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Sociedade e Estado

versão impressa ISSN 0102-6992

Soc. estado. vol.25 no.2 Brasília maio/ago. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69922010000200012 

RESENHAS

 

Uma trajetória em narrativas: O artesanato intelectual de Renato Ortiz

 

 

Clovis Carvalho Britto

 

 

de Renato Ortiz, Trajetos e memórias (São Paulo: Brasiliense, 2010)

Não é possível dissociar a leitura de Trajetos e memórias, recente livro de Renato Ortiz, da palavra arquivo (arkhê). A etimologia do termo remete a dois princípios: começo e comando. Lugar de memória, história, ontologia. Lugar de onde a ordem é dada, organização, nomologia. Conforme nos ensina Jacques Derrida (2001), o conceito de arquivo abriga a memória do nome arkhê e, ao mesmo tempo, é abrigo dessa memória que ele abriga. Do latim archivum ou archium, seu sentido viria do arkheim grego: uma casa, mais especificamente o domicílio dos magistrados superiores denominados arcontes. Nesse lugar, depositavam-se os documentos oficiais e os arcontes eram seus guardiães. Reitera o filósofo que os arcontes não eram apenas os responsáveis pela segurança física da casa e dos suportes, cabiam-lhes, concomitantemente, o direito e a competência hermenêuticos.

É certo que reconhecer tais origens é fundamental, mesmo em um momento em que a palavra "arquivo" vem sendo, aos poucos, substituída pelo termo "acervo" com o intuito de contemplar a diversidade de suportes e destoar da falsa ideia de um depósito de documentos estático. Arquivar é um ato de memória que, por sua vez, preserva documentos-memórias. Organização, coleção, preservação, controle e acesso a informações. Todavia, mais do que entender suas origens e pesquisar em suas fontes, é importante atentarmos para a história de seus arcontes. Isso porque a constituição dos acervos é uma prática compartilhada que os torna uma instância de dupla operação: ao mesmo tempo em que o autor ou o conjunto de agentes realizam uma série de práticas arquivísticas para a constituição de seu "arquivo", eles também se "arquivam". Recorremos a esse preâmbulo pelo fato de que Renato Ortiz, ao recompor sua memória seletiva iluminando aspectos de sua trajetória (que imbrica com outras trajetórias), torna-se um arconte e um "arquivo". Ao desfiar a trama de sua vida em uma autonarrativa (e engana-se quem suscitar a hipótese de que o livro consiste em um ressoar de ecos de Narciso), o autor reelabora e interpreta momentos significativos da história das ciências sociais brasileiras e de além-mar, deixando escapar pelas frestas esboços das trajetórias e das personas de importantes autores que a conformaram e confluenciaram. Desse modo, poderíamos dizer que a trajetória social de Ortiz, átomo do campo científico em que se insere, abre caminho para visualizar um painel da diversidade do pensamento sociológico e a própria trajetória da ciência que pratica.

Thomas Mann iniciou o romance José e seus irmãos com uma frase basilar nesse aspecto: "É muito fundo o poço do passado. Não deveríamos antes dizer que é sem fundo esse poço?" Antes dele, Proust já se enveredava em busca do tempo perdido. Registrar as memórias sobre o contexto de determinadas ideias, influências, diálogo com seus pares e inserção intelectual é reencontrar aspectos perdidos de um tempo e algumas águas adormecidas desse poço que não se preconiza raso. É por isso que Philippe Artières (1998) destaca que possuímos uma espécie de pulsão por arquivar nossas vidas. Arrumamo-nos, desarrumamos, reclassificamos por meio de práticas minuciosas na tentativa de construirmos uma imagem para nós mesmos e, muitas vezes, para os outros. Segundo informa, arquivamos nossas vidas para responder a uma injunção social, fazendo um acordo para manipular nossa existência. Por isso rasuramos, omitimos, sublinhamos determinadas passagens, empreendemos um jogo de lembranças e esquecimentos. Práticas de "arquivamento do eu" que carregam uma intenção biográfica: "o caráter normativo e o processo de objetivação e de sujeição que poderiam aparecer no princípio, cedem na verdade o lugar a um movimento de subjetivação" (Ortiz: 11), tornando-se uma operação de construção de si mesmo e de resistência. É não deixar que o tempo passe tudo a raso.

É como se a testemunha dos fatos se tornasse a escrivã, a autora de um diário de campo no qual se esboçam relatos de um tempo que se esvai. O comum é que outros fiquem a cargo desse desafio, mesmo se alguns tomam para si essa tarefa de recobrir (ou instituir) silêncios e momentos de esquecimento. Ser uma espécie de biógrafo de si mesmo é correr o risco de se autocelebrar, afastando-se das demais pessoas "comuns". Tais ações, mesmo involuntariamente, contribuem para a preservação ou a mobilização de determinados capitais simbólicos necessários à "imortalidade", embora não sejam suficientes. Para tanto, é necessário gozar de autoridade não apenas para realizar o relato, mas ainda para que ele seja lido, julgado legítimo e alcance ressonância. Ademais, não existe apenas essa foz para desembocar. Muitos possuem a consciência de que é importante rascunhar impressões de experiências, transformando-as em legado histórico. A vida se metamorfoseia em obra.

Lembremo-nos o quão significativas são as autonarrativas - ou, como preferem alguns, a sociologia (auto)crítica - de Gilberto Freyre em Tempo morto e outros tempos (2006) e De menino a homem (2010); de Florestan Fernandes nas passagens autobiográficas em A sociologia no Brasil (1977); e de Pierre Bourdieu em Esboço de autoanálise (2005). Obras que, a exemplo do recém lançado livro de Ortiz, auxiliam a compreender os meandros do campo no qual - e contra o qual - cada um se fez. Entre paixão e técnica, ou uma emoção raciocinada, o sociólogo realiza um esforço de reflexividade para reconstruir momentos significativos do campo científico brasileiro, francês e norte-americano e, ao retornar seus trajetos, insinua memórias da constituição e da afirmação da sociologia nesses espaços. Dessa forma, expressa mais que contextos, cenários e cenas da vida de seus interlocutores, compartilha a arqueologia de uma vida com os leitores apresentando múltiplas e algumas (quase) silenciadas vivências.

Essa intenção biográfica presente na autonarrativa também contribui para análise das condições do fazer científico na medida em que retomaria o problema em torno da dualidade agente individual e coletividade e apontaria para uma situação estrutural pautada pelo primado do indivíduo. As reflexões de Edson Farias (1999) nos auxiliam nesse aspecto. Sabedor de que conscientemente as pessoas se apropriam de modo criativo das histórias que vivenciam e de que a reconstituição biográfica vai além de uma técnica de narração de história de vida, convertendo-se em verdadeiros mecanismos de apreensão mais ampla de condutas sociais espacial e temporalmente situadas, ressalta dois princípios que considera centrais à abordagem biográfica: a. o agente não se restringe ao suporte do sentido padronizador e é capaz de atribuir e recriar os sentidos; e b. a individuação extrapolaria as determinações homogeneizantes da sociedade, também dizendo respeito ao modo como os agentes, pautados em circunstâncias e recursos próprios, desenvolvem estratégias que incidem sobre o sentido.

Ao tomar por parâmetro metodológico a biografia elaborada por Hannah Arendt a partir dos registros íntimos da intelectual alemã Rahel, explicita a importância de recuperar o contexto histórico no qual os registros dos sentimentos começaram a se acentuar. Desse modo, ressalta a homologia entre o sentido da conduta da biografada, quando "registra sua vida" em diários, e a fórmula adotada pela biógrafa para traçar a história de vida e refletir a respeito da singularidade de uma época. Questões que se destacam quando uma (auto)biografia se transforma em (hetero)biografia, um mecanismo analítico significativo para enfrentar questões caras às ciências sociais.

Ortiz - "biógrafo/biografado" -, ao eleger como fio condutor das memórias a seleção de episódios de sua trajetória profissional, enfrentou o desafio da proximidade. Estranhar o familiar possibilitou que a reflexão sobre a singularidade de uma época e de sua vida constituísse um atalho para a instituição de um texto perpassando a história das ideias. Há algumas décadas os estudos de histórias de vida tornaram-se matéria importante para as ciências sociais por esboçarem as interações dos indivíduos, percebidos como sujeitos de ação social tecida a partir de uma rede de significados. Os cientistas sociais passam a visualizar os indivíduos como intérpretes de mapas e códigos socioculturais, fator que enfatizaria a dinamicidade da vida social e instituiria pontes entre os níveis micro e macro (cf. Velho, 2003). Além disso, conhecer melhor o pensamento sociológico requer compreender como os cientistas sociais "conversam, como pensam, quais são suas crenças, valores, idiossincrasias, suas influências, suas vaidades, seus princípios explicativos e referências teóricas" (Bastos et alii, 2006: 7).

Com o livro de Ortiz não foi diferente. Resultado de incursões ao memorial apresentado para obtenção do título de livre-docência na Universidade Estadual de Campinas, único título universitário brasileiro que obteve, visto que realizou os estudos de graduação e pós-graduação na França, o texto agora publicado consiste em uma reformulação da versão original, escrita em 1988. O afastamento de 22 anos propiciou uma nova operação de recortes, descartes, enxertos e a visualização de trajetos então adormecidos nos barris de carvalho. Na verdade, consiste em uma trajetória em processo, em aberto. O valor dos relatos repousa, a nosso ver, no modo como o autor elaborou o memorial fugindo dos moldes tradicionais e esboçando nuanças que nos encaminham para uma sociologia da sociologia brasileira. Talvez devido àquilo que Antônio Cândido (1995) sublinhou em seu conhecido prefácio para Raízes do Brasil:

A certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço no passado sem cair em autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna registro da experiência de muitos, de todos que, pertencendo ao que se denomina uma geração, julgam-se a princípio diferentes uns dos outros e vão, aos poucos, ficando tão iguais, que acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolverem nas características gerais da sua época. Então, registrar o passado não é falar de si; é falar dos que participaram de uma certa ordem de interesses e de visões de mundo, no momento particular do tempo que se deseja evocar (idem: 9).

Essas questões demonstram porque Ortiz decidiu compartilhar seus trajetos e memórias com o público leitor. É certo que a cada livro publicado, a cada curso e disciplina ministrada, nas orientações e contatos com amigos, familiares e colegas de ofício, essa operação vem sendo burilada no intuito de deixar saudades velhas e de carregar saudades novas. O que difere, nesse caso, é que Ortiz se torna sujeito/objeto desses trajetos, centralidade dessas memórias agora acomodadas em livro. Enveredou-se pela experiência de narrar a própria vida, de arquivá-la, iluminando a faculdade de intercambiar experiências apontada por Walter Benjamin como uma arte em vias de extinção. Ao registrar um conjunto de ações relacionadas à sua trajetória social, Ortiz se tona um hábil narrador cuja trama não nos é entregue inteiramente. O texto conserva sua força e, em cada leitura, ainda é capaz de se desenvolver, por possuir uma pulsão germinativa.

Ortiz concilia em seus relatos características dos dois tipos arcaicos de narrador sublinhados por Benjamin (1987): o marinheiro nômade e o lavrador sedentário. Ele próprio viajante cujas experiências realizadas em outras paragens embasaram seu projeto criador, mas cuja lavra sempre se pautou em compreender os processos sociais travados em suas terras. Ao unir as pontas de sua formação europeia com sua práxis brasileira, o sociólogo desenvolveu um modus operandi sui generis. Não sem motivos elegeu o flâneur como uma das alegorias que se aplicam ao trabalho intelectual; elemento caracterizado pelo deslocamento, pela ambivalência, por estar simultaneamente fora e dentro, permitindo a observação das coisas de um modo em que a mirada habitual deixa escapar. Dimensões que se convergem na metáfora da viagem que pressupõe uma duração e um trajeto marcado pela partida e pela chegada.

Conforme destaca Ortiz, toda viagem tem algo de um ritual de passagem, cada nova fronteira é um desafio já que consiste no aprofundamento do seu estranhamento: estar próximo e distante. Mas não encerra aí suas metáforas. O autor cunha outra alegoria para dialogar com sua trajetória intelectual: a costura. Atividade que, por sua vez, perpassa fios distintos de outras trajetórias e tecidos, retomando a ideia do trabalho intelectual como artesanal. Fator que o aproxima do narrador benjaminiano, que concebeu ter a narrativa florescido no meio dos artesãos - no campo, no mar e na cidade - e ser ela própria, num certo sentido, uma forma artesanal de comunicação. Assim como o narrador descrito por Benjamin, o narrador de Trajetos e memórias não está interessado em transmitir o "puro em si" do objeto narrado como uma simples informação ou relatório:

Ele mergulha a coisa narrada na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso (Benjamin, 1987: 205).

A ideia de artesanato intelectual foi desenvolvida por vários autores, a exemplo de Florestan Fernandes (1977) e do próprio Renato Ortiz na obra Ciências sociais e trabalho intelectual (2002). Ambos, certamente, se inspiraram no entendimento de Wright Mills (1972), quando concebeu o ofício do sociólogo como um trabalho artesanal que funde arte e técnica, especialmente arte e comprometimento pessoal. Escrever se torna, neste sentido, um exercício artesanal e um ofício de vida, transformando a realidade em texto. A dimensão artesanal se encontra no cerne do trabalho científico e nos remete à originalidade e à criatividade, características utilizadas por Ortiz ao alinhavar sua trajetória de distintos trajetos sistematizando-a e aproximando-a de outras trajetórias em uma verdadeira atividade de costura. Aliás, a sequência definida pelo autor e os títulos dos capítulos nos orientam (do "Pentimento e memória" ao "As costureiras e o ofício intelectual") e passamos então a observar que o objeto do livro é, em última instância, a reflexão sociológica:

O ofício intelectual pode ser comparado a um tipo específico de afazer doméstico: a costura. Costurar requer uma habilidade e um certo saber. É somente com a prática, acumulada ao longo dos anos, que se chega a compor satisfatoriamente uma roupa, uma toalha, um adorno. Labor artesanal no qual se revela a individualidade e a experiência de quem o executa. [...] Nesse sentido, a expressão "costurar ideias" exprime algo intrínseco à sua natureza. Diz-se: um texto está "desalinhavado", sugerindo, analogamente às vestimentas, que estaria mal ajustado, inacabado. [...] Quando uso cortar e colar, partindo um pedaço de meu texto para inseri-lo numa outra posição, retomo as operações de corte e costura. Com uma vantagem, posso desmanchar o tecido inúmeras vezes, rearranjando-o segundo minhas inclinações teóricas ou estéticas. Os cientistas sociais, preocupados com a construção do objeto sociológico, às vezes se esquecem de que o pensamento se realiza no texto. Ele é o suporte e a concretização do recorte conceitual. [...] Um texto se elabora com um emaranhado de fios. Fruto de leituras anteriores e da pesquisa. A escrita é o resultado da conjunção entre a agulha, os fios e o pano, a problemática teórica e os dados (idem: 183-187).

É como a marca da mão do oleiro estampada na argila. Do mesmo modo que o ofício intelectual pode ser comparado à atividade de costura, também visualizamos essa atividade na montagem de fios e cores dos trajetos e memórias publicadas. Não sem motivos, Ortiz optou pela terminologia "trajetória intelectual" ao intitular seu memorial e, em sua edição, pela adoção do termo "trajeto", atento às armadilhas impostas pela ilusão biográfica suscitadas por Bourdieu (2007). Nesses termos, os acontecimentos biográficos seriam alocações e deslocamentos no espaço social e a compreensão da trajetória ou envelhecimento social do agente se visualiza conjuntamente com a reconstrução dos estados sucessivos do campo em que ela se esboçou. Assim, a partir dos diferentes trajetos que compõem a trajetória de Ortiz, é possível compreender o conjunto das relações que o vincularam e vinculam ao espaço social e, consequentemente, ao conjunto dos demais agentes envolvidos nesse espaço.

Ortiz inicia o livro com uma discussão sobre memória inspirada em Bergson e a noção de habitus conforme a interpretação bourdieusiana. Antes de rever alguns trajetos considerados representativos na formação de sua história de vida profissional, realiza uma análise dos requisitos de um memorial para obtenção do título de livre-docente. Inaugura o texto chamando a atenção para que os fatos ali descritos, embora contenham a arbitrariedade no seu rearranjo, são marcados pela necessidade de ser, ao mesmo tempo, representação e verdade. Isso porque a escrita seguiu critérios predeterminados pelo campo científico, ou seja, os fatos ali indicados deveriam ser comprovados por meio de documentos. Fator que abre espaço para as confissões, mas que impõe limite às ficcionalizações. Transforma-se em uma espécie de diário de bordo onde é possível acompanharmos os deslocamentos, os momentos de não conformação com as posições, os desconfortos, as encruzilhadas e a improvisação de novas rotas durante a viagem; aquilo que o autor define como um memorial-memória, um misto de paixão e técnica, afeto e rigor: uma ironia apaixonada.

A criatividade sociológica alimenta-se de uma situação ambivalente: o rigor científico e um vínculo visceral com a contemporaneidade. Por isso a categoria de intelectual orgânico é inadequada para circunscrever o artesanato acadêmico. Dos Quaderni del carceri prefiro a passagem na qual Gramsci nos fala da atividade intelectual como uma "ironia apaixonada". A ironia distancia-me da realidade imediata, permitindo-me transcendê-la; a paixão recoloca-me no mundo (ibidem: 174).

O livro de Ortiz seduz o leitor por ser, ele próprio, fruto dessa tensão entre pensar e estar no mundo. Torna-se um convite para reforçar ou conhecer mais de perto os elementos responsáveis pela formação de disposições de origem, inclinações intelectuais, contatos com intelectuais reconhecidos no campo sociológico mundial e nacional, confluências teórico-metodológicas, tomadas de posição políticas, motivações de seu projeto criador. Sua ascendência familiar, sua formação na Escola Politécnica, seus acidentados itinerários, o imbricamento de seu passado interiorano nas malhas da capital paulista, as crises existenciais, o redimensionamento de sua rota profissional estimulado pelo turbilhão de experimentos da aproximação cultura e política na década de 1960, a decisão de se tornar um artesão/engenheiro de ideias.

Ao longo do texto, deparamo-nos com uma memória topográfica reconstituindo as províncias de significados que a geografia dos diferentes lugares propiciou em sua vida, articulando-a com o espaço das ideias neles reinantes. Desse modo, denota as marcas que a vivência na capital paulista imprimiu em seu corpo e em seu futuro corpus, a sua opção pelas ciências sociais em um momento em que as portas das universidades brasileiras se fechavam e suas motivações para estudar na França. Como uma colcha de retalhos, ainda inacabada, o autor tece os pedaços de suas experiências procurando instituir uma autoanálise a partir de uma apresentação cronológica.

Ao costurar seus trajetos, borda com cores fortes o clima intelectual e os impactos de períodos como a ditadura militar brasileira e maio de 1968, os ambientes das diferentes instituições de ensino e pesquisa nos quais se vinculou, seu contato com Foucault, Lyotard, Guattarri e Deleuze, as opções teóricas, temáticas e didáticas. Suas interações com Barthes, a experiência de ser orientado por Edgar Morin e Roger Bastide. Entremeia impressões sobre as tendências privilegiadas nas trajetórias desses interlocutores e, especialmente, tenta encontrar o fio de Ariadne para a condução dos leitores pelos labirintos de sua memória, destacando prováveis motivações para a escolha de seus problemas investigativos e o seu contato com a sociologia brasileira pelas mãos de Roger Bastide. Um estrangeiro sendo orientado por outro sotaque que, por sua vez, havia vivenciado e pesquisado as relações sociais das terras do orientando.

A cada página, acompanhamos um traçado forte das heranças intelectuais de uma tradição francesa que interligava os fios em uma trama sócio-antropológica, o encontro com temáticas determinantes em seu projeto intelectual, o retorno ao Brasil, seu contato com Florestan Fernandes, a divulgação da sociologia de Bourdieu, sua aproximação com a política, as impressões a respeito das ciências sociais brasileiras, sua institucionalização, o fortalecimento das associações docentes e o desenvolvimento dos programas de pós-graduação, finalizando com a internacionalização das ciências sociais.

Renato tornou-se um privilegiado observador-participante desse processo e continua um hábil artesão da memória desse campo em constante transformação. Seus relatos revelam muito mais do que vicissitudes biográficas, comprovam investimentos pessoais e institucionais em torno de sua trajetória profissional, relações de poder de natureza diversa e o modo como o tempo profissional e o tempo pessoal se entrelaçam, nesse caso, para direcionar possíveis leituras sobre histórias intelectuais e da disciplina.

O texto - mistura de história de vida, obra e reflexão crítica - reconstrói a história do campo intelectual de um período significativo em que se processaram algumas das linhas mestras e meios para a delimitação do campo epistemológico da sociologia, especialmente na França e no Brasil. A proposta não consistiu em explicitar outras fontes garantidoras da veracidade do relato, como biografias, trechos de entrevistas ou de outros documentos, referências bibliográficas etc.

Ao beiradear aspectos de nossa tradição ensaística, fugir ao máximo dos esquemas comumente acordados em nosso meio, a história recontada a partir das disposições mnemônicas de Ortiz torna-se um convite para que mobilizemos trunfos com vistas à compreensão de nossa tradição intelectual, ao desenvolvimento de nosso artesanato e à instituição de passarelas com aqueles que também abraçam a sociologia como ofício. Modelando essa arte, apresentou-nos uma ressalva:

Este é o texto que apresento ao leitor. Ele fala não apenas de um indivíduo específico, o autor, mas do artesanato intelectual, seu encantamento e as armadilhas que o cercam (ibidem: 5).

Resta a todos nós, leitores, iniciarmos nosso artesanato e aguardar a costura dos próximos capítulos das muitas memórias que Renato Ortiz ainda tem para nos oferecer.

 

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