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Sociedade e Estado

versão impressa ISSN 0102-6992

Soc. estado. vol.25 no.2 Brasília maio/ago. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69922010000200001 

Editorial

 

 

Há temas cuja abrangência é capaz de fazer contracenar facetas as mais diversas da vida sociohistórica à maneira do individual e do coletivo, da conjuntura e da estrutura, das agências e dos sistemas, do evento e do processo. Por outro lado, articula dimensões macro e micro-sociológicas por colocar em comunicação o espiritual/simbólico com o material, logo, tornando possível incluir o plano biológico na contrapartida do cultural. O mesmo podendo ser dito acerca do sincrônico e do diacrônico, do tempo e do espaço, já que descortina o contemporâneo, o atual, na intercessão do passado, do presente e do futuro. E, deste modo, reclama atenção às tramas narrativas de significação dos acontecimentos e, igualmente, às relações de força em que tais performances discursivas se antecipam no delineamento de pautas de cognição que informam decisões e, assim, tem efeitos na definição de alvos de intervenções sociopolíticas.

Sem dúvida geração é um tema assim. As características multifacetadas e multimodais do objeto evocam perspectivas multidisciplinares, envolvendo angulações sociológicas, historiográficas, antropológicas, politicólogas, mesmo filosóficas, quando se trata das interlocuções próprias à esfera institucional do conhecimento das ciências sociais e das humanidades em geral. Contudo, o abrigo desse amplo nicho epistemológico não se faz suficiente. Portanto, reivindica-se o atendimento à demanda por diálogos aptos a cruzar fronteiras de saberes, fazendo cúmplices os campos sócio-históricos e culturais aos biomédicos.

À luz dessa densa largueza própria ao debate, o presente volume da Sociedade e Estado dedica um dossiê ao tema das gerações. Organizado pelas professoras Alda Britto da Motta e Wivian Weller, trata-se de uma sequência de seis artigos em que a motivação fundamental está, justamente, em tornar visível a atualidade e, evidentemente, a importância da discussão sobre os fenômenos geracionais no mundo atual, em que se tornam cada vez mais contemporâneos, mediante conexões globais, diversidades culturais envolvendo diferentes faixas etárias em cursos da vida sempre mais longevos. Importância a ser sociologicamente perscrutada, de maneira simultânea, nas suas faces teóricas, analíticas e empíricas, na medida em que repõem em outras bases problemas candentes, pois instauradores, ao fazer e à reflexão nas ciências sociais: a permanência e a mudança histórica, estando este dueto na contrapartida da tensão entre criatividade e determinação, mas no instante que chama atenção às formas assumidas pela reciprocidade e a repulsa nas redes sociohumanas atravessadas pelas dinâmicas globais.

Formas estas que sintonizam motivações por intermédio do trabalho simbólico em que se encontram, nas manifestações da compreensão social, na qual estão aliadas consciência e discurso público, demarcações etárias com visões de mundo na montagem de molduras identitárias de grupos e de indivíduos, com implicações sobre a estima e nas aspirações e nos limites existenciais, mas também no horizonte das utopias e nos tetos ideológicos que aproximam, distanciam, facilitam ou erguem obstáculos nas dependências mútuas entre pessoas. Deste modo, o olhar sobre as gerações se mostra uma oportunidade privilegiada de discutir não apenas ela própria como uma estratificação sócio-analítica; esse olhar permite considerar reflexivamente as demais estratificações (sexo, gênero, classe, raça, etnia), sobretudo, expor ao debate o teor prismático do objeto sociológico.

Se o trabalho simbólico intrínseco ao fenômeno das gerações participa da elaboração dessa miríade de aspectos a serem explorados é porque porta, como pioneiramente observaram Comte e Mannheim, o quão crucial são as modalidades várias de conhecimento tanto para a continuidade e recursividade das práticas humanas na sucessão das idades de indivíduos e grupos, quanto para as interrupções de costumes e falências institucionais do andamento histórico e, evidentemente, nas erupções de alternativas de hábitos e fórmulas de regulação, controle e autocontrole nas experiências humanas.

Nesse sentido, o dossiê "A atualidade do conceito de geração na pesquisa sociológica" cumpre o papel de fazer a genealogia do discurso sociológico sobre as gerações. E, ao mesmo tempo, tem o mérito de situar as conformações específicas adquiridas pela conceituação em estágios relativos aos distintos estágios sócio-históricos e institucionais da produção do conhecimento sociológico. Os artigos aqui reunidos, assim, deixam entrever com essas nuâncias remete seja às respostas intelectuais a um encadeamento de processos: entre outros, da industrialização, do movimento do campo à cidade, dos deslocamentos na balança de poder entre os Estados nacionais no sistema internacional, do incremento dos movimentos sociais - sejam aqueles de natureza produtivista sejam os que se fundam sobre a prerrogativa do reconhecimento -, na propagação dos bens simbólicos populares nos ajustes com a envergadura elevada pelas mídias eletrônicas no cotidiano planetário.

Para fechar o volume, o artigo "A cidadania sob o signo do desvio: Para uma crítica da 'tese de excepcionalidade brasileira' ". Assinado por Sérgio Tavolaro e Lilia Tavolaro, o texto volta a um ponto nevrálgico sobre o debate da sociologia política brasileira, em que se cruzam o tema da modernidade com da evolução dos hábitos e das instituições políticas no país. Ponto este que compreende o dilema a respeito de se, no Brasil, as condições para o exercício e consolidação da democracia, para além da formalização jurídica, encontraria respaldo na cidadania como experiência. Deixando em suspenso a própria formulação da excepcionalidade normativa da experiência brasileira, tal como atravessa o discurso do pensamento social, os autores revolvem o terreno histórico do estágio republicano para sustentar o argumento sobre a "dimensão contingente e agonística de toda e qualquer ordem normativa" (p. 359, em itálico no original). Abrindo mão de disjunções, elas próprias normativas, entre "centro" e "periferia", mas apostando na historicidade diversa adquirida pelo padrão de sociabilidade moderna, eles propõem outro protocolo para a agenda das pesquisas sociopolíticas.

 

Edson Farias

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