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Psicologia & Sociedade

On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.15 no.2 Porto Alegre July/Dec. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822003000200005 

Configurações do corpo nas psicoses

 

Body configurations on psychosis

 

 

Marcia Goidanich

Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI) Campus Erechim

 

 


RESUMO

O presente artigo propõe uma reflexão sobre algumas particularidades da constituição do corpo nas estruturações psicóticas partindo de um entendimento teórico da psicanálise lacaniana e das proposições de Walter Benjamin. Aponta a psicose como um exemplo privilegiado para pensar as teorizações sobre o corpo despedaçado, na medida em que os sujeitos psicóticos não simbolizam um significante que faça função de suposto saber integrador e permanecem sempre alienados em um desejo não determinado de um outro especular.

Palavras-chave: corpo, psicose, psicanálise, Lacan, Benjamin.


ABSTRACT

This article proposes a reflection about some peculiarities of the body constitution on psychotic structures according to lacanian psychoanalytical understanding and with Walter Benjamin's propositions. It points out psychosis as a privileged exemple to think about the splited body theorizations, since the psychotic subjects do not symbolise a significant that makes the function of an integrational supposed knowledge and continue always alienated in an indeterminate desire of a specular other.

Keywords: body, psychosis, psychoanalysis, Lacan, Benjamin.


 

 

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Fernando Pessoa

 

O trabalho com pacientes psicóticos evidencia de imediato a grande multiplicidade subjetiva que este diagnóstico tenta comportar. A experiência clínica revela que as tentativas de generalização ou de padronização sob um mesmo rótulo diagnóstico acabam sendo muito empobrecedoras. Pode-se dizer que algo similar ocorre também nas demais constituições de diagnósticos, onde as singularidades tendem a ser apagadas ou deixadas de lado para que algum enquadramento generalizador, que enfatiza certo traço comum, seja possível. Tal é, predominantemente, a lógica empregada pelas diversas elaborações científicas que visam construir seus entendimentos teóricos sobre os seres humanos. Importa destacar, no entanto, que se, por um lado, a constatação de quadros estruturais mais generalistas pode auxiliar de certa forma no trabalho clínico, por outro, ela não deveria ofuscar a riqueza das singularidades subjetivas.

Partindo da obra freudiana, as elaborações psicanalíticas lacanianas parecem caminhar no sentido de caracterizar montagens estruturais que fundamentam a constituição dos sujeitos, valorizando, ao mesmo tempo, a história singular que cada um deles elabora. No trabalho clínico com psicóticos, tais diferenças mostram-se com imensa riqueza. O modo como os psicóticos constituem seu corpo e se relacionam com ele pode ser um exemplo das grandes variações que se pode encontrar dentro de um mesmo quadro estrutural amplo. Percebem-se distinções entre o modo de constituição do corpo de um paranóico e o de um esquizofrênico, assim como também chama a atenção as alterações que ocorrem no corpo de um mesmo sujeito quando entra em uma crise aguda. Além disso, é preciso levar em conta todas as diferenças particulares de cada sujeito. Fica, assim, evidente que qualquer reflexão sobre o estatuto do corpo nas psicoses será sempre um recorte parcial, mas, ainda assim, acredita-se ser interessante constituir uma breve trajetória neste sentido.

Um aspecto que a clínica das psicoses evidencia é a freqüente relação de grande estranhamento que os psicóticos mantêm com seu corpo. Os sujeitos psicóticos parecem estar muitas vezes alheios de seu próprio corpo. Relacionam-se com ele como se fosse um outro, um objeto estranho. Tomam o corpo quase como uma carcaça da qual pudessem prescindir. O corpo apresenta-se como uma alteridade que por vezes sugere não fazer questão ao sujeito. Em certos casos, os psicóticos parecem ignorar seu corpo de modo ainda mais enfático, agindo como se ele efetivamente não lhes dissesse respeito. A própria estesis do corpo dos psicóticos parece ficar muitas vezes amortecida. Percebe-se nestes casos um certo anestesiamento do corpo, de tal forma que os sujeitos parecem não estar sujeito à dor, ao frio, ao calor, à fome, ou ao desejo sexual. Mesmo as doenças físicas não abalam o organismo dos psicóticos do mesmo modo como ocorre nas neuroses.

Por outro lado, nos momentos de crises, quando acometidos pelo agudo dos surtos, muitas vezes a problemática passa a ser radicalmente distinta. Nesses períodos, os sujeitos psicóticos ficam totalmente tomados pelas afecções que sentem atingir seu corpo. São quase esmagados pela enxurrada de estímulos que os aflige e sobre a qual não conseguem ter controle. Escutam vozes, vêem imagens, sentem empurrões, beliscões e puxões que os dominam totalmente. Mesmo seu pensamento é muitas vezes controlado por imposições que já não mais podem distinguir se são próprias ou se vêm de um outro. Nesses momentos, evidencia-se que não há nenhum tipo de barreira ou censura, nenhum amortecimento para a torrente de sensações produzidas e percebidas pelo sujeito. A alteridade o esmaga, o domina completamente, aniquilando a própria possibilidade de seguir existindo enquanto um sujeito que faz alguma barra frente ao Outro, um sujeito que impõe algum tipo de corte separador.

Jaques Lacan (1999), em seu Seminário de 1957-1958, As Formações do Inconsciente, destaca a suplência, que ocorre na psicose, do Outro (maiúsculo) como sede da fala, como simbólico, pelo outro (minúsculo) como similar, como imaginário. A carência de um significante primário que funcione como organizador para toda a estruturação, garantindo algum saber, mesmo que apenas suposto, impossibilita ao psicótico a simbolização necessária para dar sustentação às relações imaginárias. Com isso, Lacan aponta para uma constante transitividade característica do sujeito psicótico. O discurso delirante apareceria como o único apelo através do qual o psicótico tenta sustentar em si uma certa intransitividade do sujeito. É a redução do Outro como sede da fala e garantia de verdade ao outro como dual, como sendo sua própria imagem, que causa ao psicótico tantas dificuldades de se manter num real simbólico, num real, diz Lacan, humano (p. 15).

Tal fragilidade, que não é totalmente inexistente nas estruturas neuróticas, fica exacerbada nas psicoses, evidenciando de modo ímpar o decorrente esfacelamento do corpo, sua falta de unidade, seu eterno inacabamento. Se nas neuroses os sujeitos procuram manter uma sustentação, mesmo que em certos momentos precária, partindo de uma suposição de saber, da simbolização de um significante primordial organizador, nas psicoses, a falta de tal suposição e da simbolização de um significante que exerça tal função, põe em maior evidência a transitoriedade das amarras e a fragilização do corpo.

Não há como pensar em um corpo humano que não se constitua a partir de um processo de simbolização, a partir da inscrição de marcas deixadas por uma história, pela constante interação com o Outro, por recortes do desejo. É a impossibilidade de apropriar-se de um corpo com suas marcas singulares, a impossibilidade de percebê-lo como formando uma certa unificação, que está exacerbada na psicose. Por não conseguir separar-se, criar alguma barreira em relação ao Outro, o psicótico permanece totalmente alienado, invadido por este. Assim, na psicose, o corpo não é uno e nem é próprio, pois segue sendo, muitas vezes, apenas uma parte, um complemento do corpo de um outro especular.

Dito de outro modo, o que se percebe, a partir da experiência clínica com psicóticos e sob a luz das construções teóricas propostas por Lacan, é que o que está em jogo na estruturação das psicoses é justamente a forclusão do nome-do-pai, ou seja, a não simbolização de uma metáfora paterna, que possibilita alguma definição para o desejo do Outro. Compreendendo a função paterna como aquilo que possibilita o corte, como a intervenção necessária de um terceiro para a separação sujeito/Outro primordial, percebe-se que, nas psicoses, o próprio corpo dos sujeitos acaba não sendo constituído, simbolizado, como efetivamente separado do Outro. O que ocorre, na psicose, é uma falha no processo de simbolização, o qual possibilitaria a passagem de uma relação dual, imaginária, com o pequeno outro, para uma relação mediada por um terceiro, característica, por exemplo, do laço neurótico com o grande Outro.

No seminário de 1955-1956, inteiramente dedicado ao estudo das psicoses, Lacan (1992) retoma a questão da constituição do sujeito como sendo sempre totalmente referenciada ao outro. Para Lacan, é o desejo do outro que funciona como referência para toda a constituição de um eu. Diz Lacan:

É que o eu humano é o outro, e que no começo o sujeito está mais próximo da forma do outro do que do surgimento de sua própria tendência. Ele é originariamente coleção incoerente de desejos – aí está o verdadeiro sentido da expressão corpo espedaçado – e a primeira síntese do ego é essencialmente alter ego, ela é alienada. O sujeito humano desejante se constitui em torno de um centro que é o outro na medida em que ele lhe dá a sua unidade, e o primeiro acesso que ele tem do objeto, é o objeto enquanto objeto do desejo do outro. (p. 50).

Evidencia-se, a partir dessas observações, que, tanto na neurose como na psicose, o sujeito origina-se a partir de uma alienação no outro. A falta da entrada efetiva de um terceiro, que venha a constituir um corte, constituir o processo de simbolização, é que distingue fundamentalmente a psicose da neurose.

Já em 1936, Lacan realiza uma conferência sobre O Estádio do Espelho como Formador da Função do [Eu] tal qual nos é Revelada na Experiência Analítica, texto que vem a ser publicado pela primeira vez apenas em 1949 (publicação sem data). Lacan enfatiza nesse texto que a forma total do corpo, a qual antecede em uma miragem a maturação de sua potência, vem ao sujeito nascente de uma exterioridade. É o outro que faz papel de espelho, oferecendo uma Gestalt constituinte para aquele corpo que ainda não está constituído. O estádio do espelho corresponderia, assim, ao drama da precipitação da insuficiência à antecipação, ou seja, de uma imagem do corpo fragmentado a uma forma ortopédica de sua totalidade. Tal totalidade, que é fundamentalmente alienante, na medida em que vem do outro, vai marcar todo o desenvolvimento mental do sujeito.

O corpo é descrito por Lacan, então, como corpo fragmentado, que apenas poderá constituir uma integração imaginária a partir de uma necessária alienação, mas também da separação de uma figura primordial. Lacan lembra ainda que esse corpo fragmentado aparece com bastante freqüência nos sonhos. A fragmentação revela-se também com grande evidência nas linhas de fragilização que definem a anatomia fantasmática manifesta nos sintomas de cisão esquizóides. Parece ser justamente nessa paradoxal relação de alienação no outro e separação que incide uma das problemáticas da estruturação das psicoses. Ou seja, a possibilidade de jogar com a imagem da integração corporal, para a qual é preciso ocorrer a simbolização de um significante paterno que viabilize o processo de separação do outro, é que não ocorre nos casos de estruturações psicóticas.

Walter Benjamin (1975 e 1994) trabalha também intensamente a noção do despedaçamento, da falta de unidade do corpo, que tão evidente fica nos casos de psicoses. O estudo da questão do corpo a partir das proposições de Benjamin possibilita um interessante diálogo com o entendimento psicanalítico do corpo nas psicoses. Talvez as psicoses possam ser pensadas como um exemplo privilegiado para ilustrar a proposta benjaminiana de teorização sobre o corpo, na medida em que põem em evidência, principalmente no momento das crises agudas, um corpo despedaçado, cindido, sem unificação. Benjamin parece apontar que o corpo sem unidade, desmanchado, é característico de todo ser humano. Há na neurose, no entanto, uma tentativa de apagar esse desmantelamento, uma busca de unificação, que ocorre a partir da entrada de um terceiro que sustenta uma suposição de saber e possibilita a ascensão à simbolização. Nas psicoses, por outro lado, e especialmente nas montagens esquizofrênicas, mesmo uma primordial busca especular de integração fracassa. O outro não devolve uma imagem integradora e o que se passa é que o sujeito permanece totalmente alienado, absorvido como uma parte deste. Pode-se dizer que as esquizofrenias constituem, assim, o mais vivo exemplo do corpo despedaçado.

Analisando a expressão do corpo tanto nas artes plásticas como na literatura, Benjamin (1994, op. cit.) destaca exemplos nos quais se evidenciam as desfigurações, as distorções. As pinturas de Francis Bacon e a obra literária de Kafka são apontadas como fontes ricas para se pensar o corpo como disforme, inerentemente dividido, não unificável e totalmente marcado pelas pressões da cultura. O mundo pesa sobre os sujeitos impondo seu tempo, seu andamento, seu modo de funcionar, e, com isso, marca o corpo, configurando gestos, velocidades, modos de se comportar.

Benjamin (1975, op. cit.) destaca a necessidade que surge na modernidade dos sujeitos se defenderem frente ao excesso de estímulos que os cercam constantemente. Decorre disso o estabelecimento de um certo grau constante de anestesiamento. Os sujeitos precisam anestesiar-se na busca de alguma proteção frente a esse excesso. Talvez seja isso que as psicoses podem evidenciar de modo extremado, por exemplo, nas situações de catatonia ou de severa cronificação asilar: um anestesiamento intenso que pode ser pensado tanto como um enclausuramento, um ensimesmamento profundo, ou como uma entrega total, uma desistência de seguir lutando contra a invasão absoluta do outro.

Para Benjamin, segundo Perrone (inédito), a singularidade do indivíduo efetivamente se revela na sua solidão e finitude. Não é da figura harmoniosa, totalizante, que pressupõe a bela forma que Benjamin refere ser possível extrair a significação dos sujeitos, mas, inversamente, ele afirma que essas significações partem das ruínas do corpo, da carne dilacerada. Benjamin defende, assim, a dissolução do um, do unificado, para potencializar o múltiplo. Partindo da fissura, da desconstrução do corpo, Benjamin enfatiza a transitoriedade do sujeito e luta para sustentá-la. O projeto benjaminiano se caracterizaría pela construção de um novo corpo, que não estaria submetido ao engano da unificação e seria, assim, um corpo de resistência.

Acompanhando os passos dessas elaborações benjaminianas, desponta neste momento uma questão: seria o corpo nas psicoses um corpo de resistência, na medida em que evidencia o despedaçamento? Ou seria ele justamente um corpo no qual a resistência não pôde fazer função, não pôde se inscrever, deixando-o totalmente tomado, totalmente a mercê do outro? O que caracterizaria a possibilidade de alguma diferenciação, de alguma força resistencial? Não seria justamente o jogo que ocorre entre esses dois processos, o de separação e o de perda na alteridade, jogo este que, por mais paradoxal que pareça, justamente sempre se dá de modo consonante, constituindo um constante devir onde separação e alienação fundam-se concomitantemente, possibilitam-se de modo simultâneo, que fundaria a inscrição de uma marca de diferença, de resistência, de algo novo?

Parece ser justamente esse jogo de sincronicidade da relação entre dentro e fora, entre eu e outro, que pode ser percebido e simbolizado nas estruturações neuróticas, que, nas psicoses, sofre uma cisão. Parece ser, enfim, o rompimento no desenrolar simultâneo do processo de alienação e separação, processo este que é fundamental para viabilizar toda constituição subjetiva e, consequentemente, a estruturação corporal, que está em jogo nas psicoses. É justamente nesse processo de constituição do enlaçamento sujeito/Outro que a clínica psicanalítica das psicoses precisaria tentar intervir.

 

REFERÊNCIAS

BENJAMIN, W. Sobre Alguns Temas em Baudelaire. In: Textos Escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1975. (Os Pensadores; v. 48).         [ Links ]

BENJAMIN, W. Franz Kafka. A propósito do décimo aniversário de sua morte. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.        [ Links ]

LACAN, J. O Seminário. Livro III. As Psicoses. (1955-1956) Rio de Janeiro: Zahar, 1992.         [ Links ]

LACAN, J. O Seminário. Livro V. As Formações do Inconsciente. (1957-1958) Rio de Janeiro: Zahar, 1999.         [ Links ]

LACAN, J. O Estádio do Espelho como Formador da Função do [Eu] tal qual ela nos é Revelada na Experiência Psicanalítica (1948/1949). In: Cadernos Lacan. 1ª Parte. Publicação não-comercial. Documento Interno da Associação Psicanalítica de Porto Alegre. Sem data.         [ Links ]

PERRONE, C. Um olhar capturado pela intensidade. O corpo e Walter Benjamin. Porto Alegre. Inédito.        [ Links ]

 

 

Recebido: 16/5/2003
1ª revisão: 15/07/2003
Aceite final: 9/9/2003

 

 

Marcia Goidanich é psicóloga, especialista em atendimento clínico com ênfase em psicanálise pela clínica de atendimento psicológico da UFRGS. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional da UFRGS. Professora da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI)-Campus Erechim-RS. Psicóloga Concursada do Município junto ao Centro de Atenção Psicossocial de Passo Fundo-RS.
O endereço eletrônico da autora é:
goidanich@uol.com.br

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