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Sociedade e Estado

versão impressa ISSN 0102-6992

Soc. estado. vol.29 no.1 Brasília jan./abr. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69922014000100001 

Editorial

 

 

Lourdes Bandeira; Sergio B. F. Tavolaro; Tânia Mara C. Almeida

 

 

Este número de Sociedade e Estado, o primeiro de 2014, reúne um conjunto de artigos sugestivo do compromisso histórico da revista com reflexões de ponta sobre temas e questões caras às ciências sociais. Inicialmente, apresentamos ao público leitor o dossiê "Desafios da consolidação democrática da América Latina", sob a coordenação de Débora Messenberg (SOL/UnB), Flávia Lessa Barros (Ceppac/UnB) e Júlio Roberto de Souza Pinto (Interlegis). Fruto do III Seminário Internacional de Estudos Legislativos, realizado entre 11 e 13 de junho de 2013, em Brasília-DF, o dossiê traz contribuições de renomados intelectuais nacionais e estrangeiros que se debruçaram sobre alguns dos principais desafios e questões que colorem a cena política latino-americana de hoje. Em "Democracia liberal, camino de la autoridad humana y transición al bien vivir", o prestigiado intelectual argentino Walter Mignolo (Duke University) estabelece uma distinção entre a democracia como meio e como fim, com o propósito de indicar a existência de outros caminhos, além do modelo democrático-liberal, em direção ao ideal de uma vida plena, justa e harmoniosa. Segundo o autor, o momento presente vem testemunhando a emergência de uma sociedade política global, acompanhada de avanços no sentido da politização da sociedade civil em todo o planeta. Em seguida, o artigo "La nueva gramática democrática frente a la integración autónoma latinoamericana y caribeña", de Jaime Preciado (Universidade de Guadalajara) oferece uma consideração crítica do modelo de democratização liberal e de mercado que prevaleceu na América Latina em décadas recentes. Ademais, o autor sublinha a existência de novos projetos políticos sob a liderança de movimentos sociais, apontando para o que chama de "gramática democrática de resistência", em meio a qual ganham expressão agendas sociais vinculadas à integração latino-americana.

O dossiê traz, ainda, três artigos de autoria de insignes intelectuais brasileiros: em "Pluralidade da representação na América Latina", Maria da Glória Gohn (Unicamp) investiga "formas de ações coletivas civis organizadas em movimentos sociais ou redes sociais que participam de programas e projetos sociais institucionalizados na América Latina, com destaque para o caso brasileiro na última década". As questões que orientam suas reflexões são: quais os atores sociais responsáveis por tais ações associativas? Que demandas e públicos almejam representar? Quais os impactos políticos e sociais dessas ações? Na sequência, Marco Aurélio Nogueira (Unesp), no trabalho "Representação, crise e mal-estar institucional", aborda o problema da crise de representação do Estado contemporâneo, vinculando-a à emergência de uma nova configuração econômica, à qual parece estar vinculado um também inédito padrão de sociabilidade. No entendimento de Marco Aurélio Nogueira, esse novo quadro tem colocado em xeque modalidades de representação por muito tempo sedimentadas em nossa estrutura política. Por fim, fechando o dossiê, "Da democracia participativa à pluralidade da representação: breves notas sobre a odisseia do PT na política e na ciên­cia política brasileira", assinado por Bruno Reis (UFMG), sustenta que muito "embora tivesse partido de uma contestação da 'democracia representativa', o PT terminou por patrocinar o mais vasto experimento de multiplicação de formas e instâncias de representação em curso no Brasil contemporâneo, frequentemente sob a rubrica de um ideal 'participativo' ". Segundo o autor, esse movimento tem a ver com o "compromisso político do partido com certos setores até então periféricos da população".

O presente número de Sociedade e Estado compreende outros seis artigos que tratam de temáticas variadas. O trabalho de autoria de Gurminder Bhambra (War­wick University) contempla uma agenda de pesquisa importante na teoria social contemporânea. Publicado originalmente em Political Power and Social Theory, o artigo "As possibilidades quanto à sociologia global: uma perspectiva pós-colonial" investiga como "as percepções sobre a natureza globalizada do mundo em que vivemos estão começando a ter um impacto dentro da sociologia, de tal forma que esta precisa interagir não apenas com as mudanças na arquitetura conceitual da globalização, como também com o reconhecimento do valor epistemológico e da agência do mundo além do Ocidente". Nesse esforço de reflexão teórica, Bhambra lança-se sobre três abordagens que ganharam forte expressão recentemente: a perspectiva das modernidades múltiplas, a abordagem da sociologia global multicultural e, por fim, o que designa de abordagem global cosmopolita.

Em "Repressão, autonomia e responsividade: o direito que se exerce nas delegacias de polícia no Brasil", Ludmila Lopes Ribeiro (UFMG) e Igor Suzano Machado (Iesp/Uerj) abordam as relações entre sociedade e Estado considerando algumas transformações observadas na polícia civil em três estados brasileiros - São Paulo, Pernambuco e Rio de Janeiro. Os autores revelam que, apesar da manutenção de certo padrão repressivo de atuação, a polícia tem igualmente se mostrado mais permeável a algumas das preocupações da população atendida.

O artigo "Hermenêutica-fenomenológica e compreensão nas ciências sociais", de Paulo César Alves (UFBA), Míriam Cristina Rabelo (UFBA) e Iara Maria Souza (UFBA), realiza uma análise dos pressupostos da ideia de compreensão que informam as teo­rias sociais. Na avaliação dos autores, "compreender significa, em última instância, empreender um diálogo com o 'outro', através de uma mediação histórica - e, portanto, mutável - presente no encontro entre horizontes distintos".

Na sequência, Rodrigo Dias da Silva (UFFS), em "As políticas culturais brasileiras na contemporaneidade: mudanças institucionais e modelos de agenciamento", investiga uma série de transformações institucionais observadas no âmbito das políticas culturais brasileiras com o objetivo de deslindar as novas modalidades de agenciamento cultural e de ação política que ganharam corpo na atualidade. Com esse propósito prioritário, atenção especial é devotada à implementação de políticas culturais nas cidades de Gramado (RS) e São Luiz do Paraitinga (SP).

O tema do trabalho é central no artigo "Engajamento subjetivo e organização flexível do trabalho: o caso dos trabalhadores da indústria do alumínio primário paraense", de Attila M. Barbosa (Unipel). Segundo o autor, "as mudanças organizacionais deflagradas pelo sistema Total Quality Control (TQC), no início dos anos 1990, introduziu um conjunto de práticas gerenciais que exercem forte influência sobre a subjetividade do trabalhador devido à implantação de um ideário organizacional que se estende para além do ambiente de trabalho. Este quadro atua no sentido de promover o 'engajamento subjetivo' dos trabalhadores à organização flexível do trabalho".

No último artigo deste número de Sociedade e Estado, Andrey Cordeiro Ferreira (CPDA/UFRRJ) volta-se para algumas das preocupações já abordadas no dossiê deste númeno. "Colonialismo, capitalismo e segmentaridade: nacionalismo e internacionalismo na teoria e política anticolonial e pós-colonial" retoma considerações teóricas e epistemológicas características aos estudos descoloniais, bem como à produção da chamada condição pós-colonial, com o objetivo de propor instrumentos que capacitem à sociologia a análise adequada do colonialismo e da situação pós-colonial.

Por fim, este número da revista traz uma resenha do livro Statistics, public debate and the State, 1800-1945: a social, political and intellectual history of numbers (de ­Jean-Guy Prévost e Jean-Pierre Beaud), elaborada por Alexandre Rio Camargo, além de informações sobre as teses defendidas no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de Brasileira, no segundo semestre de 2013.

Gostaríamos de registrar o inestimável apoio que Sociedade e Estado tem recebido do Departamento de Sociologia, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Brasília. Aproveitamos, também, para agradecer o auxílio de nossas/os pareceristas na avaliação dos artigos, uma etapa fundamental para a manutenção da qualidade de nossa revista.

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