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Revista Brasileira de Farmacognosia

Print version ISSN 0102-695X

Rev. bras. farmacogn. vol.21 no.3 Curitiba May/June 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-695X2011000300002 

Ao grande cientista Otto Richard Gottlieb, um pequeno ensaio de despedida

 

 

Vanderlan da Silva Bolzani

Professora Titular do IQ-UNESP, Vice-Diretora da AUIn-UNESP

 

 

A tarefa de escrever um editorial sobre o professor Otto Richard Gotllieb é um exercício de grande responsabilidade, admiração e carinho. Como resumir em poucas linhas a vida acadêmica e pessoal de um dos maiores cientistas da América latina? Sabemos que os dados da vida profissional e pessoal estão entrelaçados e se confundem com o tempo, e o local onde ocorreram, de tal modo que fi ca difícil muitas vezes tratar com isenção e precisão, nas horas de emoção sobre um cientista tão especial, que marcou a trajetória de inúmeras pessoas que orientou, além do legado cientifico inestimável que deixou para o país que escolheu como pátria e para a pesquisa em química de produtos naturais que se faz hoje. Professor Otto teve um papel decisivo na minha escolha pela profi ssão acadêmica e pelo fascínio pelos produtos naturais como área de pesquisa. Ao terminar minha graduação em Farmácia na UFPB decidi fazer mestrado no IQ-USP sob a orientação do Professor Paulo de Carvalho que já tinha aceitado ser meu orientador. Quinze dias após iniciar o curso, o Professor Paulo é acometido de um infarto fulminante e morre. Um começo difícil para uma estudante nordestina de 22 anos que perdia o seu orientador antes de começar seus estudos! Nestas circunstancias, foi no Bloco 11 do IQ-USP que conheci o Professor Otto, por intermédio do Professor Mário Motidome, amigo do Prof. Paulo que, comovendo-se da minha situação decidiu me ajudar. Naquela época o Professor Otto já era muito famoso internacionalmente. Muito tímida e até meio temerosa diante de um cientista tão ilustre, fui até sua sala no Bloco 05 para conservar com ele sobre minhas pretensões. Na breve entrevista que tive com ele fi quei encantada pelo seu fascínio pela natureza e pela química orgânica, pela sua firmeza e principalmente simplicidade. Sai daquela sala com uma firme decisão – queria ser uma cientista. O professor Otto encantava seus alunos com suas aulas de biossíntese e mais adiante com as idéias e conceitos sobre a quimiotaxonomia, objetivando estudos de filogenia. Exigente e muito disciplinado nos cobrava o aprendizado dos seus ensinamentos nas inúmeras argüições que ocorriam em suas aulas magníficas. Como já tão comentado em inúmeros textos editados esta semana em sua memória, começou sua carreira acadêmica com quase 40 anos e depois de sair do Instituto de Química Agrícola em 1962, foi para o Instituto Weizmann, em Israel, onde se especializou em métodos de análise orgânica e em fitoquímica. Ao voltar do seu pós-doutorado, saiu como um peregrino distribuindo conhecimento por este Brasil afora. Em 1964 foi convidado para coordenar o Instituto Central de Química na UnB, para onde mudou levando consigo vários profissionais que já haviam trabalhado com ele, do Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Fortaleza e Recife. Seu sonho era formar um time de cientistas especialistas em fitoquímica assim como, bons professores de pós-graduação objetivando consolidar esta área em todo o Brasil. O sonho durou pouco. Solidário com outros colegas assinou sua demissão e com ela encerrou o seu sonho de ver em Brasília o local ideal para concretizar suas pesquisas com espécies da nossa biodiversidade. Em 1967, o IQ-USP saiu da Alameda Glete e foi para a Cidade Universitária com o objetivo de ampliar as linhas de pesquisas existentes. Dentre as metas de ampliação, estava a química de produtos naturais e o professor Otto foi convidado pelo Professor Paschoal Senise para proferir uma conferencia. A palestra "Os jacarandás: 400 anos de carpintaria, quatro anos de química" entusiasmou o corpo de docentes do IQ-USP e após um almoço e muitas questões formuladas, o professor Senise convidou o professor para montar o laboratório do Bloco 11, inicialmente com verba FAPESP e logo em seguida incorporado a USP. Em 1976 fez concurso de titular. Nesta época fazia mestrado e comemoramos seu concurso numa Pizzaria da Vila Madalena cujo nome não me recordo mais. Foi no IQ-USP, Bloco 11 que o professor Otto construiu toda a sua carreira. Costumava dizer – "Em São Paulo tudo funciona e tudo converge, inclusive administração, secretaria, funcionalismo, para ajudar o professor em suas tarefas, que integram ensino e pesquisa como parte orgânica de sua vida. Além disso, no Instituto de Química perdura a convicção de que é através do desenvolvimento científico básico próprio, mais do que através da adaptação de tecnologias alheias, que nascerá o Brasil futuro". Tendo como colaborador o Professor Massayoshi e os bolsistas Raimundo Braz Filho, Nídia Franca Roque, Zenaide Scattone, no inicio seguido de Mardem Alvarenga elaborou um trabalho de pesquisa de enorme reconhecimento mundial. Tão atuais eram suas idéias que em 1992, publicou na Quim. Nova, 15(2), um belíssimo artigo de revisão sobre Biodiversidade: uma teoria molecular, onde enfatizava a importância das reações de transferências de elétrons, do oxigênio e da teoria redox para a evolução das Angiospermas na terra. Vários trabalhos nesta direção vem sendo publicados em Science, um deles pode ser vislumbrado no artigo escrito por Falkowski P. G. Science 311(5768),1724-5 (2006). Usando vários tipos estruturais de metabólitos sencundários que ocorrem em plantas de florestas tropicais, florestas secas, Cerrado e Tundra criou uma ferramenta matemática diferenciada para correlacionar os dados moleculares com a morfologia de cada táxon, de acordo com diferentes biomas, habitat e herbacidade, na tentativa de correlacionar dados químicos com evolução e filogenia vegetal. Fiz minha tese de doutorado sob sua orientação, trabalhando a quimiotaxonomia de alcalóides indólicos em Gentianales. Mais tarde, já professora assistente do IQ-UNESP, fui honrada com um convite para ministrar uma conferencia em Maise, Bélgica, num congresso internacional sobre Rubiaceae. A pesquisa sobre a química e a filogenia em Rubiaceae não só foi muito elogiada como foi um dado substancial para corroborar a nova classificação taxonômica proposta por Robbrecht para Rubiaceae. Naquele momento, o Professor Otto já apresentava sinais do Mal de Parkinson, mas, seu brilho e magnetismo ao defender suas idéias disfarçavam uma doença que ele não viu surgir um fármaco, da nossa rica biodiversidade para tratamento desta terrível doença. Sua paixão pelo que fazia e pela diversidade química que acreditava ser a base para o entendimento da complexa engrenagem metabólica da biodiversidade era tão fascinante que costumava afirmar - "Cada planta tem centenas de substâncias e uma delas pode ser mais importante do que uma galáxia". Sua obra transcende seus mais de 700 artigos, vários livros e algumas patentes sobre Lignanas e Neolignanas de Lauraceae e Myristicaceae, Ela é vislumbrada pelo número de pesquisadores hoje atuantes em química de produtos naturais do Oiapoque ao Chui, são seus filhos, netos e bisnetos científicos. Ao completar 70 anos fizemos uma linda festa em minha casa da Rua Livi, 46 para celebrar seu aniversário e sua aposentadoria do IQ-USP, regada a bacalhau sob o comando de Lucia Conserva, doutoranda na época e uma excelente chefe de cozinha. Naquele dia fiz um poema para meu grande mestre e até enviei para Renata Borin colocar na biblioteca Virtual Otto R. Gottlieb, que infelizmente foi retirada do ar. Minha intenção era finalizar este texto citando este poema. Infelizmente querido mestre, traída pela memória já não consigo lembrar do que escrevi e assim, resta-me apenas dizer adeus.