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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909versão On-line ISSN 1806-9053

Rev. bras. Ci. Soc. vol.31 no.91 São Paulo  2016  Epub 04-Jul-2016

http://dx.doi.org/10.17666/319108/2016 

Artigos

A SOCIOLOGIA E OS SOCIÓLOGOS DA EDUCAÇÃO NO BRASIL

SOCIOLOGY AND SOCIOLOGISTS OF EDUCATION IN BRAZIL

LA SOCIOLOGIE ET LES SOCIOLOGUES DE L’ÉDUCATION AU BRÉSIL

Amurabi Oliveira1 

Camila Ferreira da Silva2 

1Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis – SC, Brasil. E-mai: amurabi_cs@hotmail.com

2Universidade Nova de Lisboa (UNL), Lisboa, Portugal. E-mail: ferreira.camilasilva@gmail.com

RESUMO

A Sociologia da Educação (SE), no Brasil, vem sendo interrogada desde o final da década de 1980 pelos próprios pesquisadores que a desenvolvem. Este movimento de autorreflexão ganha uma nova frente analítica no presente artigoartigo: exame mais detalhado acerca do lugar que a educação ocupa no âmbito dos programas brasileiros de pós-graduação em Sociologia. Combinando abordagens quantitativa e qualitativa, as páginas eletrônicas da CAPES, dos programas de pós-graduação em questão e dos currículos lattes dos pesquisadores foram tomadas como fontes de informações e os dados que aqui analisamos daí decorrem. A frente de análise privilegiada neste estudo possibilitou, um olhar para os agentes que atuam no campo relativo à SE e, a partir de suas trajetórias formativas, áreas de atuação, projetos de pesquisa desenvolvidos, publicações e orientações, o próprio campo ganhou significações importantes nos termos da composição desse espaço de produção acadêmica. Os dados apontam para a educação como um tema relevante na agenda de pesquisa da sociologia brasileira, o que é realizado a partir da posição que os diversos agentes sociais analisados, pesquisadores e instituições, ocupam no campo.

Palavras-Chave: Sociologia da Educação; Pesquisadores; Programas de Pós-Graduação em Sociologia; Campo Acadêmico; Sociologia Brasileira

ABSTRACT

The Sociology of Education in Brazil is being questioned, since the late 1980’s, by the very researchers who develop it. This movement of self-reflection takes on a new analytical front in the present article, a more detailed examination of the place occupied by the field of education within the Brazilian graduate programs in sociology. Combining quantitative and qualitative approaches, the article analyzes data and information originated from different sources, as the electronic pages of CAPES, the graduate programs studied, and the Lattes curricula of the researchers involved in the field. From the study of these agents, their formation trajectories, areas contemplated, research projects, publications and orientations, the scope of the field itself gained important significations in terms of its composition and academic production. The data on the researchers and institutions analyzed point to education as a relevant theme in the research agenda of Brazilian sociology.

Key words: Sociology of Education; Researchers; Graduate Programs in Sociology; Academic Field; Brazilian Sociology

ABSTRACT

Au Brésil, la sociologie de l’éducation (SE) fait l’objet, depuis la fin des années 1980, de questionnements par les propres chercheurs responsables pour le développement de ce domaine. Ce mouvement d’autoréflexion obtient un nouveau front analytique dans cet article, qui s’exprime par un examen plus détaillé à propos de la place occupée par l’éducation en ce qui concerne les programmes brésiliens d’études de 3ème cycle dans le domaine de la sociologie. Tout en associant les approches quantitative et qualitative, les pages électroniques de la CAPES, les programmes de 3ème cycle spécifiques et les curriculums lattes des chercheurs ont été utilisés comme sources d’informations. Ainsi, les données que nous présentons et analysons dans cet article en sont le résultat. L’analyse détaillée proposée par cette étude a permis un regard vers les agents qui travaillent dans le domaine relatif à la SE et, à partir de leurs parcours de formation, de leurs domaines d’expertise, des projets de recherche qu’ils ont développé, de leurs publications et directions de recherches, le domaine lui-même a obtenu des significations importantes en ce qui concerne la composition de cet espace de production académique. Les données indiquent que l’éducation est devenue un sujet important dans l’agenda de recherche de la sociologie brésilienne, ce qui a eu lieu à partir de la position occupée dans ce domaine par les différents agents sociaux, chercheurs et institutions analysés.

Key words: Sociologie de l’Éducation; Chercheurs; Programmes de 3ème cycle en sociologie; Domaine académique; Sociologie brésilienne

Introdução

Pensar a sociologia da educação como um campo autônomo no Brasil requer o reconhecimento de sua fragmentação em termos teóricos, metodológicos e institucionais, tendo em vista o percurso que fora estabelecido aqui: iniciando-se com o advento dessa disciplina para os cursos de formação de professores nas escolas normais ainda nos anos de 1920, onde a sociologia se institucionalizou primeiramente (Miceli, 1989; Meucci, 2011), consolidando-se, mais tarde, com o processo de formação e expansão da pós-graduação que se inicia nos anos de 1970.1

Alguns balanços acerca da sociologia da educação têm sido realizados nas últimas décadas, seja envolvendo uma retomada mais histórica desse processo (Silva, 2002); seja para uma análise mais ampla sobre sua constituição e configuração atual (Gouveia, 1989; Oliveira, 2013); seja, ainda, se voltando para a produção acadêmica produzida nos últimos anos, a partir de grupos de trabalho (GT) de eventos acadêmicos (Costa e Silva, 2003; Nogueira e Costa, 2009), publicações em periódicos (Neves, 2002; Martins e Weber, 2010) e publicações do Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq (Oliveira e Silva, 2014).

Em todo caso, em que pesem os avanços realizados por esses balanços, que se constituem como importantes referências no processo de autorreflexão do próprio campo, pouca atenção tem sido dada a um exame mais minucioso em torno dos agentes sociais que mobilizam esse campo, ou, de forma mais específica, aos pesquisadores engajados no processo de mobilização e dinamização da sociologia da educação no Brasil. Procuramos avançar na discussão trazendo alguns elementos que nos possibilitem compreender quem são eles e como se inserem nesse debate.

Considerando-se a fragmentação institucional existente no Brasil entre as faculdades de educação e os departamentos de ciências sociais/sociologia, trata-se de um campo bastante heterogêneo e complexo, uma vez que a sociologia da educação desenvolvida em ambos os espaços possui características distintas. Martins e Weber (2010) já realizaram um indicativo nessa direção ao apontarem que haveria uma espécie de “divisão do trabalho” entre as faculdades de educação e os departamentos de sociologia/ciências sociais, pois enquanto aquelas teriam pesquisas mais voltadas para a educação básica, estes estariam mais centrados nos estudos acerca do ensino superior. E, de fato, se observamos alguns movimentos do campo, poderemos confirmar essa hipótese; como exemplo temos: a existência do grupo de trabalho “Novas configurações do ensino superior nas sociedades contemporâneas” no Encontro Anual da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Ciências Sociais (Anpocs), a partir de sua 38ª edição, que passou a centralizar as discussões sobre educação neste evento,2 assumindo um perfil mais claramente delineado que o existente até então com o GT “Educação e sociedade”, cujas atividades haviam se iniciado ainda em 1982, porém, como já indicara o balanço realizado por Oliven (1998) acerca da produção do GT, a questão da universidade era a temática que vinha sendo mais debatida dentro do grupo.

Neste artigo buscaremos realizar um exercício ainda não desenvolvido pelos trabalhos até aqui elaborados, que se refere a um exame mais detalhado sobre o lugar da educação nos programas de pós-graduação em sociologia no país, partindo de suas linhas de pesquisa e dando especial atenção para ao perfil e às atividades dos pesquisadores que se voltam para essa temática e se vinculam a tais programas, seus traços acadêmicos, trajetórias, produção etc.

Para alcançarmos nosso intento, organizaremos o texto da seguinte forma: na primeira parte realizaremos um esclarecimento sobre nossos procedimentos metodológicos com o intuito de oferecer clareza ao leitor de como chegamos aos dados obtidos; em seguida, exploraremos o lugar que a educação ocupa na agenda de pesquisa dos programas de pós-graduação em sociologia no Brasil a partir de suas linhas de pesquisa; e, por fim, voltaremos nossa atenção para os agentes envolvidos nesse campo, buscando delinear o perfil dessa comunidade científica.

É válido esclarecer que não se trata de restringir a sociologia da educação àquela desenvolvida nos programas de pós-graduação em sociologia; todavia, trata-se de um recorte que almeja visibilizar certo desdobramento desse campo no Brasil. Reconhecemos aqui a relevância sociologia da educação desenvolvida nas faculdades de educação, mas que, devido ao escopo deste trabalho, não será objeto de análise neste momento.

Procedimentos metodológicos

O exercício empreendido no presente estudo contempla uma frente analítica bastante específica, a saber: compreender o lugar que a educação ocupa no âmbito da sociologia brasileira contemporânea. Naturalmente, esta frente pode se mostrar um tanto abrangente quando se leva em consideração o número de pesquisadores ligados à sociologia que já desenvolveram e/ou desenvolvem investigações nesse sentido. Tal tendência, por sua vez, conduz-nos a uma série de tomadas de decisões inerentes ao processo de interrogação e recorte do objeto de estudo. São, pois, essas decisões que ganham agora relevo.

As primeiras tomadas de decisão referem-se ao espaço e aos sujeitos a serem analisados. Outros estudos (Gouveia, 1989; Cunha, 1992; Silva, 2002; Costa e Silva, 2003; Hey, 2007; Martins e Weber, 2010; Oliveira, 2013) já demonstraram como um movimento de autorreflexão no âmbito da sociologia da educação vem marcando parte da produção nacional. Além dos mapeamentos (de produção, de programas de pós-graduação, de investigadores e de espaços de socialização do conhecimento) contribuírem para uma visão do desenvolvimento dessa área, eles fornecem pistas importantes dos espaços que vêm sendo institucionalizados por aqueles que compõem o campo de produção em questão. Nesse sentido, no presente estudo, optou-se por tomar à análise os pesquisadores que fazem parte dos programas de pós-graduação brasileiros relativamente à área da sociologia, como já anunciamos.

As abordagens quantitativa e qualitativa encontram-se aqui em relação simbiótica, uma vez que é justamente na associação entre ambas que as relações entre as categorias caras a este estudo ganham sentido. A operacionalização do estudo contou com as seguintes etapas: 1) levantamento de informações secundárias; 2) produção de dados a partir dessas informações; 3) tabulação e organização dos dados; e 4) análise dos dados.

No primeiro momento, foram buscadas informações relativas aos programas de pós-graduação em sociologia no país na página eletrônica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (Capes). A listagem dos programas avaliados por esta agência, no âmbito da sociologia, apresenta 52 programas, os quais, no entanto, se denominam de forma diversa: 27 programas em ciências sociais (51%); dezoito em sociologia (35%); três em sociologia política (6%); dois em sociologia e antropologia (4%); um em planejamento e políticas públicas (2%); um em políticas públicas e sociedade (2%).

Desses programas, 31 possuem cursos de mestrado e doutorado (59%), vinte apenas mestrado (38%), dos quais dois são profissionais (8%), e um oferta apenas curso em nível de doutorado (4%). Esse cenário indica um processo de consolidação da área, tendo em vista que a maior parte dos programas possui cursos de mestrado e doutorado e, como nos indica o documento de avaliação trienal, essa área passou por uma rápida expansão nos últimos anos,3 especialmente a partir do final dos anos de 1990. Todavia, algumas marcas perduram, como a forte concentração dos cursos na região Sudeste (Capes, 2013).

Apesar da interdisciplinaridade ser uma das marcas dessa área, havendo tradicionalmente um modelo de pós-graduação que articula sociologia, antropologia e ciência política em cursos de ciências sociais, tal qual existe em nível de graduação na maior parte dos casos (Lima e Cortes, 2013), observa-se um movimento de formação de programas disciplinares, em alguns casos resultantes do desmembramento de programas de ciências sociais.

Para a análise tomamos como referência os programas que se afirmam de modo disciplinar na sociologia, eliminando da amostra tanto os de ciências sociais, como aqueles que articulam sociologia e política ou sociologia e antropologia. Esse procedimento permitiu um tratamento mais exato ao delineamento do campo da sociologia da educação no Brasil em termos institucionais, ainda que hajam limites nessa escolha, uma vez que deixamos de fora importantes pesquisadores que têm se dedicado à temática e que se encontram vinculados a esses outros programas.

Obviamente que compreendemos que essa escolha metodológica implica um olhar específico sobre um corpus também específico, ou seja, recortamos a realidade no exercício analítico aqui proposto, porém compreendemos que a totalidade do campo da sociologia da educação – ou mesmo de investigações pontuais que tomam fenômenos educativos à análise – não se reduz aos dezoito programas que estudamos neste artigo, ao mas eles constituem uma parte importante no espaço de produção acadêmica e simbólica da área. Como muito já foi discutido sobre o movimento de alocação da sociologia da educação nas faculdades de educação a partir, principalmente, dos anos de 1970, acreditamos que esse recorte mais disciplinar e institucional possibilite verificar em que medida se pode afirmar (ou não) que educação é um tema periférico, o que, como já indicamos, já fora objeto de reflexão na área, porém sem haver uma preocupação com a dimensão mais institucional dos programas disciplinares, tampouco com os agentes envolvidos no debate, ao menos não de forma mais detalhada.

A produção dos dados seguiu um caminho marcado pelo movimento de ida aos programas de pós-graduação em questão e depois aos pesquisadores que os compõem: as próprias páginas eletrônicas desses programas serviram como espaço de recolha de informações, com principal atenção às linhas de pesquisa que os marcam; e, no âmbito dos agentes, os currículos lattes dos pesquisadores foram as fontes para o mapeamento que empreendemos, o qual tem preocupação com as trajetórias de formação acadêmica, as áreas de atuação, os projetos de pesquisa, a produção e as orientações que os investigadores registram em seus currículos. O lugar da educação nesses programas de sociologia, portanto, é compreendido a partir desse conjunto de dados.

As etapas, por fim, de tabulação, organização e posterior análise de dados se deu tendo em vista o exercício de lançar luz ao nosso objeto de estudo. As categorias, classificações e análises que emergiram desses processos permitiram-nos um olhar relacional entre as próprias categorias, bem como entre os achados deste estudo e de outros que os antecederam.

O lugar institucional da educação na sociologia brasileira

Ainda no começo dos anos de 1990, Weber (1992) apontara para o lugar periférico que a educação ocupava na agenda de pesquisa da pós-graduação em sociologia no Brasil, indicando que apenas quatro programas possuíam linhas de pesquisa que tinham alguma conexão com o tema. Em balanço recente, Lima e Cortes (2013), considerando tanto os programas de sociologia como os de ciências sociais, indicam que, entre as 95 linhas de pesquisa existentes, apenas quatro se dedicariam ao tema da educação. Interessante notar que se, por um lado, o número de linhas voltadas para essa temática parece permanecer inalterado, por outro, ao considerarmos a expansão que foi vivenciada pela área no interstício de vinte anos que separam os dois balanços, podemos afirmar que houve redução do espaço ocupado por essa temática, ou ainda que ela não apresentou uma capacidade de expansão no mesmo ritmo que outras.

No atual cenário, dos dezoito programas, cinco possuem ao menos uma linha de pesquisa voltada explicitamente para a pesquisa educacional; eles estão situados nas seguintes universidades com suas respectivas linhas: Universidade de Brasília (UnB), “educação, ciência e tecnologia”; Universidade Federal de Goiás (UFG), “práticas educacionais na sociedade contemporânea”; Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), “educação, trabalho, ciên- cia e tecnologia”; Universidade Federal do Piauí (UFPI), “Estado e sociedade: trabalho, educação, atores políticos e desigualdades sociais”, Universidade de São Paulo (USP), “sociologia da educação”. Há ainda o caso da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que possui uma linha bastante ampla denominada “sociedade e conhecimento”, que abarca o debate educacional, mas também o ultrapassa. Como sua ementa indica, além dos estudos no âmbito da sociologia da educação, ela também abrange sociologia da ciência e da tecnologia, teoria sociológica, sociologia da moral e da religião; sociologia da cultura.

Interessante perceber que, dos seis programas indicados, quatro estão bastante consolidados (UnB,4 UFPE,5 USP,6 UFRGS7), tendo iniciado suas atividades acadêmicas ainda nos anos de 1960-1970, quando emerge no Brasil, a partir da Reforma Universitária de 1968, o atual modelo de pós-graduação. Isso mostra que a educação constitui um objeto de investigação “clássico” da sociologia (Gouveia, 1989). A existência de linhas de pesquisa nessas quatro instituições não parece ser fruto de mero acaso, tendo em vista que, segundo o balanço de Oliven (1998) acerca do GT “Educação e sociedade” da Anpocs, entre 1982 e 1996, quando examinadas as instituições de origem dos pesquisadores que apresentaram trabalhos nesse espaço, a UnB figura como instituição mais presente, seguida da USP, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),8 da UFPE, da UFRGS e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), sendo que estas três últimas se fizeram presentes o mesmo número de vezes na programação do GT.

Se considerarmos os programas exclusivamente de sociologia que atualmente estão avaliados com as maiores notas atribuídas pela Capes, apenas o da Unicamp (nota 6) e da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar (nota 6) não possuem uma linha de investigação voltada para a pesquisa educacional. Portanto, a existência de linhas de pesquisa envolvendo essa temática em programas da UnB (nota 6), da UFRGS (nota 7) e da USP (nota 7) indica algo relevante sobre o campo. Partindo do pressuposto de que tais agentes têm uma situação privilegiada na estruturação da agenda de pesquisa da sociologia brasileira, mesmo apresentando um número bastante enxuto de linhas de pesquisa em educação, essa temática mantém seu status ocupando espaços importantes. O Congresso Brasileiro de Sociologia, em 2015, por exemplo, contou com três GTs que tocavam na questão educacional: “Educação e sociedade”, “Educação superior na sociedade contemporânea” e “Ensino de sociologia”.

Por outro lado, se os agentes sociais possuidores de um maior capital simbólico no campo são capazes de deformar suas regras (Bourdieu, 2004), podemos supor que a existência de linhas de pesquisa voltadas para esta temática em programas de pós-graduação em sociologia “centrais” no campo acadêmico brasileiro, por assim dizer, é um importante fator para manter esse tema na agenda de pesquisa da sociologia brasileira, ainda que seja um tema que goza de menor status dentro das ciências sociais (Lima e Cortes, 2013) e que foi sendo paulatinamente apropriado pelos programas de pós-graduação em educação.

Todavia, mesmo que agrupemos tais programas num primeiro momento, é preciso reconhecer a heterogeneidade do lugar que a educação ocupa em suas linhas de pesquisa, pois alguns têm um perfil mais delineado – como no caso da USP e da UFG – e em outros a educação aparece como um elemento articulado especialmente à ciência e à tecnologia. Nesses últimos casos, esse arranjo mostra que na mesma linha se encontram pesquisadores com interesses distintos: além daqueles que se dedicam à pesquisa sociológica educacional, há outros que trabalham na fronteira educacional ou ainda aqueles que não têm nenhuma interface com esse campo (Quadro 1).

Quadro 1 Linhas de Pesquisa e suas Ementas 

Instituição Linha de Pesquisa Ementa
UnB Educação, Ciência e Tecnologia Pesquisa as novas tendências nas políticas educacionais e de ciência e tecnologia. Acompanha e avalia políticas e programas sociais e suas relações com o processo de desenvolvimento nacional. Investiga as condições e as novas práticas de produção do conhecimento científico e tecnológico, a partir do contexto da globalização, da democratização da sociedade e seus impactos na sociedade brasileira. Discute a participação de diferentes atores sociais na elaboração das políticas: o Estado, o setor produtivo e a comunidade científica. Aborda questões educacionais emergentes, como a diversificação do ensino superior, a evolução do sistema de pós-graduação, a avaliação institucional e a formação de quadros profissionais e científicos.
UFG Práticas Educacionais na Sociedade Contemporânea Esta linha de pesquisa privilegia estudos sobre a sociologia da educação, articulando os referenciais teórico-metodológicos das ciências sociais a educação; estudos sobre política educacional, abordando as relações entre Estado e sociedade; estudos das práticas educacionais e os sujeitos contemporâneos; dos sistemas escolares; educação e cultura escolar; desigualdades educacionais e sociais; teoria crítica e educação; ensino e os processos de formação docente; o papel social das licenciaturas e do ensino médio, assim como estudos de experiências em educação não formal.
UFPE Educação, Trabalho, Ciência e Tecnologia Busca estudar o impacto de tecnologias recentes na configuração de campos profissionais, bem como sobre o mundo do trabalho. Busca, ainda, compreender as práticas educacionais a partir desse impacto.
UFPI Estado e Sociedade: trabalho, educação, atores políticos e desigualdades sociais Um aspecto fundamental das sociedades contemporâneas é a articulação entre os mundos do trabalho, a educação e o modo como os diversos atores políticos lidam com essas instituições sociais. Nesse sentido, conceitos como desigualdade social, desenvolvimento, empreendedorismo e suas relações com os movimentos sociais têm implicação sobre a compreensão das mudanças sociais que fundamentam nossa existência social contemporânea. As pesquisas dessa linha terão como horizonte o estudo desses conceitos e suas significações sociais, especialmente no Nordeste brasileiro e no Piauí, onde as questões da educação, mobilização política e do desenvolvimento econômico podem ter profunda influência sobre a questão da compreensão dos processos que caracterizam a desigualdade social.
USP Sociologia da Educação A área de concentração abarca o estudo das relações entre a reprodução cultural e a reprodução social, investigando as instituições e as práticas educacionais em suas articulações com outras esferas da experiência social, tanto nas sociedades contemporâneas, em geral, como, especificamente, na sociedade brasileira. Nesse sentido, engloba pesquisas sobre a história dos sistemas institucionais de ensino, a constituição do sistema educacional no Brasil, a experiência acadêmica no Brasil moderno e contemporâneo, a educação na teoria sociológica, as relações entre a escola e as classes sociais, as políticas educacionais, as representações acerca da escola e da educação, os espaços e sujeitos de práticas educacionais externas à escola nas sociedades modernas. Explorando as dimensões sociais, políticas e culturais da educação, os estudos desenvolvidos no âmbito dessa área dialogam com outros temas de pesquisa sociológica, como o trabalho, a juventude, a ciência, a cultura e a democracia.
UFRGS Sociedade e Conhecimento Análise da relação entre conhecimento e sociedade e de sua especificidade no contexto contemporâneo. O foco é a compreensão do caráter social da produção do conhecimento e a investigação das implicações da produção e reprodução do conhecimento para a sociedade. A linha contempla os seguintes campos de pesquisa: sociologia da educação (pesquisas sobre educação, políticas educacionais, educação superior); sociologia da ciência e da tecnologia (ciência, reflexividade, papel da tecnologia e da inovação); teoria sociológica (epistemologia, teoria clássica e contemporânea); sociologia da moral e da religião (análises teóricas e empíricas dos fenômenos morais, dos fenômenos religiosos e da relação entre ambos); sociologia da cultura (pesquisas sobre cultura e conhecimento).

Fonte: Oliveira e Silva (2014).

Como podemos observar, as linhas apresentam focos substancialmente diferenciados, porém persiste a tônica apontada por Martins e Weber (2010) de haver uma maior preocupação com o ensino superior – apenas no caso da UFG há um direcionamento mais explícito para as questões que dizem respeito à educação básica e, no caso da UFPI, isso fica implícito dentro de suas preocupações com as demandas regionais e locais.

Entretanto, é importante deixar claro que a delimitação de uma linha de pesquisa específica pode escamotear o lugar da educação na agenda de pesquisa mais ampla dos programas de pós-graduação, como no caso da sociologia na USP, onde há uma linha de pesquisa denominada “sociologia da educação”, mas que abarca apenas duas pesquisadoras de um total de 33 docentes que compõem o quadro do programa. Essa situação pode ser analisada por dois diferentes ângulos: a) como uma confirmação da hipótese de que a educação de fato ocupa um lugar periférico na agenda de pesquisa da sociologia brasileira; b) que isso reflete o movimento de diversificação e fragmentação de pesquisa da sociologia nas últimas décadas (Liedke Filho, 2005).

No caso específico desses programas, indagamos também se houve a oferta de disciplinas ligadas à educação9 entre 2000 e 2012, de modo que pudéssemos verificar se as atividades de pesquisa se conectavam às de ensino. Em alguns casos, confirmamos uma oferta contínua de disciplinas ligadas à educação, como no caso da UFPE e da UnB: na primeira, a disciplina “Educação e sociedade” foi ofertada em todos os anos do período verificado, havendo ainda a disciplina “Sociologia da educação” entre 2000 e 2003, bem como “Psicossociologia da educação” no mesmo período e também em 2005, além das “Leituras dirigidas” e, por fim, em 2009, as disciplinas “A questão da avaliação da educação superior no Brasil” e “O processo de profissionalização do docente na contemporaneidade”; na segunda, “Sociologia da educação” aparece em todos os anos com exceção de 2005 e, em 2011 e 2012, “Educação e trabalho em ciência e tecnologia: globalização e ensino superior” – no caso específico deste programa vale destacar a forte interface com a questão educacional na discussão desenvolvida pela disciplina “Ciência e tecnologia”, o que aponta para uma das possibilidade de inserção do debate sobre educação na agenda de pesquisa da sociologia brasileira.

O programa da UFRGS é bastante singular: em 2000, foi ofertada a disciplina “Universidade e sociedade”, desdobrada em dois módulos, porém ela não figura nos anos seguintes; sem embargo, “Educação e sociedade” foi ofertada em 2002 e entre os anos de 2009 e 2012. Neste programa, a questão da educação tangencia ainda a disciplina “Sociologia da juventude” e, de forma mais enfática, surge como um dos pontos da disciplina “A teoria de N. Luhmann”, que tem sido ofertada com alguma regularidade, sendo um dos tópicos da disciplina “A educação como sistema”.

Na USP, apesar da existência de uma linha de pesquisa em sociologia da educação, apenas em 2004 verificamos uma disciplina voltada para a temática, denominada “Educação, cultura e universidade”; vale destacar, contudo, a disciplina “Sociologia de Pierre Bourdieu”, oferecida continuamente, na qual uma das propostas é discutir a educação. Não verificamos a oferta de nenhuma disciplina ligada ao tema educação no programa da UFG, o que pode ser explicado pelo fato de que se trata de uma linha de pesquisa nova, criada apenas em 2013; porém, em um programa também recente, criado em 2012 na UFPI, já foi oferecida a disciplina “Análise da política educacional em perspectiva comparada”, o que pode indicar uma boa articulação entre as atividades de ensino e pesquisa.

Com base nos dados, podemos afirmar que, na maior parte dos casos analisados, as atividades de pesquisa se relacionam com as de ensino, ou que o tema da educação é tratado em disciplinas diversas, de modo que é relativamente estável a oferta de cursos voltados para essa questão. Entretanto, chamamos atenção para o fato de que as atividades de ensino dessas disciplinas tendem a se concentrar em poucos docentes, normalmente um único, sobretudo a partir da segunda metade dos anos 2000. Além disso, mesmo com igual denominação e com ementas bastante amplas, as disciplinas tendem a ter uma variação significativa de propostas e, principalmente, de referenciais bibliográficos. Se determinados autores aparecem na bibliografia de várias disciplinas, como Pierre Bourdieu, Florestan Fernandes, Aparecida Joly Gouveia e Luiz Antônio Cunha, nenhum percorre as referências de todos os programas analisados. Aparentemente, a escolha bibliográfica está afinada com a tradição intelectual na qual os pesquisadores se inserem, considerando principalmente os centros de formação onde realizaram pós-graduação, e, de modo geral, há uma forte inclinação para os legados anglófonos e francófonos.

Afora esses cursos, há ainda situações em que a educação aparece de modo incidental na descrição das linhas de pesquisa: “Estratificação e mobilidade social”, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj); “Sociologia das desigualdades e da estratificação”, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); “Políticas públicas, teoria social e ação coletiva”, na Universidade Federal de Grande Dourados (UFGD); “Estrutura social, poder e mobilidade”, na UFSCar. Chama atenção o fato de que nesses casos há uma forte tônica que relaciona o debate educacional com aquele sobre as desigualdades sociais, o que se encontra na esteira do que tem sido elaborado no campo da sociologia da educação no Brasil (Oliveira, 2013) e no mundo (Forquin, 1995), pois uma das grandes questões que tem mobilizado esse campo, principalmente a partir da segunda metade do século XX, diz respeito à relação entre a educação, tendo em vista sobretudo o sistema escolar formal, e a produção e reprodução das desigualdades sociais.

Em análise recente (Oliveira e Silva, 2014), realizada com grupos de pesquisa registrados no Diretório do CNPq, indicamos uma presença crescente – substancialmente a partir dos anos 2000 e mais ainda a partir de 2010 – de estudos que fazem fronteira com o tema da educação. Talvez, esse incremento na área tenha a ver com o processo de ampliação do acesso à educação formal, especialmente ao ensino superior, bem como suas transformações. Nessa mesma perspectiva, acreditamos que isso também está ligado à possibilidade de a educação ter se tornado um tema relevante na agenda de pesquisa da sociologia brasileira, uma vez que emerge, de forma mais ou menos contundente, em dez dos dezoitos programas de pós-graduação em sociologia existentes atualmente (55%). Ou seja, se considerarmos o desenho apresentado pelas linhas de pesquisa dos programas de pós-graduação, a rejeição a esse tema na sociologia (Cunha, 1992) seria muito relativa. Com efeito, assistimos hoje a uma revitalização dessa discussão, alavancada pelas transformações sociais que levaram a educação para o centro das preocupações da sociedade brasileira contemporânea.

Ao que nos parece, a propensão de uma maior apropriação da educação como objeto da sociologia (Neves, 2002), iniciada ainda nos anos de 1980, tende a se consolidar, porém de forma difusa e por meio de ações que, em alguns casos, se mostram pontuais por envolverem poucos pesquisadores. De qualquer maneira, essa tendência indica uma maior consolidação da sociologia da educação, com pesquisas mais consistentes em termos teóricos e metodológicos. Isso seria ao menos esperado se pensarmos na aproximação com a ciência de referência, tendo em vista que a inconsistência nesses termos tem sido alvo de crítica quando se analisa o processo de apropriação da sociologia por outros campos do conhecimento (Martins e Weber, 2010).

Perfil dos pesquisadores no campo da sociologia da educação

Com base na análise das linhas de pesquisa, chegamos aos 56 pesquisadores inseridos nos diversos programas de pós-graduação articulados, explícita ou implicitamente, ao universo educacional. Como já mencionamos, isso não significa dizer que todos esses pesquisadores se dedicam à pesquisa educacional propriamente dita, mas que a educação surge em muitos casos como um dos elementos que compõem a discussão, articulando-se com outros temas. A esse respeito, chama atenção a hipótese levantada por Sobral (2013) de que a educação não seria um objeto esquecido na pós-graduação em sociologia, mas que estaria oculto em meio a temas como “cultura”, “desigualdade”, “conhecimento”, “políticas públicas” e “trabalho”, alguns bastante proeminentes na sociologia brasileira.

Nesse sentido, passou a ser fundamental que nossa análise abarcasse também a formação desses pesquisadores: se indicavam ou não a questão educacional como uma de suas áreas de atuação, se tinham projetos de pesquisa em curso ou já concluídos que envolviam esse tema, bem como se vinham publicando artigos em periódicos ou orientando trabalhos que se desenvolviam na interface entre a sociologia e a educação.

Um primeiro ponto que nos chamou a atenção é que 59% dos pesquisadores dessas linhas de pesquisa possuem formação exclusivamente nas ciências sociais e, entre aqueles com formação híbrida, a graduação em pedagogia ou pós-graduação em educação é a mais recorrente, aparecendo em cinco dos 23 casos desse tipo de formação (22%). Assim, podemos especular que essa trajetória na formação intelectual desses pesquisadores teve um peso significativo na delimitação de seus objetos de investigação. Mais que isso:

[…] estes percursos acadêmicos parecem estar lastreados pela ideia de que ao se procurar debater a temática educacional é necessário recorrer, por vezes, a programas de educação, dado o ainda pequeno número de programas nas ciências sociais com linhas de Pesquisa em Educação, ao mesmo tempo, em que se recorre a programas em ciências sociais para que por meio das ferramentas teóricas e metodológicas de tais ciências se possa abordar o objeto educacional. Este percurso realizado por alguns pesquisadores transparece nas disputas estabelecidas no campo acadêmico em torno tanto dos objetos legítimos de serem pesquisados, quanto das abordagens teóricas e metodológicas (Bourdieu, 2011). (Oliveira e Silva, 2014, p. 309).

Dessa totalidade de pesquisadores (56), apenas dezoito (32%) apontam a educação entre suas áreas de atuação, o que reforça nossa hipótese de que a sociologia da educação se faz presente de forma difusa nos programas. Mas essa porcentagem, ao mesmo tempo, constata uma presença significativa desse universo de investigação, o que conflui com os dados levantados por Dwyer, Barbosa e Braga (2013) acerca dos sócios da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), que apontam a educação como o terceiro tema mais pesquisado entre aqueles que compuseram sua amostragem, neste caso isso equivale a 11% do total, o que comprova a persistência desse tema clássico na agenda de pesquisa da sociologia brasileira.

Há que se considerar também que mesmo aqueles cuja área de atuação é a educação tendem a apresentar para um amplo leque de linhas de pesquisa. Se considerarmos o total de 223 linhas de pesquisa apontadas pelo conjunto dos pesquisadores aqui investigados, apenas 23 (10%) se relacionam com a educação.

Chamam ainda atenção os projetos de pesquisa, pois nesse âmbito encontramos uma articulação entre as atividades da graduação e da pós-graduação, possibilitando a reprodução do corpus universitário, uma vez que os bolsistas de iniciação científica têm mais acesso aos cursos de mestrado e doutorado; eles normalmente aprofundam os temas estudados em sua formação inicial (Nogueira e Canaan, 2009). E é a partir desses projetos que a produção acadêmica será fomentada. Interessante notar que, apesar de apenas 32% dos pesquisadores apontarem a educação como área de atuação, 27 (48%) desenvolvem projetos de pesquisa que envolvem a questão educacional, ou seja, se considerarmos a atuação real dos docentes, veremos que a sociologia da educação abarca um universo ainda maior de pesquisadores; em contrapartida, se considerarmos o total de projetos desenvolvidos pelos docentes (em curso e já concluídos), apenas 89 deles (24%) se dedicam à questão educacional.

Acerca desses percentuais, são necessárias algumas considerações Primeiro, o levantamento das investigações tomou como recorte temporal o intervalo compreendido entre 2000 e 2015; esta aparente desconexão entre o número considerável de pesquisadores que desenvolvem projetos ligados à educação, de um lado, e o número desses projetos diante do universo de pesquisas que foram desenvolvidas, de outro, parece corroborar a ideia de que, mesmo quando os agentes desenvolvem trajetórias investigativas em outras áreas, a educação aparece, esporadicamente, em seus estudos como um elemento explicativo de outros tantos fenômenos. Assim, facilmente lê-se o dado que se reporta a este cenário, isto é, praticamente metade dos pesquisadores desenvolveu e/ou desenvolve pesquisas relacionadas com a educação entre 2000 e 2015, porém tais pesquisas representam somente um quarto do total de pesquisas desenvolvidas no mesmo período; se levarmos em consideração o fato de parte desses pesquisadores dedicarem-se quase exclusivamente à sociologia da educação, fica evidente que alguns pesquisadores desenvolveram, em contrapartida, somente uma ou duas pesquisas nessa área.

Ainda nessa direção, percebe-se que há quase uma sobreposição dos dados em relação àqueles que desenvolvem projetos de pesquisa envolvendo a questão educacional e os trabalhos cujo tema principal é a educação, pois exatamente 50% dos pesquisadores estudados publicaram, nos últimos anos, artigos relacionados com o tema – percentual bastante próximo daqueles que desenvolveram pesquisas nessa seara (48%). Ainda que, se considerarmos o montante de trabalhos publicados pelos 56 pesquisadores, esse índice tenha sido bastante reduzido, apenas 74 (9%) dos 850 trabalhos produzidos são voltados para o tema educacional. O mesmo raciocínio que utilizamos para problematizar os dados relativos aos projetos de pesquisa pode ser aplicado neste caso. Enquanto alguns pesquisadores concentram todas as suas publicações no âmbito da sociologia da educação, outros contabilizaram zero ou apenas um artigo publicado nessa área; de fato, tanto no caso dos projetos, como no caso das publicações de artigos em periódicos, a média aqui calculada camufla os extremos dentro do nosso corpus.

Ainda sobre as publicações, cerca de um terço dos artigos publicados sobre educação (23) foi veiculado em revistas da área educacional e não de ciências sociais, o que mostra a fluidez desse campo. Novamente recorrendo de forma comparativa com o levantamento de Dwyer, Barbosa, Braga (2013), percebe-se que, entre os sócios da SBS, as revistas Educação e Sociedade e Revista Brasileira de Educação surgem entre os periódicos nacionais mais citados, o que confirma que aqueles que se dedicam à sociologia da educação tendem a circular também em outros espaços institucionais para além da sociologia.

No âmbito dos docentes que orientam mestrandos ou doutorandos, 33 dos investigados (59%) tiveram orientação, em curso ou concluída, que, de alguma maneira, envolvesse o tema educacional, o que mostra que essa atividade é realizada tanto por professores que pesquisam e produzem nesse campo específico, como por outros que não se inserem no debate de forma mais enfática. Isso fi- cou evidente em casos de pesquisadores que não desenvolveram nenhum projeto ligado à educação, tampouco publicaram artigos sobre o tema, mas orientaram dissertações e teses relacionadas a ele. Nesse sentido, a prática existente corrobora a perspectiva anunciada por Fernandes (1971), de que não haveria sociologias específicas, mas sim a possibilidade de aplicação dos referenciais teóricos e metodológicos dessa ciência nos diversos objetos de investigação. Embora os dados apontem para a tendência de que a maior parte desses trabalhos seja orientada por docentes inseridos no campo educacional, ainda assim se trata de um número considerável, pois são 132 pesquisas em nível de mestrado e doutorado concluídas ou em curso. Os temas são bastante diversificados, sendo mais recorrentes os trabalhos sobre ensino superior (21%), formação e trabalho docente (15%), educação profissional (11%) e sociologia no ensino médio (6,8%). Este último emerge como uma preocupação recente, que ganhou visibilidade a partir da reintrodução da sociologia na educação básica, angariando um espaço cada vez maior nos programas de sociologia (Handfas e Maçaira; 2014).

Diante do que constatamos até aqui, longe de ser um objeto esquecido pela sociologia, a educação permanece ativamente em sua agenda de pesquisa no Brasil, ainda que haja certa dispersão no que tange às pesquisas e à produção acadêmica. Todavia, é preciso um olhar mais cuidadoso sobre um grupo especial de docentes que reúne, ao mesmo tempo, todas as características listadas anteriormente: indicam a educação como área de atuação, desenvolvem projetos de pesquisa nesse campo, produzem trabalhos acadêmicos sobre o tema e orientam pesquisas de mestrado e doutorado na área. Nesse caso, nosso escopo se restringe a catorze docentes que atendem a todos esses quesitos.

Resta saber por que docentes que continuamente desenvolvem pesquisas e orientam trabalhos que envolvem a questão educacional, não apontam a educação como seu campo de atuação. Talvez o ranço originário da separação entre as faculdades de educação e as de filosofia e ciências humanas não tenha sido ainda em todo superado ou, mais que isso, dentro dos processos de busca por uma posição dentro do campo acadêmico os pesquisadores tenderiam a se afirmar a partir de temas dotados de maior prestígio (Bourdieu, 2011), de tal modo que as investigações sobre as ações afirmativas no ensino superior, por exemplo, tendem a ficar sob a égide das investigações sobre estratificação social. Isso tem implicações sobre os espaços de circulação da produção acadêmica daí originária, que tende a ter um menor trânsito por periódicos especificamente voltados para a educação, bem como por GTs que debatem exclusivamente os processos educacionais. Não à toa Nogueira e Costa (2009) afirmam que, mesmo no caso dos grupos denominados “Educação e sociedade” que participam em eventos da SBS e da Anpocs, o público predominante de expositores é formado por pesquisadores vinculados institucionalmente às faculdades de educação.

Os quatorze docentes referimos anteriormente lecionam em oito instituições: quatro, na UnB, três na UFPE, dois na UFG, um na Uerj), um na USP), um na UFGD, um na UFPI e um na UFRGS. Os dados confirmam nossa hipótese inicial acerca da dispersão da sociologia da educação na agenda de pesquisa dos programas. À exceção da UnB, da UFPE e da UFG, os demais programas contam com um único docente que possui todas as características ligadas à pesquisa em educação, fato que aponta para pesquisas realizadas de forma mais isolada ou, ainda, para a existência de grupos que se voltam para temática da educação, mas que gravitam em torno de lideranças na área.

Trata-se de um grupo titulado majoritariamente na sociologia (dez) e, em menor grau, na educação (dois) ou, ainda, na antropologia (um) e na ciência política (um). Os pesquisadores são, via de regra, bastante experientes, e aqueles que possuem titulação há mais tempo obtiveram o doutoramento ainda nos anos de 1970 e 1980. De forma geral, podemos indicar que apenas um desses docentes se titulou há menos de cinco anos (7,14%); dois, entre cinco e dez anos (14,28%); cinco, entre dez e vinte anos (35,7%); três, entre vinte e trinta anos (21,4%); e três, há mais de trinta anos (21,4%). Portanto, 78,5% desse grupo é doutor há mais de dez anos, sendo que 42,8% do total é doutor há mais de vinte anos. A maturidade intelectual do grupo pode ser averiguada ainda pelo fato de que cinco deles (35,7%) já realizaram estudos em nível de pós-doutorado.

Por outro lado, a predominância de doutores com um perfil mais consolidado pode indicar uma dificuldade na renovação de quadros nessa área, de tal modo que se pode inferir que os novos docentes que adentraram nas universidades nos últimos anos não têm se voltado para a pesquisa em educação, ao menos não nos referidos centros de pesquisa que são aqui objeto de análise. Outra possibilidade ainda é que aqueles que têm se dedicado ao campo da sociologia da educação encontrariam maior inserção nas faculdades de educação, onde há um maior número de programas de pós-graduação (159, atualmente).

A formação no exterior é também uma característica desse grupo. Cinco docentes realizaram seus estudos doutorais fora do país (35,7%): dois na França, dois nos Estados Unidos e uma na Alemanha, o que aponta para as tradições teóricas mais enraizadas do debate acadêmico da sociologia brasileira, especialmente em relação à sociologia da educação (Costa e Silva, 2003). Ademais, sete deles já foram professores visitantes no exterior em algum momento de suas carreiras, o que transparece certa tendência à internacionalização do debate; fato substanciado pela quantidade de publicações realizadas em periódicos estrangeiros. Não é à toa que cinco desses docentes são bolsistas de produtividade do CNPq, o que aponta para uma posição privilegiada no campo.

Além disso, sete professores desse grupo pesquisaram sobre educação em suas teses de doutorado (cinco em programas de sociologia e dois em educação). Portanto, a inserção da outra metade no debate educacional resultou ou do desdobramento de pesquisas envolvidas com o tema da educação ou de os docentes estarem inseridos em grupos de pesquisa já constituídos, ou, ainda, de desenvolverem pesquisas que respondam por demandas diversas. Na verdade, essa inserção só poderia ser mais bem explorada mediante um exame detalhado e aprofundado das trajetórias dos pesquisadores, tendo em vista que os caminhos para adentrar em uma determinada temática podem ser os mais diversos, como indica o trabalho de Hey (2008).

Uma última característica a destacar nesse grupo é a forte presença de pesquisadores capazes de transitar por outros espaços institucionais – desde sociedades científicas na área das ciências sociais, como a SBS e Anpocs, passando por espaços de avaliação institucional e agências de fomento, como Capes, CNPq e fundações de amparo à pesquisa locais, até espaços ligados diretamente à ação do Estado no campo da educação, exercendo atividades diversas como consultoria ao Ministério da Educação (MEC) na área de direitos humanos, integrando comitês do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) ou órgãos colegiados, como o Conselho Nacional de Educação. Há ainda dois casos bastante singulares: um docente que exerceu a função de secretário municipal de educação e uma professora que foi secretária estadual de educação. A participação desses pesquisadores em cargos executivos pode levar a uma verdadeira formulação da sociologia como uma policy science, nos moldes já pensados pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (Silva, 2002).

Em resumo, esse grupo de catorze docentes é formado por pesquisadores experientes e bem situados no campo; dotados, portanto, de capital simbólico suficiente para inserir a discussão sobre educação em suas instituições e, em algum grau, influenciar de forma mais ampla o campo da sociologia brasileira, mantendo vivo o debate educacional com um tema clássico das ciências sociais. Ademais, isso também pode ser verificado pela mobilização desses agentes por meio da organização de dossiês temáticos nos periódicos publicados por seus programas nos últimos anos e pela participação em mesas-redondas, fóruns e GTs nos mais relevantes eventos da área, com destaque para os congressos da SBS e encontros da Anpocs.

Considerações finais

A literatura nacional vem evidenciando uma preocupação em compreender como tem acontecido o desenvolvimento da sociologia da educação desde o final da década de 1980. Exercícios analíticos bastante distintos marcam as formas eleitas pelos pesquisadores nesse processo que chamamos de autorreflexão. O estudo aqui apresentado insere-se, pois, nesse contexto com a pretensão de contribuir para o aprofundamento do conhecimento sobre a sociologia da educação no âmbito dos programas de pós-graduação em sociologia no país. A delimitação desse espaço como lócus de interesse possibilitou um olhar mais detido não só para os próprios programas de mestrado e doutorado da área, mas, sobretudo, para os agentes que neles atuam.

A relação mútua entre campo e agente, nesse caso, auxiliou-nos a compreender – analisando suas trajetórias, áreas de atuação, pesquisas desenvolvidas, produção e orientações – aspectos importantes da própria composição do campo em questão. Longe de esgotar com este mapeamento o universo da sociologia da educação no Brasil, o exercício analítico aqui empreendido trouxe à tona o debate sobre o lugar que a educação ocupa hoje na sociologia.

Apesar de a educação estar, historicamente, presente na agenda de pesquisa da sociologia, apresenta-se hoje de forma diversa e dispersa. Em estudo anterior, já tínhamos mostrado a dificuldade de se estabelecer uma agenda de pesquisa em nível nacional (Oliveira e Silva, 2014), o que foi comprovado quando observamos a dispersão do desenvolvimento de pesquisas, das publicações e também das orientações do grupo de pesquisadores aqui analisados. Notamos, ainda, uma tendência dos professores em não assinalar a educação como área predominante de seus grupos de pesquisa, fato que se repetiu quando analisamos as áreas de atuação que os 56 pesquisadores apontaram em seus currículos. A educação aparece de forma frágil, talvez em função do baixo prestígio que ela ocupa no cenário mais amplo do campo acadêmico brasileiro.

De qualquer maneira, a temática educacional perdura como um tema clássico e central na agenda de pesquisa da sociologia brasileira, apesar de uma aparente dificuldade de renovação do quadro de pesquisadores que se dedicam ao tema, o que é reforçado em meio a um cenário de expansão de acesso ao ensino superior e de intensas transformações também na educação básica. Isso, em contrapartida, tem fomentado pesquisas na área, ainda que de forma bastante dispersa e diluída, por vezes, em outras temáticas.

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1Não será objeto deste artigo uma reconstituição histórica da formação do campo da sociologia da educação no Brasil, tendo em vista que tal exercício já fora realizado por outros pesquisadores como Silva (2002); Neves (2002); Costa, Silva (2003); Martins e Weber (2010); ademais não constitui o foco de nossa reflexão essa questão, ainda que reconhecida como relevante para a compreensão dos movimentos produzidos pelo campo.

2É importante destacar que neste mesmo evento ocorrem também os chamados simpósios de pesquisas pós-graduadas (SPG), que se voltam prioritariamente para pesquisas desenvolvidas em nível de mestrado e doutorado, e, a partir da 38ª edição, surgiu o SPG intitulado “Ciências sociais e educação: dilemas e possibilidades na produção do conhecimento”, que se manteve como um espaço aberto a outras discussões no campo da educação, incluindo o debate em torno da educação básica.

3Tal expansão foi experimentada não somente pela área da sociologia; alguns estudos demonstram, ainda, como essa expansão foi tomada como objeto de pesquisa no Brasil. A título de exemplos citamos: bioquímica, engenharia elétrica, física e química (Velloso, 2002); educação (Wassem, Pereira e Balzan, 2015); educação física (Quadros, Afonso e Ribeiro, 2013); enfermagem (Schchi et al., 2013); geografia (Neto e Oliveira, 2014); literatura (Machado, 2005). Se tomarmos a história da pós-graduação brasileira como elemento para refletir sobre esta expansão mais recente, temos que a gênese e o consequente amadurecimento dos programas de pós-graduação no país estiveram diretamente ligados às universidades que, naquele momento histórico, eram as mais consolidadas ou em vias de consolidação (Meneghel e Wassem, 2009). Nesse sentido, e considerando o modo como a pós-graduação é aprovada e avaliada no Brasil, o elemento “grau de desenvolvimento” das instituições de ensino superior ganha relevo e pode ajudar a compreender os processos desencadeados nas últimas décadas, o que nos permite afirmar que, diante dessa expansão e ainda com a diversidade institucional que marca o sistema de ensino superior brasileiro, o número de instituições com elevado grau de desenvolvimento aumentou nas últimas décadas. Por outro lado, e agora vamos além da questão da institucionalização da pós-graduação propriamente dita para observar os agentes “estudantes”, o incremento das matrículas no ensino superior entre 1995 e 2010 aproxima-se dos 134,5% (MEC, 2011), dando uma pista do número de sujeitos que passam a demandar ampliação das pós-graduações para a continuidade de seus estudos.

4Fundado em 1970, passando a atuar em nível de mestrado e doutorado a partir de 1984.

5Iniciou suas atividades como um mestrado em sociologia e economia em 1967, cujo modelo perdurou até 1981, quando passou a ser um programa disciplinar, ofertando também curso de doutorado a partir de 1995.

6O programa passou a outorgar títulos de mestre e doutor em sociologia desde 1945, todavia dentro de seu atual formato suas atividades iniciaram a partir de 1971, já com a oferta de cursos de mestrado e doutorado.

7Programa fundado em 1973; passou a ofertar cursos também em nível de doutorado a partir de 1994.

8No caso da Unicamp, ainda que o trabalho de Oliven não problematize se os pesquisadores estão vinculados institucionalmente às faculdades e aos programas de educação ou aos departamentos e programas de ciências sociais/sociologia, podemos supor uma presença mais marcante de pesquisadores vinculados à Faculdade de Educação, tendo em vista a existência, neste caso, de um Departamento de Ciências Sociais na Educação que se desdobra em uma das áreas de concentração do programa de pós-graduação em educação denominado, atualmente, “Educação e ciências sociais”.

9Esse levantamento foi realizado com base nos “cadernos de indicadores”, disponível na página da Capes, referente a cada programa. Os dados consolidados estavam disponíveis até o ano de 2012, quando encerrou a última avaliação trienal. Trata-se, portanto, de dados fornecidos pelos próprios programas ao órgão responsável pela avaliação de suas atividades. É importante esclarecer que as avaliações da Capes das pós-graduações stricto sensu estão organizadas atualmente em quatriênios e não mais em triênios, como ocorreu até 2012.

Recebido: 06 de Abril de 2015; Aceito: 24 de Novembro de 2015

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