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Revista Brasileira de Farmacognosia

Print version ISSN 0102-695XOn-line version ISSN 1981-528X

Rev. bras. farmacogn. vol.19 no.1b João Pessoa Jan./Mar. 2009

https://doi.org/10.1590/S0102-695X2009000200021 

ARTIGO

 

Contribuição ao estudo alelopático de Erythrina velutina Willd., Fabaceae

 

Contribution to the allelopatic study of Erythrina velutina Willd., Fabaceae

 

 

Caroline CentenaroI; Luís G. P. CorrêaI; Marcos J. KarasI; Suzane VirtuosoII; Josiane E G. DiasII; Obdulio G. MiguelII; Marilis D. MiguelI, *

ILaboratório de Farmacotécnica, Departamento de Farmácia, Universidade Federal do Paraná, 80210-170 Curitiba-PR, Brasil
IILaboratório de Fitoquímica, Departamento de Farmácia, Universidade Federal do Paraná, 80210-170 Curitiba-PR, Brasil

 

 


RESUMO

Este trabalho utilizou extrato etanólico e respectivas frações de Erythrina velutina em ensaio alelopático com sementes de Lactuca sativa. Observou-se que, com exceção da fração acetato de etila, o extrato etanólico e frações foram capazes de influenciar a germinação e crescimento das sementes de L. sativa.

Unitermos: Alelopatia, Lactuca sativa, Erythrina, Fabaceae.


ABSTRACT

This work has used ethanol extract and respective fractions from Erythrina velutina in allelophatic rehearsal with seeds from Lactuca sativa. It was observed that, except for the ethyl acetate fraction, the ethanol extract and fractions has been capable to influence the germination and growth of the seeds from L. sativa.

Keywords: Allelopathy, Lactuca sativa, Erythrina, Fabaceae.


 

 

INTRODUÇÃO

As plantas pertencentes ao gênero Erythrina são fontes de alcalóides tetracíclicos do tipo eritrina e possuem em sua composição química flavonóides, cumarinas e saponinas (Cunha et al., 1996; Rabelo et al., 2001; Virtuoso et al., 2005; Corrêa et al., 2008; Sousa et al., 2008). Erythrina velutina Willd., Fabaceae é conhecida como suinã, mulungu, canivete e corticeira (Lorenzi, 2002). Apresenta a sinonímia botânica: Corallodendron velutinum Willd., Erythrina aculeastissima Desf., Erythrina splendida Diels e Chirocalyx velutinus Walp. (Lorenzi, 2002). É utilizada popularmente como sedativo, calmante, sudorífica, emoliente, anestésico local e para acelerar a maturação de abcessos da gengiva (Lorenzi, 2002; Agra et al., 2008; Reyes, 2008). Estudos farmacológicos demonstraram que o extrato de E. velutina possui atividade espasmolítica, curarizante, antimuscarínica e depressora do Sistema Nervoso Central, propriedades compatíveis com as preconizadas pelo uso popular (Reyes, 2008).

O termo alelopatia foi citado pela primeira vez em 1937 pelo alemão Hans Molish, citada por diversos autores ao longo dos anos e atualmente definida pela International Allelopathy Society como processos que envolvem a produção de metabólitos secundários por plantas e microrganismos que influenciam no crescimento e desenvolvimento de sistemas biológicos com efeitos positivos e negativos (Malheiros & Perez, 2001; Pinto et al., 2002). Sendo assim, aceita-se alelopatia como ciência abrangente, podendo ser utilizada no controle de doenças, insetos e plantas daninhas que acometem plantas medicinais, proporcionando matéria-prima com qualidade para a indústria de fitoterápicos (Dias, 2005). Nesta perspectiva, este trabalho teve como objetivo verificar atividade alelopática de extratos e frações de E. velutina.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os solventes e reagentes utilizados apresentaram grau de pureza analítico (Merck®). Cascas de Erythrina velutina foram colhidas no Nordeste do Brasil em 2005, a classificação da espécie foi realizada junto à EMBRAPA e encontra-se sob registro n º. 2298.

O extrato bruto etanólico (EB) foi obtido pela submissão das cascas (secas e estabilizadas) à extração etanólica (etanol 96%, durante seis horas) em aparelho de Soxhlet e posterior concentração em evaporador rotatório com pressão reduzida à temperatura de 40 ºC e 90 rpm até redução a 1/5 de seu volume. O EB foi fracionado em aparelho de Soxhlet modificado (Carvalho, 2001) com solventes em ordem crescente de polaridade: hexano, clorofórmio e acetato de etila, obtendo-se a fração hexano (FH), fração clorofórmio (FC), fração acetato de etila (FAE) e fração hidroalcóolica remanescente (FHR).

O ensaio alelopático utilizou o extrato bruto etanólico e respectivas frações nas concentrações de 0,6 mg, 0,4 mg, 0,3 mg, 0,2 mg, 0,1 mg, 0,05 mg e 0,25 mg diluídas em 2 mL de metanol e sementes de Lactuca sativa (Macías et al., 2000; Chon et al., 2005; Dias et al., 2005).

Para tratamento controle da germinação e do crescimento utilizou-se água destilada e metanol sob as mesmas condições. Para verificação da germinação, procedeu-se leitura diária durante sete dias com retirada das sementes germinadas. As sementes foram consideradas germinadas conforme descrito por De Feo et al. (2002) e Adegas et al. (2003), ou seja, quando se tornou visível a protrusão da radícula através do tegumento. A abertura diária das caixas Gerbox foi realizada em fluxo laminar. Calculou-se o índice da velocidade de germinação segundo Maguire (1962) e os dados obtidos foram submetidos ao Teste de Scott Knott (5% de probabilidade) (Ferreira, 2000).

Para verificação do crescimento realizou-se ao final do sétimo dia de experimento, leitura do crescimento do hipocótilo e da radícula em papel milimetrado com auxílio de pinça. Os dados obtidos com as leituras de hipocótilo e radícula foram submetidos ao Teste de Scott-Knott (5% de probabilidade) (Ferreira, 2000). O tratamento foi considerado efetivo quando todas as repetições estiveram no mesmo grupo de médias.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Ao analisar as tabelas 1, 2 e 3, verifica-se influência do extrato bruto etanólico (0,6 mg, 0,4 mg, 0,3 mg, 0,2 mg e 0,05 mg) e fração hidroalcóolica remanescente (0,3 mg) de E. velutina na germinação de L. sativa, estimulando-a. Influência inibitória das amostras provenientes de E. velutina sob crescimento de Lactuca sativa foi evidenciada com o Teste de Scott-Knott aplicado no ensaio de crescimento, onde a diferença estatística nas médias das leituras do crescimento do hipocótilo pode ser visualizada para os tratamentos 0,6 mg e 0,4 mg de extrato bruto etanólico; 0,6 mg, 0,4 mg, 0,3 mg, 0,2 mg, 0,1 mg e 0,05 mg de fração hexano; 0,6 mg de fração clorofórmio e 0,2 mg, 0,05 mg e 0,025 mg de fração hidroalcóolica remanescente.

 

 

 

 

 

 

A germinação não é somente o fenômeno que, em condições adequadas o eixo embrionário prossegue em seu desenvolvimento. Deve-se ter em mente as fases que ocorrem antes da retomada do desenvolvimento, que se iniciam com a colocação da semente em substrato adequado e absorção de umidade. A primeira fase é caracterizada pelo aumento da intensidade respiratória, início da degradação de substâncias de reserva e desdobramento destas em substâncias de menor tamanho para facilitar o transporte. Na segunda fase ocorre o transporte das substâncias desdobradas, diminuição da absorção de água e crescimento lento da intensidade respiratória. A partir de um teor de umidade (50 a 60% para as cotiledonares), a semente retorna à intensa absorção de água e respiração, iniciando-se crescimento visível do eixo embrionário e a terceira fase. Substâncias desdobradas na primeira fase e transportadas na segunda fase são reorganizadas em substâncias complexas que, na terceira fase permitem o crescimento do eixo embrionário (Carvalho & Nakagawa, 1988). O hipocótilo e a radícula são originados a partir do eixo embrionário, parte vital da semente com tecido meristemático em duas extremidades, com condições de crescimento para dois sentidos, o das raízes (radícula) e o do caule (hipocótilo), originando plântula com condições de fixação ao solo e de fotossintetisar substâncias necessárias (Carvalho & Nakagawa, 1983). Nesta perspectiva, sabe-se que o crescimento é resultado da germinação, portanto, alterações na fase da germinação poderão originar plântulas com dificuldade de crescimento normal, justificando o estímulo da germinação de L. sativa tratada com amostras de E. velutina e posterior inibição do crescimento do hipocótilo.

Estes resultados são indicativos de potencial biotecnológico da espécie, sendo assim, novos ensaios deverão ser conduzidos com as mesmas amostras com propósito de identificar os constituintes químicos responsáveis pelos resultados aqui obtidos.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido 18 Dezembro 2008; Aceito 20 Fevereiro 2009

 

 

* E-mail: dallarmi@ufpr.br

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