidade inesgotável dos conteúdos subjetivos da vida social. Ao registrar uma expressão ou manifestação da cultura, estamos retirando aspectos da vida social do seu fluxo original, aprisionando seus sentidos em configurações específicas, dando-lhes formas, retirando-os da indiferença.

No registro do fluxo da sua vida ordinária, o antropólogo, assim como os indivíduos e/ou os grupos por ele estudados, constrói formas de formas (Moraes Filho, 1983). Inspiradas em Max Weber (1961), entendemos que a sua vocação seria a de construir novas unidades de sentido para a vida social por meio de procedimentos sintéticos e, através de seus símbolos intelectuais, agrupar por suas formas os fragmentos parciais de fenômenos culturais registrados ao longo do trabalho de campo, suas expressões e manifestações singulares, possibilitando, cada vez mais, novas sínteses de suas relações e ligações possíveis.

Apontamos a relevância, para a antropologia hipertextual, do conceito de constelação na teoria social das formas comentado por autores como Simmel (2002) e Benjamin (1984, 1987) em seus estudos sobre a modernidade, assim como Durand (1979, 1984, 1989) em seus estudos sobre o imaginário e suas estruturas. Para avançar nessa reflexão, é imprescindível reconhecer que nossos registros etnográficos são fragmentos retirados do fluxo da vida social, em que interagimos em múltiplas redes, ora estreitas, ora frouxas, desde o ponto de vista de nosso deslocamento e posicionamento em relação a ela; ou seja, nossos dados etnográficos tratam, na verdade, de fragmentos de uma totalidade. Em nossas etnografias, precisamos retomar tais fragmentos de uma nova totalidade, através de procedimentos sintéticos, no esforço de restaurar seu fluxo original.

Ressaltamos, igualmente, a importância do processo de formação de coleções etnográficas multimídia na compreensão da pluralidade das figurações de sentido que se originam de tais fragmentos, segundo diferentes arranjos numa constelação. Tais fragmentos – retirados do fluxo ininterrupto da vida social, “refigurados” em coleções segundo diferentes composições e dispostos num mesmo ambiente de consulta (via redes digitais e eletrônicas) – permitem novas e complexas sínteses etnográficas, tanto no sentido vertical, mais abstratas, considerados seus simbolismos mais profundos, como em sentido horizontal, pela possibilidade de uma reflexão sobre sua modelagem histórica. O hipertexto permite, assim, no campo da produção de saberes e fazeres da antropologia audiovisual, renovadas sínteses intelectuais no que diz respeito ao tratamento documental dos dados etnográficos e também à compreensão do fluxo ininterrupto da vida social de onde eles foram retirados.

Para o antropólogo que trabalha com hipertextos, configurar os dados etnográficos audiovisuais em coleções significa pensá-las como unidades discretas de apreensão da vida social. A partir delas podemos apreender o sentido organizador entre seus elementos, além de propor que tais coleções constituem agrupamentos de unidades discretas, passíveis de interligações e que, agrupadas, revelam fenômenos culturais historicamente significativos. Apropriando-nos dos termos simmelianos, propomos, neste processo, que as coleções etnográficas que objetivam as formas culturais ou fragmentos de formas sejam completadas por um trabalho de interpretação, servindo então de conteúdo para outras formas que regem a vida social. Um trabalho de interpretação que se origina de uma gama de conhecimentos acumulados pelos antropólogos que compartilham a modalidade de uma comunidade interpretativa, formando uma cultura subjetiva.

À guisa de conclusão

A exploração de recursos multimídia e de recursos da informática, rompendo com o “real” do fluxo discursivo espaçotemporal das tecnologias da escrita e da impressão, permite o tratamento de territórios existenciais de práticas e valores culturais na forma de resgate de informações sobre uma comunidade urbana. Permite, igualmente, a universalização de um conhecimento ativo e pluridimensional, que transforma a operação de acervos documentais da cidade em eixo social da comunicação, de reapropriação de sentido e de redistribuição de signos culturais.

O desafio do uso da imagem-síntese nas formas de exposição de acervos, documentos etnográficos, está associado, portanto, ao próprio passado e ao presente da incorporação das imagens fotográficas e cinematográficas nas formas usuais de tratamento dos acervos documentais para o grande público acessar em uma perspectiva constante que remete ao futuro.

Para o caso da criação de uma etnografia hipertextual, deve-se pensar que, no ilusionismo provocado pela imagem-síntese, o observador interage com a representação: clicar na imagem ou no menu, tomar decisões ou selecionar; tais procedimentos caracterizam-se por uma dinâmica temporal singular, qual seja, a relação do usuário com os atos artificiais, incompletos e desconstrutivos, da máquina do computador.

Nesse ponto, a criação de acervos digitais multimídia não obedece à lógica clássica das formas de exposição de conjuntos documentais sem que estejam reunidos em um único e mesmo lugar, já que as visitas virtuais sujeitam o espectador a diferentes tipos de atos cognitivos: analisar diferentes conjuntos de informações, processar uma busca, iniciar suas aplicações, navegar através das páginas da tela, novamente iniciar outra busca e assim sucessivamente, em um mesmo tempo, através de múltiplas telas abertas que impõem sempre novas perguntas e diversas respostas.

Os documentos etnográficos multimídia, situados num mesmo ambiente de consulta – os recursos de montagem e de sincronização de imagens digitais de seu patrimônio etnológico –, separada de seu suporte físico, permitem ao usuário direcionar-se ao passado, explorando-o progressivamente, com mais detalhe e de acordo com seu fundo individual de sentido. As imagens-síntese possibilitam, aqui, em direção à contemporaneidade, explorar a instantaneidade de encaixes de imagens portadoras de sentido convergente que se cruzam formando uma paisagem significativa para a pessoa que consulta o acervo.

Um banco de imagem e efeitos visuais, tendo como tema central a vida urbana, explora, nas interfaces de redes digitais, a sincronização de informações como substitutivo da unidade de lugar e suas interconexões como parâmetro de unidade de tempo. Operar com a virtualização (Lévy, 1991, 1993) exige que se estabeleça a diferença entre realização e atualização nos moldes de um processo de conhecimento.

As crônicas sonoras e visuais (a figura do cronista) se acoplam à figura do colecionador-usuário, que navega nas imagens orientado pela motivação de compor mosaicos. Mas estes só adquirem significado próprio em razão das figuras que formam, pela proximidade umas das outras, resultantes de uma composição e não de um télos totalizador. O cronista, ou colecionador, ou navegador na etnografia hipertextual atua como uma espécie de restaurador; ocupa-se de um trabalho artesanal de contar histórias, cujos fragmentos, ao serem manipulados, permitem que o que é contado se verticalize dentro de uma experiência.

A pesquisa com coleções decorre de algumas reflexões sobre o registro dos dados de campo etnográfico, momento singular da experiência concreta do antropólogo na cultura do outro e o de sua passagem à condição de fragmento de uma tal experiência como parte constitutiva do fluxo do tempo que a configura.

O trabalho com as coleções etnográficas, como parte de uma etnografia hipertextual, permite compreender a sinuosidade do real contida na superfície da representação etnográfica construída pelo antropólogo acerca do mundo do outro, tanto quanto interpretar a gama de durações com as quais o pensamento antropológico precisa se confrontar para afirmar sua autoridade ante o mundo dos fatos sociais.

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Notas

1 Projeto do Laboratório de Antropologia Social do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Endereço eletrônico: www.biev.ufrgs.br. Financiamento CNPq, Capes, Fapergs, UFRGS.

2 Sobre a expressão “etnografia hipertextual”, ver Eckert e Rocha (2008) e Antonietti (2009).

3 No âmbito das formas de exposição documentais convencionais de museus, os acervos digitais no formato multimídia, por exemplo, têm cada vez mais participado de uma “cultura visual” singular no que diz respeito às formas de tratamento documental da memória, segundo seus diversos suportes.

4 Estamos nos referindo ao uso dos recursos das tecnologias da informática no processamento eletrônico dos dados documentais advindos da pesquisa etnográfica no contexto metropolitano de Porto Alegre, agilizando o processo de resgate de informações da comunidade urbana no tempo e no espaço.

5 Sobre os habitantes do Arroio, em Porto Alegre, ver http://habitantesdoarroio.blogspot.com.br/; sobre memória ambiental, ver http://www.ufrgs.br/memoriaambientalpoa/; sobre o Biev, ver http://bievufrgs.blogspot.de/; com etnografias visuais, ver http://www.biev.ufrgs.br/grupos-de-trabalho/gt-video.php; com fotocronografias, ver http://www.biev.ufrgs.br/fotocronografias/; sobre a memória do trabalho, ver http://www.ufrgs.br/memoriasdotrabalho/; sobre as memórias de aterros, ver http://caismaua-memorias.blogspot.com.br/.

6 Sem dúvida, o século XX foi o século da memória. As ciências, a literatura, as artes, enfim, destacaram-se pela multiplicidade de formas adotadas para traduzir as memórias do mundo. Nos grandes centros urbanos, o industrialismo e as ilusões, associados ao progresso da técnica como parte constituinte do agenciamento humano do tempo, corresponderiam à invenção do cinematógrafo e dos experimentos com a técnica da fotografia em fins do século XIX.

7 Toda informação é o resultado do processamento dos dados que, analisados e interpretados sob determinada ótica, adquirem qualidade técnica.

8 O dado difere da informação. O dado é conteúdo quantificável que, por si só, não transmite nenhuma mensagem que possibilite o entendimento sobre determinada situação. Os dados podem ser considerados a unidade básica da informação.

9 O encontro/desencontro/confronto etnográfico compõe-se no interior deste trajeto complexo, em que a imagem se coloca entre o etnógrafo e o outro, em um diálogo cultural específico, que participa de suas formas de acontecimento. As imagens, destituídas de seu referencial, podem auxiliar o antropólogo a organizar sua experiência etnográfica e entender suas propriedades e regularidades, permitindo-lhe, nesse sentido, refletir sobre o alcance e os limites de suas ações.

10 Segundo Walter Benjamin (1985, p. 224), “a verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido”.

11 A respeito, ver o artigo de Otte e Volpe (2000).

12 Esta formulação procura situar as imagens produzidas pelos antropólogos em campo em outras tantas imagens produzidas pelas sociedades humanas. Por essa via, nossas imagens “etnográficas” são representações de mundo que não diferem, assim, das imagens produzidas pelas sociedades e culturas que buscamos estudar. Seguindo Norbert (1994,1999), podemos concluir que elas estão submetidas à “geometria variável” das interações no interior das quais são produzidas. Elas refletem ao mesmo tempo uma psicogênese (o trajeto de sua construção subjetiva no indivíduo-antropólogo e seus “símbolos intelectuais”, nos termos de Cassirer) e uma sociogênese (o trajeto de sua construção objetiva no mundo da cultura).

13 A inspiração para essas conexões é o artigo de Salete Nery (2007).

14 A respeito, ver Rocha (1995).

* Este texto foi apresentado no Encontro Internacional de Antropologia Visual na Universidade de São Paulo, 3 a 8 de novembro de 2014. Agradecemos ao Grupo de Antropologia Visual pelo convite e pelo debate, que foram proveitosos para a elaboração deste artigo.

Recebido: 18 de Fevereiro de 2015; Aceito: 31 de Julho de 2015

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