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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909versão On-line ISSN 1806-9053

Rev. bras. Ci. Soc. vol.33 no.97 São Paulo  2018  Epub 08-Mar-2018

http://dx.doi.org/10.1590/339702/2018 

Artigo original

CIÊNCIAS HUMANAS E NEUROCIÊNCIAS: UM CONFRONTO CRÍTICO A PARTIR DE UM CONTEXTO EDUCACIONAL*

HUMAN SCIENCES AND NEUROSCIENCES: A CRITICAL CONFRONTATION AS SEEN FROM A BRAZILIAN EDUCATIONAL CONTEXT

SCIENCES HUMAINES ET NEUROSCIENCES: UNE CONFRONTATION CRITIQUE À PARTIR D’UN CONTEXTE ÉDUCATIF

Luiz Fernando Dias Duarte1 

1Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ), Rio de Janeiro – RJ, Brasil. E-mail: lfdduarte@uol.com.br


RESUMO

A antropologia contemporânea tem se aberto com grande entusiasmo para uma revisão das bases tradicionais da oposição entre “natureza” e “cultura”, seguindo tendências antirrepresentacionalistas e hiperempiristas que se fundam em um conjunto complexo de argumentos filosóficos e éticos. Ao mesmo tempo, novas configurações das ciências naturais retomam os postulados mecanicistas originais dessa área. O vasto campo contemporâneo das neurociências tem sido pródigo em propostas materialistas deterministas, ao explorar a conexão cerebral da experiência humana com potentes recursos e ambições de grande envergadura. A coetaneidade desses movimentos sugere que se resuma em que se aproximam e se distinguem esses “naturalismos” biomédicos e antropológicos. Mas se trata aqui sobretudo de resumir os principais fios do diálogo tenso que se vai desenhando entre as posições características dos dois grandes campos, com importantes desafios para o empreendimento antropológico; tal como expresso nas exposições do recente Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

Palavras-Chave: Neurociência; Museu; Ciência; Determinismo; Naturalismo

ABSTRACT

Contemporary anthropology has opened itself with great enthusiasm to a revision of the traditional bases of the opposition between “nature” and “culture”, following anti-representationalist and hyper-empiricist trends based on a number of philosophical and ethical postulates. At the same time, new configurations in the natural sciences return to their characteristic mechanist models, reasserting their original tenets. The broad contemporaneous field of neurosciences abounds in proposals based on a deterministic materialism, emerging from top technology and broad scope research about the connection between the nervous system and human experience. The coetaneity of these movements demands an expatiation about the points of convergence and divergence between biomedical and anthropological “naturalisms”. It is then necessary to gather some of the links of the tense dialogue in process among the sundry positions in both fields, involving eminent challenges for the anthropological endeavor; as expressed especially in the exhibits of the new Museu do Amanhã (Museum of Tomorrow), in Rio de Janeiro.

Key words: Neuroscience; Museum; Science; Determinism; Naturalism

ABSTRACT

L’anthropologie contemporaine s’est ouverte avec beaucoup d’enthousiasme à une révision des bases traditionnelles de l’opposition entre la « nature » et la « culture », suivant les tendances anti-représentationnalistes et hyper-empiristes qui se confondent dans un ensemble complexe d’arguments philosophiques et éthiques. Parallèlement, de nouvelles configurations des sciences naturelles ont repris les postulats mécanicistesoriginaux de ce domaine. Le vaste champ des neurosciences contemporaines a été riche en propositions matérialistes déterministes en explorant la connexion cérébrale de l’expérience humaine avec de puissants moyens et des ambitions à grande échelle. La contemporanéité de ces mouvements suggère que l’on résume en quoi s’approchent et se distinguent les « naturalismes » biomédicaux et anthropologiques. Mais il s’agit principalement de résumer les principaux fils conducteurs du dialogue tendu qui se dessine entre les positions caractéristiques des deux grands domaines, avec des défis importants à l’entreprise anthropologique tel que cela est exprimé dans les expositions récentes du récent Museu do Amanhã (Musée de Demain) à Rio de Janeiro.

Key words: Neurosciences; Musée; Science; Déterminisme; Naturalisme

Para o organismo, a organização é um fato; para a sociedade é o seu a fazer.

Canguilhem (1975, p. 333).

O desafio do cerebralismo

Em dezembro de 2015, foi aberto no Rio de Janeiro o muito aguardado Museu do Amanhã, com uma sede portentosa, desenhada pelo arquiteto Santiago Calatrava e erigida em pleno centro da cidade. A iniciativa fora desencadeada cinco anos antes pela Fundação Roberto Marinho e obtivera um crescente apoio da Prefeitura do Rio, no bojo de seu projeto de revitalização da região portuária da cidade.

Entre as diversas atrações da exposição inaugural, voltada, grosso modo, para a relação entre a tecnociência e a preservação ambiental, surgia todo um módulo intitulado “Pensamento”, em que as informações precedentes sobre a natureza cósmica e biológica cediam lugar a uma apresentação da condição humana, o elo essencial em direção ao módulo seguinte, dedicado ao Antropoceno, com a caracterização da devastação antrópica e suas terríveis e previsíveis implicações futuras.

O retrato apresentado buscava mostrar algumas características estruturais e alguns aspectos fenomenais da humanidade, distribuídos entre uma série de dispositivos museográficos nas áreas de circulação e um ambiente mais fechado, um grande cubo, guarnecido de colunas dispostas em labirinto, revestidas de imagens variegadas, remissivas a um amplo leque de atividades e instituições humanas.

Para um antropólogo que, como eu, participara como consultor do projeto do museu desde o início de sua concepção,1 o que mais chamava a atenção eram dois pontos, diretamente contrários à orientação que procurara imprimir antes a minha contribuição: o cerebralismo radical das referências à condição humana e o caráter aleatório, assistemático e superficial da tentativa de demonstração da variedade e complexidade da experiência sociocultural da humanidade.

Considero necessário procurar compreender esse episódio crítico contemporâneo à luz dos macrodesafios enfrentados pelas ciências humanas em face da ambição reiterada das ciências biomédicas de produzir uma compreensão do humano totalmente “fisicalista” ou “naturalista”, o que costuma ser criticamente chamado de “reducionismo” (eventualmente expresso como um “eliminacionismo”).2 Recentíssimas reconfigurações das ciências naturais vêm retomando os postulados mecanicistas originais desse campo, refinando-os e reforçando-os (cf. Meloni, 2011, p. 103). O vasto campo contemporâneo das neurociências tem sido pródigo em propostas sobre a preeminência da matéria, ao explorar o funcionamento da conexão cerebral da experiência humana com potentes recursos e ambições de grande envergadura.

A antropologia contemporânea, por outro lado, tem se aberto com grande entusiasmo para uma revisão das bases tradicionais da oposição entre “natureza” e “cultura”, seguindo tendências antirrepresentacionalistas e hiperempiristas, que se fundam em um conjunto complexo de argumentos filosóficos e éticos. A ênfase na experiência vivencial e na condição incorporada do pensamento e dos valores tende a produzir um interesse particular na corporalidade e na afetividade, podendo ser eventualmente considerada assim também próxima de uma “naturalização”.

Cresce uma robusta literatura sobre as duas tendências, que tem levantado inclusive o tema de uma possível confluência mútua. Essa acumulação crítica exige uma constante revisão dos principais fios do diálogo tenso e desafiador que se vai desenhando entre as posições características dos dois grandes campos, com importantes implicações para o empreendimento antropológico e para o pensamento ocidental em geral, além de exigir uma reflexão sobre as condições e limites da convivência entre esses saberes.

É inesgotável a literatura que trata de ambos os assuntos e é particularmente difícil dar conta do primeiro, o da relação presente entre ciências humanas e neurociências. Não se trata apenas do volume material da produção, mas da intensidade dos debates, polarizados entre o que Fitzgerald e Callard (2014, p. 9) chamam de “retórica da crítica” e de “retórica da exuberância [ebullience]” – a primeira voltada para a denúncia das ambições socioculturais das neurociências (particularmente das “neurociências cognitivas”); a segunda voltada para o enaltecimento do projeto neurocientífico. Nesse sentido, é preciso deixar claro desde já que, embora minha argumentação neste artigo seja bastante típica do registro da “crítica”, ela não se volta evidentemente contra a pesquisa em neurociências em si, mas contra a formulação e uso de ilações socioculturais de seus conhecimentos em contextos gerais de divulgação científica ou formação educativa, aproveitando-se de uma aposta ingênua na maior “cientificidade” de suas propostas e compondo uma estratégia autoritária de desqualificação das ciências humanas.

Como ressalta Alain Ehrenberg (apud Bezerra Júnior, 2007, p. 134):

[...] a última perspectiva [da literatura proponente de um “sujeito cerebral”] é de caráter social e se refere à disseminação de inscrições sociais e imaginárias que fazem do cérebro e de suas propriedades biológicas um verdadeiro ator social, e não apenas a condição biológica de possibilidade de existência do self.

Tal concepção do ser humano tem implicações éticas profundas, ao postular um regime de autoridade e responsabilidade mecânico, autorreferido e extrassubjetivo, infenso e hostil à compreensão das condições culturais e psicológicas que instituem os sujeitos na vida social – a única possível para a humanidade.

As críticas das ciências humanas contra as ambições do “programa forte” das neurociências não visam coibir que tais manifestações se deem no vasto campo das possibilidades contemporâneas de interpretação da condição humana – o que seria descabido, além de inútil –, mas sim demonstrar como esses desenvolvimentos podem ser incompetentes em sua concepção (à luz de sua outra experiência), temerários em suas promessas apressadas, e autoritários em seu desprezo pelo saber acumulado e corrente das ciências humanas.

A seguir, a segunda seção deste artigo apresenta o material empírico da exposição do Museu do Amanhã, do qual se depreendem diversos aspectos essenciais dos argumentos posteriores. A terceira seção é uma tentativa de oferecer uma ideia geral da multifacetada história do naturalismo ocidental moderno, no que toca o trajeto da invenção do “sistema nervoso” até a conformação do “cerebralismo” contemporâneo. A quarta seção busca fazer um contraponto com as tendências também “naturalizantes” que detecto nos desenvolvimentos recentes da antropologia, partícipes assim de um “estilo de pensamento” (Fleck, [1935] 1979) de grande interesse. Abordo aí também alguns movimentos in- ternos da biologia contemporânea, que permitem tornar mais complexa a atitude da biomedicina em relação ao determinismo. Finalmente, nas conclusões, trato dos debates disponíveis explicitamente entre os cientistas sociais e as neurociências, para demonstrar suas características e insuficiências, e retorno ao aguilhão local (da exposição do Museu do Amanhã) para amarrar o excurso analítico geral.

Retrato do cérebro enquanto jovem

Em um texto geral a respeito do módulo “Pensamento”,3 mais ou menos a meia altura do percurso expositivo do Museu do Amanhã, aparece a atribuição ao cérebro humano de causalidade suficiente e linear em relação à experiência sociocultural, como revela o uso do verbo “resultar” na frase seguinte – em que, do “sistema nervoso”, coroado pelo cérebro, “resulta” a cultura:

O terceiro cubo, enfim, apresenta a dimensão do Pensamento. No exterior, temos mais uma vez um elemento unificador: nosso sistema nervoso, que é essencialmente o mesmo em todos os seres humanos. Dessa identidade fundamental, no entanto, resulta a incrível diversidade das culturas, ilustrada por centenas de imagens que retratam diferentes aspectos de nossa vida, sentimentos e ações – como habitamos, celebramos, disputamos, pertencemos.

O mesmo uso tendencioso do verbo “resultar” aparece em um texto da bancada interativa, que precede imediatamente o cubo dedicado à cultura:

O cérebro humano – Sensações, emoções, lembranças, movimentos: tudo o que existe para nós resulta de processos realizados pelo cérebro. [...] Está sempre agindo e reagindo [...] (grifo meu).

Toda a complexa evolução da espécie humana, com seus componentes biológicos, corporais, ambientais, culturais, sociais e psicológicos, assim como toda a complexa dinâmica da vida humana histórica, com seus componentes políticos e afetivos, são assim resumidas:

O pensamento se desenvolveu com a evolução da vida. É produzido pelo mais complexo dos órgãos: o cérebro, uma massa de [...] A criatividade humana deu origem à diversidade das culturas, à arte e à ciência.

Teria havido assim uma “evolução da vida” que incluiu o desenvolvimento do pensamento. Mas, como este é produzido pelo cérebro, o que teria havido seria, na verdade, o desenvolvimento do cérebro. Supondo finalmente que a “criatividade humana” seja um efeito do pensamento e, na medida em que este não passa de uma emanação do cérebro, depreende-se que é o cérebro afinal que dá origem à cultura (diversidade, arte e ciência).

A apresentação do cérebro como deus ex machina continua, em outro texto do mesmo equipamento: “Com o desenvolvimento da técnica, o cérebro estende os limites do corpo para além da ponta dos dedos [...]”. Ou ainda, e de maneira mais contundente:

Outra grande proeza do cérebro humano foi a aquisição da linguagem [...]. Mas a ciência ainda procura entender como o cérebro de uma criança aprende a representar o mundo por meio da língua.

Por fim, a construção da futura história humana vem a se concentrar nos processos tecnocientíficos de uma ambicionada manipulação do cérebro:

Aprender a identificar padrões de atividade cerebral relacionados a diversos processos pode abrir as portas para explorar o enorme potencial desse órgão. [...].

Todo esse desenvolvimento retórico cerebralista apresenta um fundamento “histórico”, filogenético – uma verdadeira cosmogonia –, para a emergência das capacidades do moderno cérebro humano, em hipótese que sugere uma grande mutação natural, arbitrária e aleatória, em direção ao estado de cultura, o que se manifesta em duas diferentes passagens da exposição:

O cérebro além do cérebro – um “excesso” das capacidades existentes no cérebro – quer dizer, a abundância de ligações neuronais que podem ser estimuladas pela aprendizagem – permitiu que os humanos criassem a técnica e a linguagem.

Conhecimento – Tudo começou com um pequeno excesso de células no cérebro. Um excesso que permitiu o desenvolvimento da linguagem e da técnica.

Todas essas informações sobre o cérebro como agente autoinstituído da condição humana precedem o interior do cubo mencionado, onde a “incrível diversidade das culturas” se apresenta sob a forma de um caleidoscópio de imagens coloridas de variadíssima origem, num arranjo despojado de qualquer sistematicidade e necessidade.4

A mensagem que decorre da detalhada apresentação do caráter estruturado e estruturante do cérebro contrasta vivamente com a da pitoresca justaposição de uma variedade avulsa e completamente aleatória – que não deixa de evocar a absurda e imaginária enciclopédia chinesa celebremente citada por Jorge Luis Borges em um de seus contos, e retomada por M. Foucault na abertura de As palavras e as coisas.

O que faz um cérebro?

O fato de que a experiência humana opera, em certo nível, pela mediação da matéria cerebral dos sujeitos é inquestionável em nossa cultura, pelo menos desde Descartes. O desenvolvimento, nas últimas décadas, das neurociências tem permitido avançar celeremente no conhecimento do funcionamento dessa complexíssima engrenagem, ensejando grandes expectativas quanto às possibilidades técnicas futuras desse saber. Esse papel crucial do órgão começou a ser sistematicamente descrito no século XVII (no contexto do conhecimento sobre o recém-inventado “sistema nervoso” – Duarte, 1986) e nunca deixou de merecer a mais detida atenção pela ciência ocidental moderna, com a construção de diferentes hipóteses e modelos (Figlio, 1975; Vidal, 2005).

O fato de a experiência humana se dar por meio do cérebro não implica, porém, necessariamente pretender que ela tenha origem nesse órgão, ou que seja dele um mero epifenômeno. Muito pelo contrário, tem se discutido amplamente como o surgimento do cérebro “humano” pode ser o resultado de um processo evolucionário, filogenético, em que a materialidade original do cérebro símio interagiu continuamente, por pressões ambientais e acumulação de traços diferenciais, com os primeiros desafios e experiências da cultura e da socialidade humanas, constituindo-se e vindo a sustentar a forma material e as propriedades funcionais do órgão atual.

Clifford Geertz foi o antropólogo a ter mais claramente formulado essa participação da cultura na evolução humana e não apenas em sua história:

[...] não apenas a acumulação cultural já se encontrava em curso bem antes que cessasse o desenvolvimento orgânico, mas [...] essa acumulação muito provavelmente desempenhara um papel ativo na conformação dos estágios finais daquele desenvolvimento (Geertz, 1973, p. 67).5

Ou ainda:

Entre o padrão cultural, o corpo e o cérebro, criou-se um sistema de retroalimentação positiva, no qual cada um conformava o progresso do outro; um sistema em que a interação entre o crescente uso de ferramentas, a mutante anatomia da mão e a ampliada representação do polegar no córtex é apenas um dos exemplos mais gráficos. Ao se submeter à governança de programas simbolicamente mediados para a produção de artefatos, a organização da vida social ou a expressão das emoções, o homem determinou, mesmo que sem saber, os estágios culminantes de seu destino biológico. Bem literalmente, ainda que inadvertidamente, ele se criou a si mesmo (Geertz, 1973, p. 48).

Mais recentemente, Tim Ingold tem retomado esse ponto, de modo ainda mais eloquente. Na seguinte passagem, o argumento montado contra o determinismo genético é perfeitamente aplicável ao contexto cerebralista:

[...] o DNA nunca existe em si mesmo, exceto quando isolado artificialmente no laboratório. Ele existe dentro de células, que são partes de organismos, eles próprios situados em ambientes mais amplos. E é somente em virtude de sua incorporação na maquinaria viva da célula que as moléculas de DNA têm os efeitos que têm. Sozinhas, elas não produzem cópias de si mesmas nem constroem proteínas, muito menos organismos inteiros [...]. Logo, o DNA não é um agente, mas um reagente, e as reações particulares que ele põe em movimento dependem do contexto total do organismo no qual ele está situado (Ingold, 2000, p. 14) .

Do mesmo modo, em cada evolução ontogenética supõe-se que a modelagem cerebral geneticamente herdada interaja com os estímulos e as condições de vida de cada ser individual (o que sói ser chamado de “ambiente”), moldando uma configuração peculiar, singular, nunca terminada, aliás (graças à chamada “plasticidade neuronal” – Lent, 2010). Esse é o motivo pelo qual é temerário que o cérebro (humano) seja apresentado na exposição como um ente autônomo, um agente exclusivo da história, saído pronto da coxa de Júpiter para ocupar o lugar de demiurgo universal da humanidade. Um cérebro que se faz – e faz o mundo.

A posição hegemônica nas ciências humanas contemporâneas a respeito da relação entre natureza e cultura (ou todas as variações da oposição original cartesiana entre res extensa e res cogitans) considera haver algum tipo de “paralelismo psicofísico” entre o suporte corporal da vida humana e a experiência vital em si, integrada a condições intersubjetivas e coletivas que são necessariamente oriundas do ambiente envolvente de cada sujeito humano e, evidentemente, das propriedades de seu “cérebro”.6 Essa correspondência ou paralelismo sublinha o caráter necessariamente interativo das diversas dimensões da condição humana, sem atribuir um caráter determinista nem ao “espírito” nem à “matéria”. O mesmo caráter interativo se considera reconhecível nas hipóteses disponíveis sobre a emergência da condição humana a partir de algum momento da evolução dos mamíferos superiores.7

A literatura que tenta compreender a eclosão e o rápido desenvolvimento das neurociências na cultura ocidental moderna, no último quartel do século XX, arrola diversas circunstâncias que teriam favorecido uma retomada tão vigorosa da ideologia reducionista (Russo e Ponciano, 2002; Bezerra Júnior, 2010), permitindo sua difusão cada vez mais generalizada, no lugar das interpretações de cunho sociológico ou psicológico dos fenômenos humanos, que se tinham paulatinamente imposto no Ocidente contra as interpretações mágicas ou teológicas (a partir do Renascimento, pelo menos).

Fernando Vidal chama a atenção, muito propriamente, para a marca mais ampla, de longa duração, da concepção da encarnação cristã, que forneceu um dos fundamentos centrais da cosmologia ocidental: a da sacralização da “carne”, da dimensão terrena do humano (e, por aí, mais adiante, da “matéria” e da “natureza”) (Vidal, 2005, p. 41). Essa peculiar característica da cultura cristã sofreu uma torção importante no século XVII, com a generalização de uma concepção relativamente mais desencarnada da noção de pessoa, graças às aceleradas investigações filosóficas e fisiológicas sobre os processos da razão (a mente, o entendimento, o juízo etc.) e da experiência sensorial, que culminaram na descrição de um “sistema nervoso” e na formulação do duradouro modelo dualista de Descartes, mediado justamente por um elemento do cérebro, a glândula pineal.8 Começava a se impor então o cérebro como lócus privilegiado da humanidade dos sujeitos humanos.

Essa torção de efeitos persistentes fazia parte da grande transformação cultural que redundou no que se veio a chamar de “modernidade”. Os portadores de um sistema nervoso exclusivamente físico, integrado e centrado numa sede cerebral, eram também os portadores de novas qualidades coletivas, como a da “individualidade” subjacente à cidadania associada ao “contrato social” (Duarte, 1986, p. 103). Uma total reconfiguração da relação entre o público e o privado vinha a prevalecer, constituindo as bases da “esfera pública” moderna, associada ao liberalismo político e econômico e aos individualismos quantitativo (liberdade e igualdade) e qualitativo (autonomia e singularidade).

Concomitantemente à noção de uma pessoa politicamente livre e dotada de um entendimento ideologicamente desimpedido, espraiaram-se as preocupações com uma nova educação (como em J.-J. Rousseau e Pestalozzi) e generalizaram-se os investimentos no autocultivo dos novos indivíduos (como na Bildung romântica).

O projeto tecnocientífico desencadeado no século XVII, coetâneo da grande transformação política da modernidade, vinha, por outro lado, buscar conhecer a experiência humana à luz dos modelos mecânicos que tinham constituído a linha de frente do avanço científico newtoniano. O assim chamado “mecanicismo”, característico das nascentes ciências biomédicas modernas, cedeu paulatinamente lugar a um “organicismo”, graças aos aportes da crítica vitalista, mas não perdeu de vista o ideal de uma explicação dos fenômenos humanos, baseada nos pressupostos materialistas, fisicalistas e naturalistas das ciências exatas. O organicismo forneceu ao antigo desiderato a justificação empírica para uma concepção autorreferida dos sujeitos humanos, como mônada individual, autônoma, assertiva e autopoiética, coerente com a unidade garantida pelo sistema nervoso/cérebro e pela “razão” nele assentada.

Esse foi e continua sendo o caldo de cultura de onde emergiu o projeto contemporâneo de “naturalização” da mente e da vida social que se expressa nas neurociências (Bezerra Júnior, 2010), mas não apenas, já que se pode vê-lo igualmente pujante na genética, na imunologia, na endocrinologia e nas ciências evolucionárias.9

As características de reducionismo, internalismo e individualismo, a que alude Bezerra Júnior (2010, p. 146) ao analisar o campo ideológico em que vicejam as neurociências no início do século XXI, podem ser integradas a esta minha breve evocação das longas linhas de força da cosmologia ocidental: o reducionismo é a continuada tentativa de explicar toda a experiência humana pelas propriedades imediatas da matéria de que se constitui o seu corpo; o internalismo é a continuada ênfase na singularidade monádica de cada sujeito, independentemente de suas relações com o mundo envolvente,10 e o individualismo é a generalizada atribuição aos sujeitos humanos da capacidade e obrigação de autogestão.11

A disposição reducionista ganhou imenso fôlego com a invenção dos poderosos recursos de visualização do funcionamento interno do cérebro (as neuroimagens funcionais) ora disponíveis, que oferecem supostas confirmações palpáveis da “realidade” observada da vida do órgão12 e constituem um solo inesgotável para as pesquisas neurocientíficas.

A disposição individualista (na versão que G. Simmel chamou classicamente de “qualitativa”) se articula com processos mais amplos de reordenação dos horizontes ideológicos e éticos da pessoa humana, característicos das últimas décadas do século XX,