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Revista Brasileira de Farmacognosia

Print version ISSN 0102-695X

Rev. bras. farmacogn. vol.20 no.5 Curitiba Oct./Nov. 2010  Epub Sep 03, 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-695X2010005000015 

ARTICLE

 

Himatanthus lancifolius (Müll. Arg.) Woodson, Apocynaceae: estudo farmacobotânico de uma planta medicinal da Farmacopeia Brasileira 1ª edição

 

Himatanthus lancifolius (Müll. Arg.) Woodson, Apocynaceae: morpho-anatomical study of a medicinal plant described in the Brazilian Pharmacopoeia 1st edition

 

 

Leopoldo C. BarattoI; Sandra V. A. HohlemwergerII; Maria Lenise S. GuedesIII; Márcia R. DuarteI; Cid A. M. SantosI, *

ILaboratório de Farmacognosia, Departamento de Farmácia, Universidade Federal do Paraná, Av. Pref. Lothário Meissner, 632, Jardim Botânico, 80210-170 Curitiba-PR, Brasil
IIDepartamento de Farmácia, Faculdade Dom Pedro II, Av. Estados Unidos, 20, Comércio, 40010-020 Salvador-BA, Brasil
IIIHerbário Alexandre Leal Costa, Instituto de Biologia, Universidade Federal da Bahia, Campus Universitário, Ondina, 40170-110 Salvador-BA, Brasil

 

 


RESUMO

Himatanthus lancifolius (Müll. Arg.) Woodson é um arbusto nativo do Brasil, latescente, popularmente conhecido como agoniada e utilizado principalmente para distúrbios menstruais. O presente trabalho teve como objetivo caracterizar morfoanatomicamente a folha, o caule e a casca caulinar dessa planta medicinal, a fim de contribuir para o controle de qualidade e a autenticidade dessa espécie. O material vegetal foi fixado e submetido às microtécnicas usuais. A folha é simples, glabra e obovado-lanceolada. A epiderme é uniestratificada, revestida por cutícula estriada e possui estômatos anisocíticos na face abaxial. O mesofilo é dorsiventral. A nervura central é biconvexa e o pecíolo é circular, ambos apresentando feixes vasculares bicolaterais. Laticíferos, amiloplastos e idioblastos fenólicos estão presentes no parênquima fundamental da nervura central e do pecíolo. O sistema vascular do caule é tipicamente bicolateral. Laticíferos e idioblastos fenólicos ocorrem no córtex, no floema e na medula. Esses caracteres morfoanatômicos, em conjunto, podem ser utilizados como parâmetros para o controle de qualidade dessa espécie.

Unitermos: Apocynaceae, floema interno, Himatanthus lancifolius, laticíferos, morfoanatomia.


ABSTRACT

Himatanthus lancifolius (Müll. Arg.) Woodson is a Brazilian native shrub, laticiferous, popularly known as "agoniada" and it is mainly used for uterine disorders. The present work aimed to study the leaf, stem and stem bark morpho-anatomy of this medicinal plant, in order to contribute to its quality control and identification. The plant material was fixed and submitted to standard microtechniques. The leaf is simple, glabrous and obovate-lanceolate. The epidermis is uniseriate, coated with striated cuticle and it has anysocitic stomata on the abaxial surface. The mesophyll is dorsiventral. The midrib is biconvex and the petiole is circular, both presenting bicollateral vascular bundles. Laticiferous ducts, amyloplasts and phenolic idioblasts are found in ground parenchyma of the midrib and petiole. The vascular system of the stem is tipically bicollateral. Laticiferous ducts and phenolic idioblasts are present in the cortex, phloem and pith. These morpho-anatomical characters, all together, can be used as quality control parameters of this species.

Keywords: Apocynaceae, internal phloem, Himatanthus lancifolius, laticiferous ducts, morpho-anatomy.


 

 

INTRODUÇÃO

O gênero Himatanthus, exclusivo da América do Sul e pertencente à família Apocynaceae, destaca-se por incluir espécies popularmente utilizadas como plantas medicinais e que possuem grande diversidade de compostos farmacologicamente ativos, entre eles alcaloides indólicos, iridoides e ésteres triterpênicos (Di Stasi & Hiruma-Lima, 2002). Os alcaloides indólicos dos representantes do gênero apresentam diversas atividades farmacológicas, entre elas antimicrobiana (Silva et al., 1998; Neto et al., 2002; Morel et al., 2006), antitumoral (Wood et al., 2001), antiprotozoária (Deharo et al., 2001; Mesquita et al., 2005; Castillo et al., 2007) e anti-inflamatória (Miranda et al., 2000).

Himatanthus lancifolius (Müll. Arg.) Woodson é uma espécie neotropical, encontrada no Equador e no Brasil, abundantemente nas regiões Nordeste (Bahia e Alagoas) e Sudeste (Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo), possui hábito arbustivo de médio porte, é latescente (Plumel, 1991) e é popularmente conhecida como "agoniada" (Côrrea, 1926). A espécie está descrita na Farmacopeia Brasileira 1ª edição (Silva, 1929), sob o basinômio de Plumeria lancifolia Müll. Arg. e sua monografia descreve as cascas do caule como droga vegetal (Brandão et al., 2006), as quais são tradicionalmente utilizadas como antiasmático, purgativo, para tratamento de doenças de pele, sífilis e distúrbios menstruais (Côrrea, 1926). As cascas do caule de H. lancifolius caracterizam-se pela presença de alcaloides indólicos, tais como uleína, ioimbina, epiuleína e demetoxiaspidospermina (França et al., 2000; Souza, 2007; Lopes, 2008). As frações ricas em alcaloides indólicos das cascas, assim como os compostos isolados, mostraram-se significativamente ativos, apresentando atividades antimicrobiana (Souza et al., 2004), antiespasmódica (Rattmann et al., 2005, Souza et al., 2007), gastroprotetora (Baggio et al., 2005) e anti-inflamatória (Nardin et al., 2009). O látex extraído do caule é considerado anti-helmíntico e febrífugo, enquanto que as folhas são popularmente indicadas por sua propriedade galactagoga (Côrrea, 1926) e a raiz é utilizada para o tratamento de afecções do útero e dos ovários (Plumel, 1991).

O presente trabalho tem por objetivo descrever os principais caracteres morfoanatômicos de folha, caule jovem e casca caulinar de H. lancifolius no âmbito farmacognóstico, a fim de definir parâmetros para o controle de qualidade e autenticidade dessa espécie medicinal. Apesar de H. lancifolius estar incluída na 1ª edição da Farmacopeia Brasileira, procurou-se complementar a descrição anatômica da droga, fornecendo figuras e esquemas que possibilitarão maiores subsídios para sua identificação e controle de qualidade. Além do mais, esta é uma espécie nativa brasileira, com um grande potencial biológico e carece de estudos químicos, botânicos e farmacológicos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O material vegetal foi coletado em janeiro de 2009 no campus da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador - BA, Brasil (13º 00' S, 38º 30' O, 16 m). Uma exsicata do material vegetal está depositada no Herbário Alexandre Leal Costa, do Instituto de Biologia, da UFBA, sob o registro ALCB 87017.

Para o estudo da morfologia foliar externa foi adotada a classificação proposta por Hickey (1974). Folhas adultas e fragmentos de caule jovem, obtidos entre 5 e 20 cm do ápice, e casca caulinar, foram fixados em FAA 70 (Johansen, 1940) e posteriormente armazenados em etanol a 70% (Berlyn & Miksche, 1976). A anatomia foi estudada por meio de lâminas semipermanentes e permanentes, preparadas com cortes do terço inferior do limbo e também do pecíolo, do caule e da casca caulinar. Lâminas semipermanentes foram confeccionadas com material seccionado à mão livre nos sentidos longitudinal e transversal, e os cortes foram corados com azul de astra e fucsina básica (Roeser, 1972). Para o preparo de lâminas permanentes, o material fixado foi emblocado, utilizando-se a técnica de inclusão em glicolmetacrilato (Leica Historesin®), seccionado no plano transversal em micrótomo rotativo Olympus CUT 4055 e os cortes foram coradas com azul de toluidina (Beçak & Paulete, 1976, Kraus & Arduin, 1997). Os resultados foram registrados por meio de fotomicrografias em microscópio fotônico Olympus BX-40 acoplado à unidade de controle PM-20 e por meio de desenho esquemático.

Testes microquímicos foram realizados de acordo com Berlyn & Miksche (1976) e Oliveira et al. (1991), empregando-se soluções reagentes específicas para confirmação de estruturas e compostos celulares. Foram utilizadas soluções de ácido sulfúrico para confirmação da natureza química de cristais de oxalato de cálcio, cloreto férrico para compostos fenólicos, floroglucina clorídrica para lignina, glicerina iodada para amido e Sudan III para substâncias lipofílicas.

 

RESULTADOS

Morfologia externa

As folhas (Figuras. 1 e 2) são simples, alterno-espiraladas, com lâminas inteiras, curto-pecioladas, glabras, coriáceas, obovado-lanceoladas. A nervação é pinada, camptódroma do tipo broquidódromo, com as nervuras secundárias unindo-se em uma série de arcos proeminentes. Essas nervuras são imersas na face adaxial e proeminentes na superfície abaxial, sendo a nervura central de forma reta, enquanto as nervuras secundárias têm ângulo praticamente reto. Os ramos jovens são castanho-escuros e os mais velhos com manchas castanho-claras, latescentes. Os fragmentos da casca do caule (Figura 3) têm formato plano, superfície irregular, exibindo gretas ou fendas mais ou menos profundas na superfície externa e lisa na superfície interna.

 



 

Anatomia

Folha

No limbo, em vista frontal, as células da epiderme são revestidas por cutícula estriada, e apresentam formato levemente ondulado na face adaxial (Figura 4) e ondulado na superfície abaxial (Figura 5). Os estômatos são predominantemente do tipo anisocítico, inseridos no mesmo nível das demais células epidérmicas, exclusivamente na face abaxial e são circundados por uma borda periestomática (Figuras 5 e 6).

Em secção transversal, a epiderme é uniestratificada, recoberta por cutícula mais espessa na face adaxial. O mesofilo é dorsiventral, composto de parênquima paliçádico, com cerca de dois estratos de células, sendo o primeiro estrato preenchido de forma regular e o segundo de forma irregular, formando meatos em toda a extensão, e de parênquima esponjoso, formado de várias camadas, correspondendo a 70-80% da altura do mesofilo. Há algumas células coletoras, ligando-se a outras duas ou mais células do parênquima paliçádico. No mesofilo distribuem-se feixes vasculares de pequeno porte do tipo colateral e de médio porte do tipo bicolateral, envoltos por bainha parenquimática (Figura 7).

 


 

Em secção transversal, a nervura central apresenta-se biconvexa. A epiderme é uniestratificada, revestida por cutícula espessada, formando flanges cuticulares. Seguem-se a ambas as faces, uma camada subepidérmica de células com conteúdo fenólico. O parênquima paliçádico interrompe-se gradualmente e observa-se o colênquima com espessamento anelar, composto de 9-10 camadas nas faces adaxial e abaxial (Figura 8). No parênquima fundamental, existe um feixe vascular de grande porte do tipo bicolateral em formato de "V" (Figuras 9 e 11). Em direção à superfície adaxial, numerosos feixes vasculares bicolaterais de pequeno porte (Figuras 9 e 12) formam com o feixe maior um arranjo triangular (Figura 9), que delimita uma região central preenchida por parênquima medular (Figura 9 e 10). O xilema é completamente lignificado, composto por elementos traqueais dispostos em fileiras. O floema externo é constituído de uma faixa contínua em torno do feixe vascular e relativamente estreita em relação ao floema interno. Os elementos crivados do floema interno situam-se em pequenos grupos em meio às células parenquimáticas, ocupando toda a região central (Figuras 11-13). Uma bainha amilífera envolve o feixe vascular de grande porte (Figura 14).

 



 

O pecíolo, seccionado transversalmente, tende a ser circular, levemente achatado na face adaxial. O sistema de revestimento, a camada subepidérmica e os feixes vasculares são semelhantes à nervura central. Lateralmente, próximo a cada lado adaxial da nervura central, observa-se um feixe acessório do tipo anficrival.

Idioblastos com conteúdo fenólico (Figuras 8 e 10) são também observados ao longo do mesofilo, no parênquima fundamental da nervura central e do pecíolo, e no floema. Laticíferos (Figura 15) com paredes espessadas, citoplasma denso e conteúdo granular lipofílico, encontram-se no mesofilo e predominam no floema e no parênquima fundamental da nervura central e do pecíolo.

Caule jovem e casca caulinar

Em secção transversal do caule (Figura 16), na região analisada, a epiderme permanece, em fase de destacamento. Esta é constituída de uma única camada de células, revestida por cutícula espessada (Figuras 17 e 18). Em decorrência do aumento da circunferência do caule, o felogênio instala-se nas camadas subepidérmicas. Este forma o súber em direção à periferia, que consiste de muitos estratos de células tabulares, com paredes suberizadas e levemente lignificadas; ao felogênio, segue-se a feloderme (Figuras 17 e 18). No córtex observam-se células de paredes delgadas, de formatos e tamanhos irregulares, e numerosos laticíferos (Figuras 19 e 20).

 

 

Há uma bainha esclerenquimática contínua, formada de vários estratos de fibras em estágio inicial de lignificação, de paredes evidentemente espessadas e lúmen reduzido, envolvendo o sistema vascular (Figuras 16, 19 e 21). O floema externo constitui-se de elementos crivados e células parenquimáticas, formando uma faixa contínua e estreita junto ao xilema (Figuras 16 e 19). Observando-se o lenho, o xilema é totalmente lignificado, formado de elementos traqueais dispostos em fileiras e, entre eles, numerosas fibras, separados por raios estreitos (Figuras 16, 19, 22 e 23). O floema interno dispõe-se em cordões lado a lado, de composição semelhante ao floema externo. A medula consiste de células parenquimáticas, de paredes delgadas (Figuras 16 e 22). Numerosos laticíferos (Figuras 20 e 22) com conteúdo lipofílico e idioblastos fenólicos (Figuras 19, 20 e 22) ocorrem no córtex, no floema e na medula.

A droga vegetal é definida como as cascas dessecadas de H. lancifolius (Figura 3). Os principais caracteres microscópicos que caracterizam esta droga, em crescimento secundário, são várias camadas de súber, consistindo de células tabulares, e parênquima cortical, e em seguida grupos de células pétreas e fibras, totalmente lignificadas, na forma de uma bainha esclerenquimática, além do floema externo, composto por elementos crivados e células parenquimáticas. Laticíferos e idioblastos fenólicos são observados no córtex da casca caulinar (Figura 24).

 

 

DISCUSSÃO

A morfologia foliar e caulinar externa de H. lancifolius assemelha-se ao descrito para a maioria das espécies da família Apocynaceae (Cronquist, 1981; Koch, 1994). A morfologia foliar externa de H. lancifolius é similar ao descrito para outras espécies do gênero (Plumel, 1991; Koch, 1994), como H. drasticus (Mart.) Plumel e H. sucuuba (Spruce ex Müll. Arg.) Woodson (Larrosa, 2004; Larrosa & Duarte, 2005; Amaral et al., 2007).

O sistema de revestimento foliar em H. lancifolius organiza-se de forma semelhante ao verificado em outras espécies da família (Gonçalves, 1964; Araújo et al., 1984; Barros, 1986/88; Barreto et al., 2001; Larrosa, 2004; Larrosa & Duarte, 2005). Os estômatos de Apocynaceae são predominantemente do tipo anomocítico ou paracítico, geralmente apenas na face abaxial (Metcalfe & Chalk, 1950). Em menor proporção, podem ser encontrados na família estômatos do tipo anisocítico (Cronquist, 1981, Metcalfe, 1988), conforme observado em H. lancifolius. Foi constatada a presença de borda periestomática nos estômatos de H. lancifolius, sendo que o mesmo tipo de ornamentação foi verificado em H. sucuuba (Larrosa & Duarte, 2005).

Em Apocynaceae, o mesofilo é geralmente dorsiventral e os feixes vasculares da nervura central são tipicamente bicolaterais (Metcalfe & Chalk, 1950). Os feixes vasculares de H. lancifolius assumem um arranjo triangular, também observado em H. sucuuba (Larrosa & Duarte, 2005; Amaral et al., 2007). No pecíolo, foram observados dois feixes acessórios do tipo anficrival, também identificados em H. sucuuba (Larrosa & Duarte, 2005). Outra característica anatômica de ocorrência universal na família, além do floema interno, é a presença de laticíferos (Metcalfe & Chalk, 1950), os quais foram observados com abundância em H. lancifolius. Foram identificados nessa espécie idioblastos com conteúdo fenólico, os mesmos verificados em H. sucuuba (Larrosa, 2004).

A organização interna do caule em estrutura secundária de H. lancifolius permite distinguir o sistema de revestimento, a região cortical, o cilindro vascular e a região medular. Em órgãos com crescimento secundário, a epiderme é substituída pela periderme (Alquini et al., 2006), a qual consiste de súber, felogênio e feloderme. Em Apocynaceae, o felogênio possui origem superficial no caule (Metcalfe & Chalk, 1950; Cronquist, 1981; Metcalfe, 1988), como verificado neste estudo. Em H. lancifolius, fibras e células pétreas em estágio inicial de lignificação foram observadas na forma de uma bainha esclerenquimática, envolvendo o sistema vascular, semelhante a H. sucuuba (Larrosa, 2004). Metcalfe & Chalk (1950) e Mauseth (1988) relatam que laticíferos estão sempre presentes nos caules de Apocynaceae e geralmente situam-se no córtex, no periciclo, no floema, na medula e algumas vezes nos raios medulares, de acordo com o observado neste estudo.

As cascas caulinares dessecadas de H. lancifolius, no âmbito farmacognóstico, são consideradas drogas vegetais. Em todas as plantas, a estrutura anatômica da casca é uma importante ferramenta para o diagnóstico e pode ser uma chave complementar na identificação vegetal (Mauseth, 1988). Denomina-se de casca ao conjunto de tecidos e sistemas localizados externamente ao câmbio, nos caules e nas raízes. Portanto, a casca é constituída de súber, felogênio, feloderme, córtex e obrigatoriamente pelo floema. Por outro lado, de acordo com Oliveira e colaboradores (1991), o conjunto de tecidos e sistemas localizados internamente ao câmbio em caules e raízes, providos de crescimento secundário, é conhecido como lenho, embora nesta região possam existir tecidos não pertencentes ao xilema, como o parênquima medular e o floema interno.

Na casca caulinar de H. lancifolius observam-se grupos de fibras e células pétreas. Segundo Esau (1974) e Scatena & Scremin-Dias (2006), células pétreas são chamadas de esclereídes, que possuem paredes secundárias espessas, muito lignificadas, e desenvolvem-se principalmente na casca do caule. De acordo com Mauseth (1988), o processo de lignificação frequentemente resulta em uma casca mais rígida, que não se destaca facilmente da árvore. Cascas espessas são resultados da expansão circunferencial contínua do crescimento secundário, esticando-as tangencialmente e formando fissuras e depressões profundas na superfície, externamente visíveis em H. lancifolius.

Os caracteres morfoanatômicos observados na folha, no caule e na casca caulinar de H. lancifolius, quando analisados em conjunto, contribuem para a identificação desta planta medicinal e fornecem subsídios que podem ser utilizados como parâmetros para o controle de qualidade da droga vegetal. A presença de nervuras secundárias de ângulo praticamente reto, de estômatos anisocíticos e de pecíolo com formato circular na folha; a presença de bainha esclerenquimática contínua na casca caulinar; e a ausência de prismas e drusas de oxalato de cálcio na folha e no caule, e também a ausência de amiloplastos na medula no caule, diferenciam H. lancifolius de H. sucuuba.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem ao Laboratório de Botânica Estrutural, do Departamento de Botânica da UFPR e ao técnico Nilson Belém Filho pela confecção das lâminas permanentes; LCB agradece a CAPES e CAMS ao CNPq, pelo apoio financeiro.

 

REFERÊNCIAS

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