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Sociedade e Estado

Print version ISSN 0102-6992

Soc. estado. vol.24 no.2 Brasília May/Aug. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69922009000200001 

Editorial

 

 

De acordo com Raymond Aron, a Sociologia está comprometida com a atualidade que lhe é contemporânea, portanto, sua tarefa espinhosa é conceituar o atual. A dificuldade que daí decorre é como tratar, falar do presente, na medida em que ele ainda se processa e que o próprio intérprete está inserido no seu fluxo. Os impasses cognitivos envolvem valores tanto ético quanto morais, e supõem a perspicácia de equilibrar as problemáticas em torno da criação e reprodução no que toca às relações, processos e estruturas sociais.

Neste número da Sociedade e Estado, esse dilema fundador e estrutural da prática socioantropológica se impõe de maneira tenaz no olhar dirigido pela socióloga norte-americana Diana Crane às mudanças pelas quais passam os mundos artísticos contemporâneos. Atenta ao que se manifesta como uma crescente diluição das fronteiras entre alta cultura e cultura popular, a autora extrai da situação novos desafios à análise e interpretação sociológica do modo como o ambiente da globalidade introduz modalidades inusitadas de desigualdade econômica e cultural.

Igualmente, o artigo "'Nova´ elite no Brasil? Sindicalistas e ex-sindicalistas no mercado financeiro" ilumina um terreno ainda pouco elaborado pelas ciências sociais, embora haja forte repercussão do tema no discurso e no imaginário popular brasileiro contemporâneos. Ou seja, volta-se à conformação das alianças entre segmentos sociais que efetivam novos regimes de comando no País, à medida que a dinâmica financeira do capital se enraíza na esfera econômica, ressoando então em outras dimensões da vida societária.

Diante dos atuais efeitos proporcionados pela implantação da Lei Maria da Penha, o artigo "Três décadas de resistência feminista contra o sexismo e a violência feminina no Brasil: 1976 a 2006", para além de realizar um balanço histórico das conquistas do movimento social das mulheres na sociedade brasileira, incita a reflexão acerca de como as alterações nas (ou a reprodução das) grades taxonômicas, com suas repercussões jurídico-normativas, são reveladoras de interdependências sociossimbólicas.

O recurso analítico efetivado na atenção dada à novidade dos portais digitais permite que os autores do artigo "Os empresários, a política e a web: mapeando as atividades políticas nos portais das federações de industriais brasileiras" retomem antigas questões envolvendo o tripé classe empresarial, participação política e cidadania no País.

O recuo também a questões candentes na sociedade brasileira leva o autor do artigo "O não dito na obra de Arthur Ramos" a revolver uma vez mais o terreno das relações sociais de raça e etnia. Desta vez, a opção por se aventurar em uma lacuna mnemônica detectada na obra do célebre médico e antropólogo alagoano deixa entrever combinações sutis mais agudas entre preconceito, pensamento social e reconhecimento/eleição/legitimação de facções como representativas da cultura afro-brasileira.

Por sua vez, diante do que parece ser atualmente o desafio incontornável da esquerda política de aliar os valores da igualdade e da liberdade, o artigo "A Esquerda ontem e hoje: o dilema entre igualdade e liberdade" traça o percurso dos deslocamentos e das permanências valorativas neste importante setor da política mundial, à luz das reverberações de mudanças nos mundos sociais. A autora considera, sobretudo, os efeitos deixados por essas rotações sobre as certezas do agir político, perpetrando dúvidas e hesitações no mesmo compasso em que requerem alternativas.

O exercício de retomar a contribuição intelectual de cientistas sociais no debate sobre a saúde pública no Brasil, no artigo "Tradutores, intérpretes ou promotores de mudança? Cientistas sociais, educação sanitária rural e resistências culturais (1940-1960)", oportuniza rever problemas que permanecem atuais, apesar das novas roupagens, nas ciências sociais brasileiras. Problemas à maneira daqueles sobre a relação entre agendas do conhecimento científico socioantropológico e as pautas político-governamentais, a natureza e os impactos dos modos de intervenção realizados pelas nossas disciplinas, a equação dialógica e hermenêutica no encontro/confronto dos saberes periciais com aqueles nativos, muitas das vezes conceituados de tradicionais.

Finalmente, diante da efervescência e do prestígio que ora gozam símbolos e práticas da cultura tradicional (folclórica) entre jovens habitantes das metrópoles brasileiras, a autora do artigo "Sociabilidade juvenil e práticas culturais tradicionais na cidade de São Paulo" não apenas mapeia os nichos de reposição e recriação desses estoques de saberes que pareciam fadados ao desaparecimento pelos impactos da modernização urbano-industrial. Principalmente, otimiza a discussão sobre a atual importância adquirida por essa cultura popular e, com ela, a tônica crescente posta na diversidade étnico-cultural, para voltar a temas que secularmente acossam as sociedades e, por isso mesmo, se mantêm clássicos para as ciências sociais: desigualdade socioeconômica, estratificação socioespacial, mudança e permanência sociocultural, entre outros.

Para a próxima edição da Sociedade e Estado, está em preparo um dossiê sobre representações sociais, organizado pela professora Maria Stela Grossi.

 

Edson Farias
Maria Eloísa Martin

Editores

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