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Revista Brasileira de Farmacognosia

Print version ISSN 0102-695XOn-line version ISSN 1981-528X

Rev. bras. farmacogn. vol.16 no.2 João Pessoa Apr./June 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-695X2006000200006 

ARTIGO

 

Constituintes químicos de Almeidea coerulea (Nees & Mart.) A. St.-Hil. Rutaceae

 

Chemical constituents of Almeidea coerulea (Nees & Mart.) A. St.-Hil. Rutaceae

 

 

Lucia Elaine Ranieri CortezI,*; Diógenes Aparício Garcia CortezII; Antônio Gilberto FerreiraIII; Paulo Cezar VieiraIII; Maria Fátima das Garças Fernandes da SilvaIII; João Batista FernandesIII

IDepartamento de Farmácia, Centro de Ensino Superior de Maringá, 87050-390, Maringá, PR, Brasil
IIDepartamento de Farmácia e Farmacologia, Universidade Estadual de Maringá, 87.020-900, Maringá, PR, Brasil
IIIDepartamento de Química, Universidade Federal de São Carlos, Caixa Postal 676, 1365-905, São Carlos, SP, Brasil

 

 


RESUMO

Do extrato diclorometano do caule de Almeidea coerulea (Nees & Mart.) A. St.-Hil. foi isolado um triterpeno o 20-hidroxi-diidrolupeol (1), e do extrato metanólico foram isolados os alcalóides dictamina (2) e eskimianina (3), além de uma mistura dos esteróides sitosterol (4) e estigmasterol (5). A identificção substâncias foi realizada pela análise dos espectros de Massas, RMN 1H, RMN 13C, HSQC, HMBC, e por comparação com dados da literatura.

Unitermos: Almeidea coerulea, Rutaceae, triterpeno, alcalóides.


ABSTRACT

From the dichloromethane extract of Almeidea coerulea stem one triterpene, 20-hydroxy-dihydrolupeol was isolated (1) and from the methanol extract the known alkaloids dictamnine (2) and skimmianine (3), as well the steroids sitosterol (4) and stigmasterol (5). The identification of these compounds was performed on the basis of spectroscopic analyses (MS, 1H NMR, 13C NMR, HSQC and HMBC) as well as comparison with literature data.

Keywords: Almeidea coerulea, Rutaceae, triterpene, alkaloids.


 

 

INTRODUCÃO

A família Rutaceae é constituída de 1600 espécies distribuídas em aproximadamente 150 gêneros (Waterman, 1983) sendo que no Brasil são citadas aproximadamente 200 espécies (Albuquerque, 1976). O gênero Almeidea é encontrado nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Santos et al. (1998) identificaram, nas folhas de Almeidea coerulea, a presença de cinco alcalóides como o 7-O-acetilhaplofilidina, dutadrupina, isodutadrupina, 7-metoxi-8-(3,3-dimetilalil)-dictamina e arborina, e nas folhas de Almeidea rubra, alcalóides dos tipos furoquinílinico, 2-quinolona e acridônico, além de cumarinas. Claude et al. (1983) também isolaram alcalóides do tipo 2-quinolona do caule e raízes de Almeidea guyanensis. Revisões de quimiossistemática da família Rutaceae são freqüentes (Mabberley, 2004), propos uma nova reclassificação da família. Estas propostas foram formuladas mediante dados químicos dos alcalóides derivados do ácido antranílico, cumarinas e limonóides (Silva et al.1988).

Dentre as diversas atividades biológicas experimentalmente comprovadas para a família Rutaceae colocam em destaque o seu potencial antiparasitário. Lavaud et al. (1995) relatam a atividade leishmanicida de alcalóides do tipo 4-quinolona, os quais possuem cadeias longas como substituintes em C2, tais como dictiolomida A e dictiolomida B isoladas de Dictyoloma peruviana. Outros alcalóides como chimanina B, 2-n-propilquinolona e 2-fenilquinolona, isolados de Galipea longiflora, utilizados na dose de 50 mg/kg, apresentaram o mesmo efeito em relação à droga antimonial clássica utilizada no tratamento, segundo Fournet et al. (1996). Muitas das substâncias isoladas dessas espécies apresentaram, também atividade tripanomicida (Mafezoli et al., 2000; Ambrozin et al., 2004). Lúcio et al. (2000) observou que epiisopilosina isolada de Pilocarpus microphyllus mostrou ser um estimulante periférico do sistema nervoso parassimpático.

No Estado do Paraná esta doença parasitária também é endêmica cuja manifestação clínica ocorre nas formas cutânea, mucocutânia e visceral. Ela atingiu proporções epidêmicas em 1993, 1994 e 1995 com 819, 1361 e 962 casos notificados, respectivamente. Em Maringá (PR), são notificados com freqüência novos casos. Atualmente, para o tratamento de leishmaniose, são utilizados compostos de antimônio e de arsênico, bem como diamidinas aromáticas e alguns antibióticos, que, de um modo geral, apresentam alta toxicidade (Rey, 1991). O aumento do número de casos de leishmaniose tegumentar no Brasil requer cuidados imediatos como o preparo de profissionais para a identificação da doença e o suprimento de medicamentos eficazes e menos tóxicos (Silveira et al., 1999).

No presente trabalho é apresentado o estudo fitoquímico e a identificação de alcalóides furoquinolínicos, esteróides e um triterpeno do tipo lupano obtidos do caule da Almeidea coerulea (Nees & Mart.) A. St.-Hil., com o objetivo de contribuir com a quimiossistemática e obtenção de substâncias puras para a realização de futuros ensaios de atividade leishmanicida.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Procedimentos experimentais gerais

Os espectros no infravermelho foram registrados em espectrômetro BOMEN – MV 100, Hartmann & Braun- Michelson. Os espectros de RMN de 1H (400,13 MHz) e de 13C (100,6 MHz) foram obtidos em espectrômetro BRUKER AVANCE e VARIAN, modelos GEMINI 2000 BB, 300 MHz (300 MHz para 1H e 75,45 MHz para 13C). Foram utilizados (CD3)2SO e CDCl3 como solventes e TMS como referência interna. Para a obtenção de espectros no ultravioleta foi utilizado o aparelho VARIAN Cary 1E. Os espectros de massa por electrospray foram obtidos em espectrômetro Micromass Quattro LC.

As cromatografias em coluna foram realizadas em colunas de vidro, utilizando-se sílica gel 60 (70-230 mesh ASTM) e, na cromatografia no modo flash, sílica gel 60 (230-400 mesh ASTM), ambas da marca Merck. Nas cromatografias em placa, utilizou-se sílica gel 60 GF254. As revelações deste tipo de cromatografia foram efetuadas por irradiação no ultravioleta (l = 254 e 366 nm) e por pulverizações com solução de H2SO4/MeOH 1:1, seguidas de aquecimento a 105°C, até a revelação das substâncias químicas.

Material vegetal

As partes aéreas de Almeidea coerulea (Nees & Mart.) A.St.-Hil. foram coletadas em fevereiro de 1993, no município de Itacaré, Bahia. A espécie foi identificada pelo Prof. Dr. José Pirani do Departamento de Botânica da Universidade de São Paulo e uma exsicata (Pirani & Kallunki 2747) foi depositada no Herbário dessa universidade.

Isolamento dos constituintes

Os extratos em diclorometano (8,1 g) e metanólico (22,1 g) obtidos do caule de Almeidea coerulea foram submetidos a cromatografia a vácuo, empacotada com celulose microcristalina (Avicel®), eluíndo-se com hexano, hexano-CHCl3 (1:1, v/v), CHCl3, CHCl3-EtOAc (1:1, v/v), EtOAc, e MeOH e obtendo-se 7 frações de cada extrato. A fração 3 (1,47 g) obtida do extrato em diclorometano, foi cromatografada em coluna de sílica gel 60 (70-230 mesh ASTM) utilizando-se como solvente hexano, hexano-CH2Cl2 (98:2, 95:5, 90:10, 80:20 e 50:50), CH2Cl2, CH2Cl2,-EtOAc (98:2, 95:5, 90:10, 80:20 e 50:50) e acetona obtendo-se 156 frações. As frações 30 a 47 foram reunidas (239 mg) e recromatografadas em sílica gel 60 (230-400 mesh) com o mesmo sistema de eluentes, obtendo-se as frações 26 (17 mg) e 36 (13 mg). Essas frações foram submetidas a filtração em coluna de gel de SEPHADEX LH-20, utilizando-se como fase móvel MeOH-CHCl3 (1:1, v/v), obtendo-se a substância 1 (22,3 mg). A fração 2 (1,14 g) do extrato metanólico foi cromatografada em sílica gel 60 (70-230 mesh ASTM), por eluição com hexano, hexano-CH2Cl2 (98:2, 95:5, 90:10, 80:20 e 50:50), CH2Cl2, CH2Cl2,-EtOAc (98:2, 95:5, 90:10, 80:20 e 50:50) e acetona, obtendo-se as substâncias 3 (3 mg) e uma mistura de duas substâncias 4 e 5 (3 mg). As frações 21 a 25 foram reunidas (100 mg) e cromatografadas em coluna de filtração em gel de SEPHADEX LH-20, utilizando-se como fase móvel MeOH-CHCl3 (1:1, v/v), obtendo-se 34 frações e purificadas em sílica gel 60 (230-400 mesh) hexano-acetona (98:2, 95:5, 90:10, 80:20 e 50:50) e acetona, obtendo-se a substância 2 (3,8 mg) (Figura 1).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Do extrato em diclorometano do caule de Almeidea coerulea foi isolado o triterpeno (1) e do extrato metanólico foram isolados dois alcalóides (2) e (3) e uma mistura de esteróides (5) e (6). Os espectros de RMN 1H e 13C foram idênticos aos da literatura para a dictamina (2) (Chen et al. 1996) e eskimianina (3) (Chakravarty et al., 1999) e a mistura de esteróides como sitosterol e estigmasterol (4 e 5) por meio da comparação dos espectros de massas, RMN de 1H e 13C, com os dados da literatura (Pessoa et al., 1995).

No espectro de massas de 1, observou-se o íon pseudomolecular detectado em m/z 483 [M+K]+, por electrospray (ESI) no modo positivo. A análise conjunta dos espectros de massas, de RMN 1H, RMN 13C, RMN 13C-DEPT de 1 (Tabelas 1 e 2) permitiu propor a fórmula molecular C30H52O2. No espectro de RMN 1H de 1, observou-se um multipleto em 2,94-3,04 d (2H, m), atribuído aos hidrogênios H-3 e H-19. Outro multipleto em 3,58-3,60 d (1H, m) foi atribuído a H-5. Um dubleto em 4,26 d (1H, d, J = 5,4 Hz) foi atribuído ao hidrogênio da hidroxila ligada ao C-3. O sinal de hidrogênio dessa hidroxila não apresenta correlação no espectro de correlação heteronuclear de hidrogênio e carbono HETCOR e 1Hx13C-HSQC, confirmando ser um hidrogênio ligado ao átomo de oxigênio. O acoplamento do hidrogênio dessa hidroxila com o hidrogênio carbinólico na posição a também foi confirmado pelo espectro de correlação homonuclear de hidrogênio 1Hx1H-COSY. Observou-se a presença de sete singletos de hidrogênios metílicos, com integral para 24 hidrogênios, sugerindo a presença de oito grupos metila, correspondentes a H-23, H-24, H-25, H-26, H-27, H-29 e H-30 em 1,07 d (6H, s); 0,76 d (3H, s); 0,64 d (3H, s); 0,98 d (3H, s); 0,91 d (3H, s); 0,95 d (3H, s); e 0,86 d (3H, s), respectivamente.

Mediante a análise comparativa dos espectros de RMN 13C e RMN 13C-DEPT (q = 135° e q = 90°, a 50 MHz), de correlação heteronuclear de hidrogêneio 1Hx13C-HSQC e carbono a longa distância 1Hx13C–COSY-nJCH (n=2 e 3, HMBC) foi possível atribuir os seis sinais de carbonos quaternários, seis de carbonos metínicos, dez de carbonos metilênicos e oito de carbonos metílicos. Os sinais em 77,1 e 71,1 ppm foram atribuídos aos carbonos carbinólicos em C-3 e C-20, respectivamente, confirmando a presença de um grupo hidroxila em cada uma dessas posições. A análise dos espectros de Massas, RMN 1H, RMN 13C e a comparação com os dados da literatura para o lupeol (1A) (Razdan et al., 1988) e para o derivado do lupano (1B) (Wenkert et al., 1978), permitiram identificar a substância 1 o 20-hidroxi-diidrolupeol, já relatado na literatura, e não foi encontrado relato na literatura de seus dados de RMN 13C.

20-Hidroxi-diidrolupeol (1): Aspecto físico: sólido amarelo amorfo. RMN de 1H [300 MHz, (CD3)2SO]: d Tabela 1. RMN de 13C [75,5 MHz, (CD3)2SO]: d Tabela 2. ESI-MS: m/z (int. rel.): 483 [M+k]+ (65).

Dictamina (2): Aspecto físico: sólido amarelo amorfo. UV (MeOH) lmax/nm (log e): 240 (3,93), 311 (3,22). RMN de 1H (400 MHz, CD3OD): d 8,09 (d, J = 8,5 Hz, H-5); 7,78 (d, J = 8,5 Hz, H-8); 7,71 (d, J = 2,0 Hz, H-2); 7,65 (t, J = 8,5 Hz, H-7); 7,38 (t, J = 8,5 Hz, H-6); 7,21 (d, J = 2,0 Hz, H-3); 4,37 (3H, s, CH3O-4). RMN de 13C (100 MHz, CD3OD): d 162,6 (C-11), 157,0 (C-4), 145,1 (C-9),143,6 (C-2), 129,8 (C-7), 128,0 (C-8), 123,7 (C-6), 121,8 (C-5), 117,0 (C-12), 104,2 (C-3), 102,5 (C-10), 58,0 (CH3O-4). ESI-MS: m/z (int. rel.): 200 [M+H]+ (100) e 222 [M+Na]+ (40).

Eskimianina (3): Aspecto físico: sólido amarelo amorfo. IV: nmáx.NaCl cm-1: 1618, 1486, 1486, 1092, 869. UV (MeOH) lmax/nm (log e): 251 (3,77), 328 (3,04). RMN de 1H (400 MHz, CD3OD): d 7,95 (d, J = 7,1 Hz, H-5); 7,67 (d, J = 2,1 Hz, H-2); 7,28 (d, J = 7,1 Hz, H-6); 7,23 (d, J = 2,1 Hz, H-3), 4,39 (s, CH3O-4); 3,93 (s, CH3O-8); 3,86 (s, CH3O-7); . RMN de 13C (100 MHz, CD3OD): d 142,3 (C-2), 117,6 (C-5), 111,2 (C-6), 104,2 (C-3), 59,6 (CH3O-4), 55,0 (CH3O-7), 61,7 (CH3O-8), ESI-MS: m/z (int. rel.): 260 [M+H]+ (12) e 282 [M+Na]+ (12).

Sitosterol/estigmasterol (4 e 5): Aspecto físico: sólido branco amorfo. ESI-MS: m/z (int. rel.): 413 [M+H]+ (47), 437 [M+Na]+(70).

 

CONCLUSÕES

Este trabalho permitiu identificar substâncias químicas isoladas dos extratos metanólico e em diclorometano obtidos do caule de Almeidea coerulea. Foi possível também estabelecer, pela primeira vez, os dados de RMN 13C de um triterpeno do tipo lupano o 20-hidroxi-diidrolupeol (1). Essas substâncias químicas foram relatadas pela primeira vez nessa espécie e vêm contribuir para o conhecimento da quimiossistemática desse gênero.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq, Capacitação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, CAPES, e ao Programa de Pós-graduação em Química da Universidade Federal de São Carlos, pelo suporte financeiro.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em 25/07/05.
Aceito em 15/02/06

 

 

* E-mail: dagcortez@uem.br, Tel. + 55-44-32614867

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