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Sociedade e Estado

versão impressa ISSN 0102-6992

Soc. estado. vol.29 no.3 Brasília set./dez. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69922014000300006 

DOSSIÊ
ESTUDOS DA PERFORMANCE

 

"Me curei e hoje tô aqui sentadita contando a história." Narrativa, performance e constituição da pessoa na fronteira entre Brasil, Argentina e Uruguai*

 

 

Luciana Hartmann

PPG-Arte/UnB. <luhartm@yahoo.com.br>

 

 


RESUMO

Neste artigo, trato da constituição do sujeito-narrador na região da fronteira entre Argentina, Brasil e Uruguai, onde venho realizando pesquisa etnográfica desde 1997. Inicialmente, dedico-me à análise do papel que as performances narrativas ocupam na construção da subjetividade, partindo da constatação de que grande parte dos eventos narrados pelos contadores de "causos" da região são relativos a ocasiões de ruptura ou quebra da normalidade cotidiana. Neste sentido, a noção de "conflito" é adotada aqui como elemento-chave para refletir sobre as trajetórias de vida destes narradores. Num segundo momento, faço um levantamento da presença de situações de conflito, sob diferentes contextos, nas narrativas pessoais dos contadores. Considero, finalmente, a importância das performances narrativas na organização da experiência de tornar-se pessoa nesta zona de fronteira.

Palavras-chave: contadores de histórias; performances narrativas; fronteira; conflito.


ABSTRACT

In this article I discuss the subjectivity of the storytellers from the Argentina, Brazil and Uruguay border , where I do ethnographic research since 1997. Initially I dedicate to analyzing the role that narrative performances have in the construction of subjectivity, based on the observation that most of the storytellers narrated events are about rupture or breakage of everyday normality. In this sense, the "conflict" concept is adopted as a key element to reflect about the storytellers´s life trajectories. Secondly, I do a survey of the conflict situations, under different contexts, presents in the personal narratives of the storytellers. Finally, I consider the importance of narrative performances in organizing the experience of becoming a person in this border zone.

Keywords: storytellers; narrative performances; borderlines; conflict.


 

 

Na região da fronteira entre Argentina, Brasil e Uruguai1, as situações de conflito foram constantes ao longo da história e permanecem, em diferentes âmbitos, fazendo parte da vida desta população que vive "entre" um lado e outro dos limites políticos que separam os territórios dos três países. Esses conflitos povoam o imaginário da população local e são expressos através de narrativas que ligam as fronteiras através dos laços simbólicos por elas criados. Principais responsáveis pela circulação destas narrativas pela região, os viajantes – tropeiros, domadores, esquiladores, contrabandistas, parteiras... – organizam suas experiências pessoais de conflito ao mesmo tempo em que criam e transmitem modelos sociais de vivenciá-los (Burke, 1957). Ao se tornarem sujeitos-narradores, colaboram na união de uma comunidade que encontra nas narrativas orais um meio privilegiado de expressar-se.

Visto dessa maneira, compreender o processo de constituição da individualidade na fronteira é também poder compreender os mecanismos de geração e circulação de narrativas orais pela região. Se, por um lado, constituir-se como sujeito comporta a organização da própria experiência, por outro, e tão importante quanto, significa ser reconhecido por esta. São as características particulares da experiência de vida destes contadores, e sua habilidade em narrá-las, que fazem com que sejam legitimados perante sua comunidade narrativa2. Neste sentido, ao enfatizar a distinção entre eventos (coisas que acontecem) de experiências (coisas que acontecem para nós ou para os outros), Abrahams (1986) lembra que as noções sobre quem somos como indivíduos estão muitas vezes ligadas àquelas coisas "típicas" que (nos) aconteceram, especialmente quando esses acontecimentos tornam-se histórias que contamos a nós mesmos através de performances específicas.

Para introduzir a questão do desenvolvimento da subjetividade, remeto-me ao referencial teórico dos estudos da "noção de pessoa em antropologia", tomando como ponto de partida o clássico ensaio de Mauss, Uma categoria do espírito humano: a noção de pessoa, a noção do "Eu" (1974). Neste ensaio, Mauss lança mão de teorias explícitas de diversas culturas para demonstrar, a partir dos conceitos de personagem, persona e pessoa, as bases sobre as quais se constrói a concepção moderna de pessoa no Ocidente, defendendo que

jamais houve ser humano que não tenha tido o sentido, não apenas de seu corpo, como também de sua individualidade a um tempo espiritual e corporal (Mauss, 1974: 211).

Confiro relevância à abordagem da trajetória de individuação dos contadores da fronteira pois é a partir dela que são reconhecidos por sua comunidade e, consequentemente, por sua audiência. Junto com sua competência para dar vida ao repertório de anedotas, causos ou cuentos tradicionais (sobre "enterros de dinheiro", lobisomens, bruxas, luz mala, mulheres de branco, animais que falam etc.), os narradores devem dispor de histórias pessoais que lhes permitam articulá-las, direta ou indiretamente, com estas narrativas. Isso porque as experiências pessoais são um importante dispositivo para conferir credibilidade ao que está sendo contado: um lobisomem nunca é genérico, mas algo que o contador viu de perto ou sobre o qual ouviu diretamente uma história a respeito. Esta relação de interdependência entre as narrativas pessoais e as narrativas tradicionais é fundamental para a compreensão da oralidade na fronteira. É a análise das performances destas narrativas que permite o acesso a seus significados.

Para entender como se constituem as trajetórias de individuação destes contadores, procurei primeiramente nos eventos por eles narrados durante suas performances (ou seja, o conteúdo de suas narrativas) pistas que pudessem indicar os caminhos a percorrer. A imagem de "caminho" não aparece aqui à toa, já que se constituir como sujeito entre os contadores da fronteira significa participar de um processo contínuo que se constrói ao longo de um caminho/trajetória de vida que – por ser único – lhe confere singularidade. Apoio-me na ideia de "sujeito em movimento", desenvolvida por Maluf (1996), que me levou a refletir sobre a questão do movimento concreto e mensurável ocasionado pelas viagens realizadas pelos narradores (tropeadas, contrabandos, exílios, migrações etc.) e no que estas representam na constituição destes sujeitos. "Tomando as rédeas da própria vida", os narradores da fronteira vivenciam experiências que inscreverão em seus corpos e em sua memória uma história particular. É através desta história, baseada na superação de conflitos experimentados ao longo de suas vidas, que estes sujeitos passam a se distinguir da coletividade e tornam-se indivíduos.

Minha proposta neste artigo, portanto, é de reconstituir alguns destes caminhos, seguindo as pegadas deixadas pelos contadores em suas performances, para tentar visualizar os contornos da constituição dos sujeitos nesta comunidade narrativa.

A perspectiva de analisar as trajetórias dos contadores da fronteira em relação às suas experiências de conflito foi oriunda das reiteradas referências, feitas por eles próprios, a esse respeito3. Ainda que a palavra conflito raramente seja por eles utilizada (as designações locais são pelea, luta, problema) assumo-a como a categoria analítica que permite dar conta da série de situações conflitivas vividas pelos contadores ao longo de suas vidas. É importante ressaltar, no entanto, que o conflito é aqui pensado como algo que participa da vida social no seu cotidiano e não é considerado apenas como situação fora da normalidade (Briggs, 1996: 13).

Por outro lado, a propensão das relações sociais de fronteira para o conflito e a recorrência desta temática nas narrativas contadas na região levou-me à teoria dos "dramas sociais", de Victor Turner (1974; 1981). Turner define os dramas sociais como situações de "desordem" que se iniciam com uma ruptura/quebra da normalidade, seguida pelas fases de crise, reparação e reintegração. Quando os interesses dos grupos e/ou indivíduos que partilham valores e histórias comuns encontram-se em oposição, ocorre uma quebra no ritmo das relações cotidianas e o drama social consiste no processo de vivência e resolução deste conflito. Esta teoria é especialmente pertinente à abordagem aqui proposta porque, de acordo com Turner, há uma relação de reciprocidade entre os dramas sociais de um grupo e as suas performances culturais.

Embora nem todos os eventos narrativos possam ser caracterizados como "performances culturais" (as narrativas pessoais, contadas em situação de intimidade, certamente não o são), a teoria de Turner também prevê que os dramas sociais fornecem material para muitas histórias, dependendo da perspectiva sociocultural, política e psicológica dos narradores. Em relação aos eventos que serão "traduzidos" e transmitidos em forma de narrativa, Turner lembra:

[...] histórias são contadas tanto para entreter como para instruir ou interpretar, e algumas sequências de eventos são intrinsecamente mais divertidas ou interessantes que outras (Turner, 1992: 33)4.

Um olhar cuidadoso sobre estas escolhas pode ajudar a compreender um pouco melhor os valores da cultura que se está estudando. Nesta região de fronteira, há um repertório de narrativas tradicionais que envolvem assombrações, guerras, proezas de gaúchos, enterros de dinheiro, e revelam uma tendência da população a privilegiar as narrativas destas experiências. Estas narrativas, em geral, são performatizadas em eventos públicos – "rodas de causos" – nas quais os contadores se distinguem da audiência por suas habilidades retóricas, gestuais e vocais. Nas narrativas pessoais, os motivos lembrados são, de certa forma, correlacionados aos temas destes "causos", sobretudo aqueles que tratam da vivência e superação de conflitos, como a ruptura com a família, o encontro com uma assombração, uma pelea ou uma situação de doença. A opção por uma ou outra temática, entretanto, também deve ser pensada em relação à audiência presente, ao contexto de narração (público ou privado) e às características pessoais do contador (borracho, idoso, mulher...)5.

No âmbito desta "dinâmica da vida social", dramas sociais geram narrativas que, por sua vez, fornecem modelos para a vivência de novos dramas: "a vida, no fim das contas, é muito mais uma imitação da arte do que o contrário" (Turner, 1982: 72)6.

Langdon, ao analisar o conceito de drama social desenvolvido por Turner, chega ao enfoque performático sobre o qual o autor posteriormente se debruçará. Para ela, Turner considera a vida social como um processo dinâmico

composto de sequências de dramas sociais, que são o resultado de uma contínua tensão entre conflito e harmonia. A vida é como um drama, cheio de situações desarmônicas ou de crises cujas resoluções desafiam os atores. São as brigas, as discussões, as doenças, os ritos de passagem etc., que tomam formas dramáticas e os atores tentam demonstrar o que têm feito, o que estão fazendo e também tentam impor suas soluções ou ideias aos outros (Langdon, 1996: 3-4).

Turner aponta para duas alternativas de resolução destas situações desarmônicas: uma reacomodação à situação antiga ou uma ruptura definitiva, que pode significar, como vamos perceber em algumas narrativas da região, a eliminação de uma das partes. Segundo Maluf (1989: 62), é importante ter em mente que a relação entre uma fase e outra do drama social vai além da mera sucessão de fatos, pressupondo uma transformação ou mudança de estado dos atores.

Nas narrativas pessoais da fronteira é comum a ênfase dos contadores num "drama", resultante de uma situação de conflito, no qual o corpo é frequentemente atingido. É no corpo que estarão as marcas mais visíveis dessa mudança de estado sugerida por Maluf. Enquanto narram e mostram a si mesmos, os contadores promovem, com isso, uma reflexão coletiva sobre estes processos de crise e de transformação7.

Embora os escritos de Turner e a noção de drama inspirem minha análise, priorizo o termo conflito pois, como drama, propicia, de certa forma, a moldura para pensar situações de desordem social, de conflito, sob a perspectiva proposta por Briggs, o que permite refletir sobre a presença deste atritos, embates, problemas, destas peleas também na vida cotidiana.

Quero lembrar que as sociedades fronteiriças dos três países em questão se constituíram, ao longo de sua história, a partir de conflitos onde eram disputados desde a posse de bens materiais, como terras ou gado, até a conquista de ideais mais abstratos (e culturalmente variáveis) como independência, liberdade ou autonomia. A frequência destes conflitos fez com que passassem a ser encarados, como veremos adiante, com certa naturalidade pela população. Esse aspecto se reflete também na esfera das relações pessoais, fazendo com que diversas formas de conflito participem, até hoje, do cotidiano dos habitantes da fronteira. Os conflitos e sua resolução muitas vezes violenta deram origem a um ethos8 que permeia os mais diversos níveis da vida local. Neste trabalho parto da premissa de que este ethos vai se manifestar de forma mais enfática e pode ser melhor analisado se olharmos através da lente de aumento proporcionada pelas performances narrativas de contadores de causos.

Ao organizarem suas experiências de conflito através de narrativas pessoais, os contadores criam para a audiência modelos de e modelos para (Geertz, 1989) pensar estes conflitos e, por sua vez, vivê-los. Ao manifestarem esses conflitos de maneira realçada, as performances narrativas, realizadas por narradores legitimados, organizam, transmitem e recriam permanentemente a experiência dos sujeitos – e a experiência de tornar-se sujeito – nesta sociedade de fronteira. Devo salientar, entretanto, que considero a performance aqui não apenas no sentido estético, mas, em concordância com Bauman (1977), como algo que permite colocar a experiência do sujeito em relevo, daí sua importância para a compreensão do processo social.

A configuração de cada trajetória pessoal, ao mesmo tempo em que aporta ao indivíduo diferenciais em relação ao grupo, participa de um esquema mais geral de organização da sociedade e do que esta requer de seus sujeitos, estabelecendo-se dessa forma também como roteiro que prescreve etapas comuns que devem ser percorridas. Na fronteira pude perceber a recorrência – especialmente em se tratando de histórias de vida – de alguns momentos-chave onde o contador ou contadora se afastava de seu meio, de sua terra ou de sua família, pelos mais diversos motivos, e a partir desse afastamento iniciava seu itinerário na construção de um sujeito baseado num "projeto" de autonomia (Velho, 1994)9. Vejamos abaixo algumas falas dos contadores a respeito desses momentos de ruptura:

Dona Iracema — Eu, minha amiga, eu não conheci mãe. Ai, eu não gosto de falar em mãe. Te digo, eu tenho um sentimento profundo. Eu, quando a minha mãe faleceu, eu tinha dois meses. Quando ela faleceu eu fiquei chupando nos peito dela, quando encontraram, encontraram ela morta, viste? Não conheci mãe. Ai, eu lamento, lamento... Ai, o amor de mãe é tudo no mundo!

Eu — Sim... E aí a senhora foi criada com a sua madrasta? Como é que foi?

DI — Não, eu vou te dizer, eu fui criada... Despôs, a muito tempo, foi que o meu pai agarrou uma morena, se casou, eu não queria que ele se casasse com ela...

Eu — A senhora já era grandinha...

DI — Sim, eu já tinha onze anos. E fui pra casa dos meus ermão... ali não me dava bem... fui pra casa de uma tia... e despôs voltei pra casa do meu pai, pero era ela lá e eu aqui. Não me dava com ela...

Enquanto Dona Iracema, de 77 anos (Rivera/UY), órfã de mãe, afasta-se de casa ainda criança por sentir-se descontente com o novo casamento do pai, Don Francia, de 86 anos (Paso de Los Libres/AR), parte, também bastante jovem, em busca de trabalho, a princípio para ajudar a mãe e logo depois para realizar um desejo próprio (um projeto de vida). O conflito e a consequente ruptura ocorrida, neste caso, é positivada pelo contador:

Yo me empleé... en la edad de doce años me empleé con un encargado aquí de la fábrica, porque aquí en la fábrica habían encargados a parte. Los encargados para las quintas, para las viñas... Y un encargado de esos me empleó. Me pagó ocho pesos por mes! Yo tenia doce años en ese tiempo. [Na sequência, ele conta que um vizinho o convidou para trabalhar em outra estância, por treze pesos] Y yo le dice a mi mamá: "Mira que yo cambié de patrón, mamá. Porque me gustó, esos cinco pesos a más nos vienen bien". Lo que pasa es que ahí me levantaba temprano. Ihhh... Helada... [geada] Yo pasaba por bañados, la agua por aquí [aponta para a cintura] a veces cuando el arroyo tava crecido, andaba a pie, atravesando potreros ahí. [...] Y anduvo, anduvo, anduvo... Y un compadre vino una noche y dijo: "Pedí por vos para emplearte, que te quieren emplear". [...] Y yo dice que sí, quedaba la con el, y me fue. Y me preguntó cuanto ganaba, y me dice: "Nosotros pagamos sólo doce". Y yo le dice que estaba bien, porque no había ni comparación del trabajo. Porque ahí nos levantábamos cuando mucho, madrugada, nos levantábamos a las tres. Pero cuando madrugábamos mucho. Pero allá era a la una de la madrugada. Fui sin avisarle a mi mamá. [...] Cuando me fui allá fui de ayudante de quintero, pero eso era lo que a mi no me gustaba, yo lo que quería era trabajar en el campo, trabajar a caballo. A los poquitos días me sacaran para salir en el campo y a trabajar con la gente de campo. Así que toda esa suerte tuve gracias a Dios.

Alejandro, de 32 anos (Rivera/UY), conta a trajetória de seu pai, Pico, de 63 anos, marcada também pelo rompimento com a família, devido a desentendimentos com o avô:

Historias interesantes son de troperos. Mi padre fue tropero. Mi padre recorrió el país arriba de un caballo. Fue desaparecido y mandado buscar por los policía. Porque, claro, bueno... el tema de mi padre es que mi padre nunca se dio bien con mi abuelo, entonces mi padre con veinte años se agarró un caballo y se puso a tropear. Y se fue. Y pasaba meses por ahí. Y él contaba que mi abuelo lo mandaba buscar. Una época hubo una barra por acá que salió acampando en cuanta estancia havia. [...] Dice mi padre que un día lo atacaran los milicos [perguntando sobre ele mesmo, sem saber]: "No viste el muchacho Ripoll, de Rivera?" Y él: "Lo vi pasando y tal y tal..". Y así se fue. Así pasaran varios meses.

Esses relatos também apontam, além do processo de afastamento dos contadores, quando jovens, do núcleo familiar, para outros elementos que compõem o ethos dos sujeitos fronteiriços, como a alternância e a manipulação de distintos códigos linguísticos ("Pero era ela lá e eu aqui"), a valorização das histórias de viajantes ("Historias interesantes son de troperos"), a busca por autonomia ("Fui si avisar mi mamá"), a importância do cavalo como companheiro e como instrumento de trabalho ("Yo lo que queria era trabajar a caballo"), a astúcia e o orgulho ao enganar a polícia (Pico) etc.

Em geral, personagem principal da própria história, a pessoa do contador parece se constituir a partir de eventos emblemáticos ocorridos ao longo de sua vida, de eventos que lhe dá singularidade especialmente porque ocorrem fora do grupo de origem.

Ao analisar sociedades africanas tradicionais, Bastide (1973) conclui que o que constitui o princípio de individuação nestas sociedades está ligado à ordem pela qual os eventos (universais) se realizam para uma pessoa e que esta, encontrando significados particulares para estes eventos, estabelece uma biografia própria. Para o autor, no entanto, há uma ambiguidade intrínseca à questão: o princípio de individuação advém de uma sequência cronologicamente ordenada de eventos que acontecem a um indivíduo ou, ao contrário, o indivíduo é anterior aos eventos e por este motivo pode particularizá-los?

Apesar de ver a questão como epistemologicamente importante, creio que não seja necessário adotar uma postura extrema, já que é bem provável que ambas as perspectivas andem conjugadas e que, se a discussão fosse levada adiante, acabaria chegando a um daqueles limites ontológicos da disciplina, da determinação precisa dos conceitos de cultura e de natureza.

Velho (1994: 100) aponta a noção de biografia como fundamental nas sociedades "onde a ideologia individualista predomina", pois nestas a trajetória do indivíduo é considerada mesmo como elemento constituidor da sociedade. O autor vai enfatizar ainda a importância da memória neste processo (aspecto que, no caso dos contadores de causos, é pré-requisito indispensável para a constituição e o reconhecimento do seu ofício). Mas na região aqui enfocada pode-se falar em ideologia predominantemente individualista? Certamente não. Talvez seja o caso de considerar, ainda segundo Velho (1997: 16), que esta, como um exemplo de sociedade complexa, permita a coexistência de uma pluralidade de tradições, onde ambas as ideologias (holista e individualista, no sentido dumontiano10) alternam-se, ocupando espaços diferenciados.

Uma das principais marcas de individuação construída pelo contador ao longo de sua trajetória biográfica é o nome. O reconhecimento do contador como sujeito dá direito a um nome, que não necessariamente é o mesmo que o de batismo, e acaba se dando sempre no retorno à sua rede de relações original – sua comunidade narrativa – ou na formação de uma nova rede, pois o sujeito só se constitui como tal quando compartilha o significado desta noção dentro da própria cultura.

Nome ou apelido, o fato é que através das performances narrativas estas formas de designação pessoal vão se preenchendo de significados. Ao se falar em Gaúcho Pampa, por exemplo (nome pelo qual é conhecido o Sr. Florêncio Silva, de Santana do Livramento/BR), toda a comunidade à qual este contador pertence já reconhece um estilo narrativo (lento, pausado, com as sentenças finalizadas pela expressão "É verdaaaadeee..".), uma determinada performance (ele só narra quando já está borracho) e o teor das histórias que serão contadas (sua participação na Revolução de 23, suas façanhas no trabalho como esquilador, tropeiro etc.).

Sobre a importância do nome no processo de individualização, Velho comenta (1997: 26):

A manipulação do nome, o nome "artístico", a supressão de sobrenomes, os apelidos etc. são formas de enfatizar ou marcar a individualidade, de sublinhar a particularidade11.

Outros nomes "artísticos" circulam pela fronteira, aos quais são associados um perfil específico de contador: Tio Flor, Gaúcho Barreto e Lenço Branco (de Santana do Livramento/BR), Pico (de Rivera/UY), Cai Maidana e Côco Rodriguez (de Paso de Los Libres/AR), Dona Cota (de Cerro Pelado/UY), Seu Méco (de Paso Hospital/UY), Dona Cilda (de Cerrillada/UY), Cambá Lacour (de Mecedes/AR), entre outros.

Outro aspecto que deve ainda ser abordado para viabilizar a compreensão da importância das narrativas de conflito na região é a forte distinção hierárquica das sociedades locais e as disputas pelo poder decorrentes. Estas sociedades fronteiriças, cuja zona rural tem uma economia calcada em latifúndios baseados na criação extensiva de gado ou na monocultura de arroz (e mais contemporaneamente, na forestación de pinus e eucalipto), caracterizam-se por relações de trabalho – e, consequentemente, relações sociais num sentido mais amplo – marcadamente hierárquicas. Nelas, a busca por estabelecer-se e por sobressair-se como indivíduo está também fortemente relacionada com o ethos de conflito que vigora na região. Ao cultivar marcas pessoais, em muitos casos oriundas de brigas – peleas –, o indivíduo encontra uma forma de distinguir-se da coletividade. No caso dos contadores, a capacidade de expressar seu processo de individuação através de diferenciais de sua história de vida ocupa um papel fundamental na configuração de seu espaço de reconhecimento e atuação na comunidade narrativa.

Ao buscar uma análise do contexto de narração, pode-se pensar que algumas possibilidades de transgressão dessa hierarquia podem ocorrer também nos próprios eventos nos quais as narrativas estão inseridas. Nestes momentos, que são caracterizados basicamente como de lazer e entretenimento, um mesmo espaço e tempo podem ser partilhados por sujeitos pertencentes aos diversos níveis da organização hierárquica. É o que ocorre, por exemplo, quando narrativas são contadas nos galpões de estância, onde, em muitos casos, patrões e empregados reúnem-se para tomar chimarrão. Também em armazéns, rodeios e festas é comum encontrar sujeitos pertencentes às diferentes esferas da sociedade compartilhando narrativas. Entretanto, não se pode desconsiderar que as relações de poder continuam aí presentes, demarcadas por sinais corporais e materiais bem claros, como as diferentes posturas, diferentes roupas ou mesmo o uso de cuias e bombas particulares. Mas enquanto este poder diz respeito a fatores econômicos, outras formas de poder simbólico também vão se manifestar. E é exatamente neste sentido que os eventos narrativos vão aparecer como uma alternativa para o jogo hierárquico: aqui é o poder da palavra, o poder da performance, o poder de adquirir legitimidade e reconhecimento perante à audiência que comanda o jogo.

O poder do contador, sua autoridade frente à audiência, é uma questão que vem despertando interesse, já há algum tempo, dos pesquisadores da etnografia da fala, como Hymes (1975) e Bauman e Briggs (1990). A performance, para Hymes, consiste num comportamento cultural através do qual uma pessoa assume a responsabilidade de contar, demonstrando competência comunicativa diante de uma audiência. O contador assumiria, desta forma, a autoridade da narração. Para que possa exercer esta autoridade, no entanto, é necessário que o contador, de acordo com Bauman e Briggs, tenha acesso às narrativas, possua legitimidade perante a audiência, demonstre competência comunicativa e reconheça os valores que possibilitam narrar as histórias no contexto adequado.

A presença destes pressupostos, que garantem a autoridade do contador frente à audiência, pode ser verificada nas performances de narrativas pessoais de contadores da fronteira. Neste caso, o acesso diz respeito à sua própria experiência de vida (ter vivido ou ouvido contar o fato/história); a legitimidade obedece a atribuições locais: idade avançada, experiência de vida marcante etc.; a competência envolve a habilidade do narrador em contar suas histórias (realçando aquelas realizações que lhe conferem legitimidade); o reconhecimento dos valores locais relaciona-se à capacidade do contador de combinar suas histórias pessoais com histórias tradicionais ou de contar estas histórias pessoais a partir dos modelos oferecidos pelos causos/cuentos, e de acordo com a audiência presente.

Vejamos um exemplo neste sentido: Seu Santos Reis, contador de Uruguaiana/BR, foi-me indicado por seu sobrinho, um jovem empresário local. Sua legitimidade como contador – motivo da indicação – provém não apenas de sua experiência de vida, determinada pela idade (66 anos), mas de sua competência comunicativa.

Suas narrativas são centradas nos feitos do pai, não apenas por ele presenciados, mas sobretudo aqueles que o próprio pai lhe contava. Inicialmente, as narrativas de Seu Santos remetem à vida campeira12 ("ele falava que aprendeu desde jovem a conhecer o animal, ser amigo do animal, aprendeu todo o trabalho de campo, que era obrigação do peão saber"), à união com a mãe ("aí ele foi trabalhar pra Barra do Quaraí e conheceu a minha mãe. Aí ele roubou (sic) a minha mãe"), à ida para a guerra ("meu pai chegou a ir e chegou a lutar... porque, como ele tinha uma família grande, chegou a ter época de lutar com os irmãos") e finalmente a sua participação na construção da ponte ("o meu pai trabalhou na ponte. Essa ponte foi muito rápida, porque eles pegaram uma época de seca").

Foi somente após vários dias de conversa que Seu Santos, oficial pedreiro, contou-me que o pai fazia contrabando de barco entre um país e outro e que chegou mesmo a ser preso por isso. Ao perceber que, ao contrário do que pensava, eu não o recriminava por esta atividade, ele passou a contá-la em detalhes, enaltecendo a sua importância para a população local:

... baixavam [o rio Uruguai] com a laranja, baixavam com a melancia, baixavam com o melão... Traziam a batata, traziam a mandioca, traziam a rapaduuuuura. Essa rapadura a coisa mais linda! Desciam de lá. Forneciam... O comércio era muito lindo.

Pensadas no contexto do evento narrativo, as relações de hierarquia que passam a vigorar têm, portanto, relação com o papel de autoridade exercido pelo contador. Ao assumir a responsabilidade pelos eventos narrados e, sendo devidamente legitimado pela audiência, o peão pode sobressair-se ao dono de estância, o borracho ao sóbrio escritor, o pedreiro ao dono de loja, o contrabandista ao homem da lei... Reembaralham-se as cartas e o jogo reinicia. É esta a ocasião dos indivíduos se manifestarem e explorarem novos roteiros para suas histórias pessoais.

Narrativas pessoais & trajetórias de conflito

Ao considerar que um grande repertório de conflitos está presente na própria conformação da cultura da fronteira, optei por considerá-lo do ponto de vista das performances de narrativas pessoais, das histórias de vida dos sujeitos-contadores com os quais estive em contato, colocando em segundo plano os aspectos históricos que dão conta do longo, e muitas vezes sangrento, processo que estabeleceu os limites de fronteira política entre os três países envolvidos nesta pesquisa. Os conflitos aqui abordados, portanto, são aqueles que tiveram especial pertinência nas trajetórias individuais dos contadores, participando na sua constituição como sujeitos.

Para viabilizar a análise desta questão, classifiquei as narrativas sobre conflito, extraídas do material etnográfico, em cinco grupos, de acordo com o tema abordado: 1. infância/adolescência; 2. casamento; 3. trabalho; 4. doenças; e 5. peleas (brigas).

Como se pode observar nas narrativas, a deflagração destes conflitos gera diferentes reações (já apontadas por Turner, como vimos, em sua teoria dos "dramas sociais"): em alguns casos, a ruptura com o sujeito ou o grupo antagonista, em outros casos, o enfrentamento, que não raro pode degenerar em violência. Em ambas as estratégias, o corpo e a memória dos contadores restam como depositários das marcas de superação dos conflitos e são utilizados como dispositivos de referência nas ocasiões de performance13. Neste momento, entretanto, será dada ênfase não aos "eventos narrativos" – situações de narração/performance –, mas aos "eventos narrados" – narrativas e discursos, no caso, sobre conflito.

Vejamos agora como diferentes experiências de conflito compõem as trajetórias dos narradores e como ganham forma e sentido através das narrativas. Lembremos, antes, alguns aspectos que caracterizam as fontes utilizadas: a maior parte dos relatos ouvidos/registrados durante a pesquisa provém de homens e mulheres idosos, cujas famílias possuíam poucos recursos financeiros, e que são ou foram habitantes da zona rural da fronteira dos três países envolvidos. Ao escutar suas narrativas, comecei a constatar similitudes em suas trajetórias – especialmente relacionadas a situações de conflito – a partir das quais depreendi os cinco tópicos de abordagem abaixo discriminados.

Conflitos na infância/juventude

Como já foi introduzido através de extratos de narrativas de Dona Iracema, Dona Marica e Pico, há grande recorrência, nos relatos de contadores locais, de conflitos vividos por eles quando ainda crianças ou jovens, com um membro da própria família. Para estes meninos e meninas os conflitos com o pai ou com a mãe e, muitas vezes, as dificuldades financeiras enfrentadas pela família, ocasionaram a fuga de casa ou a saída consentida em busca de trabalho. Enquanto os meninos em geral encontravam trabalho e acolhida nas estâncias, como ajudantes dos peões, as meninas eram encaminhadas para "casas de família", no campo ou na cidade, onde trabalhavam em atividades domésticas, embora essa função não seja explicitada. Em geral as mulheres referem-se às patroas como "madrinhas" ou "comadres", mulheres que possuíam melhores condições financeiras que as de suas próprias famílias e as "pegavam prá criar" e para "ajudar em casa", principalmente quando tinham filhos pequenos. Entre as mulheres, o casamento ainda na juventude também representava uma forma de solução dos conflitos com a família.

Sobre estas primeiras experiências de crise, conflito e ruptura vividos pelos contadores, vejamos alguns outros relatos.

Barreto, de 62 anos (Santana do Livramento/BR), conta:

[O meu pai] quando deixou da minha mãe eu tinha uns treze prá catorze anos. Foi quando eu me alcei pro mundo. Eu via aquela briga em casa, bateção de boca, eu já peguei e disse prá minha mãe: "Olha, eu vou me embora prá não fazer um atrito com o pai". Passavam batendo boca e deixa e não se deixa... "e as minhas irmãs pequenas tão precisando, eu vou procurar trabalho. [...] Eu não aguento mais ele, ele tá me judiando muito, e eu vejo ele judiar de ti, então vou me embora.

Neste caso, não houve acordo possível entre Barreto e seu pai e a solução do conflito ocorreu mediante o afastamento do jovem (Barreto vai trabalhar numa estância vizinha).

Don Martimiano, de 80 anos (Cerro Pelado/UY) também começa a trabalhar como peão bastante cedo, aos 12 anos, porque antes mesmo do pai – que nesse tempo era "milico" – acompanhar as tropas que iam para o sul do país combater um movimento revolucionário, ele já tá tinha que ajudar no sustento da família.

Trabalho passei... não muito trabalho, pero desde novo saí a trabalhar, desde a idade de 12 anos, trabalhando... pelas estância ansim de se criar.

Embora na trajetória de Don Martimiano o afastamento da família se dê em decorrência de um conflito externo – uma revolução na qual seu pai participara –, a solução do conflito também se dá através de uma ruptura e não de uma reacomodação das partes envolvidas.

Seu Romão, de 83 anos (Uruguaiana/BR), também ficou órfão ainda bebê. Ele conta que sua mãe de criação era "tão má, mas tão má" que, quando ele tinha dois ou três anos de idade, ela o espancava com um serrote. Enquanto descreve a cena, Seu Romão me surpreende baixando a cabeça e mostrando, através dos cabelos já ralos, as cicatrizes que restaram desta violência, comprovando a história que acabava de me relatar, tão dramaticamente gravada em seu corpo. Sendo tratado com tamanho grau de violência, desde muito cedo ele começou a fugir de casa e em sua juventude já possuía larga trajetória percorrida:

Vou lhe contar quando eu era gurizote, uns dezesseis anos. Então eu era de campanha, vivia por lá, porque eu sempre fui um andejo, de estância em estância... vivia domando e tudo me procurava prá... não parava em parte nenhuma, porque eu sempre andava domando aporreado [cavalo chucro], por isso tô todo arrebentado.

Já Seu Domingo, de 82 anos (Cerro Pelado/UY), relata outros motivos para sua saída precoce da casa paterna:

Nós era uma família muito grande né, nós era doze irmão. E despôs, sabe o que é, mataram ele [seu pai] e eu fiquei com 15 anos e um irmão mais velho que tinha 16. Bueno, entonce saímos, saímos a tropear. [...] Porque a minha mãe ficou com uma filha, ficou pesada de uma guria [estava grávida]. [...] Agora o meu pai, desgraciadamente, por chisme ou fosse como fosse, peleou com um cunhado e o cunhado matou ele. [...] Ele era muy violento e os cunhados, meus tios, também eram, eram homem brabo, e quando se toparam na calle [rua] se agarraram a pelear, se pegaram quatro balaço cada um e ele foi o que faleceu.

Apesar de atingido indiretamente, Seu Domingo também foi vítima da violência. Sua pequena narrativa, bem como os outros fragmentos de histórias de vida mencionados acima, apontam para as alternativas encontradas por crianças e jovens da região que, em determinado momento de suas vidas, tiveram de lidar com conflitos dentro ou fora de suas casas. Em todos os exemplos, a única alternativa viável parece ter sido o afastamento da família, sendo este o início do processo de autonomia destes jovens e, como já vimos, da sua construção como sujeitos. Estes relatos também dão conta do caminho inicialmente itinerante que é percorrido pelos sujeitos após esta primeira ruptura, o que reforça a caracterização dos contadores como viajantes. Retomemos suas falas neste sentido:

Barreto – "eu me alcei pro mundo"; Don Martimiano – "desde novo saí a trabalhar... pelas estância ansim"; Seu Romão – "eu sempre fui um andejo, de estância em estância"; Seu Domingo – "saímos a tropear".

À medida que o caminho é percorrido, os conflitos do passado transformam-se em narrativa e o drama dá lugar à performance.

Conflitos no casamento

Apesar de ter escutado poucos relatos sobre violência doméstica entre homens e mulheres14, há diversas narrativas, em geral transmitidas na terceira pessoa – ou seja, referem-se a outrem – a dar conta de uma prática violenta historicamente reconhecida na região, o rapto de mulheres. O ato de apropriação não consensual das mulheres que, de acordo com historiadores, justificou-se em dado momento pela carência de mulheres no lado brasileiro da fronteira, continuou sendo exercido com outras motivações até o início do século XX, segundo denunciam as narrativas recolhidas em minha pesquisa. Simone Loss, 49 anos, de Santana do Livramento/BR, a partir das histórias que escutava das tias-avós comenta: "agora, também, por outro lado, costumavam roubar as mulheres prá casar".

Em outro momento da pesquisa de campo, Seu Ruben, 60 anos, de Rivera/Uy, procurou-me para contar um história a respeito do casamento atípico dos avós:

Porque hoy cuando tu estabas haciendo un relato... Yo digo: si yo le digo que a mi me pasó eso con mi abuela... que tu ibas a decir? "Pero me habré encontrado con otro mentiroso?" Vos sabes que mi abuelo era de nacionalidad portuguesa, se vino al Brasil, era pintor, era bohemio... Y se vino al Rio Grande del Sur e ahí vivía de eso, él no trabajaba, él hacia pinturas... Y entonces, en el Rio Grande se entusiasmaban con sus pinturas, le pagaban una caña... porque él como bohemio tomaba muchísimo. Siempre le ofrecían alguna cosa. Entonces... me acuerdo que... Yo sé que lo ofrecieran un caballo ensillado si él pintaba, yo no me acuerdo si era la hija de un señor o la señora de alguien. Y lo dieran un caballo, y con ese caballo él salía por la campaña, andaba. Y en una vuelta, iban pasando unas señoras que iban a lavar, no sé donde era, pero era en Brasil, y que... él mismo contaba que dijo: "Aquella chinita va ser mi compañera". Entonces que apuró el caballo y la tomó [ele bate as mãos, uma na outra, indicando a fuga], siguió rumbo al Uruguay. Bueno... acá sí él trabajó, en la 6.ª de Rivera, y con el dinero que el había obtenido pintando compró campo acá. Mira que nosotros fuimos parar en Tacuarembó. Y él tuvo cinco hijos, cinco hijos. Cuando nació el último, que era mi padre, mi abuela no había conseguido que él dejara su vida bohemia, en donde ahí él dejaba su establecimiento en manos de los hijos mayores, y él no trabajaba... Cuando mi madre vino a tenerlo a mi padre, vino a Tacuarembó, y desde ahí no quise volver más para junto de él.

A narrativa de Seu Ruben, apesar de mencionar a arbitrariedade do ato do avô ao raptar a avó, não coloca este como o móvel (explícito) do conflito entre o casal e sim o fato de o avô ser boêmio e não trabalhar. Estes casamentos dificilmente eram desfeitos, mas havia casos – como o da avó de Seu Ruben – em que a mulher, que não conseguira modificar o marido, se beneficiara de uma situação de afastamento necessário do lar para não mais voltar. Ou seja, a solução do conflito, nestes casos, dava-se mais pela ruptura do que pelo enfrentamento. Isto ocorreu igualmente com Dona Iracema que, apesar de ter escolhido o marido, sofria com o seu comportamento violento e nessas ocasiões, especialmente de embriaguez, ela via como única opção sair de casa levando os filhos:

Sim, pero eu se vou te contar o causo dele, era horrible, horrible, horrible. Tu sabe que ele tentava me matar... e eu com as crianças e nós disparava pro meio do campo. Eu cansei de dormir no campo. [ela muda de idioma] Porque la madre eees como la gallina, si veinte hijos tiene, a los veinte hace có có có có y a todos los tapa con las alas, con las patitas. Y la madre es lo mismo. Una mala comparación no es, no? Es lo mismo, es lo mismo. Yo me iba para as cuchillas dormir, de miedo que ele matara... a mi no me importava que me matara, pero a mis hijos. Todos conmigo...

Ao fugir da violência imputada ao marido, protegendo, assim, também seus filhos, Dona Iracema opta igualmente por rupturas, ainda que provisórias, para resolver o conflito. O rompimento definitivo do casal dá-se muitos anos depois, com uma atitude dramaticamente violenta do marido, desta vez contra ele mesmo: o suicídio15.

Conflitos no trabalho

Na fala anteriormente citada de Seu Romão ("eu sempre andava domando aporreado [cavalo chucro], por isso tô todo arrebentado") já se pode perceber a relação muitas vezes difícil entre os homens e os animais de grande porte – cavalos, touros – cuja criação é a base da economia rural. O trabalho nas estâncias, especialmente para os peões campeiros (que lidam diretamente com os animais), exige, além de força, habilidades e conhecimentos específicos, que permitem que poucos homens comandem, por exemplo, um rebanho de 500 animais, ou segurem um cavalo chucro enquanto este é castrado. Esta necessidade de imposição e mesmo de superação frente aos animais, no entanto, nem sempre é lograda pelo sujeito, como comenta Barreto sobre o seu desempenho: "fui tentar domar... era meio sem sorte, não era muito bom nos pelegos, caía: pá, pá, pá... Os matungos me cruzavam por cima". O conflito com os animais, dos quais os homens nem sempre saem vencedores, também deixa marcas na história pessoal e na memória corporal dos contadores. A superação destes conflitos, por outro lado, é motivo de grande exaltação e reconhecimento, como demonstra o relato de Seu Luiz Machado Leão, de 99 anos, de Uruguaiana/BR:

LML — Foi, foi aqui no Carumbé, numa estância prá cá, tinha um cavalo que ninguém parava. Eu fui esquilar numa estância e o domador de lá me conhecia, entonce quando eu cheguei lá o domador me falou: "Sabe, Seu Luiz, que prá mim o senhor vem muito bem aqui". — "Ah, é? Por quê?" — "Porque me trouxeram um animal aí que já repassou cinco ou seis domador, ninguém para no lombo dele! E me trouxeram prá mim, eu era o homem mais ginete que tinha, e não parei também. Encilhei duas vezes e não montei mais, não parava e larguei... O senhor se anima a montar?" Eu digo: "Sim, como não?" Eu já tinha ganhado o campeonato em Montevidéu! Aí ele entonces alivianou bem o animal [fez o animal emagrecer]. Quando foi um dia, no sábado, faltavam noventa e poucas ovelhas prá eu terminar, disse o patrão: "Pode deixar que essas noventa ovelha são uma passada". Aí entonces o domador disse: "Vamos reborquear o colorado [o cavalo]?" Digo: "Vamos". E eu puxei os arreios e fui enlaçar o animal. E puxei lá pro meio do campo e não deixei ninguém agarrar. Agarrei e montei sozinho. Mas também quando eu sentei, encontrei ele assim, velhaqueando [corcoveando – ele demonstra com o próprio corpo]. E ele saiu. E ia velhaqueando e quando foi uma distância de uns trinta, quarenta metros, o animal velhaqueando comigo, eu me torci prá trás. Mas bah! O animal velhaqueando comigo... Já viu um animal velhaquear?

Eu — Já, já vi...

LML — Eu me torci prá trás e o animal seguia comigo olhando prá trás assim. Eu fui campeão em doma de cavalo! E domei aquele!

A situação de confronto direto com o animal fica explícita na maneira como Seu Luiz constrói sua narrativa: "e o animal seguia comigo olhando prá trás assim". A resistência do cavalo, no caso, valoriza ainda mais a vitória obtida com a doma, que representa a sua subjugação frente ao homem. Também não poderia deixar de reconhecer aqui alguns aspectos utilizados por Seu Luiz na construção de sua performance: ele representa o diálogo com o capataz utilizando diferentes vozes; utiliza o próprio corpo para demonstrar o movimento da doma; preocupa-se em se fazer entender para a audiência, questionando-a.

Nesta narrativa encontramos mais uma demonstração de como se constrói a comunidade narrativa da fronteira: Seu Luiz era esquilador e no período da esquila trabalhava em diversas estâncias; ele também havia sido campeão nas gineteadas de Montevidéu, daí o fato de ser conhecido em toda a região, tanto no lado brasileiro como no lado uruguaio. Conhecido como esquilador, ginete, domador e reconhecido como contador, Seu Luiz, em suas andanças, carregava consigo histórias que contribuíram para reforçar o imaginário comum da fronteira.

Não raro é que, também durante o trabalho, especialmente aqueles que são realizados à noite, ocorram situações em que os contadores vivenciam contatos com os "assombros", que servem como tema para narrativas. Nessas ocasiões, as alternativas variam entre a fuga e o enfrentamento do elemento causador de conflito. No caso de fuga, no entanto, busca-se, num momento seguinte, a resolução para aquela situação, ou seja, age-se de forma a eliminar o assombro, através de rezas, missas, acendendo velas etc. No caso de enfrentamento, ao contrário, a solução vem implícita ao ato – enfrentar é resolver. Vejamos abaixo, na narrativa de Dona Cilda, de 85 anos, de Serrilhada/BR, como ela lidou com esse tipo de situação.

A senhora sabe? Eu fui uma noite partejar uma mulher, fui a cavalo, com a Maria da... agora me esqueci o nome dela, era Maria. Bueno, ela foi lá me buscar. Bueno, e ela vinha na minha frente, porque ela deixou a mãe sozinha com dor. A mãe dela tinha caído e matou a criança. Daí nesse cemintério velho... a noite clarinha que era um dia! Quaaando eu enfrentei o cemintério, o cavalo se escarrapachou e não caminhou mais. Olha, inda dizem... mas eu não tenho medo de dizer isso: uma conversarada no cemintério de gente morta, menina! Não pude compreender nada, nada, nada que eles diziam, mas que gente morta fala, fala! Mas eu quisera que vocês vissem a conversarada daquelas pessoas dentro do cemintério, tudo morto! O cavalo não caminhou, quando viu aquilo, parou. Quando chegou ali o cavalo não pôde caminhar, que sentiu aquela falaçada dentro do cemintério. Mas não tem conta a conversarada daquelas pessoas! Quando pararam de conversar, o cavalo seguiu caminhando. Mas que aparece, aparece! E outra vez, quando eu era guria, me apareceu uma mulher, parecia uma monja, todiiiiinha de branco. E aquela mulher ia me tirando prá fora, todiiinha de branco, tudo como um véu branco ansim por cima, mas eu não me assustei. E os cachorro acuavam lá fora... Ah, que aparece fantasma aparece. [pausa curta] Eu não tenho medo porque eu sei que aquilo não é uma coisa viva. É uma alma que anda penando, penosa decerto, não é? Sem luz... Que sabe lá o que pedem, não é? [silêncio] De antes se via muita coisa, muuuita coisa que hoje não se vê.

Ao dizer que "enfrentou" o cemitério, Dona Cilda demonstra que já realizava a travessia com certa expectativa em relação ao que encontraria, o que pode se justificar pelo fato de que em toda a fronteira há inúmeras narrativas sobre assombros em cemitérios (ou seja, narrativas gerando modelos para novas experiências). Sua reação, entretanto, é passiva: ela – e o cavalo – aguardaram que as vozes cessassem para prosseguirem seu caminho. Este relato a faz lembrar de outro episódio, vivido ainda na infância (uma história puxa a outra...), de visão de um assombro que também pertence ao imaginário da fronteira, a mulher de branco. E apesar da mulher abordá-la diretamente: "ia me tirando prá fora.."., ela afirma que não se assusta, encarando o fenômeno com certa naturalidade: "Eu não tenho medo porque eu sei que aquilo não é uma coisa viva".

A doença como conflito

Grande parte da população rural aqui enfocada tem no corpo o seu principal instrumento de trabalho. Assim, qualquer problema que acarrete a perda ou a debilitação das capacidades corporais gera grandes dificuldades para estes indivíduos, sobretudo no que concerne às formas de tratamento e cura. As intervenções cirúrgicas, por exemplo, são parte de um processo de transformação não apenas dos corpos mas também dos sujeitos da fronteira, que deparam-se com métodos que desconhecem ou aos quais não estão habituados16. As narrativas que tratam deste processo não apenas transmitem informações a respeito da vivência de um conflito que passa pelo corpo, mas também auxiliam na organização e na compreensão desta experiência.

Experiências de doença ou de enfermidade causada por acidente (em alguns casos, ocorridos no trato com animais) estão presentes na maioria das trajetórias dos contadores com os quais tive contato. Destes conflitos, vividos no corpo, não há como escapar por muito tempo, logo, é preciso resolvê-los, enfrentá-los. E é assim que as narrativas relatam estas situações: como um desafio a ser vencido pelo corpo, no corpo, como conta Don Francia:

E aquí tenia, así, vamos decir... Tenia un atendimiento que el doctor venia aquí. Tenia ahí. Y después fueran se amontonando y llevaran el doctor de aquí. Seguramente se combinó y empezó a trabajar por cuenta. Pero siempre los de aquí, de La Cruz van allá e igual hace curar, muy bueno. Este... me dice: "Pero que haces que usted se ve con mucho... [incompreensível]" Se reía, un hombre joven... Se reíííía... Me tomó nota uno por uno, todo. Me decía: no sé si te das cuenta que tenemos un huesito en la cabeza del caracu, un botoncito aquí, parece una rueda, no? Que dá vuelta en el hueco de las caderas. Ahí me dice que eso se había gastado. Se me hundió con el golpe y con el que traqueteó siguió gastando y ese botón que se quedaba por ejemplo así, eso se gastó todo, no? Eso... no podía sanar! Entonces ese... Me dio unos papeles para hacer la radiología, hacerme todo, porque tenia varios papeles así... y cuando estaba todo listo, le llevé, y él me dijo: "Bueno, Don Francia, lo que tenemos que hacer... vate creando coraje no más, porque hay que operarse, no hay nada de otra cosa que hacerle". Y me dio una rabia que casi le pegué una cacetada! Porque... Le dice: "Mire, doctor, yo en este momento estoy entregado para usted, usted es él que tiene que responder por mi esqueleto. Usted es dueño de hacer lo que le antoja, doctor, yo estoy dispuesto a cualquier cosa, doctor". Seguramente que él quiso darme a entender que si me moría o si no, me hacia bien que... que dejase de pensar eso. Nooooo, yo no pensaba, lo que yo pensaba era en querer tener mi rodilla. Bueno, me estudiaba, y se reía... "Mire, Don Francia, yo le voy operar y a los diez días ya vamos a tener siempre caminando en changas usted". Y ya no me gustó porque me hacia parecer una criatura [criança], êh? Hijo de la puta...! Bueno, me dice: "Y a los dos meses", él me dijo, "a los dos meses usted va a andar a caballo, en galope". Y yo le dice: "Yo le felicito, doctor, eeeeeso es lo que me gusta doctor!" Y ahí quedamos contentos. Y me fue, y me operó y anduvo lo más bien. Hace como diecisiete años y nunca más tuvo un dolor.

As narrativas sobre os conflitos vividos no corpo descrevem uma sequência de etapas muito semelhantes: descoberta do problema, crise e solução, sendo esta última confirmada por observações que também finalizam os relatos, como "quedé lo más bien", "nunca más tuvo un dolor" etc.

Já Dona Yolanda, que conta resumidamente o episódio vivido de enfermidade, termina sua narrativa aludindo ao fato de que a doença tornou-se história, mais uma história que ela pode contar:

DY — Trabalhei quatro anos em estância. Já me jubilei aos quatro anos [de trabalho] por enfermedad. Tive uma enfermedad muy grande, sabe?

Eu — Ah, sim?

DY — Tive um derrame cerebral na cabeça. E graças a Deus tô aqui. O poder de Deus, né, que me salvou. Primeiro Deus, depois o Senhor... Me curei e hoje tô aqui sentadita contando a história, né.

Peleas

Mencionadas com frequência superior às demais modalidades de conflito, as peleas, com final não raro trágico, talvez sejam a forma de conflito cuja motivação é a que menos se justifique diretamente. A própria ênfase dos relatos está voltada mais para a descrição dos eventos violentos e menos para as suas motivações. Isto vem confirmar algo com que venho trabalhando desde que iniciei a pesquisa na fronteira: há uma valorização especial destes enfrentamentos e é através destes que as sociedades locais se organizam e processam suas relações pessoais. Graças a este "gosto" pelo embate direto, é comum a ocorrência de relatos como estes:

Meu pai era um homem muito brabo. Meu pai tinha três mortes. Ele matava quando discutia por discutir. Meu pai era prá lá e prá cá e dava-lhe faca e botava-lhe bala (Barreto, 62 anos).

Mas eu queria que a senhora visse antes, era do meu tempo ainda. Pessoal que se duvidavam, e eram uns homens, umas pessoas corajuda, que o dia que se encontravam na calle era como correr uma carreira [corrida de cavalos], que ali eles já... já sabiam qual era o que ganhava e o que não ganhava (Seu Domingo, 82 anos – Cerro Pelado/UY).

Os adjetivos utilizados por Barreto e Seu Domingo para qualificarem os envolvidos nas peleas – "brabo" e "corajudo" – revelam o valor a eles atribuído. Nestes dois pequenos relatos também se percebe que se, por um lado, o motivo do conflito não é enfatizado – "matava quando discutia por discutir" ou "se duvidavam" –, por outro, a solução é imediata e prevê a eliminação de uma das partes: "dava-lhe faca e botava-lhe bala" ou "já sabia qual era o que ganhava e o que não ganhava". No caso relatado por Seu Domingo, pode-se depreender ainda o valor espetacular atribuído à pelea, em primeiro lugar pela evocação utilizada pelo narrador: "queria que a senhora visse antes" e em segundo lugar pela comparação que faz, afirmando que, tal como numa corrida de cavalos, quando a briga começava também havia um público que já sabia quem venceria.

Sobreviver a essas peleas significa passar a "carregar mortes nas costas", já que é no corpo que elas serão sentidas e é no corpo que elas vão "pesar", marcando e identificando seus agentes perante a comunidade. Esta identificação, entretanto, não terá um caráter negativo, pelo contrário, como vimos acima, muitas vezes "ter mortes" significa "coragem", "valentia" ou mesmo ser "brabo". No caso das mulheres, é difícil que "tenham mortes", ainda que muitas delas tenham também se envolvido em peleas. Como conta Dona Iracema: "não matei só porque não deixaram".

Considerações finais

Gostaria, aqui, de retomar algumas questões abordadas ao longo do texto, a fim de evidenciar e conectar as principais reflexões propostas. Em primeiro lugar, o fato de que os contadores da fronteira caracterizam-se por sua idade avançada, sendo legitimados perante a sociedade local especialmente devido à sua experiência de vida e à sua capacidade de transmitir tanto aqueles eventos relativos à memória da comunidade quanto os referentes à sua trajetória particular. Dessa forma, constituir-se como sujeito-narrador neste contexto, comporta, de um lado, organizar sua própria experiência através das narrativas, de outro, ser reconhecido por isso, com direito a um nome. A habilidade dos contadores permite garantir a manutenção do vínculo social que liga os membros da comunidade fronteiriça não apenas através das narrativas, mas também por um modelo de sujeito que é, desta forma, constantemente atualizado. A valorização da experiência e, consequentemente, dos anos de vida e da trajetória necessária para adquiri-la, faz com que os idosos ocupem, portanto, um papel especial nesta comunidade.

Em segundo lugar, a ideia de que os dramas sociais/conflitos dão origem a performances narrativas e de que estas podem fornecer modelos para novas vivências. Como vimos, nas obras de Burke, Turner e Geertz essa reflexão está presente, adequando-se ao material etnográfico aqui analisado. A "dinâmica da vida social" da fronteira é ativada por estes conflitos, seja como experiência, seja como narrativa, permitindo que entre rupturas e alianças os sujeitos construam suas biografias.

Finalmente, as modalidades de conflito enfocadas aqui não ocorrem como episódios isolados, mas, ao contrário, são vividas de maneira processual e constante, constituindo as relações sociais nesta fronteira, assim como os sujeitos nelas envolvidos. Marcados por trajetórias de conflito, esses sujeitos-contadores encontram nas narrativas e em suas performances uma maneira de organizar, transmitir e recriar essa experiência, rompendo hierarquias, divertindo ou emocionando os ouvintes e desenhando os contornos de sua individualidade.

 

Referências

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Recebido: 16.10.13
Aprovado: 29.04.14

 

 

* Este artigo é uma versão modificada de um capítulo de minha tese de doutorado (Hartmann, 2004). Agradeço às professoras Esther Jean Langdon e Sônia Maluf pelo estímulo às reflexões levantadas neste texto.
1. Minha pesquisa na região envolve uma faixa de terra que avança em torno de 100km nos limites políticos de cada um dos países e é centrada sobretudo nas áreas rurais dos respectivos municípios: Paso de Los Libres, La Cruz e Mercedes (Argentina); Santana do Livramento, Quarai, Caçapava do Sul, Alegrete, Barra do Quarai, Uruguaiana (Brasil); Massoller, Minas de Corrales, Rivera, Artigas, Bella Unión, Vichadero (Uruguai).
2. O sentido com que emprego esta expressão origina-se na obra de Francisco Assis de S. Lima, Conto popular e comunidade narrativa (1985), na qual o autor considera que o conhecimento mútuo de narrativas e o hábito de compartilhá-las, recriá-las e performatizá-las faz com que contadores e ouvintes, numa unidade interdependente e dinâmica, formem uma "comunidade narrativa".
3. A ideia de que o conflito e a contradição tanto precedem a "unidade de personalidade do indivíduo" como também operam no decorrer de sua existência é sustentada por Georg Simmel (1983: 123-124). O autor aponta ainda para a positividade do conflito nas interações humanas.
4. "[...] stories are told at least as much to entertain as to instruct or interpret, and that some sequences of events are intrinsically more diverting or interesting than others" (tradução minha).
5. Discorro sobre as diferentes categorias de contadores em outro artigo (Hartmann, 1999).
6. "Life, after all, is as much an imitation of art as the reverse" (tradução minha).
7. Desenvolvo a questão das marcas (cicatrizes, sinais) como forma de inscrição da história pessoal no corpo, fortemente utilizada como mote narrativo pelos contadores de causos, em outro artigo (Hartmann, 2006).
8. As narrativas que escutei durante a pesquisa de campo revelam, em maior ou menor grau, esse ethos local, que encontra na ruralidade (nas constantes menções ao campo ou à "campanha" e à presença do cavalo), na ruptura precoce com o grupo familiar, na ideia de mobilidade e autonomia do sujeito, na experiência com conflitos violentos e na importância das marcas corporais (cicatrizes, sinais...) alguns de seus mais fortes elementos. Analiso com maior profundidade a composição do ethos dos sujeitos fronteiriços em Hartmann, 2011.
9. De acordo com Gilberto Velho (1994: 101), servindo-se da noção de projeto desenvolvida por Schutz, "é indivíduo-sujeito aquele que faz projetos. A consciência e valorização de uma individualidade singular, baseada em uma memória que dá consistência à biografia, é o que possibilita a formulação e condução de projetos".
10. Ver Dumont (1985).
11. Sobre o tema "nominação", ver ainda Zonabend (1983).
12. O campo (ou campanha) é um importante referencial nas narrativas da fronteira.
13. Desenvolvo essa relação entre as marcas corporais e as performances narrativas em Hartmann (2009).
14. O que não significa que os conflitos neste âmbito inexistam, pelo contrário, indica apenas que a comunidade não legitima as narrativas sobre este tema.
15. Em relação às narrativas que mencionam conflitos no casamento ou nos relacionamentos afetivos, vale ainda salientar que estas, em geral, fazem parte do discurso feminino.
16. Por limitações de enfoque, não é possível aqui adentrar em questões que envolvem o conflito entre biomedicina e medicina tradicional na região de fronteira ou analisar as alternativas de cura procuradas pelos contadores nos diferentes domínios disponíveis, que perfazem seu "itinerário terapêutico".

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