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Psicologia & Sociedade

versão On-line ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. v.19 n.spe2 Porto Alegre  2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822007000500012 

I – A Estética De Uma Vida

 

"Quem sabe faz a hora..."

 

 

Pedro Guareschi

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil

 

 

Não gostaria de me omitir nessa homenagem a Sílvia Lane. Desde 1980 trocávamos informações e impressões e foram muitas as cartas e bilhetes de próprio punho que ela me mandava a fim de incentivar a articulação da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO). Convidou-me para fazer o prefácio do livro Arqueologia das Emoções que, infelizmente, foi extraviado pela editora (mas prometeu-me que sairia na 2ª edição). Sei que muitos irão enfatizar pontos centrais sobre sua pessoa e seu pensamento. De minha parte, gostaria de ressaltar três pontos, que me marcaram: sua intuição na percepção dos tempos, a importância que dava às organizações acadêmicas e sua teoria de conhecimento.

1. O primeiro ponto que gostaria de ressaltar em Sívia Lane é sua perspicácia em intuir e discernir os sinais dos tempos, o Zeitgeist, o espírito de uma época. O valor de uma pessoa, de um pensador, é conseguir captar esse Zietgeist, esse momento oportuno, o kairós. A maioria das pessoas só chega a se dar conta do mundo em que vivemos, depois que outros tiverem chamado a atenção. Aqui se distingue o pensador, o filósofo e o líder: discernir os tempos.

No caso de Lane, ela se deu conta de que a psicologia, e principalmente a psicologia social, que era tanto ensinada e que predominava nas academias, como a que era praticada, não dava conta de cumprir com sua responsabilidade social de compreender os fenômenos latino-americanos e de poder transformá-los, quando necessário. A mesma coisa que Moscovici disse da psicologia social européia em 1972, "Em frente de nós, atrás de nós e ao nosso redor, havia – e ainda há – a psicologia social americana" (Representações sociais, Vozes, 2002, p.111), Sílvia dizia da psicologia social brasileira e, em grande parte, latino-americana. Isso ela percebeu quando participava da Alapso, no final da década de 1970. Organiza, então, a ABRAPSO em 1980 e em 1982, com Maria do Carmo Guedes, faz as malas e percorre a América Latina em busca de parceiros e subsídios para essa empreitada.

Mas o que quero ressaltar aqui é sua intuição do momento. "Quem sabe faz a hora, não espera acontecer" . Ela percebeu que era hora de inovar, de criar, de ser coe-rente e eficiente diante duma realidade que era chocante e desumana. Daí a ênfase numa psicologia social engajada, comunitária, formadora de consciência crítica.

2. Correlata a essa questão, há um outro ponto, que é a criação de um processo de articulação que pudesse dar conta de superar tal situação. E nisso Sílvia foi extremamente corajosa e exemplar. De nada adianta ter grandes idéias, se não se consegue, de algum modo, colocá-las em prática. E o modo encontrado por Sílvia, foi a organização, a articulação com outros parceiros para concretizar essas idéias. Foi isso que significou a fundação da ABRAPSO. No início com pouca gente. Éramos poucos de fato. Sou testemunha disso. No final de 1980, soube de em encontro na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Peguei um ônibus e fui, sem falar nada a ninguém. Cheguei lá e vi algumas pessoas reunidas numa sala de aula da PUC-SP. Era um pequeno passo, mas importante. Falou-se da criação de um Boletim, que foi a semente de nossa revista Psicologia Social e Sociedade. Mas foi uma articulação a mais. De fora da PUC, apenas a Ângela Caniato e eu. E desde então, nunca deixei de receber bilhetes seus articulando atividades e encontros. Em alguns encontros, éramos uma dezena. Mas ninguém consegue segurar o Zeitgeist, o espírito. No encontro da ABRAPSO em Belo Horizonte, já houve um crescimento enorme. E a Abrapso faz hoje encontros de mais de 3.000 pessoas. Mas precisa coragem e pertinácia. Cansei de ver Sílvia sentada numa sala de aula, nesses encontros, com um pequeno grupo de pessoas, discutindo, falando, incentivando. Para todos tinha um carinho. E como isso frutificou.

3. Termino ressaltando um último ponto que considero central em Sílvia, o que eu chamaria de sua "teoria do conhecimento" . Nisso também vi como ela cresceu. Vendo sua produção, percebe-se que Sílvia foi compreendendo que o saber, o conhecimento, é muito mais do que um conhecimento cognitivo, lógico. Pelo contrário, ele é polifásico, elástico, múltiplo. Inclui a dimensão da emoção, da paixão e, principalmente, da ação. Costumava dizer que a psicologia começou a se interessar pelo pensar, passando ao falar, depois ao agir e que com dificuldade chegava ao sentir. O livro Psicologia das Emoções lida com essa problemática.

Até a década de 1980, o conhecimento reconhecido como válido nas academias era nossa herança cartesiana, um conhecimento racional e lógico e individual. Tudo o resto eram crenças, superstições, mitos, etc. Ora, o saber popular, o saber do senso comum, por estar impregnado e ser constituído por outras dimensões, além do racional e o lógico, não era levado em consideração. Isso levava à diminuição, quando não ao desprezo, de outros tipos de saberes. Mas isso não é tudo: essa hierarquia de saberes conduzia aa estabelecimento de uma hierarquia na sociedade. Então temos os que verdadeiramente sabem, que são os intelectuais, homens e mulheres da academia, que eram verdadeiramente os bons, os importantes, os que sabiam. E através dessa prática, sem muitas vezes se darem conta, reproduziam as diferenças sociais, levan-do a uma discriminação contra grupos e saberes populares. O que fica claro na teoria e na prática de Sílvia Lane é que os saberes são também práticas e quando restritos à esfera do intelectual, levam facilmente à alienação de uns às custas da dominação de outros.

Essas considerações e notas são muito pessoais e peço que me desculpem isso. Mas era assim que era também Sílvia. Simples e amiga. Ela continua conosco, com suas práticas, entusiasmando aos amigos de ontem e os jovens de hoje. Prova disso é o fato do diretório acadêmico da Faculdade de Psicologia de Blumenau se denominar Sílvia Lane.

 

 

Pedro Guareschi é formado em Teologia, Letras e Filosofia; pós-graduado em Sociologia. Professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Endereço para correspondência: PUC-RS, Programa de Graduação em Psicologia, Avenida Ipiranga, 6681, Parthenon, Caixa Postal 1429, Porto Alegre, RS, 90681-900. guaresch@pucrs.br