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Psicologia & Sociedade

On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.18 no.1 Porto Alegre Jan./Apr. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822006000100012 

O imaginário da derrota no esporte contemporâneo

 

The competition and defeat experience in contemporary sports

 

 

Kátia Rubio

Universidade de São Paulo – USP-SP

 

 


RESUMO

Diante das necessidades impostas aos atletas de alto rendimento na atualidade, a superação se tornou um princípio e um termo recorrente entre aqueles que conseguiram chegar entre os mais destacados, os vencedores. Na estrutura do esporte contemporâneo observa-se a reprodução do modelo liberal que privilegia a vitória, embora sejam premiados os três primeiros colocados em disputas olímpicas. Isso leva muitas vezes o ganhador da medalha de prata e de bronze a se sentir derrotado, negando um feito digno de registro histórico. Os desdobramentos da derrota não são suficientemente estudados, o que contribui para uma atitude de negação em relação a essa situação tanto por parte de atletas como de profissionais que atuam no universo esportivo. O objetivo deste trabalho é apresentar uma discussão sobre o imaginário da derrota no esporte contemporâneo e como esse evento se dá entre atletas brasileiros ganhadores de medalhas olímpicas, bem como as suas várias representações no contexto social contemporâneo.

Palavras-chave: Derrota; competição; psicologia do esporte; esporte e cultura.


ABSTRACT

Considering the needs for high performance imposed to athletes nowadays, overcoming limits has become a principle and a recurrent term among those who achieve prominence: winners. In the structure of contemporary sports we observe a reproduction of the liberal model which privileges victory, although the first three prizes are awarded in Olympic disputes. This situation very often makes silver and bronze medallists feel defeated, denying their achievement, which is worth a historical record. The unfolding of defeat has not been properly studied, which contributes to denial of that situation by both athletes and professionals who work within the sports universe. The aim of this paper is to present a debate on the image of defeat in contemporary sports as well as how it takes place among Olympic medallists, together with its several representations in the contemporary social context.

Keywords: Defeat; competition; Sports Psychology; sport and culture.


 

 

O objetivo do esporte contemporâneo: Vencer

O esporte se apresenta para a sociedade contemporânea como um fenômeno de grande abrangência social tanto do ponto de vista do espetáculo como também como atividade profissional e comercial. Manifestação capaz de provocar grande emoção e comoção, o esporte se diferencia de outros espetáculos por levar protagonistas e espectadores a se posicionarem.

Ardoino e Brohm (1995) afirmam que assim como a pena de morte ou o aborto, o esporte afeta e divide profundamente opiniões porque provoca a polarização emocional e ideológica, e que diante de um objeto investido de tanta libido e afetividade é difícil permanecer neutro ou indiferente.

Uma das justificativas possíveis para tamanha mobilização afetiva está no fato de que vários são os valores vinculados ao esporte contemporâneo que remontam a sua origem. Um deles é a agonística, representada na busca e superação de limites, assim como a perseverança observada na construção e busca da melhor forma atlética. Essas qualidades talhavam parte da moral do homem grego antigo, momento de gênese do esporte, e fundamentavam a busca da transcendência da finitude e da perfeição (Rubio, 2001, 2004a).

Para os praticantes do esporte de então a superação de tempos, distâncias, pesos ou pontos eram decorrência de uma atividade que se ritualizou nos Jogos Olímpicos Helênicos, mas cuja prática tinha por finalidade primeira desenvolver o físico e a moral. Na Antigüidade o atleta competia, porém, sua busca pela vitória não estava fundamentada na derrota do adversário e sim na superação dos próprios limites, ou seja, ao alcançar o seu máximo na competição havia a experimentação de uma condição divina, a afirmação da permanência. A vitória sobre o adversário era uma decorrência desse processo. Para a sociedade grega helênica os vitoriosos seriam todos aqueles que superassem seus limites, físicos e morais. No esporte moderno a melhor performance passou a se associar à conquista da primeira colocação, ou ainda ao recorde, distinguindo seu executor dos demais participantes da competição. A busca pelos melhores resultados deixou de ser superação do próprio limite para se tornar a superação do resultado do adversário. Colaboram para esse estado de coisas o desenvolvimento tecnológico que permite a mensuração do tempo e do espaço em índices sempre menores, capazes de registro apenas aos instrumentos mais aprimorados.

Conforme Mandell (1986) o esporte como se conhece na sociedade contemporânea surgiu em um momento histórico marcado por condições particulares e foi modelado conforme princípios de uma sociedade regida pelo sistema liberal. Nessa condição, a vitória, e não a participação, é o valor supremo da competição esportiva, isso porque à vitória estão associados o reconhecimento social, o dinheiro e o desejo da permanência, levando ao menosprezo de qualquer outro resultado.

Do ponto de vista das grandes competições, o desdobramento dessa lógica leva à desvalorização das medalhas de prata e bronze, prêmio dedicado ao segundo e terceiro lugares, que deixaram de ser distinções para se tornarem prêmios de consolação ou de vergonha. As demais colocações nem sequer são citadas em anais e enciclopédias, sepultando uma das máximas dos Olimpismo de que o importante é participar (Comitê Olímpico Internacional, 2001).

No entender de Skillen (2000) o espírito de competição e conquista são partes inextrincáveis do esporte. Entretanto, a principal contribuição que essa prática pode proporcionar para a sociedade é o exercício das habilidades que levam ao limite. Sendo assim, o esporte tem o potencial para ensinar a viver com limites e a vitória teria a função de indicar essa condição, apontando quem dentre os competidores carece de maior aprimoramento.

Se a competição é condição inerente ao esporte, é preciso entendê-la naquilo que há de específico nesse contexto. Conforme Yonnet (2004), a competição esportiva pode ser dividida em dois sistemas: a competição contra alguém e a competição consigo mesmo.

No primeiro caso esse sistema abrange todos os esportes competitivos, que na acepção clássica do esporte moderno cabia aos amadores, mas que no presente momento é representado pelos atletas profissionais. A elite é formada pelos indivíduos selecionados pela ordem de excelência, separados esses por pequenas frações de tempo ou distância, que já não podem mais ser mensuradas a olho nu ou cronômetro manual. A necessidade de uso de equipamentos sempre mais precisos sofistica a prática esportiva e a competição, favorecendo a organização da incerteza imposta ao público espectador, afirmando uma condição de espetáculo de massa. Nesse sistema os rituais são esperados e se multiplicam para atender a necessidades de competidores e público, tornando-se uma liturgia de identificação. Portanto, incerteza e identificação são as condições básicas para o desenvolvimento da competição contra o outro. Isso quer dizer que pode não prevalecer a justiça, na medida que a melhor equipe pode não ser a vencedora por causa de um mau desempenho do atleta, por erro de arbitragem ou por falha de equipamento.

O segundo sistema, a competição contra si mesmo, compreende uma espécie de luta privada, íntima, onde o competidor é também seu juiz. Nesse sistema não há divisão de classes ou limite. Isso porque o limite de esforço desprendido para a realização de uma prova varia de indivíduo para indivíduo, impondo ritmos e realizações distintas aos diversos competidores. Isso quer dizer que se por um lado existe uma aparente igualdade entre os seres humanos, há uma desigualdade constitucional que leva uns à vitória e outros não. Nesse sistema a técnica essencialmente individual e privada de competição consigo mesmo demanda recursos de uma espécie de elevação individual, fincada grandemente na cultura ocidental contemporânea. Encontram-se nesse grupo as modalidades esportivas como as provas de longa distância no atletismo, as marchas, maratona, iron man, enduros e ski, desenvolvidas a partir dos anos 1970, como atividade de tempo livre; a musculação, as várias modalidades de ginástica e as atividades de resistência que não implicam necessariamente competição, e portanto, a vitória sobre alguém.

No contemporâneo, a superação de marcas é um feito grandioso, merecedor de ampla divulgação pelos meios de comunicação de massa para todo o mundo. Muitos recordes que foram conquistados no início do século XX e considerados imbatíveis têm sido superados, ao longo do tempo, por aquelas consideradas, nos primórdios dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, como incapazes de realizar feito esportivos: as mulheres. Estas marcas são quebradas quase todos os meses em alguma prova, e em qualquer modalidade esportiva. Uma das grandes motivações de qualquer atleta que participa hoje de importantes competições nacionais ou internacionais está não somente na vitória, mas justamente na luta pela conquista do recorde.

Esta busca incessante pelo sucesso e pela superação dos recordes pressupõe, de maneira assertiva, uma evolução material da sociedade e física do atleta. Nos treinos diários o atleta busca a perfeição técnica, tendo em seu auxílio os estudos científicos sobre o movimento humano; já os fabricantes de materiais e equipamentos esportivos lançam no mercado produtos inovadores a intervalos cada vez menores. O mesmo se pode dizer sobre a evolução nas técnicas de construção de instalações esportivas. Sendo assim, o recorde é o resultado de alguns fatores que se combinam, num mesmo momento, a plenitude técnica do atleta e o aprimoramento dos recursos materiais que estão ao seu alcance. Ou seja, o conjunto de fatores físicos e mentais, aliados à técnica e à tecnologia, contribuem indefinidamente para a construção de uma situação vitoriosa.

Brohm (1993, 1995) avalia que essa lógica de valorização extrema do resultado esportivo é uma construção ideológica que circula por meio de impacto midiático, e que as instituições esportivas absorvem uma boa parte das tendências mortíferas e suicidárias dos indivíduos de uma sociedade em crise prolongada, uma crise que é ao mesmo tempo econômica, espiritual e ideológica. Essa violência suicidária que se manifesta de diversas maneiras advém de uma mesma matriz axiológica e praxeológica: a competição de todos contra todos, a busca infinita pelo recorde, a busca incessante da superação de limites, o culto do excesso, o fetichismo do progresso de performances e a idolatria do êxito a qualquer preço.

Do perder ao ser derrotado

A prática esportiva surge como a essência do espírito de superação de limites e este estímulo tem sido amplamente explorado para os mais variados fins, a depender do apelo que a imagem de um protagonista, como o atleta, exerce sobre a população. A exploração dessa imagem tanto pode estar relacionada com a venda e comercialização de inúmeros produtos como pode também estar associada à campanha de caráter pedagógico ou social. Mas para isso, no entender de grande parte dos dirigentes e empresários, o atleta tem que ser antes de tudo um vencedor, e conquistar essa condição não é tarefa assim tão fácil.

Cagigal (1996) afirma que os Jogos Olímpicos são a visão sintética, em grande e aparatosa escala, do esporte do mundo. Neles desponta grande parte dos ídolos esportivos consagrados por suas vitórias. Entretanto, o autor prossegue sua reflexão com uma dúvida: E todos aqueles que participam e não vencem são de fato derrotados? A resposta sugere que a agonística e a luta estão presentes nas mais variadas formas de competição e que a vitória pode não ser apenas a conquista do primeiro lugar.

Ideal da sociedade atual, o vencedor é lembrado e valorizado pela suplantação do outro, independentemente dos recursos utilizados para esse fim (Rubio, 2002). Ao derrotado restam a vergonha pelo objetivo perdido, a confusão com a incapacidade e a falta de reconhecimento pelo esforço realizado. Diante do resultado obtido e comparando-o com o desejado, é compreensível o sentimento de frustração, raiva ou talvez decepção do atleta quando ele não consegue atingir seu objetivo. Se a competição na atualidade remete à necessidade da vitória como afirmação de superioridade sobre o adversário, vale ressaltar que não se pode pensar em competição nem vitória sem a presença do oponente. Ainda que a atenção de atletas e técnicos esteja focada na superação de marcas e tempos, o que se vê é a necessidade imperiosa de suplantar aquele capaz de promover sua própria frustração, estado esse manifesto na situação da derrota.

Autores como Miah (2003), Proença, Constantino (1998), Rodriguéz (1987) e Mariovet (1998) defendem os benefícios do esporte no desenvolvimento do caráter e afirmam que os atletas aprendem a superar obstáculos, a cooperar com os companheiros, a desenvolver autocontrole e persistir diante de derrota, tornando-se por isso, em muitos casos, um referencial de projeção de identidade, principalmente entre jovens e adolescentes.

A derrota como sombra social

A dificuldade que protagonistas do mundo esportivo e teóricos têm de lidar com a derrota talvez resida na posição que essa condição assumiu na cultura contemporânea ocidental. Fincada em um modelo de rendimento-premiação no qual não apenas ganhos materiais estão em questão, mas também o reconhecimento de um feito que garante a imortalidade, é possível dizer que a derrota é a sombra social do esporte contemporâneo. Entende-se por sombra os elementos do psiquismo individual e coletivo que incompatíveis com a forma de vida conscientemente escolhida, não foram elaborados levando-os a se unirem ao inconsciente, o que os faz agir de maneira relativamente autônoma, com tendências opostas às do consciente. Dessa forma, assiste-se a uma afirmação do imaginário heróico no esporte contemporâneo, não por sua proximidade com a superação de limites, mas pela identificação unilateral com as proezas reconhecidas e justificáveis de pessoas consideradas sobre-humanas.

Essa é uma das razões que leva Christlieb (2004) e Delattre (2001) a afirmar que o jogo acaba quando começa o esporte, porque o esporte já não é um jogo, senão uma função, isto é, ele já não serve para jogar, senão sempre para algo mais: ganhar dinheiro, ser famoso, vender produtos, impressionar incautos, ganhar espectadores, ver-se saudável, fechar negócios ou entrar em um círculo social. Todos esses atributos valorizam e enfatizam a necessidade de reconhecimento e destaque social.

Os valores promovidos por uma grande parcela da sociedade ocidental contemporânea estão baseados na excelência e na motivação individual e social voltadas para a produção. Essa forma de vida facilita o desenvolvimento de um modelo esportivo que prepara crianças e jovens para o sucesso em uma vida altamente competitiva e desenvolve valores morais como a perseverança, o sacrifício, o trabalho árduo, o cumprimento de normas, o trabalho em equipe e a auto-disciplina. Entretanto, esses mesmos valores são responsáveis por muitos problemas éticos encontrados no esporte, entre eles a glorificação dos vencedores e o esquecimento dos derrotados. No esporte isso tem levado a uma desumanização do atleta e à sua alienação (Bourdieu, 1993; Eitzen, 2001; Gonzalez, 1997).

Quando abordamos o esporte competitivo lidamos com pessoas que passaram a maior parte de suas existências envolvidas, por vezes, exclusivamente com uma vida de treinos e competições. Embora a vitória e a derrota façam parte do repertório do atleta, aquele que conseguiu chegar em um nível de representação nacional, certamente experimentou muito mais situações de vitória do que de derrota. E reforçando uma máxima de que sobre a vitória não é preciso elaboração, os momentos de derrota são sempre tidos como próprios para avaliar erros e refazer planejamentos, levando atletas e equipes a se considerarem duplamente punidos.

Para Ferrando, Otero e Barata (1998) uma vitória não é idêntica a uma experiência de êxito, e uma derrota não é em si, uma experiência de fracasso. As experiências de êxito aparecem quando o rendimento esperado foi alcançado ou superado. As experiências de fracasso se encontram na diferença negativa entre o resultado esperado e o resultado obtido.

Nem toda preparação física ou mental, a partir de treinamentos extenuantes, nem a utilização de conhecimentos científicos, ou o desenvolvimento de materiais feitos a partir de avançada tecnologia, muito menos o uso de substâncias dopantes, dão a certeza ao atleta da garantia da vitória. "Saber perder" é uma das características que se atribui ao "estilo esportivo", embora seja mais uma força de expressão do que uma disposição efetiva.

Assim, a derrota pode levar o atleta a desenvolver dois tipos de condutas: ou provoca o abandono da vida competitiva ou produz um fortalecimento de atitude. Afirma Cagigal (1996) que das derrotas, do sentimento de inferioridade derivado delas, quando não cristalizam em frustração permanente, se produz na reorganização de forças pessoais; e aí está o princípio da superação. "A derrota superada significa enriquecimento da pessoa. Em uma personalidade preparada, esta antítese desencadeia novas energias, descobre inusitadas habilidades, abre horizontes, ordena uma reestruturação de mecanismos, enriquece as diferenciações, de todo o qual sai a personalidade fortalecida" (p.844).

As pessoas que defendem os benefícios do esporte no desenvolvimento do caráter afirmam que os atletas aprendem a superar obstáculos, a cooperar com os companheiros, a desenvolver autocontrole e a persistir diante de derrota. A prática esportiva surge como um espírito de superação de limites e esta atitude é considerada como um ideal positivo para a formação dos indivíduos; daí a importância do esporte como agente socializador. Cagigal (1996) amplia essa discussão ao afirmar que "saber perder" e, como perspectiva educativa, "ensinar a saber perder" não significam necessariamente derrotismo nem fatalismo. Para o autor, "os verdadeiros triunfadores na humanidade não são sempre vencedores, mas sim os que têm assumido plenamente sua condição humana" (p. 843).

A derrota entre medalhistas olímpicos

Parece paradoxal estudar a função da derrota entre os mais altos representantes do esporte competitivo contemporâneo. No entanto, ao longo de uma pesquisa realizada (Rubio, 2004a, 2004b), cuja metodologia pautou-se na história de vida de todos os atletas brasileiros que ganharam medalhas olímpicas desde 1920 até 2000, foi possível constatar o forte sentimento de frustração vivido por aqueles que embora vitoriosos não se encontraram no ponto mais alto do pódio, ou seja, conquistaram as medalhas de prata e bronze. Além de referirem uma insatisfação pela conquista apontam a dificuldade tanto do ponto de vista individual como social em lidar com uma expectativa não realizada.

Vale ressaltar que esse sentimento é muito mais compartilhado entre atletas das duas últimas décadas do século passado do que dos momentos anteriores.

A hipótese que levantamos para sustentar essa análise é que antes do advento da profissionalização do esporte, de maneira particular no Brasil, realizar uma prática esportiva competitiva regular era privilégio de alguns abnegados que contavam com o apoio da família, ou de algum tipo de mecenato, que garantiam a satisfação das necessidades materiais básicas cotidianas e esportivas. Em todos esses casos, participar dos Jogos Olímpicos e conquistar uma medalha representou o coroamento do esforço de vários anos de trabalho realizado em condições precárias e que tinha uma relação direta com o lazer e o prazer. Esse conjunto de situações levava a uma relação com a prática esportiva de apego a um dos valores fundantes do esporte de então: o amadorismo.

O ideal do amadorismo é para Donnely (1995) a base do Olimpismo. Seu desenvolvimento se deu dentro de um contexto bastante específico que era a moral vitoriana e veio a sofrer verdadeira mutação com o estabelecimento de uma relação causal entre dinheiro e desempenho esportivo. Por isso, o Olimpismo é, para esse autor, uma atitude em extinção no mundo olímpico mais do que solidariedade e respeito mútuo.

Durante a fase do amadorismo estrito, as condições de treinamento e competição imprimiam um modo de vida cuja duração tinha tempo limitado. Todos sabiam que não era possível sobreviver com aquela prática, que não era profissional, e que era socialmente reforçada como uma atividade de lazer. Assim, como é desejado que uma criança se torne um adulto, seguindo uma trajetória pessoal e profissional esperada pela família e pela sociedade, a carreira esportiva, que ainda hoje é considerada breve, era encerrada precocemente visto que as demandas da vida haviam de ser satisfeitas. Essa situação poderia até ser prorrogada se a atividade profissional estivesse associada com o esporte, por exemplo, na condição do professor de Educação Física ou técnico esportivo. Essa era a única alternativa.

Encerrando precocemente a atividade esportiva ou estando ligado a ela, ainda que numa condição diferenciada, os medalhistas olímpicos desse período, e curiosamente, todos eles de bronze, consideram-se vitoriosos, principalmente por terem conseguido superar as condições adversas da época. É indubitável que ser medalhista no Brasil nas décadas do amadorismo era ainda mais difícil do que ser um na atualidade, daí talvez a sensação de vitória e de dever cumprido.

Os discursos mudam radicalmente quando os protagonistas do espetáculo esportivo pertencem a uma outra geração. O profissionalismo começou pela organização dos Jogos e chegou ao atleta como uma condição ansiada e desejada. Rubio (2004a) define essa etapa do Movimento Olímpico como fase do profissionalismo com início nos Jogos de Seul (1988) e dura até os dias atuais.

Na lógica interna do esporte contemporâneo especialização e profissionalização são inevitáveis. Desde que a capacidade atlética em uma variedade de esportes tornou-se incompatível com a alta performance, a especialização tornou-se inevitável.

Com o fim do amadorismo, o esporte converteu-se em um meio de vida, uma atividade profissional: homens de excepcionais dotes atléticos passam a receber altas somas financeiras comprometendo-se a realizar determinadas atuações. Buscando responder a essas exigências, nos últimos anos os campeões do esporte passaram a ser transformados em rendosas mercadorias que são vendidas e negociadas em diversos pontos do planeta (Rubio, 2003; Silva & Rubio 2003; Thomas, Haumont & Levet, 1988).

Os atletas de alto nível, igual aos demais profissionais destacados em suas profissões, permanecem em uma luta constante por sua posição; o que os difere de demais categorias é a interdependência entre seu rendimento, o qual tem de maximizar em curtos períodos de tempo, e a capacidade de seu corpo, considerando a brevidade de suas carreiras (Gonzalez, Ferrando & Rodríguez, 1998).

Na transformação da prática da condição amadora para a profissional, não foram apenas os valores nobres e aristocráticos que se perderam. A criação de uma nova ordem olímpica indicava que o mundo do século XX havia passado por grandes e profundas mudanças de ordem prática e moral.

O atleta profissional não é apenas aquele que tem ganhos financeiros pelo seu trabalho. Ele é também a representação vitoriosa de marcas e produtos que querem estar vinculados à vitória, à conquista de resultados.

Para Guttmann (1978), o profissional deve ser definido como aquele que recebe uma compensação pecuniária pelo que faz por ter sua vida direcionada para a prática do esporte. Por muito tempo, a especialização (codinome da profissionalização) foi o resultado das tensões geradas pela necessidade de disfarçar a condição amadora sob forma de ganhos secundários como bolsas de estudos, apoio governamental e generosidade patronal ao invés de salário.

Durante a carreira esportiva, o atleta obrigatoriamente viverá as duas condições básicas que marcam essa trajetória: a vitória e a derrota. Não há quem não tenha, ao longo de anos de treinamentos e competições, vivido apenas a condição de vencedor. E é basicamente na atribuição de significados desse processo que cada um cria e desenvolve as estratégias de enfrentamento para aquele que é, aos olhos de muitos, o momento mais doloroso de uma trajetória.

No caso da busca da medalha olímpica essa interpretação pode ser ainda mais complexa. Isso porque, embora a importância das medalhas seja dada pelo metal que as avaliza (ouro, prata e bronze), existe a situação competitiva que contesta essa graduação. No caso da conquista da medalha de prata há uma situação expressa de derrota que permitiu ao adversário a conquista do primeiro lugar. Ou seja, a prata é a recompensa pela derrota. Já no caso da medalha de bronze há uma situação em que o medalhista é aquele que se saiu vitorioso na competição que pode ser duplamente recompensada, tanto pela vitória em si como pela conquista da medalha.

Como essas representações variam entre os atletas, os grupos aos quais eles pertencem e ao momento histórico vivido, é possível que a derrota possa ser experimentada de maneira paradoxal, repleta de ambivalências por colocar em choque uma avaliação subjetiva do atleta em um referencial diametralmente oposto ao construído pelo social. Aquilo que para o público pode parecer uma honra ou glória, para o atleta que compete pode parecer vergonhoso, ou quase um desaforo.

 

Considerações Finais

Causa estranheza a dificuldade em se encontrar referencial teórico sobre uma reflexão sobre a derrota e sua representação social. Durante a execução deste trabalho foram consultadas várias bases de dados, bibliotecas presenciais e virtuais, bem como livrarias. Curiosamente, quando o tema se apresentava por meio de palavras-chave as obras que surgiram foram quase todas elas na linha da superação ou evitação da derrota, em como se tornar um vencedor ou apenas métodos e técnicas de auto-ajuda.

Não fosse essa busca fundida a uma reflexão sobre um objeto singular seria possível afirmar que pouco ou nada se produziu sobre o tema. Entretanto, quando a procura se concentrou sobre os aspectos éticos e morais da competição, então o tema derrota emergiu. Isso faz pensar em uma vinculação estreita entre os dois temas, porém a necessidade imperiosa de desvinculá-los, uma vez que em muitas ocasiões, mesmo uma situação de vitória, embora não no lugar mais alto do pódio, pode ser representada como uma derrota. Essa condição foi observada entre atletas olímpicos brasileiros ganhadores de medalhas de prata e bronze, distinção conferida a um reduzidíssimo número de atletas, que consideraram seu feito como de menor importância por não terem alcançado o primeiro lugar.

Essa situação vem de encontro com o pensamento de Skillen (2000) que afirma ser o esporte um produtor de auto-estima, embora isso somente ocorra se seus correspondentes se transformarem em objeto de mérito, ou seja, o orgulho das realizações esportivas não reside apenas na vitória, mas na percepção do atleta em se sentir entre os melhores. Em tese, essa afirmação corrobora para o ideal olímpico de que "o importante é competir"; no entanto, a lógica e a prática do esporte competitivo sofreram severas transformações ao longo do século XX, impondo uma representação diversa do papel social do atleta e do espetáculo esportivo.

Se na gênese do movimento olímpico contemporâneo a participação em si já era uma forma de vitória e de coroação, no início do século XXI prevalece a vitória a qualquer custo, pois somente ela tem o poder de encobrir a sombra do esporte de alto rendimento chamada derrota. Nesse sentido, mecanismos como doping, a corrupção e a trapaça tornaram-se tão valiosos, para alguns atletas, como a preparação física e psicológica em si, demandando mais esforços por parte dos profissionais envolvidos com a preparação competitiva.

Entretanto essa situação não pode ser analisada e avaliada isoladamente, senão como mais um produto da sociedade contemporânea, capaz de transformar o esporte em um dos principais fenômenos culturais contemporâneos, veículo privilegiado de projeções sociais.

 

Referências

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Recebido: 08/08/2005
1ª revisão: 02/12/2005
2ª revisão: 01/02/2006
Aceite final: 15/02/2006

 

 

Katia Rubio é docente vinculada à Escola de Educação Física e do Esporte da Universidade de São Paulo. Endereço: Rua Doralice Paixão Teixeira, 76/11, Vila Madalena, 05417 070, São Paulo, SP. katrubio@usp.br