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Psicologia & Sociedade

versão On-line ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. v.18 n.1 Porto Alegre jan./abr. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822006000100001 

Editorial

 

 

Estimada Profª. Silvia Tatiana Maurer Lane,

Inicio este editorial desejando que todos nós possamos fazer reconhecer através de nosso trabalho cotidiano – como docentes, pesquisadores, estudiosos e parceiros do campo da Psicologia Social – algumas das lições que nos ensinou: a coragem, a ternura, a competência e tantos outros valores que desejamos que se mantenham vivos e que saibamos ampliá-los.

A missão da Revista Psicologia & Sociedade da ABRAPSO, entidade que ajudou a fundar e da qual foste a primeira presidente, é a de veicular artigos que façam do exercicío da análise crítica, do mapeamento das possibilidades de transformação e do diálogo interdisciplinar o enriquecimento da Psicologia Social.

Essa missão se vê revigorada com o início dos trabalhos da gestão 2006/2007 da ABRAPSO composta pelos colegas Ana Maria Jacó-Vilela – UERJ (presidente), Anna Paula Uziel – UERJ (primeiro-secretário), Francisco Teixeira Portugal – UFRJ (segundo secretário), Peter Kevin Spink – PUCSP (primeiro tesoureiro) e Leny Sato – USP. A reciprocidade entre a diretoria e a editoria tornou possível implementar a proposição uma nova Comissão Editorial representativa da abrangência nacional da entidade. Agradecemos o aceite dos colegas Helerina Aparecida Novo (FBV-IMIP), Maria Aparecida Morgado (UFMT), Maria Elizabeth Barros de Barros (UFES), Neuza Maria de Fátima Guareschi (PUCRS), Ricardo Pimentel Mello (UFPA) para esse trabalho cooperativo.

Os artigos desse número convergem para esse espírito crítico, transformador e interdisciplinar da revista. Os modos institucionais de invenção de gestão da vida e seus efeitos nos sujeitos são temas de muitos dos artigos aqui apresentados. Aprendemos, com os autores desse número, como nas formas de sujeição existem possibilidades de escape. Algumas trabalhosas, é certo, mas passíveis de serem exercidas.

O artigo Psicologia, identidade e política nas tecnologias de governo neoliberais de Lucía Gómez Sánchez e colaboradores toma o regime neoliberal como um entrelaçamento de discursos e práticas, produtor de efeitos sociais e identitários. Nesse regime a autonomia pessoal assume um valor fundamental, reforçando e reforçando por discursos e práticas psicólogicas que enfatizam um ideal de autonomia responsável. Maria Lívia do Nascimento e colaboradoras, no artigo Reinventando as práticas psi ao problematizar o lugar legitimado de saber/poder do psicólogo caminham na direção das idéias anteriores. Caberia confrontar a idéia de autonomia com a qual as autoras concluem o texto com o questionamento à autonomia feito no primeiro artigo.

Além de considerar as lógicas macro-políticas e político-acadêmicas que permeiam a constituição de sujeitos autônomos e de psicólogos especialistas, como discutem os textos anteriores, podemos considerar as lógicas performativas oriundas das práticas cotidianas de distintos movimentos sociais. Jáder Ferreira Leite e Magda Dimenstein no artigo Subjetividade em movimento: o MST no Rio Grande do Norte retratam os processos de subjetivação em trabalhadores sem-terra acampados a partir da vivência cotidiana do acampamento e o discurso político do movimento. Longe de encontrar uma serialização, os autores apontam a emergência de produções subjetivas articuladas ao projeto coletivista político-ideológico do MST bem como modos singulares, implicando criação e ruptura com a perspectiva macropolítica do movimento, embora ambos reforcem a experiência de resistência no seio do capital. Outro movimento em pauta neste número é o migratório cujos efeitos são analisados no artigo Somatização em migrantes de baixa renda no Brasil de Miguel Antônio de Mello Silva e Marcos de Souza Queiroz. Diferentemente do MST, que possui uma organização interna, o movimento migratório é visto mais como estratégia de sobrevivência do que como estratégia de luta. O estudo das representações sociais de pacientes migrantes e da equipe de funcionários e profissionais de um centro de saúde municipal do interior paulista demonstrou que a migração era percebida negativamente, como causadora de doenças. Apesar da atribuição de uma maior causalidade do adoecimento a uma dinâmica social (migração) a proposta terapêutica é individualizada e medicamentosa.

O artigo de Raquel Jaqueline Freiberger Testoni e Maria Juracy Filgueiras Tonelli Permanências e rupturas: sentidos de gênero em mulheres chefes de família pode nos fazer pensar nos efeitos de um outro movimento, o feminista, nos sentidos de gênero de mulheres chefes de família de classe popular. Embora não tendo sido suas protagonistas, essas mulheres compartilham de alguns de seus efeitos. As autoras apontam permanências – como a moral sexual e a valorização da maternidade – e de pequenas rupturas – nas suas expectativas e na formulação de possibilidades. Martha Giudice Narvaz e Sílvia Helena Koller, no artigo Famílias e patriarcado: da prescrição normativa à subversão criativa mostram que essa permanência de sentidos pode ser em parte explicada pelo patriarcado como discurso normativo de relações familiares. As autoras fazem uma crítica ao apontar que as discriminações ditadas pelo patriarcado são uma forma de violência de gênero e de violação dos direitos das mulheres. Como nos artigos anteriores há o apontamento de brechas que tensionam a hegemonia do discurso patriarcal normativo ainda existente.

Além do patriarcado outros discursos e práticas persistem dificultando possibilidades de transformação das práticas institucionais. O artigo Mudança das práticas socio-educativas na FEBEM-SP: as representações sociais de funcionários de Rita de Cássia Pereira Lima analisou as representações sociais da mudança de práticas sócio-educativas entre funcionários da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor de São Paulo (FEBEM-SP) de uma unidade que se propunha a erradicar qualquer tipo de violência física contra os adolescentes internos. A análise efetivada revela que a busca práticas sócio-educativas mais cidadãs nem sempre são vistas como possíveis. Representações sociais arcaicas veiculadas na instituição, fundadas na punição e na violência, dificultam a mudança das práticas sócio-educativas.

O artigo Representações sociais sobre o câncer feminino: vivência e atuação profissional de Carolina Pasquote Vieira e Marcos de Souza Queiroz se relaciona com a questão anterior ao analisar os efeitos da subtração dos aspectos emocionais e sociais nas práticas terapêuticas. Revela que além de existirem construções culturais em relação ao câncer que colocam as mulheres em uma posição de doentes, a equipe reforça essa condição ao enfatizar o tratamento exclusivamente biológico. O que não difere do questionamento feito ao atendimento aos migrantes, mencionado acima.

A revisão feita sobre O impacto da institucionalização na infância e na adolescência: uma revisão de literatura de autoria de Aline Cardoso Siqueira e Débora Dalbosco Dell'Aglio aponta a necessidade de um trabalho contínuo com as equipes para que os abrigos possam cumprir sua função no ECA de se transformarem em espaços substitutivos protetivos e não punitivos.

Elizabeth de Melo Bomfim, no artigo O homem no vale do São Francisco: um legado de Donald Pierson às ciências humanas e sociais no Brasil nos faz refletir sobre a necessidade de conhecermos os modos de viver peculiares de distintas regiões brasileiras que sobrevivem às lógicas homogenizantes discutidas pelas autoras do primeiro artigo. A autora conclui assim seu artigo: "Donald Pierson registrou, em sua busca de uma visão mais íntima e uma compreensão mais profunda da vida dos pesquisados, um olhar para uma realidade regional brasileira que traz à tona o homem no seu habitat, atravessado pelas suas relações sociais e políticas, com sua inserção comunitária e ecológica". Tal atitude ao permear os modos de compreender e de agir poderia trazer mudanças nas práticas terapêuticas apontadas em alguns dos artigos aqui publicados.

Kátia Rubio em O imaginário da derrota no esporte contemporâneo apresenta um dos efeitos subjetivos decorrentes da alta competitividade do esporte atual: o "medalhista derrotado". Tal efeito evidencia o deslocamento dos significados da competição esportiva desde sua origem grega até nossos dias, ou seja, de uma superação de seus próprios limites a uma derrota do outro.

Fechando esse número, Margareth Schäffer nos traz a resenha do livro: Tramas da clínica psicanalítica em debate organizado por Carlos Henrique Kessler e outros. Fruto da interlocução que ocorreu no espaço da Clínica-Escola do Instituto de Psicologia da UFRGS, traz uma coletânea de textos que colocam as práticas clínicas em debate.

Após essa visão geral do conteúdo da presente revista, dedico a foto da capa, muito gentilmente cedida pelo fotógrafo e professor Fernando de Tacca, à Profa. Silvia Tatiana Maurer Lane.

Cara professora, espero que saibamos perpetuar as lições que você e essas outras fortes mulheres latino-americanas nos legaram.

 

 

Carinhosamente,

Cleci Maraschin
Editora