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Revista Brasileira de Farmacognosia

versão impressa ISSN 0102-695X

Rev. bras. farmacogn. v.14 n.1 Maringá  2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-695X2004000100009 

SEÇÃO FARMACOGNOSIA TRADICIONAL

 

Estudo botanico e chimico da catuaba (Erythroxylaceae Catuaba do Norte)*

 

 

Arthur José da Silva

 

 

PARTE I

Histórico, habitat, synonimia e botanica da catuaba

CAPITULO I – Histórico, habitat e synonimia

A catuaba é conhecida de longa data pelos indígenas brasileiros que lhe deram o nome, e pelo povo que a emprega empiricamente, como poderoso lêvantador do systema nervoso, sobretudo quando se trata da impotencia funccional dos orgãos genitaes do homem, para cujo soffrimento julgam algumas pessoas ter o vegetal acção especifica. Da virtude que possue a planta, de combater a asthenia nervosa, restituindo ao homem o exercício de uma de suas mais nobres funcções – a propagação de sua espécie, nasceu a lenda que corre nos sertões do Maranhão, onde dizem que esse vegetal em matas extensas conserva o tronco sem a casca até onde pode alcançar a mão do homem já envelhecido. Dessa acção especifica que lhe attribue o povo, vem o ridículo a que se costuma levar aquelles que procuram essa maravilhosa arvore da nossa flora que, quando outra virtude não tivesse, lhe hastaria essa para lhe grangear renome, e recommendal-a, como um medicamento de primeira ordem. Dentre as numerosas e interessantes anedotas que referem sobre o nosso vegetal apenas ataremos a seguinte que nos foi gentilmente enviada pelo illustre jornalista, redactor da Revista do Norte e director da Bibliotheca Publica do Maranhão, Sr. Antonio Lobo, que della sabia desde o tempo de sua juventude, por ser muito contada na localidade, onde nasceu.

"J.B., maior de cincoenta annos, residente na povoação, no interior do estado do Maranhão, casado com uma cabocla robusta, invariavelmente todos os annos a fucundava, e os filhos, que nasciam sadios e fortes, causavam a admiração de todos os que os viam. Parecia incrível que um velho como elle pudesse gerar uma prole tão robusta. A sua mulher era de uma fidelidade exemplar, tornando-se, portanto, impossível duvidar da paternidade de J. B. e attribuir-lhe apenas a funcção de editor responsável na geração daquella creançada.

Um bello dia, um dos conhecidos de J. B. conseguiu descobrir o segredo daquella mysteriosa vitalidade.

Nos fundos da casa de J. B. a alguns metros da cerca que lhe resguardava o quintal, uma catuabeira apresentava signaes evidentes de entalhes no tronco. A cousa propalou-se, e como era de esperar, appareceram idéas de utilizar-se das vantagens therapeuticas da maravilhosa arvore. J.B., porem, no uso do fortificante era de um exclusivismo egoísta; alargou a cerca do quintal de forma a recolher para dentro do mesmo a catuabeira, logrando assim os pobres enfraquecidos que pressurosos se dispunham a seguir-lhe o exemplo.

E não houve empenho, nem houve dinheiro que o demovesse do seu cruel propósito. Para evitar as escaladas nocturnas fez aquisição de dois cães furibundos que durante a noite lhe guardavam o quintal juntamente com a arvore misteriosa que tão gênerosamente lhe restituía o vigor da mocidade longiqua."

Nada encontramos escripto sobre sua historia. Em diversos autores apenas achamos ligeiras referencias, como adiante veremos, e que muito pouco nos esclareceram. Um velho indio nos informou ser a catuaba natural do nosso paiz, e conforme tivemos occasião de observar, é ella um tônico nervino de primeira ordem, sendo sob esse ponto de vista que nos propusemos a estudal-a. A catuaba é também muito conhecida e citada por sua excellente madeira para construção, e como tal figurou na exposição internacional de 1867.

Habitat

Segundo o illustre botânico brasileiro Dr. Caminhoá a catuaba vegeta do Ceará a Pernambuco. Podemos, porém, garantir que esse vegetal tambem é encontrado nos estados da Bahia, de Minas, Pernambuco, Sergipe, Alagoas, do Maranhão, Pará e de Manáos. No Maranhão, onde começamos a estudal-o, encontra-se com abundância em Monção, no Engenho Central, no Munim, na Miritiba e sobretudo no Mirador e outras localidades do sertão, onde é muito conhecido e empregado na medicina popular.

Synonimia

Catuaba, tatuaba, caramuru do Dr. Assis; em Minas e nos estados do norte, segundo o Sr. Freire de Aguiar, é conhecida por páo de re-posta, e em outros logares pa pyrantaçara que quer dizer em lingua indigena alentados ou o que dá força e vigor. Fazemos aqui um ligeiro estudo etymologico da palavra catuaba, porque somos da opinião do illustre Sr. Dr. Pires de Almeida que diz:

<< Presque tous Lês noms de l aflore du Brésil, ainsi que ceux dês Autres régnes appartiennent à la langue guarani, tupi ou brés'slienne, qui a donné dans tous versant oriental de l'Amérique du Sud, du bassin de l'Orénoque á celui de la Planta, et est encore parlée avec plus ou moins de corruption, ou Paraguay et dans la vallée de l'Amazone.

<< Il n'est pás douteux que la connaissance compl'ete de l'étymologie de ces noms ne fût três utile, car ils doivent indiquer souvent dês proprietés inconnues de la population d'origine européenne. Malheureu-sement, lês études linguistiques brésiliennes ne Sont pás encore assez avancées pour arriver á ce Résultat.

<<Néanmoins, le sens bien determine de quelques suffixes donne dês indications interessantes.>>

A palavra catuaba, segundo investigação nossa, pois não encontramos a sua significação em autor nenhum, parece provir do termo indigena catuçaba, que significa bondade, saude e por extensão vigor. Com a queda do c, por corrupção catuçaba se transformou em catuaba. Ainda podemos formal-a de duas palavras indigenas: catu, bom e apuaba homem, no dialecto tupinambá. As duas palavras unidas dariam o termo catua-puaba, bom para o homem, que por transformações phoneticas daria catuaba.

Um amigo nosso nos deu a seguinte formação da palavra catuaba, que bem poderia ser acceita: Catu, bom, unida a ara, dia, calor, daria catuara, bem calor, bom aquecedor e por extensão, bom excitador, estimulante, fortificante etc. Catuara pela lei etymologica do menor esforço, ou do abrandamento, mudou a consoante r e b, donde o termo catuaba. Com difficuldade, desconhecedor de língua tupi, fizemos este estudo, todo hypothetico, rogando a benevolência das competentes. Para esse estudo nos servimos de informações de um velho indio, de um diccionario inedicto do Sr. Estevão Raphael de Carvalho, do Diccionario da Língua geral dos indios do Brasil do Sr. João Joaquim da Silva Guimarães e do pouco que sobre essa língua escreveu o mavioso poeta Antonio Gonçalves Dias. O nome scientifico que conhecemos é o que lhe dá o Sr. Freire de Aguiar, Anemopaegma mirandum, na supposição de ser o vegetal uma bignoneacéa.

 

CAPITULO II – Botanica da catuaba

Aspecto do vegetal: O aspecto da catuabeira é variavel com o seu tamanho e idade.

Fazemos sempre de preferência o estudo do vegetal adulto, tomando para nossa descripção a arvore vigorosa, cujas cascas são utilisadas pela medicina. Aqui redordaremos o pensamento de Harvey que diz:

<< as árvores tem uma linguagem; à sciencia pertence interpretar os seus assentos, e ahi é que se acha a sua poesia.>>

A catuabeira adulta é uma arvore frondosa, de um verde escuro na época do seu florescimento, um dos vegetaes mais garbosos da nossa flóra. Quando nova esguia e quando velha com o aspecto das dycotiledoneas seculares, constituindo florestas enormes nos sertões do norte do Brazil. A sua forma mais constante tende a obedecer ao typo geometrico do cone, ou do oval, apezar das irregularidades que apresenta, devidos á influencias mesologicas. Conserva, ás vezes, fora do sólo grossas raizes adventicias conhecidas pelos habitantes dessas plagas sertanejas com o nome de sapopemas. Si se abeira da agua, nas margens dos rios, serve de apoio a parasitas aquaticos, trepadeiras ribeirinhas que se abraçam a suas raizes expostas para resistir ao impulso da corrente que se precipita da cataracta proxima. É ahi que traz pensos os galhos, que verdes tem uma certa elasticidade, e se prestam a ser apanhados e cortados por aquelles que carecem de suas virtudes.

No verão o sopro forte do vento agita os seus vigorosos ramos, desprendendo-lhes os foliolos secos, que são substituidos por viçosos rebentos, cobrindo-se então a catuabeira de uma verdura que faz o encanto da nossa natureza vegetal.

Floresce de janeiro a fevereiro, fructifica, e dehiscentes cobrem-lhes os fructos, que alastram o sólo sombreado por ramos, e que, segundo nos informaram, servem de alimento aos indigenas que tam bem lhe mastigam o cortical do caule para adquirir força e vigor. Às vezes se inclina em um phototropismo ligeiro, como procurando descançar dos ardores do sol do verão, no leito formado por sua própria sombra. Pela manhã, tivemos ocasião de observar, é muito frequentada por bandos de passaros, que em revoada saudam a aurora.

À tarde, quando se põe o sol, a catuabeira parece que vae repousar, languida oscilla, como cançada do dia em forte labor, sugando da terra os materiaes para a sua opulenta seiva, em recompensa ás forças que lhe roubará o homem tirando-lhe a prodigiosa casca. Escuta a canção dos passaros que se aninham e do sabiá que canta na palmeira proxima, prepara-se para dormir, e quem por perto caminha ouve o balanço suave do vento sadio da noite, o lento resonar de suas folhas. Sob o rigor das violentas tempestades do inverno do norte se curva, pendendo os galhos, e no começo do verão, aos primeiros affagos dos raios do sol, revigora a seiva e ergue altiva a rama,copada, formando mais tarde um fundo verde ao páo dárco, coberto de flores amarellas, cores nacionaes, dando o aspecto caracteristico das nossas matas, cujas bellezas só pode sentir com enthusiasmo a alma patriotica do brasileiro.

Raiz

A raiz mestra da catuabeira que estudamos é vivaz, aprumada. Mede dois metros e meio de comprimento, tendo de diametro no collo decimetro e meio. Sustenta ella as raízes secundárias em quatro séries longitudinaes. As secundarias formam com a raiz mestra angulos agudos e rectos, o que prova o desvio das raizes secundarias pela força geotropica positiva. As raízes secundárias se ramificam na mesma disposição quaternaria da raiz principal e dão origem á grande numero de radicellas com organisação perfeita para tirarem do solo os elementos nutritivos do vegetal.

Observando-lhe o cortical botanico, encontramos em sua superficie externa um periderma resistente, cobrindo um liber mais ou menos secco. O cylindro central interno tem a medula excentrica, e as camadas lenhosas se desenvolvem mais de um lado do que de outro, dando o aspecto da haste de uma menispermacea. Essas camadas são visiveis a olhos desarmados, e se confundem por forma a não se poder facilmente distinguir o cerne do alburno.

Da parte inferior do caule, que fica perto do sólo, na planta adulta, partem grossas raízes adventícias, as quaes tivemos occasião de observar detidamente. O especimen que temos e que foi colhido por nós, achava-se á flor da terra. Notamos que tem a forma elliptica em um córte transverso.

O seu lenho vermelho e forte com difficuldade se pode serrar, e está envolto por um cortical adherente, mas que facilmente se destaca. Mede essa raiz mais ou menos dois metros de comprimento.

As dimensões da parte que conservamos para nosso estudo são as seguintes:

comprimento 12 centimetros; o corte transverso apresenta no grande eixo da ellipse 7, e no pequeno 4 centimetros. O centro da raiz adventicea fica em um dos focos no grande eixo da ellipse de que dá idéa ou córte transverso. As suas camadas lenhosas formam ellipses concentricas, ficando a medulla collocada na parte superior, ou no dorso da raiz, do lado de ângulo obtuso que ella forma com o caule ao penetrar no solo.

Separado o cortical do lenho pela camada geradora, notamos com o auxilio de uma lente, feixes libero-lenhosos esparssos no liber com a mesma côr do cylindro central. O seu periderma tem uma suberificação resistente, aspera envolvendo a camada phylogenica da raiz. A sua espessura é de 4 millimetros. Tem a consistencia tão solida a raiz que percurtida produz um som de timbre quasi metallico. A sua côr é escura, não tem sabor, e o seu cheiro nada tem de caracteristico. As raizes adventicias estão sujeitas á mesma lei de ramificação alternada, cujas divisões procuram a terra formando angulos agudos com as raizes donde partem.

Caule

É esta a parte do vegetal que deve prender mais a nossa attenção, pois della sobe o cortical que é empregado com maravilhoso proveito na medicina popular. O caule é um tronco aereo, vivaz, erecto, adusto, nodoso, de aspecto externo mais ou menos irregular das arvores seculares constituido por uma madeira vermelha, dura, lenhosa, envolvida por uma casca parda escura.

O caule na catuabeira que estudamos, mede quatro metros de altura, do sólo aos primeiros galhos, com um diametro cujas dimensões daremos adiante. O seu cortical que se conserva mais ou menos intacto, apresenta placas acinsentadas, constituidas por lichenacéas, o que não é natural da arvore, pois tivemos ocasião de ver em outros a usencia desses parasitas, conservado o caule a sua cor escura de chocolate.

O aspecto que nos apresentou em um córte transverso, foi o seguinte: Uma medulla clara, rodeada por uma zona oval de um vermelho escuro, esta por sua vez anvolvida por uma outra zona mais clara, destacando-se da casca, que lhe forma um estojo completo, com o aspecto de uma orla escura e umida. Apresenta dois diametros tendo o maior 16 e o menor 14 centimetros, differença que lhe dá um achatamento lateral. O estudo do caule deve ser feito de accordo com suas partes componentes. Consideremos em primeiro logar a medulla, os raios medullares e o lenho, que formam o cylindro central, depois estudaremos a casca.

Para esse estudo escolhemos o caule de um individuo adulto, em plena energia de vida, e para consederal-o por partes lhe fizemos um córte transverso e obliquo. O segmento do tronco que para esse estudo colhemos, tem uma ligeira torsão, e mede 50 centímetros de comprimento. O corte transverso deu-nos uma figura oval, medindo 16 sobre 14 centimetros de diametro. A medula é pouco apparente, envolvida pelo lenho, que forma uma primeira zona oval escura – o duramem – circumscripto por uma segunda zona maior e mais clara – o alburno, dispostas ambas em camadas concentricas.

A medulla occupa a parte central do caule, no que differe da raiz. Os raios medullares são completos, e com o desseccamento da planta se transformam em fendas inadiadas do centro para o liber. Seguese o cambium e depois o liber que se destaca com a casca.

O seu peso especifico é 0,929. Tem um sabor ligeiramente amargo, consistencia muito solida, serrado dá rasuras vermelhas e pulverisado um po mais claro. A superficie externa conserva o cortical mais ou menos intacto, destacando-se este facilmente do cylindro central, caracter que é proprio dos vegetaes dicotyledoneos. A casca tem 5 millimetros de espessura; separa-se longitudinalmente do cylindro central em pedaços mais ou menos regulares, que frescos são planos e seccos ao sol tendem a se enrrolar, tomando a forma de gotteira, e a côr escura que se observa na canelleira, vegetal da familia das Lauracéas, Laurus cinnamomum de Velloso. Notamos que todas as camadas estavam perfeitas, ocupando a disposição natural que conhecemos.

Raspada a casca deixa ver uma côr vermelho vivo, lustrosa, da substancia corante que nella existe em abundancia. Exfolia-se facilmente no sentido longitudinal, na direcçãodas camadas liberianas. Serrada dá rasuras vermelhas, triturada um pó tambem vermelho. Seu sabor é amargo, seu cheiro dá idéia do cedro, sua infusão é corada de vermelho, tem sabor amargo e adstringente, e cheiro ligeiramente aromatico, quando as cascas são novas, recentemente colhidas.

O caule sustenta na parte superior uma capa de forma oval, pouco irregular, constituida pela ramificação indefinida e alterna dos galhos e pela divisão e subdivisão dos ramos ramusculos, folhas, flores etc., na mesma lei. Os galhos e os ramos mais grossos são lenhosos e resistentes.

Os ramos mais finos e os ramusculos, quando seccos, são lenhosos e quebradiços, lascandose ao partir-se, e deixando ver um lenho alvo atravessado por uma medulla vermelha.

Folhas

Dos ramos nascem as folhas compostas, alternas, imparipennadas, do 1º grão, prendendose a elles por um peciolo lenhoso, percorrido por um sulco longitudinal, com estipulas rudimentares.

As folhas, quando destacadas, trazem consigo uma certa porção da casca do ramo a que pertenciam. Os peciolos primarios medem mais ou menos dois decimetros, de sua inserção no ramo a extremidade que sustenta o foliolo terminal e mediano. A sua base tem oito milimetros de largura, diminuindo para o vertice, onde encontramos apenas dois milimetros. Aos lados dos peciolos inserem-se os foliolos dispostos alternadamente. Os foliolos são erectos, peciolados, ellipticos, sem estipulas, de vertice acuminado, caducos, lisos, lustrosos, glabros, inermes, de bordos regulares e pennativerados.

O seu peciolo mede mais ou menos dois a tres milimetros, e dá origem à nervura mediana, que se ramifica, formando as outras nervuras, ou o esqueleto de foliolo. A mediana vae da base ao vertice descrevendo uma curva suave, cuja concavidade fica na parte superior da folha. As nervuras medianas dos foliolos, ou secundarias das folhas, são alternas com disposição penninervia; as suas subdivisões obedecem á mesma lei, e chegando proximo ao bordo do foliolo, formam uma dichotomia que dá nascimento ás venulas. As nervuras são salientes na parte inferior dos foliolos, e vistos atravez da luz artificial, ou no microscopio, quando recentemente seccas, apresentam uma cor vermelha, semelhando anastomose arterial.

Elles, os foliolos, tem uma coloração verde, um pouco escura, caracteristica de muitos outros vegetaes. Na sua pagina superior uma cuticula mais ou menos desenvolvida lhes dá o aspecto lustroso; na pagina inferior ou prona, observamos uma côr verde mais clara. Seccos de pouco tempo têm a cor castanha lustrosa na pagina superior, e essa mesma côr mais carregada, sem lustro, na pagina inferior. São quebradiços e tomam uma inflexão em gotteira no sentido longitudinal, soffrendo a nervura central uma incurvação em escoliose. Pulverisados têm um aroma ligeiro das folhas da pitangueira. Os foliolos têm tamanhos variados; podem medir na media quatro a cinco centimetros de comprimento e um a dois de largura, no seu maior diametro transverso.

Flores

São os seguintes os caracteres das flores das Erytrhoxulacéas: Flores pequenas, amarellas ou brancas. Calice com cinco sepalas permanentes, unidas pela base – corolla com cinco petalas, sesseis, munidas de uma escama internamente. Estames em numero de dez, ligados na base formando uma especie de tubo. Antheras erectas, biloculares, abrindo-se longitudinalmente dos lados. Ovario unicellular, contendo um só ovulo. Stylos em numero de tres, às vezes unidos ou distinctos com estygmas cabeçudos.

Fructo

Não tivemos occasião de observar o desenvolvimento do fructo da catuaba. Vamos descrevel-o aqui conforme o encontramos, já desenvolvido. Para fazermos um estudo seguro procuramos ver nos diversos autores a classificação do fructo na famíliadas Erythroxylacéas, uma vez que nada encontramos sobre a catuaba.

Quasi todos os autores por nós consultados consideram o fructo nessa família como uma drupa, entre outros citaremos Saint Hilaire, Van Tieghen, Caminhoá, Barbosa Rodrigues etc., entretanto cremos com os abalisados professores da nossa Faculdade de Medicina Srs. Dr. Pedro da Luz Carrascosa e pharmaceutico Adolpho Diniz Gonçalves, que o fructo da catuaba poderá ser considerado uma capsula, como se verá da descripção que delle passamos a fazer.

O ilustre mestre Dr. Carrascosa teve a gentileza de nos mostrar um fructo semelhante, da mesma maneira classificado, da Cedrela fissilis, existente como exemplar no hervario do gabinete de Historia Natural da Faculdade de Medicina da Bahia. O fructo da catuaba de côr castanha tem a forma oval, um pouco allongada, ou antes de uma pera. A sua extremidade mais aguda prendese a um pedunculo de dois a quatro milimetros, e a outra é livre. Mede elle mais ou menos tres centimetros de comprimento, da extremidade livre ao pedunculo, tendo este na parte superior um collar de pequenas saliencias, de aspecto verrugoso, vistas com uma lente, onde estão implantadas tres folhas carpellares, que formam o ovario.

O fructo é, portanto, formado por tres folhas carpellares soldadas longitudinalmente, na direção de seus bordos, costituindo uma capsula completa. Quando o fructo madurece, ellas se separam, abrem-se dando origem a tres segmentos com os caracteres de uma dehiscencia septicida. Cada septo, de consistencia lenhosa, tem a forma de uma concha, medindo tres centimetros de comprimento e meio de largura, na media; cada um tem ainda uma face interna, uma externa, dois bordos e duas extremidades. A face interna é concava e percorrida na linha media, de uma extremidade a outra, por uma crista, nervura mediana da folha carpelar. Esta face é vermelha. A face externa, convexa, e castanha, tem aspecto de feltro. O bordo superior, livre, é redondo, e no inferior, um pouco agudo, se prende ao pedunculo. Aberta a cápsula deixa ver um núcleo vermelho, que alguns consideram como o fructo propriamente dito. Apresenta elle tres fendas longitudinais, correspondentes ás suturas, e tres depressões em relação com as nervuras medianas das faces internas dos septos capsulares.

Esse fructo carnoso, de forma elliptica, vermelho, se destaca da capsula e cahe fazendo suppor assim separado, uma drupa, como consideram diversos autores.

Semente

No nucleo se encontra uma ou duas sementes, de forma oblonga, tendo a parte mais aguda do lado da base, onde está um funiculo de forma curva. O seu hilo fica em sentido oposto á união dos cotylédones. Cada semente apresenta um espermoderma ou episperma rugoso, de côr castanha, revestindo dois cotylédones. As sementes medem em geral trinta e seis milimetros de comprimento e oito de largura. Os cotylédones tem uma face interna plana e uma externa convexa. Entre as duas faces planas se encontra na parte superior um embryão recto (orthotropo) e um alburno carnoso. O peso específico da madeira da catuaba foi determinado por nós pelo processo de balança hidrostatica do modo seguinte: Substituimos os valores obtidos, como abaixo se verá, na formula D = p/p' x d.

Procuremos a origem dessa formula. Da formula fundamental P = V x D, temos V = P/D, que quer dizer que um volume qualquer de liquido deslocado por um corpo será igual a seu peso dividido por sua densidade. Logo o volume de p' será p'/d, sendo d a densidade. Substituindo esse valor na formula: D = p/p', teremos D = p/p'/d ou D = p/p' x d, em que a densidade D de um corpo é igual a seu peso p no ar dividido por seu peso p' immerso n'agua distillada, multiplicado por d que representa a densidade da agua.

Descrevamos agora o processo para determinação dos valores numericos. Verificamos que a madeira fluctua n'agua distillada. Tomamos um pedaço de forma retangular, medindo 6 centimetros de comprimento, 2½ de largura e 2 de altura, e em uma balança hydrostatica, tomamoslhe o peso no ar, que foi de 32 grs, 150. Depois, segundo as regras para a determinação do peso específico dos corpos mais leves do que a água, suspendemos o pedaço de madeira com um fio de platina ao gancho de um dos pratos da balança hydrostatica, e pesamol-o immerso n'agua distillada, sendo necessárias 34grs, 490 para o equilibrio.

Verificamos por meio de um thermometro a temperatura d'agua que era de 26º, sendo sua densidade 0,996880 fornecida por uma tabela de Despretz. Substituindo então os valores inderteminados da formula D = p/p' x d pelos valores numericos, encontrados, teremos:

Representando o numero 0,929 a densidade da madeira, feita a coreecção da temperatura da agua de 26º para + 4º. Foi este o processo de que nos servimos para a determinação do peso especifico da madeira da catuaba. Desejavamos fazer mais de uma pesada e tirar a media, não podemos, porem, fazel-o por falta de tempo. Tratandose de uma operação mais do domínio da engenharia do que da medicina, expomos aqui honestamente a sua marcha para que os competentes nos apontem as faltas, o que aceitaremos grato, como util e proveitosa lição.

Adiante completamos em grypho os artigos em branco do título -Catuaba- do trabalho dos engenheiros André e José Rebouças, sobre as madeiras do Brasil.

 

 

A estampa que aqui apresentamos foi desenhada pelo nosso distincto collega pharmaceutico e 5.º annista de medicina Alberico Diniz Gonçalvez que nos prestou este auxílio. Nesse desenho o fructo, a semente e as folhas conservam as proporções naturaes. A raiz representa a sexta e o caule a setima parte do tamanho natural.

 

CAPITULO III – Classificação da catuaba e historico da familia das

Erythroxyláceas

Não ignoramos a pesada tarefa que vamos emprehender emittindo a nossa opinião sobre a classificação da catuaba, pois bem sabemos que além da competencia para isso, nos faltaram os recursos para o estudo completo do nosso assumpto, entretanto contamos com a benevolencia dos mestres, attenta a nossa boa intenção, que a nossa opnião nada terá de pretenciosa e definitiva. Não classificamos aqui a catuaba, pois temos receio de incorrer na censura do professor Caminhoá que diz:

<<Querer classificar sem conhecer bem os orgãos essenciaes das plantas, fôra o mesmo que querer navegar sem conhecer os nomes e os usos das differentes partes de um navio; fôra o mesmo que querer determinar a posição dos astros e suas orbitas, sem conhecer, sequer, os instrumentos, as Mathematicas e a Physica, fôra enfim o mesmo que querer curar doentes, sem conhecer intimamente os orgãos, os apparelhos e as funções physiologicas, nem saber qual a ação dos medicamentos!!>>

E mais adiante tratando das acotyledoneas ainda considera elle que:

<<uma causa da difficuldade no estudo deste ramo da Botanica é o abuso de alguns auctores, que se querendo tornar illustres sem muito incommodo, em vez de trabalharem e investigarem, limitam-se a dar nomes, baseando-se nos estudos deste ou daquelle; como outros que crêam nomes genéricos e específicos tambem nos Phanerogamos, só por terem visto um ramo de folhas sem flores, nem fructos!>>

Das ligeiras referencias que encontramos a respeito da classificação da catuaba, vemos que esse vegetal, por uns é collocado na família das Bignoneáceas, com o nome scientifico de Anemopegma mirandum, e por outros, a maioria, no genero erythroxylon, familia ou sub-familia das Erythroxyláceas. Resta-nos agora, depois do estudo que fizemos, ver qual a opnião mais valiosa, e por nós acceita.

Não foi sem difficuldade que nos definimos, pois que nada encontramos escripto que nos esclarecesse com certeza, e nos desse um criterio seguro para a escolha da opnião que deveramos abraçar, criterio que só o estudo directo do vegetal nos poude indicar.

Recorremos a Historia naturalis brasiliae, De Indiae utriusque re naturalis et medica de Pinson, Flora brasiliensis de Martins, Plantarum brasiliensium nova genera de Josephus Roddius, Flora brasiliae Meridionalis d'Saint Hilaire, Flora pittoresca e medica das Antilhas de Descourtilz, Flora fluminensis de Frei José Mariano da Conceição Velloso, Dicccionário botanico do pharmaceutico Joaquim de Almeida Pinto, Enumeração scientifica de algumas plantas medicinaes indigenas brasileiras, do Dr. Nicoláo Moreira e a muitos outros auctores, sem nada encontrarmos.

Entretanto nos parece exquisito que um vegetal tão conhecido e utilisado de longa data na medicina popular, tenha escapado á investigação dos que cuidadosamente estudaram a nossa rica flora. O abalisado pharmaceutico Silva Araujo no seu catalogo de produtos pharmaceuticos especiaes, onde ligeiramente estuda os vegetaes com os quaes prepara os seus extractos fluidos, diz o seguinte:

<<Catuaba. Ignoramos a sua classificação, pois nada encontramos a seu respeito nos compendios de botanica brasileiros. Sabemos que é muito empregada em Minas e n'alguns Estados do norte como aphrodisiaco innocente e poderoso>>.

Em uma Breve noticia sobre a collecção das madeiras do Brasil, apresentada na exposição internacional de 1867, pelos Srs. Freire Allemão, Custodio Alves Serrão, Ladisláo Netto e Saldanha da Gama, publicada no Rio de Janeiro no mesmo anno, lê-se o seguinte:

<<catuaba – Dimention et usage inconnues – Province de Sergipe>>.

Os engenheiros André e José Rebouças no Ensaio de indio das madeiras do Brasil, publicado no Rio em 1877, apenas citam a catuaba, dando-lhe o genero erythroxylon, sem mais nada adeantar. O Dr. Nicoláo Moreira em seu Vocabulario das madeiras industriaes, diz somente:

"catuaba – erythroxylon". Caminhoá na sua magistral Botanica geral e medica, na parte em que trata da geographia botanica, colloca a catuaba no grupo das plantas que tem o seu habitat do Ceará a Pernambuco, e entre os vegetaes que não tem nomes scientificos conhecidos, parecendo ter alguns delles nomes vulgares adulterados.

Baillon em seu Diccionario botanico diz: <<Catuaba – nom brésilen d'um erythroxylum>>.

No Formulario officinal e magistral do illustrado Dr. Pires de Almeida econtra-se o seguinte artigo:

<<Catuaba – Empregam-se as cascas. Habita o Sergipe e varias provincias centraes do imperio. Preconisadissima contra as affecções da pelle, e nomeadamente para combater a morphéa. Nada mais podemos adeantar sobre esse vegetal, aliás digno de attenção dos clinicos.>>

O Dr. Mello Moraes em sua Botanica brasileira referindo-se á catuaba, colloca-a no grupo das plantas do Maranhão e do Pará, e diz que, segundo affirma o Dr. Lacerda, tem ella propriedade aphrodisiaca.

Do estudo que fizemos com os elementos que podemos conseguir, nos decidimos pela opnião d'aquelles que consideram a catuaba, como um erythroxylon. Pelos caracteres botanicos que adiante apresentamos, se poderá ver que o vegetal se aproxima mais das Erythroxyláceas do que das Bignoneáceas. Além disso a nosso favor milita a opinião abalisada dos illustres mestres, Drs. Pedro da Luz Carrascosa e Adolpho Diniz Gonçalves.

Como se vê, collocada nesta familia, não tem a planta um nome scientifico, achamos, portanto que segundo as regras estabelecidas, bem poderíamos propor-lhe o nome de Erythroxylon catuaba, tirando o elemento específico do grego e do generico da lingua indigena. Nomenclatura feita por analogia á coca que é da mesma familia, e tem por nome scientifico Erythroxylon coca, obedecendo à mesma lei de formação.

Procuraremos agora dar collaboração á planta, segundo a orientação que modernamente tem dado o professor Van Tieghen à classificação dos vegetaes. A catuaba é uma planta com raiz e com flores, do ramo das phanerogamas, sub-ramo das angiospermicas, classe das dicotyledoneas, sub-classe das Inseminéas, ordem das Bitegmenéas, sub-ordem das Renonculináceas, alliança das Geraniaes, famila das Lináceas, genero das Erythroxyléas, nome scientifico Erythroxylon catuaba.

É bem possível que esta não seja a collocação definitiva da catuaba, porquanto o nosso estudo não está completo, tiramol-a, porem, do olvido em que a sciencia a deixára, collocando-a em um logar para o qual tem merecimento, e donde o futuro a removerá, caso lhe depare um outro mais acertado.

Nem por isso ficaremos pesarosos, que bem conhecemos o conceito de Maudsley que pensa que o progresso das cousas há de obedecer a uma evolução natural, ou como um resultado de antecedentes, pois o que bota abaixo um velho erro com mais proveito, não é um ataque apaixonado contra elle, mas uma creação nova e melhor, que o desloca pouco a pouco e por fim o substitue.

 

HISTORICO DAS ERYTHROXYLACÉAS

A familia das Erythroxylacéas foi creada segundo uns por Kunth, botanico allemão, cujo nome caracterisa um genero: – Erythroxylum Kunthianarum – in honorum dictum doctissimi S.C.

Kunth qui primo Erythroxylum familiam constituit; segundo outros por John Leindley, nascido em Cetton, proximo de Nordwich, em 1799. As cascas dos vegetaes dessa interessante familia, bem como sua madeira, fornece, uma substancia tinctorial, vermelha.

A palavra erythroxylon, com que lhe denominam, é composta de dois termos de origem grega, erythros, vermelho, e xylon, madeira. Caminhoá, Van Tieghen e outros consideram o grupo dessas plantas como uma sub-familia das Linacéas. As Erythroxylacéas são vegetaes, muitos dos quaes lenhosos, que em sua maior parte habitam as regiões intertropicaes.

Brazil, e Saint Hilaire em sua Flora Brasiliæ meridionalis menciona as seguintes que por serem interessantes e por sua importancia historica pedimos licença para transcrever:

 

Erythroxyléae – Kunth

Erythroxylum – Linn. Juss. Calyx 5 – partius, raro 5 – fidus – Petala 5, hypogyna, basi luta, squama, intus aucta, æqualia. Stamina 10, hypogyna: filamenta basi in urccolum connata: antheræ parvæ, mobilies, intorsæ, 2 – loculares, longitudinaliter dehiscentes – Ovarium univel triloculare, loculis duobus vacuis, Ovulum unicum, ex apice loculamente pendulum – Styli 3, distincti aut rarum magis minus coaliti – Stigmata totidem – Drupa monosperma. – Perispermum carnosum vel nullum – Embryo axilis, rectus. Radicula ad umbilicum sputans supera subfrutices, frutices aut arbores. – Ramuli apice comprensi.

Folia alterna, rarissimé opposita (ex-Kunth) integerrímua. – Stipula axillaris, concova. Flores solitari, gemini aut fasciculati, ex axillis foliorum squamossimé ve stipulaceorum nascentes, albidi aut flavovirescentes. – Pedunculi 5 – angulares, gradatim in incravati.

Erytrhoxylum magnoliæfolium – E. foliis magnis, subovata – ellipticis vel elliptices, apice obtusissimus, basi acutus, subtus glaucis; floribus minimis, glomerates; calyce abvato, 5-fido, staminibus pistillo pauló breviarribus aut aequalibus; stilo único, trifido.

Erytrhoxylum citrifolium – E. foliis lanceolato, oblongis, acuminatis; floribus fasciculatis, ex axillis foliorum squamarumque nascentibus; staminibus pistillo longioribus.

Erythroxylum pulcrum – E. foliis oblongis, basi obtusiusculis, brevite acuminatis; staminibus pistillo–2–pló 3–plóve longioribus.

Erythroxylum suberosum.- E. caule arboreo; cortice suberoso; foliis ellipticis, coriaceis; floribus fasciculatis; staminibus pistillo longioribus.

Erythroxylum deciduum- E. foliis (penioribus) obovato oblongis, apice obtusissimis, basi acutis; floribus fasciculatis; staminibus pistillo longioribus.

Erythroxylum kunthianarum- E. foliis elliptico – lanceolatis, breviter acuminatis, flo- ribus fasciculatis, pauci aut multifloris; staminibus pistillo brevioribus.

Erythrxylum affine- E. foliis ovato – lanceolatis, apice acuminatis; fasciculis paucifloris; staminibus pistillo longioribus.

Erytrhoxylum nonum- E. caule nono; foliis obovato-oblongis, obtusissimis; floribus axillaribus, fasciculatis staminibus pistillo pauló breviaribus.

Erythrxylum campestre- E. caule sub-simplici, suffructicoso, follis ellipticis, obtusissimis, coriaceis; floribus fasciculatis sparsis sæpiusve ramulus axillares abbreviatos obtegentibus; staminibus pistillo breviari- bus.

Erythrxylum cotnifolium.- E. foliis obvatis, basi acutis, apice obtusissimis, emarginatis; floribus subfasciculatis, ex axillis squamarum nascentibus.

Erythroxylum frangulaefolium. – E. foliis ovatis lanceolastive, acuminatis; floribus solitaris tenuis, ex axillis squamarum nascentibus; staminibus pistillo breviaribus.

Erythrxylum subrotundum.- E. foliis obovato-rotundis, obtusissimis; floribus axillaribus, solitariisvel paucis; staminibus pistillo duplo feréve duplo longioribus.

Erythrxylum pelleterianum. – E. foliis oblongis, basi acutis, apice obtrusis, emarginatis, subtus ferrugineis, romulis basi floriferis; floribus ex axillis squamarum nascen- tibus.

Erythrxylum microphyllum. – E. foliis parvis, numerosis, obovato-oblongis, obtusis, micronulatis; floribus paucis, axillaribus; stylis basi coalítis.

Quanto ao uso diz Saint Hilaire na pagina 179 do fasciculo LXXX:

<<Et reliquis Erythroxylis homini usui in- servientibus. E. suberosum et E. tortuosum nominiamus, Fructa de pomba a Brasiliensibus vucata, quorum cortex strychno Pollet et fomenta adstringentia pariter atque ad tela vigro tingenda adhiberi potestet; porro E. anguifugum, cujus radices cortex pro efficaci contra morbus serpentium remedio predicatur, et. E. campestre (Cabello de Negro Br.) cujos liber et cortice radicis deranos aque fervida infusus tamquam purgans propinatur (ef. Martius. Syst. mat. med. veg. Bras. p. 51, 73). Denique notandum, nossullorum specierum linguum valde durabile et ad constructiones idoneum praedicari.>>

No Jardim Botanico da Faculdade de Medicina de Paris são cultivados apenas dois generos:

Erythroxylon coca e Erythroxylon microphyllum. O Sr. Barbosa Rodrigues menciona os seguintes no Hortus fluminense:

Erythroxylon coca. – Lam. (E. coca). Patria – Perú – Nome vulgar :cuca, coca, ipadú.

Erythroxylum caractum. – Spr. (E. das cachoeiras) Patria – Brazil – Rio Negro, Vau- pés. Nome vulgar: ipadú-merim.

Erythroxylum ovalifolium. – Peryr. (E. de folhas ovaes). Patria – Brazil, Rio de Janeiro.

Erythroxylum suberosum. – St. Hil. (E. de casca encortiçada) Patria – Brazil, campos de Minas

Geraes. Nome vulgar: Mercurio do campo, gallinha choca, sessenta e dois.

Erythroxylum pulchrum. – St. Hil. (E. bonito) Patria – Brazil – Rio de Janeiro. Nome vulgar: Arco de pipa, sobragy, sobrasil.

Erythroxylum Pelleterianum. St. Hil. Patria – Brazil, Pernambuco, Bahia, Rio. Nome vulgar: Fructa de pomba.

Erythroxylum frangulaefolium. St. Hil. Patria: Alagôas, Bahia, Rio. Nome vulgar: Arco de pipa miudo.

Erythroxylum anguifugum. – Mart.

O Dr. Caminhoá menciona as seguintes Erythroxyléas uteis e curiosas: Coca do Perú, Erythrxylon coca; coca da Nova Granada, Erythroxylum Hondense; coca de Cartagena, Erythroxylum areolatum; Páo das Mauricias (bois-des-dames,bois à balais dos colonos francezes)

Erythroxylum hypericifolium. Entre as brazileiras uteis e curiosas cita:

Fructa de pomba, Erythroxylum Pelleterianum, de Minas, Bahia, Rio. A infusão das folhas passa por estomachica.

Fructa de pomba, outra, Erythroxylum sobrotundum, de Pernambuco, Bahia, Rio, etc. As sementes servem para nutrição das aves domesticas.

Arco de pipa miudo, Erythroxylum frangulaefolium, de Alagôas, Bahia, Rio, etc. Como bem indica seu nome serve para fazer-se arcos de pipa.

Erythroxylum anguifugum. – A fumaça do lenho deste especie dizem afugentar as cobras; suas raizes passam mesmo por contra veneno daquelles ophidios.

Sobragy, sobragil, sobrazil, arco de pipa, outro, Erythroxylum util, do Rio, serve tambem para arco de pipa e para outros misteres.

Mama–cuca (mama-coca) Erythroxylum mama-coca, do Perú e Alto Amazonas. As folhas passam por estomachicas.

Fructa de pomba, outra, Erythroxylum columbi num, da Bahia. Gosa da mesma propriedade.

Fructa de pomba, outra, Erythroxylum tortuosum, de Minas e Goyaz. É planta adstringente; sua casca é como tal usada na medicina e na industria.

Gallinha choca (mercurio do campo), Erythroxylum suberosum, de Minas e de outras provincias. Sua casca é muito usada na medicina e na industria como adstringente.

Fructa de tucano do campo (coca do Paraguay, cabello de negro) Erythroxylum catinifolium de St. Hil.

S. Paulo, Minas e Goyaz. O decocto, principalmente das raizes recentemente colhidas é usado na medicina popular como laxativo.

PARTE II – Continua no próximo número (V.14, n.2, 2004)

 

 

* These de doutoramento da faculdade de medicina da bahia, salvador, 1904