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Revista Brasileira de Ciências Sociais

versão impressa ISSN 0102-6909versão On-line ISSN 1806-9053

Rev. bras. Ci. Soc. vol.34 no.100 São Paulo  2019  Epub 08-Nov-2018

http://dx.doi.org/10.1590/3410002/2019 

RESENHA

Precisamos falar sobre o sujeito pós-soberano

We need to talk about the post-sovereign subject

1Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), Ponte Nova – MG, Brasil. E-mail: jose.junior@ifmg.edu.br.

ARIAS-MALDONADO, Manuel. La democracia sentimental: politica y emociones en el siglo XXI. Barcelona: Página Indómita, 2016. 438p.

O cenário é recorrente no contexto político atual: cada vez mais os indivíduos dividem-se em grupos de posicionamentos rivais, distanciando-se entre si e dialogando cada vez menos. Quando zonas de contato surgem, atacam-se mutuamente, com violências e ataques pejorativos. Com a ampliação das possibilidades de interação digital, esse cenário se amplia, com as discussões políticas cada vez mais acaloradas, violentas, e pouco produtivas em termos de debates sobre os rumos da organização sociopolítica. Entendida como “polarização”, essa situação não é comum apenas no contexto político brasileiro, mas na maior parte das sociedades democráticas contemporâneas. Trata-se de um grande obstáculo para desenvolvermos processos de deliberação democrática, já que tais processos pressupõem o debate sobre os mais diversos posicionamentos em termos políticos, com indivíduos que discutem e deliberam de forma racional e atenta, com vistas ao melhor para a sociedade. Falamos então em crise da democracia, uma vez que esse sistema político parece não dar mostras de sua efetividade

Uma sugestão sobre as circunstâncias políticas descritas no parágrafo anterior aponta que esse contexto de crise é fruto das recentes alterações sociopolíticas, como a globalização e as crises econômicas. Em tais contextos, o sujeito político do sistema democrático parece perder suas expectativas sobre tal sistema, tornando-se cético em relação aos atores envolvidos (políticos) e também em relação à democracia em si (participação). Esse sujeito dialoga pouco, mantendo-se firme em seus posicionamentos e pouco aberto às possibilidades e discursos. Preso em redes de distribuição de informações que só confirmam seus pontos de vista (meios de comunicação, redes sociais e círculos sociais mais íntimos), acaba por envolver-se em um dos lados da referida polarização, com poucas possibilidades de aproximação com outras visões políticas. Exemplos dessa situação envolvem não só o atual cenário político brasileiro, mas também as últimas eleições nos Estados Unidos e o referendo sobre a participação da Inglaterra na União Europeia, entre outros casos, como os populismos e totalitarismos do século XX.

É o sujeito envolvido nesses contextos políticos e sua relação com a democracia que o cientista político espanhol Manuel Arias Maldonado aborda no ensaio La democracia sentimental: política e emociones en el siglo XXI. Trata-se de uma vasta análise multidisciplinar sobre as características dos sujeitos e seu envolvimento político, principalmente em relação ao perfil tradicional que se espera do indivíduo nas democracias ocidentais: um agente racional, autônomo, e livre, que faz escolhas e análises de forma soberana. Maldonado ataca esse pressuposto, identificando um sujeito pós-soberano como elemento central dos contextos sociopolíticos. Esse sujeito não é tão racional, como pensavam as tradições teóricas que estruturam as democracias contemporâneas, e muito menos livre e autônomo, envolvido que é pelas mais diversas circunstâncias emocionais e afetivas próprias da nossa espécie. O novo retrato levantado por Maldonado, atualmente professor de ciência política na Universidade de Málaga (Espanha), tem por base uma série de investigações oriundas das mais diversas áreas de pesquisa – psicologia, economia, filosofia, antropologia, neurociências – e, conforme a visão do autor, deve nos fazer repensar nossas organizações sociopolíticas. Trata-se de uma leitura muito estimulante e que nos chama a atenção para uma série de pressupostos das sociedades e suas instituições políticas.

Defensor de um posicionamento político liberal, entendido como “sinônimo de um governo constitucional dotado de garantias e direitos individuais, orientados a garantir o máximo de liberdade compatível com a promoção de uma igualdade razoável” (p. 303), Maldonado nutre expectativas de que essa visão política possa contribuir para um cenário onde o sujeito pós-soberano possa exercer uma autonomia possível em relação à situação sociopolítica. No entanto, como o próprio autor sugere, não há garantias de que isso torne o cenário político imune ao impacto dos afetos, os quais têm se intensificado nos últimos anos. Dessa maneira, é necessário que o liberalismo reconheça e se adapte às condições recentemente reveladas pelas novas concepções de ser humano advindas das investigações empíricas – o que Maldonado nomeia como “giro afetivo nas ciências sociais”. Trata-se assim de ponderar as implicações normativas das investigações psicológicas e neurocientíficas e elucidar as consequências para o ideal de autonomia que constitui nossas sociedades democráticas. Vejamos se Maldonado atinge seus objetivos bastante amplos e inovadores em termos de compreensão da política.

Na introdução, intitulada “O retorno do reprimido”, Maldonado aborda inicialmente os “velhos fantasmas políticos” do populismo e do fascismo, que voltam a assombrar-nos no século XXI. Uma parte considerável desse retorno se deve às atuais circunstâncias, em que, envolvidos em polarizações ligadas à crescente sentimentalização dos posicionamentos políticos, não escutamos mais uns aos outros, condição necessária para os processos deliberativos das democracias. Para Maldonado, com o advento das redes sociais, a conversação pública se deteriorou, pois nos prendemos a caixas de ressonância de nossa própria voz, aumentando cada vez mais a polarização. Esse cenário é um risco para as democracias representativas de nosso tempo, pelos claros riscos extremistas que passam a estar presentes. Muitos dos fantasmas políticos do passado tinham por base conjuntos de alta reatividade política e emocional.

O autor trata também das relações entre política e emoções, apontando como a história das ciências sociais e das humanidades subordinam as emoções e paixões à razão. No final do século XX, uma nova abordagem surge em diálogo com outras investigações científicas, buscando compreender o papel das emoções nas diversas esferas que envolvem a humanidade. Esse “giro afetivo” proporciona novas informações para as ciências sociais: a racionalidade do agente não garante que este seja um maximizador racional de vantagens, pois está aberto a uma série de vieses; o agente moral difere das propostas iluministas, pois é muito impactado por emoções e demais afetos, situações e demais contextos em seus juízos; em termos econômicos, estamos muito mais propensos a afecções do que a tradição do Homo economicus poderia assentir. Maldonado reconhece que diversos teóricos já nos chamaram a atenção para o papel das “paixões” no animal humano, como David Hume, Adam Smith e Friedrich Nietzsche, porém, esse quadro foi ampliado pelos resultados recentes das diversas ciências comportamentais, psicológicas e neurocientíficas.

Dessa forma, o giro afetivo nos apresenta a um novo sujeito a ser objeto das ciências sociais: o sujeito pós-soberano. Diferente do quadro elaborado tradicionalmente dentro das matrizes platônica e iluminista, esse sujeito não é tão imune aos afetos nem possui soberania sobre sua autonomia como esperavam tais tradições. Ele reage de forma pouco deliberada nas diversas circunstâncias em que está inserido, toma decisões irracionais em contextos de intensidade, fica continuamente disponível para estratégias de mobilização de grupos e autoridades, entre outros traços que desafiam o perfil racional tradicional que sustenta nossas práticas democráticas. Esse novo modelo traz consequências políticas relevantes, como o papel político dos afetos e os modos como esse sujeito pós-soberanos envolve-se com as deliberações democráticas.

Na primeira parte do livro, “Retrato do sujeito pós-soberano”, Maldonado retoma a questão do Oráculo de Delfos, apontando-a como uma constante entre as perguntas que nos fazemos: o que somos? Aborda pesquisas neurocientíficas, como as investigações desenvolvidas pelo português António Damásio, que tenta no final do século XX evidenciar O erro de Descartes. O conjunto de tais pesquisas trata da relação entre os afetos e nossa humanidade, discutindo como os processos emocionais impactam nossas decisões, avaliações e escolhas. Maldonado também recorre constantemente às pesquisas de Jonathan Haidt, psicólogo moral que trata da relação entre emoções e racionalidade em nossos juízos morais. Haidt defende a centralidade das emoções em nossas avaliações morais, situação que se origina de nossa evolução social pautada em relações de proximidade e cooperação. Em termos neurocientíficos, Maldonado busca apoio nas pesquisas de Joshua Greene sobre o aspecto afetivo de nossas avaliações pretensamente racionais e na estruturação de grupos divididos em diferentes “tribos morais”.

Também com base em investigações psicológicas, Maldonado aborda as “patologias da racionalidade”, isto é, os vieses e tendências que nos são imperceptíveis e que impactam em nossa autonomia e deliberações. Aqui a referência central é o modelo pelo psicólogo israelense Daniel Kahneman. Segundo esse modelo, possuímos um tipo de pensamento “rápido”, intuitivo e direto, que reage às circunstâncias e que nos motiva a agir intensamente. Em contrapartida, também possuímos uma forma de pensamento “devagar”, reflexiva e deliberativa, que pondera possibilidades. Variando entre o pensamento “rápido” e “devagar”, estamos nós, humanos, tomando decisões sem deliberação ou presos a possibilidades de escolha que não nos deixam agir. O modelo de Kahneman tem consideráveis implicações sociais, políticas e econômicas, que o levaram a receber o Prêmio Nobel de Economia em 2002.

Maldonado também trata das possibilidades de direcionamento de nossa atenção e dos modos como as ideologias envolvem nossas emoções. Identificados como “regimes de percepção”, os conjuntos de informações que formam as ideologias nos envolvem sem que tenhamos muita consciência disso. Na verdade, “estar consciente” é um desafio constante para o sujeito pós-soberano, que tem sua atenção e suas emoções constantemente impactadas e que, conforme o retrato das ciências empíricas comportamentais, tem pequenas oportunidades de lutar contra isso. Palavras como “povo”, “poder”, “esperança” e “futuro”, recorrentes no discurso político ideologicamente carregado, possuem intensa carga emocional, que também impactam nosso sujeito (que adere a elas sem muita afluência da “simples razão”).

Nessa primeira parte, Maldonado parece aceitar sem muitas críticas as hipóteses científicas que configuram o quadro do sujeito pós-soberano por ele elaborado. Há, por exemplo, uma vasta literatura crítica sobre as propostas inatistas de Haidt e Greene, que debatem os pressupostos, metodologias e resultados das pesquisas sobre a evolução de nossa psicologia moral. Porém, as ressalvas de tais investigações em relação ao potencial de racionalidade, ao papel das emoções em nossas avaliações e ao modo como impactam em nossas relações sociais possuem relevância e estão bem evidenciados em termos experimentais, e aqui servem como uma sustentação aceitável para a proposta de Maldonado de que devemos nos preocupar com a relação entre emoções e política.

Na segunda parte do livro, “Os efeitos políticos do afeto”, Maldonado aborda primeiramente os usos das afecções por posicionamentos políticos, como o romantismo e o populismo. Propostas românticas que “nos falam ao coração” e que “consistem em criar expectativas irracionais sobre aquilo que a política pode proporcionar” buscam nos impactar emocionalmente, em vez de levantar hipóteses políticas emocionalmente neutras. Por seu turno, o populismo não difere em termos de utilização de nossos afetos. Entendido como “regime emocional”, com líderes carismáticos e massas que trazem “os braços do povo”, ele possui pouca conexão com os processos deliberativos necessários para a política democrática.

Já no caso do nacionalismo, os afetos são convocados em outra ordem. Em suas diferentes versões (agressiva ou mais brandas), posicionamentos nacionalistas envolvem os sujeitos mostrando sua relevância nos mais variados conjuntos (culturais, étnicos, territoriais, econômicos etc.). “Fazer parte de algo maior” empodera afetivamente o indivíduo em diversas instâncias, que vão desde o apego à equipe de futebol local até o fechamento de “nossas fronteiras”. Aqui a história recente nos mostra que os riscos são óbvios. Maldonado questiona então como a cidadania liberal, na qual os sujeitos têm noções de pertencimento, mas mantêm sua autonomia e reflexão, possa ser “deste mundo”, isto é, se ela é uma possibilidade realista para formas de vida como a nossa.

Tratando de maneira mais específica, Maldonado identifica o ressentimento como um afeto de grande potencial político. Numa análise ampla e culturalmente sofisticada, dá exemplos de como o fato de estarmos ressentidos pode nos motivar a agir e reagir politicamente. Um exemplo desse potencial são discussões políticas que envolvem situações e acontecimentos históricos, carregadas de ressentimentos entre as partes envolvidas e que voltam à tona em algum momento. Em processos democráticos, a força do ressentimento pode ser decisiva. Em relação ao que chama de “sentimentalização digital da esfera pública”, Maldonado busca mostrar como os usos das interações sociais digitais acabam por fomentar não apenas os ressentimentos políticos, mas também todo o conjunto de afetividades possíveis, inclusive o ódio. Em tais meios, os sujeitos alteram sua autoimagem, aproximando-se de outros como ele, configurando “bolhas” de opiniões e posicionamentos muitas vezes invioláveis.

A debate próprio de democracias liberais perde cada vez mais espaço nessa ágora violenta e que perigosamente se empodera a cada dia, contando com grandes quantidades de notícias falsas como combustível. Sujeitos enfurecidos são motivados para a participação pública por estruturas midiáticas, que não os estimulam a ter preocupações comunicativas (como queria Jurgen Habermas, com a defesa de uma forma de “razão comunicativa”), mas apenas com o intuito de obter informações que sustentem suas visões. “Expectadores enfurecidos”, nas palavras de Maldonado, atravessam a democracia liberal, cujas bases de funcionamento exigiam um outro tipo de sujeito. Em conjunto com os estímulos afetivos próprios de nosso modo de vida, em que produzir e consumir são elementos centrais (as “emoções capitalistas” também são objeto da análise de Maldonado), o contexto de inserção política de nosso sujeito pós-soberano é cada vez mais crítico.

Na terceira parte, “Antídotos democráticos”, Maldonado aborda possibilidades de ação das instituições democráticas em relação ao novo cenário. Aborda primeiramente a noção de “paternalismo libertário”, desenvolvida pelos teóricos Cass Sunstein e Richard Thaler (2008). Os denominados nudges (empurrões) são estímulos desenhados institucionalmente com o objetivo de contribuir para que os indivíduos não sejam prejudicados pelas limitações de sua racionalidade nem fiquem tão disponíveis aos vieses e tendências aos quais naturalmente somos abertos. Ações simples como a inserção compulsória dos indivíduos em programas de previdência, e a retirada do sal das mesas dos restaurantes, são exemplos de pequenos estímulos para que os indivíduos cuidem mais de si do que fariam se dependesse apenas de sua avaliação. Uma série de objeções podem ser levantadas ao paternalismo libertário, defendido por Maldonado como uma opção viável devido às características inerentes ao sujeito pós-soberano. Outras possibilidades envolvem o estímulo aos afetos enquadrados como “positivos”, como emoções voltadas para as relações comunitárias e a compaixão, e o tratamento aos afetos “negativos”, como o combate à polarização através do estímulo ao diálogo e a compreensão do papel da ansiedade dos indivíduos sobre suas percepções políticas. Aqui temos um autor mais especulativo, que equilibra um realismo cético em relação ao potencial da deliberação racional por parte dos seres humanos em relação aos afetos políticos.

Na última parte do livro, “Defesa apaixonada da razão cética”, o autor aponta o paradoxo do sujeito pós-soberano: ao saber de sua verdadeira condição como agente emocional, impactado por uma série de afecções, aberto a vises e tendências, sem total autonomia sobre suas deliberações, esse sujeito torna-se mais livre, uma vez que toma consciência de sua real situação. O processo de reformulação da soberania individual passa necessariamente por esse paradoxo e, a partir disso, a autonomia passa a ser um ideal regulativo. Maldonado faz referência ao modelo de “sociedade aberta” do filósofo Karl Popper, no qual a diversidade de pontos de vista individuais pode conviver, porém, informados e minimente conscientes de suas próprias limitações, tendências e riscos.

O liberalismo proposto em La democracia sentimental depende de “ironistas melancólicos”, indivíduos que reconhecem de forma realista o que é possível em termos políticos e estão cientes das dificuldades da vida em conjunto. Na conclusão, “Antropologias políticas para o próximo milênio”, o autor retoma as hipóteses desenvolvidas ao longo do ensaio, analisando (curiosamente, pela primeira vez) os pressupostos de seu modelo, colocando expectativas sobre modelos interdisciplinares para compreensão do animal humano. Compõe assim um convite para as ciências sociais abrirem-se para as informações de outras ciências, principalmente em relação à natureza humana (para muitos, isso não existe: podemos fazer referência apenas a uma “condição humana”).

De maneira geral, Maldonado nos oferece um informativo ensaio sobre nossas circunstâncias políticas. O diálogo que propõe entre as diversas áreas é bastante interessante, mesmo com as limitações metodológicas que apontamos. Em termos de ciências política, trata-se de uma investigação bastante relevante para compreensão do nosso cenário e que propõe caminhos para a difícil relação entre nossos afetos e a estruturação política de nossa sociedade. Não se pode negar que os processos políticos contemporâneos envolvem reações viscerais entre os envolvidos. As redes sociais elevam a potência dos conflitos a escalas ainda não observadas, pois trocamos informações com cada vez mais velocidade. Vivemos em sociedades politicamente polarizadas, que colocam a própria democracia em risco (como nos mostra a história do século XX). Aqui, entender o que Maldonado chama de sujeito pós-soberano é fundamental.

La democracia sentimental retoma o interesse pelas emoções e afetos na esfera política, mas dialoga pouco com hipóteses produzidas por teóricos do começo do século XX, como Vilfredo Pareto, Gaetano Mosca e Joseph Schumpeter. Tais teorias são, em geral, bastante céticas acerca da racionalidade dos participantes da política em sociedades complexas, uma vez que o comportamento dos sujeitos políticos é marcado pelas paixões e pela limitação da racionalidade individual em contextos sociais. Essa limitação se deve à opção de Maldonado de tratar mais especificamente dos impactos do que chama de “giro afetivo” na política, o modo como concebe filosoficamente a mudança na compreensão dos limites e possibilidades da racionalidade humana advinda das ciências naturais.

Também faz pouca referência a análises contemporâneas sobre a relação entre emoções e política, como Democracy for realists: why elections do not produce responsive government, de Larry Bartels e Christopher Achen (2016), Passions and politics, de Paul Ginsborg e Sergio Labate (2016) e The trouble with passion: political theory beyond the reign of reason, de Cheryl Hall (2005), que é citado por Maldonado, mas pouco discutido. De maneira geral, o diagnóstico de Maldonado não fica comprometido pela ausência de abordagens mais contemporâneas sobre o tema, mas o debate com outras análises poderia contribuir para as propostas oferecidas, principalmente em relação às expectativas liberais do autor, pautadas na abertura ao debate e na livre expressão de ideias (pressupostos questionáveis na atualidade, dada a violência crescente dos discursos, tanto à direita quanto à esquerda).

As grandes esperanças que nutrimos ao longo da história humana sobre nossas capacidades intelectuais não possuem bases sólidas, formando um quadro incompleto do que somos. Também somos animais que sentem. Há muitos séculos, o velho Platão expulsou o poeta de sua cidade ideal, desconfiando de seu impacto sobre as nossas emoções e sobre a política. Essa expulsão atravessa nossa cultura, e ainda não sabemos como conjugar afetos, sentimentos e democracia (com as duras consequências). Agora talvez precisemos convidar o poeta para voltar, para tentarmos lidar melhor com os afetos, uma parte de nossa natureza que não podemos retirar e que possui consequências sociais e políticas.

BIBLIOGRAFIA

DAMÁSIO, Antonio. (1994), O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. Trad. Dora Vicente e Georgina Segurado. São Paulo, Companhia das Letras. [ Links ]

KAHNEMAN, Daniel. (2011), Rápido e devagar: duas formas de pensar. Trad. Cássio de Arantes Leite. São Paulo, Objetiva. [ Links ]

THALER, Richard H. & SUNSTEIN, Cass R. (2008). Nudge: Improving Decisions about Health, Wealth, and Happiness. New Haven, Yale University Press. [ Links ]

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